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Em defesa da liberdade

Publicado: 31 de agosto de 2017 por Kzuza em liberalismo
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O blog Estado da Arte do Estadão tem publicado recentemente uma série de artigos em um chamado Especial Liberdade. Há muito tempo tenho vontade de escrever algo a respeito, mas hoje me deparei com um texto sensacional do doutor Eduardo Wolf que serviu para me incentivar a escrever essas linhas.

Nesse texto, o filósofo explica, de maneira detalhada e fundamentada, o porquê do politicamente correto ser uma grande ameaça à liberdade. Um dos pontos importantes ressaltados por ele é:

Não seria uma demasia dizer que, mais do que a corriqueira troca de administradores públicos e do que novos rumos políticos expressos por partidos e coalizões de governo, é a peculiar tendência de corrosão e esfacelamento de nossa compreensão do conceito de liberdade que emerge, penso eu, como dilema político contemporâneo desafiador. Se a liberdade deixa de ser central aos arranjos democráticos contemporâneos, ou, ainda, se a noção de liberdade que vai se tornando cara às sociedades contemporâneas opera com outro conceito de liberdade que não aquele que habitualmente concebemos, é por que estamos passando por uma dessas mudanças que ainda mobilizarão historiadores, filósofos e intérpretes vários nas décadas por vir.

De fato, como ele explica mais adiante no texto, há um esfacelamento da nossa compreensão moderna do conceito de liberdade. Já postei aqui alguns capítulos do livro do Dalrymple Em Defesa do Preconceito, onde ele explica um pouco sobre isso também.

Adiciono ao texto do autor aqui um ponto de vista meu em particular. Encaro como um dos grandes dilemas do nosso país atualmente a imensa dificuldade que as pessoas têm quando o assunto é civilidade. Vejo, de forma triste, que as pessoas têm cada vez mais dificuldade em se viver em sociedade. É cada vez mais raro, apesar de que não seja ao meu ver a maioria dos casos, encontrar pessoas que se preocupem com o próximo. E quando eu digo se preocupar não estou apenas me referindo a esferas altamente nobres, como amparar e ajudar os necessitados, participar de ações voluntárias, contribuir com atividades filantrópicas ou coisas assim. Eu estou me referindo a atitudes cotidianas banais, como segurar a porta do elevador para alguém que está se aproximando, ceder lugar na fila a um idoso ou ouvir sua música predileta em um volume que não incomode o seu vizinho.

Acontece que cada vez mais as pessoas estão recorrendo à falsa ideia de que ‘tudo aquilo que não me é proibido é, automaticamente, permitido’. Há uma diminuição constante do sentimento de que ‘não devo fazer isso porque não acho correto’ e, consequentemente, um aumento da noção do ‘eu posso fazer isso porque não há nenhuma lei dizendo que é proibido’.

Esse tipo de comportamento tem levado a cada vez mais pessoas solicitarem a intervenção de algum poder superior (invariavelmente, o Estado) para agir de maneira autoritária de forma a proibir tudo o que não lhe é agradável através de leis, impondo sanções e penas aos que as infringem.

E é aqui que mora o problema. Estamos retornando ao passado, na época da Grécia antiga. Como cita o autor:

Soberano em todas as matérias públicas, escravo em todas as relações privadas – eis, em uma fórmula feliz de Benjamin Constant, a síntese algo trágica dessa liberdade dos antigos. Tal experiência somente foi possível, digo eu agora, porque vida pública e privada no mundo clássico vinham de par, cimentadas por relação indissociável que lhes fornecia, a uma e a outra forma de vida, a existência comunitária e a cultura que lhe animava. O fato de que os antigos viviam a cultura, a religião e os costumes como uma experiência partilhada com relativa homogeneidade permitia não apenas o ímpeto comunitarista de sua vida política e de sua concepção de liberdade como, e sobretudo, franqueava o coletivismo em matéria privada, com a intrusão que hoje nos parece absurda, nos costumes mais recônditos da vida dos indivíduos.

Ele ainda adiciona:

O que poderia ser mais estranho ao ideal de liberdade dos modernos, que é o nosso, do que a convicção de que o político, o homem de estado, deva nos ensinar a virtude? O que poderia ser mais intruso e agressivo para o indivíduo do que esse poder do político e do Estado para determinar, para o indivíduo, que valores ele deve cultivar? Nossa sensibilidade liberal moderna sai ofendida com a essa intromissão, e a razão para isso é que, durante quase 400 anos, o Ocidente – e somente o Ocidente – caminhou para uma concepção de Estado e de vida comum em que nenhum corpo social pudesse impor a outros ou a indivíduos isoladamente suas concepções abrangentes do Bem.

Convido ao leitor deste pobre blog a acompanhar todos os textos que vêm sendo publicados no blog do Estadão. Há muita coisa interessante por lá.

 

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Quem é John Galt?

Publicado: 28 de abril de 2017 por Kzuza em comunismo, liberalismo
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Não sei, mas achei que o dia de hoje merecia essa camiseta.

Em A Revolta de Atlas (SPOILER ALERT!!!!), Ayn Rand descreve uma sociedade autônoma que é formada em um vale. Essa sociedade é fundada por John Galt, um engenheiro de mente brilhante que desiste de ser explorado por pessoas que não fazem nada por merecer e decide parar o motor do mundo. Ele começa a convencer outras mentes brilhantes, principalmente empreendedores, a não mais se curvarem às exigências de um Estado parasita que quer apenas sugar os frutos de seus trabalhos e os leva a viver no Vale de Galt.

Quem lê o livro nunca mais é o mesmo. É justamente por isso que, para mim, o dia de hoje demonstra muito a crise moral que vivemos.

A pergunta que sempre faço é: se houvesse a possibilidade de criar uma nação nova, em um território isolado, onde você pudesse escolher quem seriam os habitantes, você preferiria um mundo onde estivessem só os apoiadores do movimento de hoje, ou só os opositores ao movimento de hoje? Se pudéssemos criar um Vale de Galt, você preferiria que ele fosse habitado por indivíduos que preferem submeter suas decisões e vontades a um poder central (sindicatos ou um Estado gordo e poderoso), ou por indivíduos que preferem fazer suas próprias escolhas livremente e realizar trocas de maneira voluntária? Nessa decisão completamente hipotética, lembre-se: sua escolha é excludente, ou seja, você não pode levar os dois lados para o mesmo lugar.

