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A economia do nosso dia-a-dia

Publicado: 19 de junho de 2017 por Kzuza em Economia
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Nada é mais revelador em nossas vidas do que observar atentamente a realidade. Não há estudos nem especialistas capazes de nos provar algo mais do que quando notamos, pelos nossos próprios sentidos, como é que as coisas funcionam.

Fui almoçar mais tarde hoje, no horário em que a praça de alimentação do shopping começa a dar uma esvaziada. Reparei algo que já havia notado de relance em outros dias, em horários de maior movimento. Hoje, com menos pessoas, ficou mais fácil observar. A praça de alimentação, pequena, possui entre 10 e 15 estabelecimentos, entre lanchonetes e restaurantes, sejam eles de redes franquiadas ou lojas próprias. Basicamente, com exceção ao McDonald’s, apenas um dos restaurantes se mantém com altíssimo movimento durante todo o almoço. Outros 3 ou 4 mantêm um movimento muito bom, e os demais apresentam um movimento (na minha visão) muito fraco.

Enfim, acho que nada mais fácil para explicar economia de mercado do que observar a movimentação das pessoas em uma praça de alimentação no shopping. Ali, ninguém é obrigado a consumir nada. Não existem leis que digam qual o limite máximo de clientes que uma loja possa atender. Não há quotas mínimas ou máximas de vendas para cada restaurante. Não há determinação do que cada lojista pode vender, por exemplo, obrigando cada refeição a ter uma quantidade máxima de calorias ou de sal.

E como as pessoas escolhem? Bem, cada um escolhe de acordo com o seu gosto, com o dia da semana, com o seu humor, com o seu hábito alimentar, com a sua grana ou com o que quer que ele queira usar como critério. Basicamente, cada um é livre para comer o que quiser, desde de que possa pagar.

No fim das contas, no geral cada um sai de lá satisfeito (com exceção dos reclamões, para quem nada é suficiente). Essa é a beleza da coisa.

E o que acontece se um restaurante não vender o suficiente e não gerar lucro? Simples: ele fecha e dá lugar a outro. Esse outro, então, tem a missão de não fracassar, de oferecer produtos de qualidade, com um preço acessível e com bom atendimento aos seus clientes. E a roda continua a girar.

Parece meio besta, mas é assim que o mundo funciona, evolui e melhora. Maus restaurantes dão lugares a restaurantes melhores, e a mesma lógica pode se aplicar a qualquer outro tipo de negócio. A economia funciona (ou deveria funcionar) dessa forma. Será que é complicado demais entender?


Outra lição ótima de economia com base no dia-a-dia aconteceu essa semana. Os ingressos para o show da banda irlandesa U2 na capital paulistana no segundo semestre esgotaram-se em 2 horas. Foi, então, aberto um segundo show (certamente já previsto desde o início).

Vi muita gente reclamando dos preços dos ingressos, dizendo que estavam caros demais. Fica a pergunta: caro para quem, camarada? Não vi os preços, mas duvido muito que se o preço fosse tão mais alto do que as pessoas se dispõem a pagar os ingressos teriam acabado assim em tão pouco tempo.

Oras, o fato de você não ter dinheiro suficiente para pagar (ou não estar disposto a gastar o valor necessário para o ingresso) não quer dizer que o mesmo esteja, necessariamente, caro. Talvez, simplesmente, o show não seja feito para você, caro mortal (como é a minha situação). Pura questão econômica, fazer o quê?!

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A justificativa pelo retrocesso

Publicado: 17 de setembro de 2015 por Kzuza em Economia, Política
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A crise política e econômica pela qual o nosso país está passando é tão grave que hoje não há um ser humano que eu conheça capaz de defender o atual governo federal.

