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É a cultura, estúpido!

Publicado: 12 de junho de 2017 por Kzuza em Comportamento, filosofia
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Vira e mexe, a frase título deste post volta à tona!

A notícia do final de semana foi o tatuador do ABC que flagrou um rapaz de 17 anos tentando roubar uma bicicleta e resolveu tatuar na testa do meliante: “Eu sou ladrão e vacilão”. O tatuador, com a ajuda de um comparsa, filmou o ato em uma cena digna do filme “Os homens que não amavam as mulheres”, quando Lizbeth Salander (magistralmente interpretada por Rooney Mara, diga-se de passagem) tatua na barriga de seu tutor, que a havia estuprado, a frase: “Eu sou um porco sádico, pervertido e estuprador”.

Como tudo é polarizado hoje em dia e pouca gente se dá o trabalho de pensar racionalmente sobre o assunto, imediatamente surgem dois grupos de pessoas nas redes sociais: um primeiro, com dó do garoto pela tortura que sofreu (contando inclusive com uma vaquinha para arrecadar fundos para apagar a tatuagem do rapaz); e um segundo, o grupo do ‘bandido bom é bandido morto’ ou do ‘fez por merecer’.

Enfim, tanto o primeiro como o segundo grupo são facilmente identificados como sentimentalistas exacerbados. No primeiro grupo, a emoção mais aflorada é a compaixão; no segundo, a ira. O problema é que, em ambos os casos, todos se identificam de forma muito semelhante ao torturador que tatuou a frase na testa do ladrãozinho. Todos são incapazes de controlar suas emoções (ou, no mínimo, sentem prazer em não o fazer) e raciocinar de forma lógica a respeito do ocorrido.

Essa falta de discernimento e a abnegação da busca pela verdade e pela justiça são resultados de uma enorme corrente de pensamento que domina a nossa sociedade atual. Há inúmeras teorias para explicar o porquê de termos chegado a esse ponto, mas não cabe a mim discuti-las nesse post, até porque invariavelmente o assunto recairá sobre a política, tema o qual eu já desisti de comentar. No entanto, cabe a mim tentar abrir os olhos do caro leitor para uma realidade: estamos todos tomados de fortes emoções, mesmo que as minhas contradigam as suas, e não estamos sendo capazes de domá-las para atuar sob domínio da razão.

Já mencionei aqui e aqui o livro “Podres de Mimados” do Dalrymple, onde ele explica muito bem tudo isso. Volto a recomendar a leitura.

Mas voltando ao caso que originou este post, acho que nunca a frase “um erro não justifica o outro” fez tanto sentido. O problema é que, na ânsia de se tomar partido e expor sua opinião, a maioria das pessoas acaba por absolver um dos dois infratores. Em uma batalha verborrágica para se identificar qual dos dois crimes é mais grave (e onde a vitória só é possível em caso de derrota absoluta por nocaute do lado oposto), os tais debatedores acabam por instaurar uma cortina de fumaça que cobre o real problema exposto pela situação.

O fato é que em um país onde o mínimo não funciona corretamente, as pessoas decidem então resolver as coisas por conta própria, já que tudo parece terra de ninguém. Quando eu digo o mínimo, eu me refiro à garantia que os cidadãos precisam ter de não terem sua propriedade (física, intelectual ou material) agredidas ou invadidas por outrem; e caso isso venha a ocorrer, que haja um julgamento justo daqueles que infringiram o pacto de não mexer naquilo que não é seu.

Parece-me bastante razoável que quando princípios morais básicos são observados minimamente em uma sociedade, tanto o número de infrações quanto o número de julgamentos injustos tendem a cair consideravelmente. Mas então o que leva uma sociedade a observar esses princípios? Em primeiro lugar, eu acredito: exemplos. Nada é mais capaz de influenciar o comportamento das demais pessoas ao seu redor do que um bom exemplo. Seja na sua família, seja no seu emprego, seja na sua vizinhança. Bons exemplos advêm de instituições (ou organizações) sociais que sobrevivem ao longo da história, aprendendo e evoluindo, formando a base do que conhecemos hoje como civilização. Essas instituições, goste você ou não, são basicamente a família e a igreja.