Para facilitar, imagine um mundo sem patrões. Sem empresários malvadões. Sem grandes fazendeiros. Sem exploradores. Um mundo onde reinam apenas os apoiadores do PSOL, do PT, do PC do B, do PSTU, do PCO, do MST, da CUT e da UNE. Imagine esse mundo. Como seria viver nele? De quem essas pessoas reivindicariam dinheiro? Terras? Propriedades? Direitos? Trabalho? Imagine todas essas pessoas tendo que depender umas das outras, somente.

Se essa é a sociedade que você quer viver, leia A Revolta de Atlas e entenda onde é que ela vai parar. Se isso não fizer sentido para você, eu não sei mais o que pode te ajudar.

Sobre boas ideias

Publicado: 15 de abril de 2017 por Kzuza em liberalismo
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Ontem tive uma conversa bastante proveitosa com um grande amigo. Um cara que sequer concorda com a maioria das minhas ideias, mas chegamos a um ponto em comum e que gostaria muito de compartilhar.

A conversa começou com o caso da United Airlines, onde um passageiro foi retirado à força de um avião. Ele comentou que já há muitas pessoas organizando um boicote à companhia aérea, negando-se a voar com uma empresa que é capaz de tratar os seus clientes dessa maneira. Eu concordei, adicionando que sou favorável a esse tipo de atitude, onde pessoas se reúnem voluntariamente para protestar em defesa de uma causa, e que tentam convencer outras a fazerem o mesmo.

Veja, não é preciso que haja um esforço muito grande para se convencer as pessoas de que a atitude da companhia aérea, personificada nesse caso em seus profissionais que faziam parte da tripulação, foi errada. Talvez seja mais complicado convencer as outras pessoas de que o boicote seja a melhor forma de se protestar ou de que isso tenha algum resultado prático (e aqui a discussão realmente se estenderia por horas e horas). De qualquer forma, desde que não seja algo arbitrário e imposto, acho a iniciativa bem bacana.

Mas o cerne da questão aqui não é nem o protesto contra a United Airlines.

O ponto no qual concordamos é que qualquer boa ideia é capaz de resistir e prevalecer sobre as piores ideias sem que ninguém precise apontar uma arma e ameaçar as outras pessoas a concordarem. De maneira análoga, ideias estapafúrdias também estão fadadas a serem imediatamente rejeitadas pela maioria das pessoas sem que ninguém precise alertá-las sobre o seu perigo.

Eu acredito (e já devo ter escrito isso aqui ou em algum outro lugar) que a livre associação de indivíduos que concordam com uma mesma ideia e a colocam em prática possui muito mais resultados (e muito melhores!) do que quando tentam impor essas ideias através de leis e decretos a toda uma população.

Eu acredito que boas ideias atraem naturalmente o apoio de muitos indivíduos. No entanto, quando essas ideias tentam ser empurradas goela abaixo das pessoas, mesmo que essas sejam boas ideias, o resultado passa a ser o contrário. Seres humanos tendem a ter aversão àquilo que lhes é imposto como bom, justo e necessário. Por exemplo, um indivíduo não começa a ir a uma igreja quando um testemunha de Jeová bate à sua porta no domingo de manhã para lhe obrigar a isso; esse indivíduo o faria no caso de se identificar com a palavra pregada, com as boas energias trazidas pelo ambiente, com a comunhão da sua comunidade.

Vamos pensar. O programa Teleton, em 2016, arrecadou 27 milhões de reais que foram destinados à AACD. A campanha foi liderada pelo SBT. Diversos artistas fizeram campanha, pediram doações, mostraram onde o dinheiro era aplicado, as crianças que dependiam do tratamento especial, etc. Centenas de milhares (ou até milhões) de brasileiros se mobilizaram e doaram dinheiro em prol da causa. Veja só, não é muito difícil convencer alguém de que uma criança que nasceu com alguma necessidade especial precisa de atenção especial, profissionais capacitados para o tratamento e medicamentos. As pessoas imediatamente se sentem tocadas com isso.

Agora, imagine que um presidente da república aprovasse uma lei que criasse um imposto a ser pago obrigatoriamente por todo cidadão comum com renda mensal superior a dois salários mínimos. A receita obtida por esse imposto (estimada em R$27 milhões) seria revertida integralmente à AACD. O que você acharia disso?

Vamos analisar. O resultado final para o destinatário seria efetivamente o mesmo. Porém, qual a moralidade de um arranjo como esse? Fatalmente, isso iria obrigar pessoas que não contribuem com a AACD (independente do motivo) ou que contribuíam com quantias menores a desembolsar compulsoriamente uma quantia com a qual não estão de acordo. Isso também faria com que pessoas com renda mensal inferior a dois salários mínimos e que, por ventura, tenham doado voluntariamente alguma quantia pelo Teleton não consigam mais contribuir (ou ao menos, não com a facilidade que tinham anteriormente).

Portanto, convido você a pensar sobre isso quando estiver requisitando algum serviço público ou alguma lei em especial que obrigue uma ideia ou uma causa as quais você defende serem impostas a todo o restante da comunidade na qual você vive. Isso parece bastante tentador quando é algo com o qual você concorda, mas tenha certeza de que na maioria das vezes será algo com o qual você está contra. Depois não adianta reclamar.

 

Mulheres, sejam bem vindas ao liberalismo!

Publicado: 10 de abril de 2017 por Kzuza em liberalismo
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Recentemente, no dia internacional da mulher, li uma série de textos clamando por direitos iguais para homens e mulheres. Essa seria, em suma, a principal pauta do movimento feminista. Então resolvi pesquisar um pouco a respeito.

A primeira coisa que descobri é que o feminismo em si não é um movimento. Na verdade, ele é uma bandeira atrás da qual um monte de gente se esconde, cada um bradando por uma coisa diferente, mas sempre com o centro nas mulheres. No geral, qualquer coisa que reclame algo em nome das mulheres hoje é chamada de feminismo. E é justamente esse o motivo pelo qual o feminismo não é levado à sério.

