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Raul tinha razão?

Publicado: 5 de julho de 2017 por Kzuza em Comportamento
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Raul-seixas

Então vá
Faça o que tu queres pois é tudo da lei

“Sociedade Alternativa” é, sem muita contestação, um clássico da música brasileira, goste você ou não. O trecho acima, baseado na Lei de Thelema, representa um postulado filosófico elaborado por ninguém menos Aleister Crowley, famoso ocultista britânico do século XX.

Não vou entrar no mérito aqui da loucura de Mr. Crowley, tampouco da “alternatividade” de Raul Seixas. Vou me ater apenas ao sentido literal da frase do início deste texto.

Tenho a impressão que isso tem se tornado um mantra moderno, repetido aos quatro ventos, simbolizando uma evolução humana natural, um progresso rumo a uma sociedade definitivamente livre e aberta.

Devo confessar que soa até bonitinha essa ideia de sermos livres para fazer o que quisermos, “pois é tudo da lei”. Posso ser quem eu quiser, posso fazer o que eu quiser, posso me comportar como eu quiser.

No entanto, há uma questão não abordada por Raul em sua canção que deixa muita gente ainda de cabelo em pé: liberdade traz consigo responsabilidade. É aí que mora um grande problema moderno. A geração mimada, principalmente os nascidos após os anos 90, tem uma dificuldade imensa em entender esse tipo de coisa, mas o fato é que ninguém está livre de julgamentos, sejam eles jurídicos, morais ou estéticos.

É fácil entender que toda ação é, ao menos em uma sociedade minimamente organizada, objeto de análise perante às leis estabelecidas. Esse talvez seja o primeiro bloqueio que temos, conscientemente, para não fazer tudo o que queremos. Fica simples até para o mais ignorante dos seres entender que, por exemplo, roubar algo de outra pessoa poderá levá-lo à prisão após um julgamento jurídico.

Mas o ponto de divergência está mesmo no âmbito da moral. A moral é o conjunto de hábitos e comportamentos que são considerados aceitos ou reprovados por uma sociedade. A moral toma forma através da cultura e da educação. É claro que a moral não é única em uma sociedade, principalmente em uma tão diversa quanto a nossa brasileira. No entanto, uma série de valores morais são compartilhados, senão por todos, pela grande maioria da nossa população.

Acontece que as pessoas que vão contra algum valor moral estão cada vez mais barulhentas. Elas procuram se reunir com outras que possuem a mesma opinião (e, veja bem, ter uma opinião não quer dizer ter razão!) e se organizam para fazer grandes barulhos. Nessa tentativa de reformar valores morais que, como disse, são frutos de anos e anos de sobrevivência (pois são frutos da educação e cultura de um povo, sobrevivendo a gerações), essas pessoas estão sempre exigindo leis que imponham ao restante da população a modificação desses valores. Ou seja, há uma tentativa (e quase sempre bem sucedida) de se transformar valores morais desejados em leis.

O último tipo de julgamento é o julgamento estético. Querendo ou não, também estamos invariavelmente sujeito a ele. Para usar um exemplo didático, pense o seguinte: por qual motivo não enfiamos o dedo no nariz em público? Há alguma lei que estipule isso? É algo juridicamente proibido, ou apenas algo esteticamente condenável, porque causa asco?

Agora imagine que alguém seja a favor de se limpar o salão em público. Há pessoas que fazem isso, sem sombra de dúvidas, mas são poucas. Agora imagine que essas pessoas se reúnam e criem um movimento “Limpe seu salão também”, e passem a promover “enfiadões” ou “cutucadões” públicos em grandes centros, mobilizando algumas dezenas de participantes enfiando seus dedos no nariz e tirando catotas para promover uma ‘quebra de tabu’. De que lado você estaria: seria um dos apoiadores, ou simplesmente acharia aquilo nojento e repudiante, mesmo que não haja nenhuma lei proibindo isso?

A questão principal é que, cada vez mais, as pessoas estão acreditando que: aquilo que não me é proibido por lei é, portanto, permitido. E caso você reprove um comportamento ou alguma imagem com base em seus valores morais ou estéticos, você é simplesmente um monstro abjeto que precisa ser exterminado.

Será mesmo que esse é o caminho?