Seria irracional dizer que indivíduos criados em uma base familiar sólida e com base em ensinamentos religiosos seriam incapazes de cometer atrocidades. No entanto, a realidade mostra que a possibilidade de isso acontecer nesse grupo de pessoas são bem menores do que nos casos onde ou a família, ou a igreja (quando não os dois) não fazem parte da vida dos indivíduos.

O problema é que há muito tempo essas instituições que são base da nossa civilização (imperfeita, diga-se de passagem, mas em uma evolução geométrica) têm sido marginalizadas e hostilizadas, em um movimento cada vez maior que prega o abandono a instituições e valores tradicionais. Com a ausência cada vez maior da presença dessas instituições, há uma transferência subsequente dos poderes de decisão entre certo e errado, entre o que pode ou não pode para outras entidades. O que se vê por aqui, em terras tupiniquins, é justamente que esse poder acaba então caindo no colo de quem está menos preparado para isso.

Com uma justiça extremamente lenta e falha, aliada à uma população que não possui nenhuma âncora de valores morais, não é de se espantar que tenhamos índices de criminalidade já altíssimos e em curva de ascensão. Os mais de 60 mil homicídios por ano colocam o Brasil na liderança do ranking de assassinatos per capita no mundo.

No lado oposto dessa moeda, também não é de se espantar que se cresça o número de justiceiros como o tal tatuador do nosso caso. Não são raros os casos de bandidos capturados pela população que são amarrados a postes, torturados e espancados. Falta também a essa gente, assim como aos primeiros, uma boa dose de valores morais, mesmo que levantem a bandeira da luta contra o mal com uma mão, enquanto com a outra fazem a sua “justiça”.

Portanto, independente de qual lado você adotou nessa história, você não está nem um pouco preocupado com a solução do problema. Você simplesmente está externalizando suas emoções mais afloradas. Está querendo apenas “lutar contra o que está errado”, mesmo que esteja olhando apenas para o sintoma e não para a doença. Enquanto você não entender isso, seu Facebook será apenas um muro das lamentações. Sua vida será apenas uma eterna tentativa de se fazer o bem, mesmo que os resultados sejam sempre trágicos. Para um lado ou para o outro.

Ao mesmo tempo que a diversidade tem sido a palavra da moda nos últimos tempos, tenho reparado que a mesma só tem sido bem vinda quando convém ao establishment. Em outras palavras, o que é “diferente” só é bem vindo quando serve aos interesses de um grupo quase homogêneo que domina a grande mídia e o meio intelectual.

Quando se trata de uma garota beijar outra garota, ou de um garoto beijar outro garoto, a tal ‘quebra de tabu’ é sempre bem vinda, desde que as pessoas envolvidas estejam alinhadas com o discurso ideológico em voga. O mesmo acontece para mulheres que deixam seus pêlos crescerem, para homens que querem usar barba colorida ou uma saia comprida, para adeptos de dietas alimentares alternativas, para ‘religiões’ modernosas… enfim, tudo que gira em torno dessas esquisitices deve ser louvado, trazido à público como grandes novidades, como quebra de paradigmas. Na onda do progressismo, vale o lema de Raul Seixas: ‘Faça o que tu queres pois é tudo da lei’.

Porém, quando se tratam de opiniões e ideias que fogem do establishment, a diversidade não é nem um pouco apreciada.

Qualquer vírgula que seja colocada fora do lugar em sentenças já estabelecidas como verdade (acho que já falei sobre pós-verdade aqui) é motivo para que seu interlocutor seja taxado de antiquado, caretão, conservador, fascista, machista, homofóbico e por aí vai, de acordo com o tema abordado.