Eu explico. As mulheres estão cada vez mais em alta, cada vez mais em evidência, cada vez com mais voz ativa. Pode se dizer, sem muito medo de errar, que as mulheres hoje são cada vez mais levadas à sério, ao contrário do suposto movimento que dizem representá-las. Ou seja, o indivíduo está se sobressaindo ao coletivo, para desespero daqueles que acreditam no contrário.

O mais incrível é que aquelas que se dizem feministas atribuem essa ascensão da mulher como uma vitória de um suposto movimento coletivista, sem se dar conta de que na verdade essa ascensão é resultado da própria capacidade individual de cada mulherão da porra que temos por aí.

No que diz respeito aos direitos propriamente ditos, homens e mulheres hoje gozam, legalmente falando, basicamente dos mesmos direitos. Claro, considerando a diferença biológica existente entre os sexos, que mostra homens fisicamente mais fortes que as mulheres, há algumas diferenciações. Mulheres gozam de benefícios não concedidos aos homens a fim de equiparar as condições de ambos os sexos. Mulheres não prestam serviço militar obrigatório, possuem delegacias próprias para investigação e combate a crimes, têm direito (pelo menos até agora) a se aposentarem antes dos homens, entre outros.

Então o que as pessoas querem dizer quando clamam por direitos iguais? É aí que está a chave: mentes mais pensantes pedem para que os direitos iguais garantidos por leis sejam cumpridos efetivamente para as mulheres. Em linhas gerais, não basta escrever as regras do jogo, é preciso que elas sejam cumpridas.

Mas se as leis não estão sendo cumpridas, é necessário identificar primeiro o porquê disso, a fim de eliminar (ou minimizar) a causa do problema. Nesse ponto, assim como em vários assuntos polêmicos, os progressistas da esquerda falham miseravelmente. Na preguiça ou na incapacidade de pensar, apontam para qualquer direção e miram em seres imaginários ou em coisas impessoais. E quando não se há algo concreto a ser combatido, a guerra nunca tem fim e continua somente alimentando discursos demagógicos.

Progressistas irão sempre culpar a sociedade misógina e machista por todo e qualquer infortúnio sofrido por uma mulher em particular. Isso jamais resolve o problema, mas pelo menos dá cartaz a grandes demagogos, principalmente na era das redes sociais. A alienação toma conta dos mais sensíveis, gera aquela sensação de fazer parte de uma “revolução”, mas no final das contas tudo continua como antes. E quando ocorrem mudanças graças a indivíduos que combateram inimigos reais, os primeiros clamam para si as glórias.

Vamos a exemplos de alguns absurdos.

Primeiro, tratemos da alienação das feministas mais radicais. Não vou me alongar na discussão sobre todas as supostas “lutas” travadas por elas, mas vou me ater a um único ponto: o tal padrão de beleza. Estas adoram dizer que lutam contra os padrões de beleza “impostos” pela sociedade. Eu particularmente acredito ser meio bizarra a ideia de que alguém acha uma mulher bonita ou feia porque outra pessoa está dizendo isso. Gosto é algo muito pessoal. Se houvesse somente um tipo de beleza ideal, eu diria que 95% das mulheres jamais chamariam a atenção de homem algum, mas nós sabemos que não é isso que acontece. É claro que existem homens e mulheres mais bonitos e mais feios. Há quem goste de gordinhos e gordinhas, embora a maioria prefira os mais magros, por uma questão estética. E não há nada de mal nisso. E também é normal homens gostarem mais de mulheres depiladas do que de mulheres com bigode ou pêlos debaixo dos braços. O problema destas feministas não é apenas lutar para que possam ser como elas bem entenderem (até porque elas podem fazer isso, não há impedimento nenhum), o problema é querer impor que as demais pessoas achem isso legal ou bonito. Não é o fato de fazer cocô de porta aberta que vai tornar isso um ato comum e aceitável.

Outro ponto bastante interessante, compartilhado pela maioria das feministas, é a questão da equiparação entre homens e mulheres no ambiente de trabalho. Os números mostram que há menos mulheres em cargos executivos nas empresas que homens. Os números mostram que a média salarial das mulheres é mais baixa que a dos homens. As mulheres ocupam menos cargos na política que os homens. Há uma desigualdade clara. Mas será que as feministas conseguem identificar o que está acontecendo de verdade e lutar contra isso? Parece-me bastante óbvio que não. Bradam contra a sociedade machista e contra a discriminação sofrida pelas mulheres, como se essas abstrações explicassem os fatos. Sabemos que existem homens machistas e que discriminam as mulheres, mas isso explica? Essa é uma lógica muito utilizada nos dias atuais e que não é exclusividade das feministas: a existência de um comportamento ou a ocorrência de um fato são utilizadas como explicação para um fenômeno específico, mesmo que não exista nenhuma relação de causalidade, mas desde que corrobore com a agenda ideológica desejada.

Em relação ao fato de mulheres ocuparem menos cargos executivos ou na política, eu sugiro assistirem o documentário “O paradoxo da igualdade”, produzido pelo sociólogo e humorista norueguês Harald Eia. Há explicações científicas que demonstram que homens e mulheres são diferentes em vários aspectos, inclusive em suas inclinações profissionais. De qualquer forma, é óbvio que existem mulheres que chegam a esses postos, e isso se dá graças a suas competências, e não como uma forma de reparação e agradecimento da sociedade cis-hétero-machista-misógina a algumas mulheres. Portanto, o discurso feminista erra o alvo ao apontar o dedo para algo abstrato (uma sociedade machista) como culpado, o que não surtirá efeito algum porque nenhum ser abstrato é capaz de dar uma resposta a um estímulo. Se as feministas encorajassem as próprias mulheres, o resultado seria mais rápido e com muito mais assertividade. Exigir cotas de reparação na política ou em altos cargos nas empresas apenas abriria espaço para uma série de oportunistas incapazes assumirem posições para as quais não estão preparadas ou que sequer escolheriam voluntariamente. O que não falta no mundo são mulheres inteligentes e competentes para chegarem lá, basta incentivá-las.

