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A ignorância é mesmo uma bênção?

Publicado: 18 de dezembro de 2014 por Kzuza em Política
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Sempre ouvi (e sou adepto!) que a ignorância é uma bênção. Os ignorantes não sofrem, dizem alguns.

Mas essa semana conversei um pouco a respeito desse assunto e cheguei à conclusão que, em alguns casos, a ignorância não é tão abençoada assim…

Graça Foster, presidente da Petrobrás, foi personagem dos noticiários essa semana por conta dos escândalos de corrupção denunciados na empresa. Segundo alguns e-mails interceptados, a ex-funcionária Venina da Fonseca havia tentado alertar a presidente sobre os casos de corrupção que estavam acontecendo na empresa. Como podemos ver atualmente, nada foi feito e tudo veio à tona por conta de uma investigação da Polícia Federal. Agora Graça Foster afirma que não sabia de nada do que estava acontecendo e que nem sequer foi checar as informações passadas por Venina. Em outras palavras: bilhões de reais são desviados das contas da empresa a qual ela preside e ela jamais soube de nada.

Isso me lembra bem o caso do Mensalão. Na época (e até hoje), o ex-presidente Lula afirmava categoricamente não saber de nada do que se passava entre o Palácio da Alvorada e o Congresso Federal, onde negociações de compra de votos dos parlamentares corriam soltas debaixo do seu próprio nariz. Nem mesmo a presença de membros da cúpula do Partido dos Trabalhadores, companheiros de longa data de Lula, fez com que o ex-presidente tomasse conhecimento do que acontecia.

Dilma Roussef, atual presidente da república e presidente do Conselho de Administração da Petrobrás na época da compra da refinaria de Pasadena, também alegou ter sido enganada por pareceres técnicos falsos para aprovar a compra da refinaria por X vezes mais do que ela realmente valia. Ou seja, também foi ignorante.

Oras, vamos partir então da premissa que os 3 realmente estejam dizendo a verdade. Vamos dizer que os 3 realmente sejam ignorantes. Você acha que realmente isso faz deles inocentes?

Para facilitar, vou deixar para vocês um trecho do livro “A Insustentável Leveza do Ser”, de Milan Kundera, da editora Círculo do Livro.

Aqueles que pensam que os regimes comunistas da Europa central são obra exclusiva de criminosos deixam na sombra uma verdade fundamental: os regimes comunistas não foram feitos por criminosos, mas por entusiastas convencidos de terem descoberto o único caminho para o paraíso. Defendiam corajosamente esse caminho, executando, por isso, centenas de pessoas. Mais tarde ficou claro como o dia que o paraíso não existia, e que, portanto, os entusiastas eram assassinos.

Assim todos acusavam os comunistas: vocês são os responsáveis pelas desgraças do país (que está pobre e arruinado), pela perda de sua independência (caiu sob a tutela dos russos), pelos assassinatos judiciários.

Os acusados respondiam: “Não sabíamos! Fomos enganados! Acreditávamos. Somos inocentes, do fundo do coração!”

O debate conduzia a essa pergunta: seria verdade que não sabiam? Ou apenas fingiam não saber?

Todos acompanhavam esse debate (como dez milhões de tchecos), e acreditavam que haveria certamente entre os comunistas alguns que não eram assim tão ignorantes (deviam pelo menos ter ouvido falar dos horrores que tinha acontecido, e que não paravam de acontecer na Rússia pós-revolucionária). Mas é provável que a maior parte deles não soubesse de nada.

E ele dizia para si mesmo que o problema fundamental não era: sabiam ou não sabiam? Mas: seriam inocentes apenas porque não sabiam? Um imbecil sentado no trono estaria isento de toda a responsabilidade somente pelo fato de ser um imbecil?

Vamos admitir que o procurador tcheco que pedia, no começo dos anos 50, a pena de morte para um inocente tivesse sido enganado pela polícia secreta russa e pelo governo do seu país. Mas agora sabemos que as acusações eram absurdas e que os condenados eram inocentes, como podemos admitir que o mesmo procurador defenda sua pureza de alma batendo no peito e dizendo: “Minha consciência está limpa, eu não sabia, eu acreditei!” Não é precisamente no seu “Eu não sabia! Eu acreditei!” que reside sua falta irreparável?

Nesse ponto Tomas se lembrou da história de Édipo. Édipo não sabia que dormia com sua própria mãe, e, no entanto, quando compreendeu o que tinha acontecido, nem por isso se sentiu inocente. Não pôde suportar a visão da infelicidade provocada por sua ignorância, furou os olhos e, cego para sempre, partiu de Tebas.

Tomas ouvia o grito dos comunistas que defendiam sua pureza de alma, e dizia a si próprio: “Por causa de sua inconsciência o país talvez tenha perdido séculos de liberdade. Mesmo assim vocês gritam que se sentem inocentes? Como podem ainda olhar em torno de si mesmos? Como?! Não estão espantados? Vocês não enxergam? Se tivessem olhos deveriam furá-los e deixar Tebas!”

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