Pensando de uma maneira racional, a lógica argumentativa progressista baseia-se na regra: se está de acordo com o que eu penso e trará mais integrantes para o meu grupo, está correto (mesmo que não seja verdade, pois, nesse caso, o ônus da prova está com quem discorda da minha linha de pensamento). Já se está contra o que eu acredito, é automaticamente falso (e qualquer exame sobre a lógica, ou seja, sobre a verdade é dispensado, sendo substituído facilmente por qualquer xingamento ou caretas de reprovação).

De certa forma, entendo quem escolhe pensar desta forma. É muito mais confortável pensar assim. E fica mais fácil ainda quando a opinião contrária é uma voz praticamente única em um mundo culturalmente corrompido. Quando alguém ousa levantar a mão e questionar, é muito mais fácil soltar um “cala a boca” do que simplesmente mostrar que ele está errado.

Quando busca-se silenciar todas as opiniões diferentes, o mundo fica estagnado. Pois, caso a verdade seja calada, quem voltará a descobri-la?

Crise moral

Publicado: 18 de abril de 2017 por Kzuza em Comportamento
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Palmeiras x Corinthians. Jogo válido pela primeira fase do campeonato paulista de 2017. O jogador Keno, do Palmeiras, sofre uma falta por trás cometida pelo volante Maycon, do Corinthians. O outro volante, o jogador Gabriel, que vinha acompanhando a jogada, já tinha cartão amarelo. Ao se levantar após a falta, Keno aponta imediatamente para Gabriel, e o árbitro aplica o segundo cartão amarelo e, consequentemente, o vermelho no jogador errado. Muita confusão. Jogadores do Corinthians em peso tentam alertar o árbitro do equívoco, mas ele não muda de opinião. Nenhum jogador do Palmeiras se manifestou.

São Paulo x Corinthians. Jogo válido pelas semifinais do mesmo campeonato paulista de 2017. Em uma bola no ataque do Corinthians, o atacante corinthiano Jô e o zagueiro Rodrigo Caio disputam a bola, que estava muito mais próxima do goleiro Renan Ribeiro, que fica com ela. No lance, Rodrigo Caio se choca com o goleiro do próprio time, que fica no chão. O árbitro, de longe, aplica o cartão amarelo no atacante Jô. Imediatamente, Rodrigo Caio comunica o juiz da partida que foi ele quem se chocou contra o goleiro, e que o cartão é injusto. O árbitro volta atrás e aplaude o jogador tricolor.

As situações relatadas acima são completamente antagônicas. Uso-as propositalmente nesse artigo para demonstrar uma crise moral pela qual passamos aqui no país.

No primeiro episódio, o foco foi colocado apenas no juiz da partida, que de fato cometeu um erro crasso. Ele acabou sendo punido, como de fato deveria ser. No entanto, pouco ou praticamente nada se comentou sobre o fato de nenhum jogador, nem o treinador e nem ninguém da comissão técnica do Palmeiras terem se manifestado. Não houve um mísero ser humano digno de um pingo de honestidade para poder safar o juiz, a partida e, principalmente, sua própria honra de homem.

Já agora no segundo episódio, apesar de felizmente muita gente estar comentando favoravelmente a atitude de extrema hombridade de Rodrigo Caio, inclusive os próprios adversários corinthianos, ainda somos obrigados a ver gente imbecil como o jornalista Juca Kfouri comentando: Não fez nada mais do que a obrigação. Sério, Juca?