Mesmo assim, tenho lido uma série de absurdos nos últimos dias que me fazem pensar se as pessoas são desonestas por natureza, ou se ainda há tanta gente desacreditada assim no mundo

Eu sou o tipo de cara que acredita que precisa ser um homem melhor hoje do que eu fui ontem. Vivo em constantes mudanças e adaptações, sempre andando para a frente. Pequenas conquistas, pequenos gestos diferentes, sempre procurando evoluir. Não sou hoje o que eu era há 10 anos atrás. Acho que a maior parte das pessoas pensam igual. Se um dia eu voltar a ser como eu era há 10 anos atrás, eu irei morrer de vergonha. Será uma grande derrota para mim. Afinal, eu batalhei para chegar onde cheguei hoje. Não aceito retroceder.

O problema é que eu vejo ainda muita gente tentando justificar a fase pela qual passamos comparando nosso momento com momentos de um passado negro. Veja bem, como eu disse, não conheço ninguém que consiga defender o atual governo petista, mas conheço muita gente tentando justificar o que eles fazem.

Se a Dilma e sua equipe resolvem recriar a CPMF, imposto que o próprio PT lutou para extinguir, um monte de gente aparece para dizer que o próprio FHC foi quem criou tal imposto (como se na época ninguém tivesse reclamado). Se o partido se afunda em escândalos de corrupção, prontamente justifica-se que a corrupção sempre existiu no país. Se a nota de bom pagador do país é rebaixada pela Standard & Poors, surgem aqueles que dizem que foi o próprio governo do PT quem havia colocado país nesse ranking e que isso não vale de nada. Se a inflação sobe a cada mês, isso é relativizado porque inflação alta mesmo era na época antes do Plano Real, então não devemos reclamar.

Podem apostar que se os cortes do Bolsa Família começarem a afetar os beneficiados, surgirão vários defensores dizendo: “Ah, mas antes do PT nem existia Bolsa Família!”. Ou seja, não importa se estamos andando para trás, desde que não cheguemos nos períodos mais negros da nossa história.

Fico pensando: será que todos os retrocessos que tivemos no governo Dilma podem ser justificados pelo simples fato de que não estamos tão mal (há controvérsias!) quanto estávamos na época de FHC ou da ditadura militar, mesmo que estejamos infinitamente piores que no início do primeiro governo da presidAnta?

Tenho a impressão de que, se depois de 16 anos no poder, o PT deixar o poder e largar o país na mesma situação que estava ao término do governo FHC (mesma inflação, mesmo valor do dólar, mesmo IDH, mesma posição no ranking mundial de educação, etc.), eles irão se vangloriar disso! Se isso não é assumir o fracasso, não faço ideia do que seja.

Ainda sobre as ciclofaixas…

Publicado: 16 de junho de 2015 por Kzuza em Economia, Política
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Há muita divergência de opiniões a respeito das ciclofaixas implantadas na cidade de São Paulo na atual administração do prefeito Fernando Haddad.

Eu sou um cara apaixonado por bicicleta. Infelizmente não moro em São Paulo, então as ciclofaixas não me permitem ir de casa até o trabalho com a minha bike, senão certamente eu o faria. Embora muitos dos projetos para implantação dessas faixas tenham falhas, eu acho que no geral elas prestam um bom serviço. Os mais radicais vão ficar me criticando e postando vários casos aqui de ciclofaixa na calçada, ou que termina em lugar algum, ou que tem uma árvore no meio, ou que tem buracos, etc, etc, etc. O fato é que isso, sinceramente, existe em qualquer cidade grande onde esse meio de transporte é bastante utilizado. Tem até gente fazendo piada com isso.

De fato, para os amantes das duas rodas, o prefeito fez um bom trabalho no geral.

Por outro lado, muita gente (a maioria esmagadora, diga-se de passagem) critica a prefeitura. Entre os argumentos estão: os altos custos das ciclofaixas (o que faz muita gente suspeitar de eventuais superfaturamentos, o que não é surpresa em caso de administrações públicas brasileiras), a falta de planejamento, a retirada de espaço das ruas onde antes passavam carros, entre outros. Segundo o prefeito, esse tipo de crítica parte principalmente dos coxinhas. Não sei qual o conceito que ele tem de coxinha, mas eu acredito que eu possivelmente faça parte desse grupo.