Já quanto aos menores salários, o documentário norueguês também explica alguns fatores, mas mudando o foco aqui para a nossa república das bananas, certamente o maior inimigo é outro. Vamos partir de um princípio básico e de fácil compreensão: se as mulheres realmente ganhassem menos que os homens para fazerem exatamente o mesmo trabalho, por que os donos de empresa não contratariam apenas mulheres ao invés de homens? Seria de uma incompetência tremenda não observar essa possível redução de custos, não? Acreditar que os empresários do Brasil são tão burros assim é de uma inocência que beira o ridículo. Mas então, desconsiderando-se o fato de que mulheres tendem (VEJA BEM, IMBECIL: É UMA TENDÊNCIA COMPORTAMENTAL, E NÃO UMA REGRA!) a escolher carreiras profissionais que pagam salários menores, vamos focar nas situações onde homens e mulheres estão em uma mesma carreira, com as mesmas qualificações e o mesmo tempo de experiência. Por que então, nesses casos, mesmo assim homens ganham mais que mulheres? A explicação para esse e inúmeros outros problemas que atingem o trabalhador brasileiro está no mesmo lugar: a famigerada Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).

A CLT concede “direitos” aos trabalhadores que infelizmente não são chamados pelo nome correto. Na verdade, a CLT concede benefícios aos trabalhadores em geral. Todos nós sabemos que qualquer benefício ou prêmio é necessariamente pago por alguém, pois nada é gratuito. Quando se trata de Brasil, nós sabemos que são os mais pobres e os mais frágeis que pagam por isso, de uma forma ou de outra. Desta forma, quem acaba pagando pelos próprios benefícios previstos em lei é o próprio trabalhador e não o patrão, como querem que nós pensemos. Mas como? Através de menores salários nominais, quando conseguem entrar no mercado de trabalho formal, ou através da informalidade a qual são submetidos os trabalhadores que não conseguem ser contratados dentro da CLT.

Há claramente uma sensibilização maior quando o custo por algo é cobrado diretamente do indivíduo, de forma explícita, do que quando os custos são diluídos, disfarçados e cobrados de todos, independentemente de quem irá gozar de um benefício. Explico melhor. A CLT obriga os empresários a arcarem com a responsabilidade dos salários dos profissionais no caso de uma série de ausências justificadas e períodos de licenças dos seus funcionários. Algumas dessas ausências são subsidiadas pelo próprio INSS, mas de qualquer forma quem paga pela falta de uma mão-de-obra por esse período é o próprio empregador, que fica sem uma pessoa para executar o trabalho a ser feito e não consegue contratar uma nova pessoa para executar a tarefa, pois aquela que está ausente pode retornar ao trabalho a qualquer momento e não poderá ser desligada.

Dessa forma, os patrões consideram, na hora de calcular a produtividade de um trabalhador ao longo de um ano e, portanto, o quanto pode pagar de salário ao mesmo, uma média de dias trabalhados pelos profissionais. Há uma série de fatores que explicam que mulheres se ausentam (de forma justificada) do trabalho com mais frequência que os homens: quando um filho fica doente, normalmente é a mãe quem o acompanha ao médico (você pode chamar isso de machismo, como quiser, mas é um fato do qual não há como fugir); mulheres (pasmem!) engravidam, e durante a gravidez precisam se ausentar para exames e também devido a implicações que a própria gravidez traz, além do período de licença maternidade que pode chegar a 6 meses no Brasil; mulheres cuidam mais da saúde, previnem-se mais e, assim, ausentam-se mais para consultas médicas; mulheres afastam-se mais frequentemente do trabalho por motivos de saúde (não encontrei nenhuma pesquisa por aqui, mas é um fato facilmente observado – o que não quer dizer que todas as mulheres são assim, nem que não haja homens que também se ausentem muito do trabalho por problemas de saúde, é apenas uma constatação de tendência).

O fato é que devido a tudo isso, engessado pela CLT, o patrão considera que ao longo de um ano, uma mulher trabalha em média menos dias que um homem. Como o patrão precisa necessariamente pagar os mesmos 13 salários que paga para o homem, o salário acaba sendo menor.

Agora vamos pensar de uma forma um pouco diferente. Vamos imaginar que fosse possível contratar um funcionário por hora trabalhada. Que o patrão pudesse acordar com o funcionário um valor/hora fixo e um pacote fixo de N ausências justificadas no ano, e mais um período de férias fixo. O quanto isso seria benéfico para as mulheres? Não tenho a mínima dúvida de que nessas condições homens e mulheres receberiam exatamente o mesmo valor por hora trabalhada (ou, na pior das hipóteses, um valor muito próximo).

Há nessa questão dois pontos polêmicos. O primeiro seria: mas se as empresas não fossem obrigadas a oferecer licença-maternidade, por exemplo, nenhuma empresa ofereceria esse benefício a suas funcionárias. Eu sinceramente duvido muito disso. Há uma série de benefícios hoje em dia, como previdência privada, vale-alimentação ou plano odontológico, que não são obrigatórios por lei mas que mesmo assim são oferecidos por um grande número de empresas, que vêem nesses benefícios uma maneira de atrair e reter melhores profissionais. A lógica seria a mesma.

O segundo seria: mas se a empresa ou o Estado não pagarem o salário de uma mulher durante os primeiros meses de maternidade, isso não seria justo. Será? Aqui entra uma questão básica de responsabilidade individual. Quando uma mulher se ausenta do trabalho porque teve um bebê e recebe um pagamento durante esse período, alguém necessariamente estará pagando por isso. Os custos disso estão sendo socializados e pagos por alguém (isso me parece óbvio, mas é sempre bom lembrar). De uma forma mais genérica, o benefício de uma pessoa está sendo pago com algum dinheiro que está sendo retirado de outras pessoas que não estão gozando de nenhum benefício, mas que estão sendo obrigadas a pagar por isso. Você pode estar pensando duas coisas sobre mim nesse momento: primeiro, que eu só penso em dinheiro; segundo, que todo mundo pode um dia precisar desse tipo de “auxílio” também. Quanto ao primeiro ponto, você está correto: tudo no mundo gira em torno de dinheiro, queira você ou não. Sugiro que você leia o trecho de “A Revolta de Atlas”, onde o empresário Francisco D’Anconia explica o que é o dinheiro. Quanto ao segundo ponto, se o seu raciocínio estiver certo (e eu tenho indícios que está), já que todo mundo paga um pouquinho cada mês como uma forma de reserva para se utilizar isso quando necessário, por que então não estimular que cada indivíduo seja responsável por guardar essa quantia cada mês por conta própria e então utilizá-la quando necessário? Seria muito mais justo com toda a sociedade e, no final das contas, teria o mesmo resultado prático para quem necessita.