Na minha opinião, a honestidade não é uma virtude. Ela é apenas uma característica moral que deveria passar desapercebida por aí. É algo como o fato de não se matar ninguém. Não é uma grande qualidade, apenas a obediência a um princípio moral universal. Acontece que aqui no Brasil desenvolvemos algo que vai além disso, a tal “Lei de Gerson”. A honestidade por aqui é vista com maus olhos, é coisa de gente tola. E acho que, justamente por isso, é extremamente necessário louvar atitudes como a do jogador sãopaulino de pé, exaltá-la aos quatro cantos, principalmente pela mídia formadora de opinião. É algo para se mostrar nas escolas para as crianças mais novas. É algo para se incentivar, vibrar. É digno de uma estátua no estádio do Morumbi. E sabe por quê? Para que possamos um dia tentar colocar fim à Lei de Gerson. Para que um dia não precisemos mais ficarmos maravilhados e atônitos diante de um gesto que deveria ser, como Juca disse, mera obrigação.

Esse desvio moral vai muito além do futebol. Recentemente, em uma entrevista no programa Pânico no rádio, os fundadores do site Ranking Políticos respondiam a uma pergunta do apresentador Emílio Surita: mas político não é tudo igual? Eles mencionavam que existiam atitudes que mostravam se um político era pior ou melhor que outro. Citaram o exemplo do senador José Reguffe que abriu mão de uma série de benefícios como parlamentar e reduziu o número de assessores, tudo em caráter irrevogável, economizando assim uma quantia absurda de dinheiro ao longo dos 4 anos de mandato. Tanto o apresentador quando outros integrantes da bancada do programa disseram que isso era mera propaganda, marketing, demagogia. Uma das integrantes do programa chegou até a criticar o prefeito João Dória por doar seu salário para entidades filantrópicas do terceiro setor e mostrar isso na internet.

Veja até que ponto vai a mente doentia das pessoas. As atitudes dignas desses políticos, por mais corretas que possam ser, são minimizadas porque são apenas objeto de propaganda. Sério? Eu quero é que se dane. Não me importa! O mais importante é que façam o que é certo. Se for para mostrar na internet, se for para ganhar votos, se for para deixar a mamãe feliz, eu não me importo, desde que seja o correto a fazer e que sirva de exemplo aos demais.

Se você anda relativizando boas atitudes por aí só porque não foram realizadas por seus amigos, por pessoas do seu partido político ou por jogadores do seu time de futebol, tenha muito cuidado. Você certamente já foi contagiado por essa crise moral avassaladora que passamos aqui no país.

Por mais Rodrigos Caios!

O que está na moda?

Publicado: 17 de abril de 2017 por Kzuza em Comportamento
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Hoje abri uma página na internet e me deparei com a notícia: “Sereias deixam o mundo da fantasia e viram moda“. Outro dia mesmo também tinha lido uma reportagem de um “sereio” do Rio de Janeiro, adepto de um novo movimento chamado “sereismo”. Fui procurar entender do que se tratava e descobri que a Rede Globo agora está com uma nova novela onde uma das personagens é uma sereia, então isso diz muito sobre as diferentes reportagens sobre o mesmo assunto que estão surgindo.

Mas enfim, a última reportagem diz que as sereias estão na moda. A pergunta que eu faço é: moda de quem, cara pálida?

Tenho reparado que constantemente reportagens nessa mesma linha têm aparecido em portais da internet com cunho progressista. Já li sobre a moda dos homens que usam saia, das mulheres que não se depilam, das barbas coloridas, do “largar tudo para ser feliz”, entre outras. E mais uma vez me pergunto: quantas pessoas você conhece que são adeptas dessas novas “modas”?

Eu tenho uma vizinha que pinta o cabelo de lilás. Se eu fosse pseudo-jornalista cool de um desses canais da internet, logo escreveria uma manchete: “A moda agora é usar cabelo lilás”.

Não que não existam pessoas que se enquadrem nessas novas modinhas, mas parece-me que cravar que esses comportamentos tenham se tornado moda é um pouco exagerado, e muito provavelmente tem uma segunda intenção (ou várias).