Já ouvi muita gente criticando essa gente que não gosta das ciclovias porque elas seriam “adoradoras de automóveis”. A típica elite paulistana, que só anda de carro e quer que o resto se dane. Que odeia também as faixas exclusivas de ônibus (essa sim, para mim, uma baita iniciativa válida da prefeitura!). Isso porque paulistano não quer abrir mão de sair com seu carro na rua com conforto (como se isso fosse possível antes das ciclofaixas). Enfim…

O fato é que eu me peguei a pensar outro dia e descobri o porquê de tanta divergência de opinião. O porra do prefeito conseguiu transformar um negócio legal pra caralho que é andar de bike em algo a ser odiado, como se os ciclistas fossem vistos como parceiros da administração petista na prefeitura da maior cidade do país. Mas como ele conseguiu essa façanha?

Bem, se há um negócio que a administração pública desconsidera por completo é a lei da oferta e da demanda. Encontrei um texto legal do Hans F. Sennholz, onde ele diz:

A demanda de mercado é gerada e conduzida por consumidores, isto é, por pessoas que voluntariamente decidem o que comprar e o que não comprar com o dinheiro que ganharam com seu próprio esforço.  As prioridades dos consumidores determinam o que deve ser produzido no mercado, como deve ser produzido e para quando deve ser produzido.  Os financiamentos serão ofertados de acordo com estas preferências.

Já a demanda criada pelos gastos do governo é conduzida por políticos e burocratas.  O que quer que eles determinem ser “bom” para a população será produzido de acordo com decretos governamentais, e não de acordo com a real preferência dos consumidores.  As prioridades e conveniências eleitorais de políticos e burocratas é que irão determinar quem será beneficiado pelos gastos do governo e o que tais empresas deverão produzir.

A demanda de mercado é satisfeita por empreendedores que incorrem em riscos.  Ou eles obtêm êxito em produzir e vender justamente aquilo que os consumidores querem (e, consequentemente, são recompensados por isso), ou eles fracassam e se mostram incapazes de ofertar aquilo que os consumidores queriam (e, consequentemente, pagam o preço por este seu julgamento mal sucedido, incorrendo em prejuízos).  Esta constante necessidade de estar sempre tendo de agradar aos consumidores implica necessariamente prudência e poupança para os contínuos investimentos futuros.

Já a demanda do governo é financiada pelo dinheiro extraído via impostos.  Os cidadãos pagadores de impostos são obrigados a sustentar os desejos e projetos de uma elite de políticos e burocratas coligada aos grandes setores empresariais, que são poderosos lobistas.  Tal demanda, totalmente artificial, gera desperdícios de capital e investimentos insustentáveis, muito embora seja bastante eficiente para encher os bolsos daqueles mais bem conectados politicamente.  Nenhum sacrifício é exigido da parte deste grupo beneficiado — todo o capital é confiscado da sociedade e redistribuído entre eles.

É exatamente isso que aconteceu em São Paulo. A prefeitura ignorou completamente que não havia uma demanda suficiente para todos os muitos quilômetros de ciclofaixas que foram implantados na cidade. Gastou muito dinheiro para isso e hoje o serviço disponível não é consumido. Basta dar uma volta por aí e verificar a quantidade de ciclistas nas ruas utilizando essas faixas. É uma quantidade realmente irrisória.

Fazendo um comparativo, é como se investíssemos uma quantidade enorme de dinheiro para implantar uma fábrica de aquecedores à gás em Cuiabá e esperássemos que, de uma hora para a outra, as pessoas resolvessem comprar nossos aquecedores simplesmente porque eles estavam disponíveis no mercado.

A implantação de ciclofaixas não cria, de maneira alguma, uma demanda para o serviço. A prefeitura achou que, pintando faixas vermelhas no chão, as pessoas passariam a comprar bicicletas e deixar de usar seus automóveis ou transportes coletivos.

Oras, Zuza, mas em vários outros países existem ciclovias convivendo com carros e transportes coletivos. É claro, meu amigo. A pergunta que eu faço é: as ciclofaixas foram criadas devido à necessidade de vários ciclistas que demandaram as suas implantações, ou foi o contrário? Fica fácil descobrir, não é mesmo?