Você pode estar achando que estou sendo machista ou que quero o mal para as mulheres, mas o fato é que meu raciocínio é aplicado por mim em todas as esferas e para todos os indivíduos. Na minha opinião, a CLT na verdade é uma baita ferramenta socialista (não por acaso, ela é baseada na Carta del Lavoro de Mussolini) que finge oferecer uma série de “direitos” que nada mais são do que “benefícios” individuais custeados por terceiros. Ou seja, há um disfarce sutil que passa desapercebido por grande parte da população e que acaba por prejudicar os trabalhadores no final das contas, e não só as mulheres.

Por último, outro aspecto em voga na corrente feminista moderna é a questão da violência contra a mulher. Nesse ponto, o movimento feminista falha miseravelmente, para desespero das vítimas e para deleite dos algozes. O primeiro ponto falho do movimento é a generalização da violência, transformando qualquer coisa em assédio ou estupro. Quando qualquer coisinha é assédio ou estupro, elas dizem que estupro e assédio são qualquer coisinha. Isso é um desrespeito e uma falta de empatia tremendos com as verdadeiras vítimas desses crimes. Equiparar uma cantada porca de um pedreiro à mulher A com a apalpada na vagina da mulher B é dizer, embora ambas as atitudes sejam desprezíveis e devam ser desencorajadas, que a mulher B não sofreu nada grave. O segundo, e talvez o mais grave, é a complacência com o agressor. Feministas dificilmente incentivam punições severas aos verdadeiros agressores, nem tampouco o direito de defesa das vítimas (apoiando, por exemplo, o desarmamento civil, impossibilitando uma mulher de portar uma arma para se defender de um estuprador). As feministas preferem utilizar hashtags, camisetas e pombas brancas, sites, campanhas educacionais e qualquer outra coisa que possa servir de instrumento para uma reforma social necessária para enfim acabar com esse tipo de crimes, ao invés de combater e punir os criminosos. É como querer combater um exército de guerra com flores.

Espero que tudo isso faça sentido para você. Na verdade, a luta por condições melhores de vida para as mulheres passa invariavelmente pela liberdade individual. O problema, como eu sempre digo, é que a liberdade traz consigo invariavelmente a responsabilidade pelas ações, e por isso tanta gente foge disso e procura apenas exigir recompensas, benefícios e direitos sem contrapartida. Isso, infelizmente, é o que muita gente chama de feminismo.


Nota pós-publicação: quanto ao “padrão de beleza”, cheguei a uma conclusão. Esse padrão existe de mulheres para mulheres. Na minha opinião, mulher não entende de beleza feminina. Mulheres enquadram outras mulheres em um padrão estabelecido. Homem não tem essa frescura. Portanto, o feminismo mais uma vez erra o alvo, mirando nos homens, quando na verdade são as próprias mulheres que exigem um padrão. Dizer, por exemplo, que Grazi Massafera, Gisele Bündchen e Fernanda Lima têm “corpão”, mesmo sendo magras feito uma vareta, só pode ser coisa de mulher. Homens, em sua maioria, acham mulheres com mais carne mais bonitas.

A saga da Banda Sinfônica de SP

Publicado: 16 de fevereiro de 2017 por Kzuza em cultura, liberalismo
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AVISO INICIAL IMPORTANTÍSSIMO AOS LEITORES MAIS SENSÍVEIS: Esse post não é sobre cultura. Esse post não é sobre música. O autor não é contra a Banda Sinfônica de SP. Esse post é sobre liberalismo!


Você conhece o Cirque du Soleil? Provavelmente já ouviu falar. É uma companhia circense canadense, que viaja o mundo afora com seus espetáculos, que envolvem atos de dança, malabarismo, música, entre outros.

Eu nunca fui a um espetáculo deles. Talvez você também nunca tenha ido. Mesmo assim, a companhia existe há mais de 30 anos (foi fundada em 1984) e é a maior do mundo em seu ramo, tendo hoje mais de 3500 funcionários em mais de 40 países.


Você conhece o filme Avatar? Se nunca assistiu, provavelmente já tenha ouvido falar. É a maior bilheteria da história do cinema mundial.

Eu não assisti no cinema, só em casa, em um blu-ray que meu pai comprou.


Você conhece Andrea Bocelli? Com certeza já deve ter ouvido falar. É considerado por muitos o maior tenor ainda vivo. Roda o mundo com shows (ano passado inclusive esteve aqui por terras tupiniquins) e já vendeu mais de 70 milhões de discos pelo mundo todo.


Sabe qual a semelhança dos 3 casos apresentados acima?

Todos eles são representantes de produções culturais de excelente qualidade. O Cirque du Soleil, de um grupo de artistas. Avatar, uma produção que contou com uma porção de gente talentosa para chegar ao seu resultado, incluindo atores, diretores, artistas visuais, entre inúmeros outros. Andrea Bocelli, o expoente de um talento ímpar na música.

Mas há algo ainda mais intrigante nos 3 casos citados: nunca, em nenhum lugar do mundo, ninguém foi obrigado a assistir a um espetáculo do grupo circense, nem a comprar um CD ou a assistir a um show do tenor italiano, nem a ir ao cinema ou comprar o blu-ray do filme para que eles se tornassem fenômenos culturais modernos. E eles continuam fazendo um sucesso tremendo! (Guarde isso com você que logo chegaremos lá!)


Então o que faz desses artistas e suas produções serem tão reconhecidos, aclamados e símbolos de sucesso? Bem, isso daria uma lista enorme, eu acredito, mas o ingrediente fundamental tem um nome: TALENTO!

O talento dos artistas que produzem os resultados mencionados é de um tamanho e de uma singularidade que obviamente se traduzem em obras de extrema qualidade em seus ramos artísticos.

E é claro que as pessoas comuns, independentemente do seu grau de instrução e classe social, conseguem reconhecer a excelência do resultado desses trabalhos geniais, que envolvem criação, inspiração e dedicação extremas. O trabalho do artista é árduo. O resultado disso é que praticamente não há quem não consiga reconhecer a qualidade do que foi produzido.