A minha suspeita é a de que tais movimentos não são uma realidade, mas são assim retratados por uma imprensa (e nem sei se pode ser chamada assim) comprometida com a implantação de uma agenda cultural progressista. Essa agenda é voltada para a desconstrução (palavrinha boa essa!) de valores conservadores e da moral existente. Não importa que não seja legal, não importa que a maioria das pessoas não gostem ou torçam o nariz para as novas “modas”, o importante é a pós-verdade: fazer acreditar que algo é real.

Sugiro, e o leitor pode não seguir meu conselho, que tenham muito cuidado com isso. Principalmente crianças e jovens são altamente sugestionáveis a esse tipo de comunicação, e os resultados podem não ser satisfatórios.

Quando a exceção vira regra

Publicado: 30 de janeiro de 2017 por Kzuza em Comportamento
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Andei reparando em uma coisa ultimamente: quase todo mundo está se utilizando de casos excepcionais para (tentar) confirmar as suas convicções ideias. E isso em todos os aspectos da vida.

Já disse aqui anteriormente que as pessoas utilizam-se de vários subterfúgios para confirmar suas ideologias. Procuram encaixar os fatos, nem que seja manipulando-os, em sua forma de pensar. Mas nada para mim é tão gritante quando tentar se utilizar de casos isolados para confirmar determinado pensamento. Exemplos para isso não faltam.

O cara pega o exemplo do filho da faxineira, cujo pai alcoólatra fugiu de casa quando ele ainda era um bebê, e que passou em primeiro lugar em Oxford após ter estudado apenas com livros encontrados no lixão de Carapicuíba para dizer: está vendo só? Basta ter vontade e se esforçar! A meritocracia funciona! Vagabundo tem mais é que se foder mesmo!

O outro pega um caso de massacre dentro de uma escola americana, onde um estudante armado de uma submetralhadora matou 10 coleguinhas e depois se suicidou, e sai bradando por aí: a solução é proibir a venda de armas de fogo! Veja que absurdo! Se o garoto não tivesse uma arma, nada disso teria acontecido! Vidas precisam ser poupadas!

O terceiro pega o caso do avião da Airfrance que caiu no meio do oceano em 2009 por uma falha mecânica e diz: É por isso que eu não vôo! Voar é muito perigoso!

O quarto pega um dos muitos casos de estupro registrados no Brasil e brada: Vivemos uma cultura do estupro!

O quinto pega um caso onde um preto foi discriminado por conta da cor da sua pele e logo se prontifica: vivemos em uma sociedade racista!

Enfim, poderia ficar citando inúmeros exemplos aqui. E o que eu quero dizer com isso?

Nos 5 casos acima, independentemente do acontecimento ocorrer em proporções maiores ou menores dentro do todo, o conjunto desses acontecimentos nunca é maioria. Há muitos poucos casos de filhos de faxineira sendo aprovados em Oxford. O número de mortos em massacres em escolas americanas é muito baixo (para se ter uma ideia, mais pessoas morrem atingidas por raio nos EUA do que nesses massacres). O número de aviões que decolam e pousam em seus destinos normalmente é infinitamente maior do que aqueles que sofrem acidentes. A maioria esmagadora da população brasileira abomina ferozmente o estupro, inclusive os presidiários. E eu duvido que você me comprove que a maioria das pessoas que você conhece são racistas.

Por outro lado, veja só, esses casos isolados servem para nos mostrar uma coisa extremamente importante: tais eventos são perfeitamente possíveis, tanto é que ocorrem muitas vezes. Isso não quer dizer que esse seja um comportamento padrão, mas sim nos deixam em alerta para a possibilidade de ocorrência desse evento. Além disso, são eles que nos fazem evoluir como sociedade: eles nos ensinam como prevê-los, como combatê-los e, principalmente, o que fazer quando eles ocorrem.