O texto citado anteriormente ainda diz:

[…] a demanda do governo é limitada unicamente pela perspectiva de falência da entidade estatal.  Ocasionalmente, ela pode também ser limitada pela ação de eleitores mais sensatos.  O primeiro cenário é factível apenas na zona do euro.  O segundo, por enquanto, em lugar nenhum.

Sei lá, mas talvez no caso da cidade de São Paulo, não seja nem tão necessário termos eleitores muito sensatos para perceber que a prefeitura agiu precipitadamente nesse caso específico. É complicado criar demandas artificialmente, como é a intenção da gestão Fernando Haddad.

Até que a sorte nos separe? Ou: A História do Brasil do PT

Publicado: 2 de junho de 2015 por Kzuza em Economia
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Você já assistiu ao filme “Até que a Sorte nos Separe”? Na história, Tino e Jane ganham um prêmio na loteria de R$100 milhões de reais. Após 16 anos torrando o dinheiro loucamente em extravagâncias, o dinheiro acaba e eles passam por dificuldades. Precisam ajustar suas contas, parar de gastar, vender uma série de coisas que tinham comprado…. enfim, precisam mudar de estilo de vida totalmente! Tudo isso porque eles apenas gastaram o dinheiro, e não investiram nem guardaram nada.

Fazendo um paralelo com a história recente do Brasil, é mais ou menos o que aconteceu com os 12 últimos anos do governo petista. Não faz sentido? Lula recebeu um país ajustado economicamente das mãos do seu antecessor, FHC. A maré estava boa, o mercado de commodities em alta… E Lula sempre foi um cara populista. Sempre se identificou com o povo, principalmente pela sua origem humilde e sua história de luta ao lado dos trabalhadores. E ele definitivamente não é um cara burro: sabia que para continuar em alta com o “povão”, precisava fazer a alegria deles, agora que tinha sido alçado ao poder. E ele fez o mesmo que Tino fez no filme com seus filhos: ele os cobriu de bens, distribuiu dinheiro a rodo, investiu no bem-estar social, incluiu o pobre na sociedade definitivamente.

Mas assim como Tino, Lula não deu a mínima importância para a origem do dinheiro necessário para satisfazer as necessidades de seus súditos. Enquanto o cofrinho estava cheio, usou e abusou para comprar deliberadamente apoio de todos ao seu redor para perpetuar no poder. Deu certo. Conseguiu eleger e reeleger Dilma Roussef que, assim como seu antecessor, continuou a gastar dinheiro a rodo para enriquecer seus amigos e distribuir migalhas aos pobres, seus amigos necessários para mantê-los no poder (lembram-se, no filme, quando Tino pagava cerveja e fichas de sinuca para seus amigos no boteco?).

Enfim, chegamos a 2015, ano de início do segundo mandato de Dilma. E o que aconteceu? A grana acabou, meu caro. A abundância deu lugar à escassez. A fonte secou. Secada a fonte, chegou a hora de apertar os cintos. É o tal ajuste fiscal de Joaquim Levy. É o governo cortando gastos (quando corta) e aumentando impostos. Precisam se equilibrar, pois estão quebrados.

A diferença básica entre Tino e Dilma é que Tino não tinha de onde tirar mais dinheiro. Precisou pedir um empréstimo a um tio rico de Jane. Já Dilma tem ao seu lado a máquina do Estado e um exército de 200 milhões de contribuintes. Basta, através da coerção, fazê-los pagar mais impostos que o seu caixa aumenta. E não havia dúvidas que isso seria feito, assim que a situação começasse a ficar difícil.

Hoje, a população mais pobre paga essa conta. Desemprego e inflação em alta, redução de benefícios sociais, cortes de gastos na educação, etc. E todos se perguntam: o que aconteceu? É igualzinho ao filho de Tino, no filme, quando ele pergunta para o moleque quanto custa o sorvete: “Ué, pai? Você nunca perguntou quanto custa nada? Vai regular agora?”.