Coloque, por exemplo, uma pressoa em frente à Pietá de Michelangelo, ou para ouvir uma sinfonia de Beethoven, ou para assistir a um espetáculo do Cirque du Soleil, e verá as emoções que são despertadas por essas obras. Mesmo que essas pessoas nunca tenham tido contato com arte, mesmo que nunca tenham tido acesso à alta cultura. O poder que essas obras têm de despertar bons sentimentos nas pessoas é algo único.


Vou lembrar aqui de uma experiência pessoal minha. Nunca estudei arte. Nunca fui nenhum entusiasta de arte. Mas quando fui ao Museu do Louvre em Paris e me vi frente à frente com Psiquê e Eros, de Antonio Canova, eu senti um negócio que poucas vezes na minha vida eu senti. Foi uma emoção boba, ingênua, mas forte. Algo tipo quando entrei na Catedral de São Pedro no Vaticano pela primeira vez. Não dá para se sentir indiferente frente ao belo, ao Sagrado.

psique

Psyche revived by cupid kiss, de Antonio Canova

Roger Scruton revela, em um documentário excelente produzido pela BBC, a importância da beleza para a existência humana. O vídeo tem quase 1 hora, então recomendo assisti-lo após a leitura desse artigo:


Agora, esse ano, o Governo do Estado de São Paulo resolveu demitir os músicos da Banda Sinfônica de São Paulo. Essa notícia foi divulgada amplamente por aí. Os músicos, do dia para a noite, viram-se desempregados (o que infelizmente se tornou uma realidade para muitas pessoas no país nos últimos 2 anos).

Não há como não se sensibilizar com isso. Ponto final.


A despeito do que eu sinto pelos músicos, vamos ao ponto da polêmica aqui. Vocês já podem começar a pegar as pedras para atirar em minha direção.

Alguém sabe me dizer por que o Estado tinha uma banda sinfônica, paga com o dinheiro de toda a população?

Afe!!!! Kzuza fascista! Insensível! Não sabe valorizar a cultura! Não sabe que a cultura é importante para o país todo, para todas as pessoas! Um povo sem cultura não é nada. Você mesmo disse ali em cima que é importantíssimo para as pessoas terem contato com esse tipo de expressão artística! Isso é um patrimônio do nosso estado, um orgulho da população! Você também não pensa nos músicos, nem nos futuros músicos, que precisam da existência da instituição para poderem exercer seus ofícios!

Bem, se você leu esse parágrafo em azul e se identificou com ele, é justamente para você que eu estou escrevendo. Aqueles que já entenderam onde eu quero chegar apenas deram risada quando leram a minha ironia.


Ponto 1: eu não sou a favor da extinção da Banda Sinfônica de São Paulo, muitíssimo pelo contrário. Desejo que eles continuem com o trabalho e tenham muito sucesso por mais várias gerações.

Ponto 2: se você nunca foi a uma apresentação da Banda Sinfônica de SP, se você não conhece o trabalho deles, se você não admira o tipo de música que eles produzem, mas mesmo assim é contra o governo acabar com o vínculo com a banda, você pode se enquadrar em dois tipos de pessoas: aquelas que nunca pararam para refletir o quanto de imoralidade há nesse cenário; ou aquelas que são canalhas por natureza mesmo.

Não acredito ter leitores canalhas, então vou descartar esse grupo aqui.

Vou tratar apenas da questão da imoralidade. Veja bem: você defende que alguém (nesse caso, o Estado) tome à força o dinheiro de toda a população para bancar um trabalho do qual apenas alguns irão se beneficiar. Sim, à força, através de impostos, porque se você não pagar, o Estado vai atrás de você.

Em uma analogia simples, é algo como se você apoiasse o governo canadense a obrigar os cidadãos canadenses a pagarem impostos de forma a bancar o Cirque du Soleil. Ou como se o governo italiano cobrasse impostos para bancar o Andrea Bocelli e seus músicos.

Se você está nesse grupo dos que não entenderam ainda essa questão de imoralidade, é quase certo que você irá se valer de um dos argumentos abaixo:

  1. Mas é cultura! Música é cultura! O Estado deve promover a cultura!
  2. Nosso país não valoriza a cultura! Então o Estado tem o papel de ajudar!
  3. Não é sobre dinheiro que estamos falando! Estamos falando em valorizar um patrimônio cultural!

Bem, em primeiro lugar, ser músico é uma profissão. Pergunte a qualquer músico. É óbvio que eles têm um dom especial, amam o que fazem, amam a arte. Mas eles também precisam receber por isso, e não estou falando somente em reconhecimento. Um músico estuda demais, e também trabalha demais. A criação exige tempo, esforço e dedicação. E sem dúvida alguma, trata-se de um trabalho de extrema importância. Ponto final.

Mas seguindo a mesma lógica, há inúmeros outros trabalhos fundamentais para a existência da humanidade e que nem por isso precisamos do Estado para que eles sejam executados. Pense nos trabalhadores que plantam e colhem a comida que chega à sua mesa para que você se alimente. Pense nos caminhoneiros que transportam esses alimentos até os mercados onde você os adquire. Pense nas costureiras que confeccionam os agasalhos que lhe mantém quentinho durante o inverno. Esses trabalhos também exigem esforço e dedicação, mas nós não achamos nem um pouco razoável que o governo recolha impostos de nós para bancar esse trabalho e fazer com o que o produto final chegue até nós. O produto simplesmente chega até nós através de uma cadeia que vai muito além da nossa compreensão e que nem vale à pena me alongar aqui.

Não consigo entender quem acredita que a cultura não será produzida sem a ajuda do Estado. É como pensar que Michelangelo, Beethoven, Shakespeare, Van Gogh jamais teriam produzido suas obras sem que houvesse uma entidade que tomasse dinheiro à força das demais pessoas para pagá-los pelos seus trabalhos.