O problema que eu vejo quando se toma a exceção como regra para um certo tipo de comportamento é que as pessoas então perdem o foco. Ao invés de atacarem a causa-raiz do problema, passam a eleger entes abstratos a serem combatidos e, dessa forma, não chegam a conclusão nenhuma. Quando o inimigo é invisível, quando ele não tem nome e nem forma, nossa evolução enquanto civilização é freada. Porém, mesmo quando a causa-raiz não possui uma identidade concreta, esses casos de generalização a partir da exceção fatalmente incorrem em mirar nos alvos errados.

Quando um garoto pobre não consegue frequentar uma faculdade de primeira linha, aqueles que defendiam o primeiro caso como regra, não como exceção, irão culpar a falta de disciplina, de esforço, de dedicação. Deixam, portanto, de avaliar outros fatores que contribuem para isso, como principalmente a diferença de oportunidades e condições de vida.

Quando um massacre ocorre em uma escola, poucos irão se ater ao fato de que escolas e igrejas são as tais gun free zones (zonas livres de armas) nos EUA e, fatalmente, os locais das maiores tragédias. Ninguém irá se atentar, até porque não existe nenhuma ONG e nenhuma rede de televisão interessada nisso, à quantidade de vidas salvas diariamente pelo fato das pessoas possuírem armas para se defender de bandidos nos EUA. Não se olha a quantidade de atentados evitados apenas porque um ser humano de boa índole estava armado quando um bandido apareceu. Exemplos para isso não faltam, é só pesquisar.

O caso da queda de avião demonstra bem um caso de sucesso, porque quando um avião cai, investigadores e especialistas se reúnem para analisar a causa raiz e determinar ações para que o problema não volte a acontecer em outras situações. Em um paralelo com o que acontece nas esferas sociais e políticas de nosso país, se acidentes aéreos fossem tratados como os demais casos que acontecem por aqui, teríamos imediatamente o governo agindo para reduzir drasticamente o número de vôos.

Quando um estupro acontece, e isso tem acontecido com uma frequência assustadora no Brasil, há um barulho enorme causado por pessoas que culpam a sociedade, a cultura do estupro, o machismo, o Schwarzenegger, o Rambo e até o Van Damme pelo ocorrido. Bullshit. São raras as mentes pensantes que identificam os únicos culpados pelos casos de estupro: os estupradores. Pasmem, isso é verdade! Identifiquem, divulguem, prendam e punam exemplarmente os estupradores, e a incidência desse crime diminuirá. Tolerância zero com eles!

A mesma observação segue para os casos de racismo. E olha que estou falando de racismo mesmo, discriminação pura e simples, como privar uma pessoa de seus direitos somente por conta da cor da sua pele. Esses casos existem no Brasil, não há dúvidas, mas eu duvido que sejam compartilhados pela maioria da população (até porque nossa maioria é preta). Normalmente quem brada contra uma “sociedade racista” o faz do alto do conforto do seu lar, em bairros nobres de cidades grandes. O que pouca gente quer enxergar é que os casos de pretos sendo assassinados apenas pelo fato de serem pretos são minoria. Pretos normalmente são assassinados por outros pretos, e isso denuncia a real causa do problema no Brasil: nossa segregação aqui não é racial, é social. A discriminação que ocorre aqui é social, não pela cor da pele. Pretos, em sua maioria, vivem à margem da sociedade, e esse é o problema. (Aliás, vi um vídeo muito interessante sobre isso!)

Assim, eu vejo que essa dificuldade em pensar, em analisar e em identificar corretamente as causas dos problemas a fim de combatê-los é um grande obstáculo para nossa sociedade. As pessoas estão mais preocupadas em defender suas bandeiras ideológicas, através de nomes bonitinhos e causas que são facilmente aceitas pela maioria das pessoas, e tornam-se demagogas demais. Os problemas continuam acontecendo e ninguém faz nada contra isso.


Ps1: achei o texto raso demais, mas foi o que eu consegui produzir. Logo devo complementá-lo.