É a vida imitando a arte…

Interesse próprio não é egoísmo

Publicado: 22 de abril de 2015 por Kzuza em Economia, liberalismo
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kardecLi um texto hoje de Gary Galles, para o Instituto Ludwig von Mises Brasil, com o título Individualismo e interesse próprio não são egoísmo.

Você deve ler o texto inteiro, mas para ajudar eu extraí alguns trechos que achei muito inteligentes:

Quando Madre Teresa, por exemplo, utilizou seu Prêmio Nobel para construir um hospital para leprosos, ela estava agindo de acordo com seu interesse próprio, pois tais recursos foram utilizados para efetuar algo com o qual ela se importava. Mas ela não agiu de maneira egoísta.

O que pouca gente entende é que os seres humanos são, em sua maioria, muito mais sensíveis às mazelas dos demais espontaneamente do que quando forçados a isso. O que quero dizer é que as pessoas se prontificam muito mais a ajudar as demais de forma espontânea do que quando são forçadas a isso por algum motivo.

[Adam Smith] conclui que “restringir nossas emoções egoístas e satisfazer as emoções benevolentes é o que constitui a perfeição da natureza humana.” Em outras palavras, nosso interesse individual inclui o aprofundamento da nossa natureza benevolente.

É basicamente o que disse Allan Kardec na citação incluída no início desse texto.

Os ataques vêm de pessoas que pensam que suas preferências subjetivas deveriam se sobrepor às preferências dos proprietários e da maneira como estes controlam suas propriedades.  Para essas pessoas, os proprietários e suas respectivas propriedades devem ser, por meio da coerção do estado, domados, subjugados e forçados a se adaptar a essa visão redistributivista do mundo.  A intenção desses pretensos reformadores é simplesmente impor, à força, suas preferências sobre terceiros.

Ao agirem assim, eles paradoxalmente não parecem perceber que tal comportamento é a exata definição da ganância que eles tanto criticam.

Essa é uma conclusão perfeita, mas que machuca muita gente. Não é nada fácil para muita gente aceitar isso.

Terceirização, medo e alienação

Publicado: 14 de abril de 2015 por Kzuza em Economia, liberalismo
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Estava aqui relutando em escrever a respeito da PL 4330/2004, que regulamenta a terceirização de atividades fim pelas empresas, mas hoje vi o post abaixo na minha timeline, escrito por um amigo meu:

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Não pude me conter. Vou ser obrigado a escrever sobre o assunto, embora o post acima já diga muita coisa do que penso.

Bem, em primeiro lugar, eu já escrevi aqui sobre a CLT e sobre por que eu sou a favor da flexibilização da mesma. Mesmo assim vou continuar dando a minha opinião.

O fato é que o Estado joga para o empresariado, para o capitalismo e para tudo o mais que estiver a seu alcance a responsabilidade por não resolver os problemas que ele mesmo cria. E aí o Estado apresenta-se como salvador dos problemas criados por ele mesmo, e muita gente cai nessa cilada. Só que, para solucionar esses entraves, o Estado exige então de você, cidadão comum, uma colaboração involuntária, seja através de votos que elegem políticos que dizem defendê-lo dos patrões (aqueles diabos que acabam com sua vida diariamente!), seja através de mais impostos diretos ou indiretos que você acabará pagando.

Em suma, há um pensamento quase homogêneo na nossa sociedade (embora eu não esteja nesse meio e conheça muitas pessoas que felizmente não pensem assim também) de que patrões são ruins por só pensar em aumentar seus lucroso Estado é a única entidade que pode nos salvar da opressão dos patrões.


Pausa para uma reflexão: outro dia a casa de repouso onde minha avó, com Alzheimer, está internalizada completou 2 anos de atividade. A dona da casa de repouso fez uma festa para comemorar, e fez questão de reunir todos os funcionários. Minha mãe achou bacana o fato da dona e sua família terem tirado foto com todos os funcionários, pois segundo ela a clínica só funciona graças a eles. E completou: é uma relação de cumplicidade; a clínica depende dos funcionários, e os funcionários dependem da clínica para viverem.