Quanto ao desinteresse da população pela arte e pela cultura, também me parece bastante incoerente acreditar que tomar dinheiro à força dessa mesma população para bancar as produções artísticas seja sequer parte da solução do problema. Lembrando que nosso governo é extremamente hábil em fazer esse tipo de coisa, vide Lei Rouanet. A solução para esse problema de desinteresse passa, no meu entendimento, primeiramente por garantir que a população por completo tenha acesso às condições mínimas para a existência humana: água, alimentação e saneamento básico. Depois disso, tudo passa a ser uma questão de educação. O resultado final desejado, o real interesse pelas artes (principalmente pela alta cultura, como é o caso da Banda Sinfônica de São Paulo) é apenas uma consequência.

Outro ponto bastante interessante nessas pessoas que ainda não pensaram a fundo sobre a imoralidade que é tomar dinheiro à força de alguém para bancar algo que é considerado vital ou importante para todos, mesmo que não seja desfrutado por todos, é pensar que esses artistas não conseguiriam nenhuma outra forma de conseguir dinheiro para pagar os seus trabalhos. De duas, uma: ou acreditamos que a qualidade do trabalho executado por eles não é boa o suficiente para atrair investimentos, ou não reconhecemos que isso é não só possível como um fato. Basta citar que, por exemplo, a própria Banda Sinfônica de São Paulo já conseguiu patrocínios para continuar os seus trabalhos.


Conclusão: Não vejo absolutamente nenhum motivo para que qualquer causa ou trabalho artístico seja bancado pelo Estado. Isso porque isto significa que o Estado deverá tomar dinheiro à força de toda a população para pagar por algo que não será desfrutado por todos. Não se trata, no entanto, de não reconhecer o valor da cultura. Trata-se apenas de reconhecer as limitações que devem ser impostas ao Estado, que deveria se preocupar apenas em garantir que a população toda tenha direito à vida, à liberdade e à propriedade privada.

Tenho a mais absoluta convicção que artistas de talento conseguem se manter com a qualidade das obras que eles produzem, como exemplifiquei no início desse texto e concluí com o próprio patrocínio privado já conseguido pela Banda Sinfônica de São Paulo. O trabalho desses sempre será reconhecido e não tenho dúvidas de que há muita gente interessada nisso (myself included).

Para quem se interessar, você mesmo pode ajudar a Banda através de doações. O link é esse aqui.


Notinha final do Zuza: Nós, a sociedade civil, somos plenamente capazes de mudar o país quando nos organizamos e nos dedicamos. Apoie as causas nas quais você acredita. Convença seus amigos a também apoia-las. Dedique-se, faça trabalhos voluntários, busque doações voluntárias e pare, simplesmente pare, de exigir que o governo faça isso por você simplesmente pelo fato de que você paga impostos. Quanto maior o caminho que esse dinheiro passa entre o seu bolso e a causa à qual ele teoricamente deveria ser destinado, maior a probabilidade dele ser desperdiçado ou desviado. Isso não deveria ser novidade para você que vive no Brasil, mas mesmo assim fica esse toque. Quer realmente contribuir com algo que acha importante? Dê o seu dinheiro diretamente a quem faz o trabalho acontecer, e não para alguém que vai repassar para outro alguém, e para outro, e para outro, até chegar onde você gostaria que chegasse.

Deixar esses assuntos tão importantes na mão de pessoas que são eleitas de 4 em 4 anos, e cujas vontades você quase sempre desconhece, parece-me completamente insano (principalmente pelo fato de que essa pessoa eleita pode não ter sido a escolhida por você).

Também não exija que todos tenham as mesmas prioridades que você. Converse, convença-as, mas não coloque uma arma apontada na cabeça de ninguém obrigando que ela te apoie apenas porque a sua causa é válida, importante e altruísta. As pessoas são diferentes, têm prioridades diferentes, apenas respeite isso e não interfira na liberdade que elas têm de serem diferentes.

E o principal: acredite, tem jeito. A mudança começa a partir de nós.


Ps: Leia esse textinho aqui que o tio Zuza escreveu há 2 anos sobre basicamente a mesma coisa.

O alvo errado

Publicado: 15 de junho de 2015 por Kzuza em Comportamento, liberalismo
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Parada-Gay-patrocínio

Eu estava me preparando para escrever hoje sobre a Parada Gay de São Paulo no último domingo e toda essa polêmica sobre a utilização de símbolos cristãos como meio de protesto e tals. Mas aí acabei lendo um texto no blog do Instituto Liberal, de autoria de Lucas Berlanza, que disse quase tudo o que eu iria dizer aqui (e com uma qualidade muito superior ao que eu seria capaz de produzir). Então resolvi somente comentar alguns trechinhos aqui.

Foram visíveis, sobre carros de som e desfilando em meio à festança animada, imagens desqualificando motivos cristãos. Um transexual ensanguentado e crucificado, como que a representar os gays sendo massacrados pelos “homofóbicos cristãos”, foi a mais emblemática, a se somar a um histórico já longevo de provocações estúpidas e achincalhes com a crença religiosa da maior parte da população.

[…]

Os afobados em distorcer já virão logo dizendo: “seria você mais um obscurantista defendendo a censura?” De jeito algum! Manifestem-se! Gritem as bobagens ofensivas que quiserem, demonstrando a todos o quanto são baixos! Os “não-me-toques” infantis do politicamente correto estão, em sua esmagadora maioria, com o “outro lado”. Isso, diga-se de passagem, a despeito de o artigo 208 do Código Penal determinar que esse tipo de escárnio público é crime, concorde-se ou não com a legislação.

Entretanto, façam isso com recursos privados! Uma vez mais, os “pseudo-defensores” dos oprimidos e da “vontade popular” se utilizam dos recursos públicos, dos pagadores de impostos, para impor agendas e ofendê-los.

Bem, o primeiro ponto foi certeiro. Se uma causa fosse realmente nobre, digna de apoio popular, não seria bom senso imaginar que essa causa conseguiria apoio e financiamento particular para o evento? Por que motivo o governo então se interessaria em financiar algo assim? Quais são os reais interesses por trás disso?

“Não é um insulto”, alegam os iluminados. “Trata-se de uma metáfora para o sofrimento dos homossexuais, crucificados e mortos todos os dias. É arte”. A bandeira é nobre; infelizmente há muita perseguição aos homossexuais, especialmente em países dominados por teocracias islâmicas ou regimes autoritários simpáticos ao nosso atual governo. O governo, diga-se de passagem, do partido do prefeito paulista, Fernando Haddad, que se orgulhou de ter patrocinado o “evento educativo” deste domingo.