Ps2: sim, não gosto do termo “negro”, por isso chamo de “preto” mesmo. Esse cara aqui me ajudou com isso:

Partilho da mesma opinião do Zuza no texto anterior, que foi mais focado em comentar sobre, 1) a comparação grafite x pichação, 2) o ato ser ou não artístico e 3) a legitimação do ato.

Mas meu objetivo é apenas alimentar a treta sobre outro aspecto:

Toda essa pseudo-polêmica atual é puramente política ideológica!

 E respondendo ao título:

Porque falamos de pichação agora, e desde quando isso se tornou relevante?

Porque quem controla os meios de comunicação quer. Porque redações de jornais agem em conluio aos movimentos progressistas, pautando o que deve ser discutido na maior cidade do Brasil apenas porque precisam fazer oposição política ao prefeito que nem fechou um mês de mandato.

É fato, a mídia cria a notícia e define a opinião em nome de todos nós.

E vale lembrar que João Dória foi eleito de forma democrática, pela maioria esmagadora da população, mas os derrotados não aceitam o resultado das urnas! (Hahahahaha, adorei usar esse argumento!!!)

Por trás disso tudo existe uma militância que usa os pichadores como massa de manobra para fazer oposição politica ao atual prefeito de SP, o inimigo número 1 da extrema esquerda progressista brasileira.

Por que penso assim?

Em 2016 a prefeitura de SP sob o comando do petista Fernando Haddad, mesmo tentando agradar todos os movimento da sua agenda de extrema-esquerda, cobriu diversos espaços grafitados no Minhocão. Ele alegou que não estava “autorizado” e que não era um espaço apropriado… Não houve um pio!

Antes disso o ex-prefeito Gilberto Kassab, com a lei cidade limpa, apagou diversos grafites, do tipo cartão postal, no centro da cidade, inclusive algumas dos famosos artistas “os gêmeos”… nenhum pio!

Agora intelectuais, urbanistas da USP, fefeleches e opinadores de programas matinais, enxergam nas ações do programa “cidade linda” a oportunidade de se apropriarem dos pichadores, criaram um novo factóide e ganharam os holofotes na imprensa, que por sua vez é conivente, sem nunca tocar numa lata de spray, roubando assim o protagonismo de quem picha.

Desde então o que se lê e vê nos noticiários diários gira em torno da suposta “importância do picho para a cidade”.

No mundo mágico da UOL/FalhadeSP, GoebbelsNews e demais portais, Sampa se tornou uma cidade maravilhosa sem problemas sérios, cujo interesse da população é reconhecer os pichadores como cidadãos exemplares, merecedores de medalhas e aplausos. 

Querem tornar o picho uma manifestação social de “expressão dos excluídos”, através de uma narrativa de que este ato precisa ser entendido, compreendido, e qualquer política de combate é uma ação preconceituosa, repressora, excludente, que marginaliza o grupo, e os pichadores representam grande parte da sociedade.

Desde quando o pichador está afim de protestar? Desde quando pichador quer algum tipo de reconhecimento social?

Pura besteira, nada muda o fato de que pichação é degradação e feio!

A pichação é transgressora desde suas origens no movimento punk, é contracultura, e ser contra o sistema de estado faz parte do ato.

Transgredir é o objetivo da pichação e a transgressão é, por si, desrespeitar as normas, ultrapassar os limites, violação da lei!

Na boa, vocês acham que pichador quer, por exemplo, que um PM ou um cidadão o ajude a subir um muro, invadir um prédio e aplaudir seu ato de pichar?

Acha que pichador quer receber medalha em assembléias legislativas ou que o ato de pichar seja considerado algo correto, belo e moral?

Acha que pichador quer incentivo estatal, ou que tenham suas latas de spray subsidiadas? (É, esse eu acho que sim, :/)

É isso que estão querendo? 

Duvido, isso é coisa de carola, coxinha, coisa de crianças querendo atenção.