Enfim, eu acho perfeitamente compreensível que os patrões pensem sempre em aumentar seus lucros. Eu mesmo faço isso também, embora não seja patrão, e também não conheço um único cara que não pense o mesmo. A diferença, na verdade, entre todos nós, é a forma como procuramos fazer isso. Há alguns que preferem roubar. Outros preferem explorar outras pessoas, usando para isso a força. Tem gente que prefere trabalhar mais, fazendo horas-extras no trabalho ou um “bico” por fora. Há até quem troque de turno de trabalho para receber um “adicional noturno”. Enfim, há diversas maneiras, algumas morais, outras imorais. O fato é que TODOS nós desejamos ganhar mais dinheiro.

O problema maior é que temos uma cultura que cultua o “mais por menos”. Queremos sempre mais, fazendo cada vez menos. Nem todo mundo está disposto a abrir mão de algumas coisas hoje (direitos, tempo, dinheiro, etc.) para colher frutos futuros. Não temos a cultura do investidor. O brasileiro é um povo que cultua o agora, o momento, e pouco se preocupa com o futuro. Olhe ao seu redor e comprove o que estou falando.

Dessa maneira, qualquer coisa que modifique o status quo é imediatamente apontada como ameaça. Mas será mesmo que a terceirização é uma ameaça, como tenta induzir esse artigo aqui, da Carta Capital? Dos 9 motivos apresentados, 5 deles possuem os verbos “dever” ou “poder”, indicando uma suposição.

Eu prefiro ter uma outra leitura, como esse artigo aqui. Acho que reflete um pouco melhor a realidade da coisa. Tem um outro aqui também bem bacana, para você ler um ponto de vista diferente.

O fato é que pouca gente entende que a relação do patrão forte versus empregado fraco só ocorre justamente porque nossa economia é extremamente fraca e pouco diversa. Temos uma indústria cada dia mais fraca e ultrapassada, com empregados cada vez menos produtivos e menos competitivos. Não há incentivo ao empreendedorismo no país. O governo sufoca o empresariado que, por sua vez, sufoca os empregados. Alta carga tributária, burocratização exagerada, infraestrutura fraca, entre outros, são fatores que cada vez mais suprimem nosso crescimento. E qual o resultado disso? A corda sempre arrebenta do lado mais fraco, o lado do trabalhador.

Há um texto bem curtinho aqui que mostra exatamente isso. Sem prosperidade, ninguém ganha.

Mas ainda querem te convencer que o cara mau da situação é o empregador, e não o governo. E muita gente cai nessa falácia.

Agora imaginem um lugar próspero, onde a livre iniciativa predomina, onde o emprego é abundante e a diversidade econômica é grande. Você acha que nesse lugar, o poder do empregado é maior ou menor do que aqui no Brasil, por exemplo? Você acha que patrões não irão querer pagar melhor seus bons funcionários, com medo de perdê-los para os concorrentes? Você acha que empresas que oferecem melhores condições de trabalho não irão atrair os melhores profissionais para trabalharem para ela? Você não acha que haverá, dessa forma, mais incentivo ao empresariado para reter seus talentos e remunerá-los melhor?

Aqui no Brasil hoje em dia esses incentivos são baixíssimos. Isso porque os patrões sabem que o emprego é raro. Sabem que uma pessoa tem medo de ficar desempregada e então faz qualquer coisa para ficar no trabalho, mesmo em condições ruins, mesmo com salários baixos. Sabem que a concorrência não é vasta o suficiente para “roubar” seus melhores profissionais e levá-los para trabalhar com ela. E isso não é culpa do empresariado, é apenas uma situação cômoda da qual eles se aproveitam, contando para isso ainda com o apoio do governo.

O problema do Brasil é esperar direitos antes de ter deveres. É esperar benefícios antes de fazer por merecer. É esperar um crescimento econômico sem antes se esforçar. É priorizar o fim e não os meios. É querer retorno sem fazer investimento.