O que eu fico mais indignado é que esse tipo de manifestação erra o alvo ao usar como ferramenta da metáfora justamente um símbolo do cristianismo. Faria muito mais sentido usar algum símbolo do islã, esse sim que prega a execução de homossexuais inclusive no seu próprio livro sagrado.


Demorei tanto para terminar o post que apareceu um outro texto, ainda melhor, de Catarina Rochamonte sobre o mesmo tema. As melhores passagens são:

O homossexualismo não diz respeito à esfera pública, não precisa levantar bandeiras e nem seria necessário militância partidária alguma ou mesmo agremiações em favor dessa causa caso fosse tratado como aquilo que efetivamente é: uma opção de exercício da sexualidade baseada em certas disposições orgânicas.

Fato.

O problemático aqui é também a relação equivocada que tem se estabelecido entre o público e o privado. Que tenho eu a ver com a sexualidade alheia? Por que o Estado, com o dinheiro dos meus impostos, precisa fomentar o show daqueles que resolveram colocar a sua sexualidade na vitrine? Se a homossexualidade for, para determinada pessoa, a opção saudável, a opção correta, se representa para ele o ato de liberdade individual cuja execução não violará o direito dos outros, então eu nada tenho contra ele e o respeito como respeito todos os demais; no entanto, se um indivíduo cuja opção  sexual é marginalizada opta por favorecer a si próprio denegrindo o restante do mundo, então o meu respeito não será o mesmo, pois o que respeito é a soberania moral de cada um no exercício da sua liberdade, no âmbito doméstico e privado que lhe é próprio.

Liberdade, pacto de não-agressão… é exatamente esse o cerne da questão, e não o homossexualismo em si.

NBA e o mercado

Publicado: 21 de maio de 2015 por Kzuza em Esporte, liberalismo
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Eu sou um grande fã de basquete e, como não poderia ser diferente, um amante do melhor basquete do mundo: a NBA. Não me lembro exatamente quando foi que comecei a assistir os jogos, mas eu lembro que foi mais ou menos em 97, quando o Tim Duncan ganhou o primeiro título com o Spurs junto com o David Robinson (as chamadas “Torre Gêmeas”). Não à toa eu passei a simpatizar com o time, e é quem eu mais acompanho desde então.

Lembro que no início era difícil acompanhar os jogos. Na TV aberta, acho que só a Bandeirantes transmitia uma ou outra partida. A internet ainda engatinhava aqui no Brasil. Não havia mídia especializada. Apenas o jornal Lance!, que eu me lembro, trazia notícias sobre a liga.

Enfim, o tempo passou, a TV por assinatura chegou lá em casa, a internet evoluiu, e acompanhar a NBA passou a ser algo relativamente tranquilo. Nada parecido com os EUA, onde 3 ou 4 canais transmitem simultaneamente 24 horas de NBA por dia, 7 dias por semana. Lá você pode perfeitamente assistir a um Sacramento Kings x Minnesota Timberwolves, às 16h, de maneira tranquila.

Aqui no Brasil, inicialmente, apenas a ESPN tinha os direitos de transmissão da temporada. Há alguns anos, o canal Space também passou a transmitir alguns jogos. E esse ano, no meio da temporada, para alegria de nós fãs de basquete, a Sportv também entrou na jogada, transmitindo uma quantidade de jogos superior à da ESPN. Para quem assina a Sky, tem também o canal Sports+ (recentemente foi anunciado que o canal irá ser extinto, infelizmente) que transmite uma quantidade absurda de jogos.

Bem, resumidamente, para quem acompanha a liga, esse foi o ano dos sonhos. Só para dar um exemplo, 100% dos jogos de playoffs a partir das semi-finais de conferência foram transmitidos aqui no Brasil, espalhados pelos canais citados anteriormente.

Mas que lição podemos tirar disso?

O basquete já foi o segundo esporte preferido dos brasileiros. Até o fim dos anos 80 e início dos anos 90, só perdia para o futebol. Com o advento do vôlei e a medalha de ouro em Barcelona 92, a coisa começou a mudar de figura. A aposentadoria de grandes jogadores como Marcel, Oscar e Guerrinha acabou por sacramentar a queda do esporte no gosto popular.

No entanto, nos últimos anos, a ascensão de jogadores brasileiros à elite do basquete mundial trouxe de volta o esporte aos holofotes. A eleição de Leandrinho Barbosa como melhor sexto homem da liga na temporada 2006-07 e o título de Tiago Splitter com os Spurs na última temporada são alguns exemplos.

Obviamente, isso atraiu a atenção dos empresários. Não é à toa que muita gente passou a se sentir tentada a transmitir as partidas, tendo em vista o crescente interesse do público. A Sportv é um claro exemplo disso. Além de tudo, a emissora deu uma sorte (???) tremenda por encarar, logo no seu primeiro ano, os melhores playoffs dos últimos anos, com excelentes jogos sendo decididos no último segundo, e séries de disputa chegando muitas vezes ao 6º ou 7º jogos (as finais são disputadas em séries de melhor de 7 partidas: quem vence 4 jogos, passa de fase).

Conclusão: negócio bom para as emissoras (alta audiência = mais anunciantes e mais dinheiro), negócio bom para o público fã da NBA (cada vez mais opções de jogos).

Aí ontem fiz uma pergunta: e se o Estado fosse responsável por regular o que os canais de esporte transmitem?

Tenho uma lista de hipóteses:

  1. Haveria uma cota de partidas nacionais a serem exibidas (mesmo que a qualidade delas fosse péssima, o público não se interessasse e não houvesse anunciantes).
  2. Haveria restrição de horário e do número de partidas de torneios internacionais exibidos na TV, de forma a fomentar o esporte nacional e proteger nosso esporte contra a invasão estrangeira.
  3. O som ambiente das partidas deveria ser cortado, de forma que não se pudesse ouvir gritos da torcida que incitam o ódio.
  4. Jogadores com apelidos pejorativos (como Neguinho, Japa, Baleia, Buiu, Pretinha, etc.) precisariam trocar de alcunha para que a TV pudesse dizer seus “nomes” sem soar como preconceito.