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É a cultura, estúpido!

Publicado: 12 de junho de 2017 por Kzuza em Comportamento, filosofia
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Vira e mexe, a frase título deste post volta à tona!

A notícia do final de semana foi o tatuador do ABC que flagrou um rapaz de 17 anos tentando roubar uma bicicleta e resolveu tatuar na testa do meliante: “Eu sou ladrão e vacilão”. O tatuador, com a ajuda de um comparsa, filmou o ato em uma cena digna do filme “Os homens que não amavam as mulheres”, quando Lizbeth Salander (magistralmente interpretada por Rooney Mara, diga-se de passagem) tatua na barriga de seu tutor, que a havia estuprado, a frase: “Eu sou um porco sádico, pervertido e estuprador”.

Como tudo é polarizado hoje em dia e pouca gente se dá o trabalho de pensar racionalmente sobre o assunto, imediatamente surgem dois grupos de pessoas nas redes sociais: um primeiro, com dó do garoto pela tortura que sofreu (contando inclusive com uma vaquinha para arrecadar fundos para apagar a tatuagem do rapaz); e um segundo, o grupo do ‘bandido bom é bandido morto’ ou do ‘fez por merecer’.

Enfim, tanto o primeiro como o segundo grupo são facilmente identificados como sentimentalistas exacerbados. No primeiro grupo, a emoção mais aflorada é a compaixão; no segundo, a ira. O problema é que, em ambos os casos, todos se identificam de forma muito semelhante ao torturador que tatuou a frase na testa do ladrãozinho. Todos são incapazes de controlar suas emoções (ou, no mínimo, sentem prazer em não o fazer) e raciocinar de forma lógica a respeito do ocorrido.

Essa falta de discernimento e a abnegação da busca pela verdade e pela justiça são resultados de uma enorme corrente de pensamento que domina a nossa sociedade atual. Há inúmeras teorias para explicar o porquê de termos chegado a esse ponto, mas não cabe a mim discuti-las nesse post, até porque invariavelmente o assunto recairá sobre a política, tema o qual eu já desisti de comentar. No entanto, cabe a mim tentar abrir os olhos do caro leitor para uma realidade: estamos todos tomados de fortes emoções, mesmo que as minhas contradigam as suas, e não estamos sendo capazes de domá-las para atuar sob domínio da razão.

Já mencionei aqui e aqui o livro “Podres de Mimados” do Dalrymple, onde ele explica muito bem tudo isso. Volto a recomendar a leitura.

Mas voltando ao caso que originou este post, acho que nunca a frase “um erro não justifica o outro” fez tanto sentido. O problema é que, na ânsia de se tomar partido e expor sua opinião, a maioria das pessoas acaba por absolver um dos dois infratores. Em uma batalha verborrágica para se identificar qual dos dois crimes é mais grave (e onde a vitória só é possível em caso de derrota absoluta por nocaute do lado oposto), os tais debatedores acabam por instaurar uma cortina de fumaça que cobre o real problema exposto pela situação.

O fato é que em um país onde o mínimo não funciona corretamente, as pessoas decidem então resolver as coisas por conta própria, já que tudo parece terra de ninguém. Quando eu digo o mínimo, eu me refiro à garantia que os cidadãos precisam ter de não terem sua propriedade (física, intelectual ou material) agredidas ou invadidas por outrem; e caso isso venha a ocorrer, que haja um julgamento justo daqueles que infringiram o pacto de não mexer naquilo que não é seu.

Parece-me bastante razoável que quando princípios morais básicos são observados minimamente em uma sociedade, tanto o número de infrações quanto o número de julgamentos injustos tendem a cair consideravelmente. Mas então o que leva uma sociedade a observar esses princípios? Em primeiro lugar, eu acredito: exemplos. Nada é mais capaz de influenciar o comportamento das demais pessoas ao seu redor do que um bom exemplo. Seja na sua família, seja no seu emprego, seja na sua vizinhança. Bons exemplos advêm de instituições (ou organizações) sociais que sobrevivem ao longo da história, aprendendo e evoluindo, formando a base do que conhecemos hoje como civilização. Essas instituições, goste você ou não, são basicamente a família e a igreja.

Seria irracional dizer que indivíduos criados em uma base familiar sólida e com base em ensinamentos religiosos seriam incapazes de cometer atrocidades. No entanto, a realidade mostra que a possibilidade de isso acontecer nesse grupo de pessoas são bem menores do que nos casos onde ou a família, ou a igreja (quando não os dois) não fazem parte da vida dos indivíduos.