Lutar por mais direitos trabalhistas em um país com uma pífia estrutura governamental, com péssima educação e o pior sistema tributário do mundo, é continuar dando tiro no próprio pé.

omisteriodoCapital

Hernando de Soto é um economista peruano e conselheiro de diversos chefes de estado. Em seu livro “O Mistério do Capital”, ele explica a importância da propriedade privada para o sucesso das nações. Ainda não encontrei o livro para comprar aqui no Brasil, mas li muito sobre ele pela internet.

O melhor artigo que li a respeito foi do Rodrigo Constantino, o qual você pode ler aqui.

Uma das citações importantes:

As dificuldades que o Terceiro Mundo encontra hoje para integrar seus setores ilegais à formalidade são similares ao que viveu o Ocidente no século XIX. É crucial para se construir esta ponte que as elites e os governos compreendam que as leis devem ser criadas de baixo para cima, ou seja, precisam atender às realidades do povo. Não adianta colocar em papel coisas que ninguém irá seguir. A grande maioria das pessoas prefere seguir na legalidade, mas estará sempre comparando as vantagens e desvantagens disso. Quando os custos de permanecer na legalidade ultrapassarem os benefícios, um novo contrato social será estabelecido naturalmente em diversas localidades, fugindo assim das regras estabelecidas.

Outra, que eu gostei bastante e que explica também como a humanidade evoluiu tanto no último século:

Outro exemplo que mostra o abismo existente entre o Terceiro Mundo e mundo civilizado está na propriedade intelectual. No Brasil, praticamente não existem pesquisas sérias que tragam significativos avanços tecnológicos. Isso ocorre pois não há uma regra clara e confiável para as patentes, para proteger os direitos de propriedade intelectual. O Brasil é mestre na direção contrária, de quebra de patentes, e ainda se orgulha disso. Já nos Estados Unidos, se respeita tal direito, e isso incentiva o ramo de pesquisas. Da mesma forma que o direito à propriedade física é crucial para a criação de capital num país, a preservação da propriedade intelectual é condição sine qua non para o avanço tecnológico. Imaginem se Bill Gates vivesse no Brasil: será que o mundo teria tido acesso ao progresso que a Microsoft possibilitou? Na mesma linha, diversas curas e avanços na medicina só foram possíveis pois os laboratórios tinham a garantia de patentes, possibilitando um bom retorno sobre seus investimentos em pesquisa. Tais avanços não foram obtidos através do altruísmo de alguns cientistas, mas sim pela busca do lucro, protegido pela lei.

E mais:

Os governos e elites precisam entender que são as regras do jogo que estão inadequadas, impossibilitando a integração de todos dentro do mesmo modelo. As leis não podem ser criadas sem levar em conta a realidade do povo e nação. Quando o governo estende direitos incríveis para os trabalhadores, não pode ignorar as leis naturais entre oferta e demanda de trabalho. Afinal, são exatamente todas as regalias garantidas aos trabalhadores que fizeram com que mais de 50% da mão-de-obra nacional fosse parar na informalidade.

Além de algo bem importante:

Se as leis escritas estão em conflito com as leis as quais os cidadãos vivem, descontentamento, corrupção, miséria e violência serão conseqüências inevitáveis. As leis oficiais precisam estar em acordo com a realidade dos fatos, pois papel e caneta não são capazes de alterar a natureza dos homens.

Para concluir, algo que muita gente tem asco só de pensar:

Enquanto o capital não chegar às massas, o sentimento de inveja, exploração e até luta de classes irá existir. A revolta contra a globalização cresce pois cada vez mais uma parcela maior da população se sente à margem deste processo. Podem comer no McDonald’s e usar Nike, mas estão fora do processo formal de propriedade.

E fechando:

Não foi o capitalismo que falhou no Terceiro Mundo, pois este nunca existiu de facto. A falha está na não adoção de um modelo correto que possibilite o acesso e acúmulo de capital da nação. O inimigo não é o capitalismo, mas sim o Estado inchado, que impossibilita o capitalismo de chegar às massas.