O problema é que há muito tempo essas instituições que são base da nossa civilização (imperfeita, diga-se de passagem, mas em uma evolução geométrica) têm sido marginalizadas e hostilizadas, em um movimento cada vez maior que prega o abandono a instituições e valores tradicionais. Com a ausência cada vez maior da presença dessas instituições, há uma transferência subsequente dos poderes de decisão entre certo e errado, entre o que pode ou não pode para outras entidades. O que se vê por aqui, em terras tupiniquins, é justamente que esse poder acaba então caindo no colo de quem está menos preparado para isso.

Com uma justiça extremamente lenta e falha, aliada à uma população que não possui nenhuma âncora de valores morais, não é de se espantar que tenhamos índices de criminalidade já altíssimos e em curva de ascensão. Os mais de 60 mil homicídios por ano colocam o Brasil na liderança do ranking de assassinatos per capita no mundo.

No lado oposto dessa moeda, também não é de se espantar que se cresça o número de justiceiros como o tal tatuador do nosso caso. Não são raros os casos de bandidos capturados pela população que são amarrados a postes, torturados e espancados. Falta também a essa gente, assim como aos primeiros, uma boa dose de valores morais, mesmo que levantem a bandeira da luta contra o mal com uma mão, enquanto com a outra fazem a sua “justiça”.

Portanto, independente de qual lado você adotou nessa história, você não está nem um pouco preocupado com a solução do problema. Você simplesmente está externalizando suas emoções mais afloradas. Está querendo apenas “lutar contra o que está errado”, mesmo que esteja olhando apenas para o sintoma e não para a doença. Enquanto você não entender isso, seu Facebook será apenas um muro das lamentações. Sua vida será apenas uma eterna tentativa de se fazer o bem, mesmo que os resultados sejam sempre trágicos. Para um lado ou para o outro.

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Justiça até na morte!

Publicado: 28 de março de 2010 por Mathias em Geral
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Que Nardoni que nada…

Isso sim é cumprimento da lei!

FUI!

Simplicidade

Publicado: 18 de fevereiro de 2010 por Kzuza em Cotidiano, Geral, Política
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Para ir trabalhar, seja de ônibus, seja de carro, sou obrigado a passar no meio da favela de Heliópolis, a maior da cidade de São Paulo. E agora, com o início do ano para os brasileiros (após o carnaval), o trânsito já está infernal. Não só pela quantidade de carros nas ruas, que aumentou, mas principalmente pelo descumprimento das leis. Carros estacionados em locais proibidos, entulho e lixo espalhado pelo meio da via, afunilam o tráfego no local, causando a lentidão.

Aí comecei a pensar em tantas outras coisas que tornam nosso dia pior e que poderiam ser resolvidas de forma simples: com o cumprimento da lei.

O Brasil é um país com excesso de leis, cujo cumprimento é mínimo. Temos um poder legislativo inflado que faz com que nosso dinheiro vá embora aos montes. E para que? Para legislar o que, se já existem tantas leis?

O trânsito seria muito melhor se todos motoristas cumprissem as leis já existentes. O preço de CDs e livros seria muito mais em conta se ninguém comprasse produto pirata, o que é proibido. Os ingressos de shows seriam muito mais baratos se não houvesse tanta gente falsificando carteirinha de estudante, o que também é crime. A cidade seria muito mais limpa se os cidadãos não jogasse lixo pela janela do carro.

Ou seja, é tudo questão de comportamento. O descumprimento das leis é a causa principal dos problemas que enfrentamos na nossa sociedade, e não a ausência delas. E isso acontece porque ninguém quer fiscalizar. Fiscalizar dá trabalho, e brasileiro não é chegado em trabalho. E a polícia não quer prender, quer ganhar dinheiro. E a justiça não quer julgar, quer aparecer. E isso tudo vira um ciclo vicioso, do qual não sairemos jamais.

Hoje ouvi no rádio que os parlamentares terão 12 dias de folga nesse mês de Fevereiro. No dia 11, não houve sessão deliberativa. Dia 12 foi sexta-feira, e ninguém trabalha mesmo. Essa semana é folga total. Dia 22 é segunda-feira, e também não há expediente. E eles só voltam no dia 23 ao plenário. E alguém vai sentir falta? Nunca. Porque não é isso que move o país. Aliás, isso só faz o país andar para trás. Porque o povo não faz idéia do que os parlamentares fazem lá. E são mais de 500 deputados e mais de 80 senadores. Para legislar o que já está legislado. Comendo o seu dinheiro. E o meu também.

Será que é difícil entender por que uma sociedade justa começa pelas pessoas debaixo, e não pelas que estão no poder?