Não vejo pichadores assim, mas vejo esse desejo nos intelectuais burgueses que buscam o protagonismo desse grupo sem nunca sujar o dedo numa lata de spray, nem tiveram a cara pintada ao ser pego por um PM, nem sentiram a adrenalina em escalar prédios de fazer inveja a qualquer praticante de parkour.

Que nada… essa trupe se contenta em analisar sociologicamente o picho das suas sacadas gourmet revestida com uma textura cinza pastel, ou então tomando uma cerveja artesanal em um bar na Vila Madalena, cujo parede está coberta por adereços que embelezam o lugar é o torna aconchegante do inverno e descolado no verão.

Olha que bonito o filhinho playboy do embaixador transgredindo!

Pichador quer reconhecimento entre pichadores, querem desafiar as autoridades do estado, quer incomodar, querem adrenalina, quer ser xingado por aquele tiozinho que pinta a fachada da casa recém pichada, quer transgredir!

Criar uma suposta divisão social é o objetivo político da extrema esquerda progressista, mesmo que a unanimidade trata a pichação como um ato criminoso em SP e em qualquer outro estado brasileiro ou em qualquer outra cidade do mundo, um dano ao patrimônio público, um ato de vandalismo, que degrada a paisagem e gera prejuízo a terceiros. “Curtir” pichação nunca foi um sentimento compartilhado nem por 1% das pessoas, e nem mesmo é compartilhado por pichadores!

Não caia nessa galera, não sejam manipulados! Pensem!

A patota militante usa da velha estratégia de tentar mudar o sentido das coisas apenas criando rótulos e mudando o nome do que quer subverter.

Não adianta chamar um garfo de colher para que ela se torne uma colher, continua sendo um garfo, continua péssima ferramenta para degustar uma deliciosa sopa!

Portanto camarada… Pichação é pichação! Um dano a propriedade pública ou privada.

Dizer que é “manifestação” não muda nada. Dizer que é “cultural” não muda nada. Dizer que é “uma forma de expressão” não muda nada.

Acho hilário quem tenta mudar o sentido das coisas por birra ideológica, por puro embate político…

Baloeiros, fica dica… Busquem pelos mestres das massas políticas, quem sabe a mídia e esses movimentos não consigam elege-los como os novo baluartes da aviação!!

Amigão pichador, quer pichar? Picha!

Mas aceite as consequências!

O pichador que não gosta de pichar a própria casa, Mito! https://www.youtube.com/shared?ci=e3S8RBtizPc

Fui!

Mathias.

É claro que eu não poderia deixar de escrever sobre a polêmica do momento. Vira e mexe esse assunto retorna à tona, e não foi diferente agora que o novo prefeito de São Paulo resolveu declarar guerra aos pixadores.


Opinião Pessoal

Bem, primeiro vamos à minha opinião. Opinião pura e simples, sem juízo de valor. Vamos falar do que eu gosto, lembrando, como eu disse em um post recente, que não é porque eu gosto de alguma coisa que ela é necessariamente boa.

Acho grafite um negócio legal pra caralho. Bonito mesmo. Há, entre artistas mais famosos e os anônimos, gente de extrema qualidade que consegue embelezar qualquer pedacinho de muro por aí. Se você mora em São Paulo, consegue ver diariamente vários exemplos disso. O mais legal deles, na minha opinião, é esse:

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Foto de Fernando de Santis

Por mim, a cidade seria coberta de painéis como esse ou como os da Avenida 23 de Maio. Ah, como eu gostaria que as coisas fossem simples assim. Mandaria grafitar até o Obelisco do Ibirapuera, a Ponte Estaiada todinha, o Minhocão, todas as pontes da Marginal Tietê… ia faltar tinta nessa porra! Ah, como eu gostaria que a cidade fosse minha!

Opa, mas pera lá. Gosto muito de grafite, mas odeio pixação. E sabe por quê? Porque pixo não me diz nada. Não entendo porra nenhuma daquelas letras. E não há ordem nenhuma. E não há respeito nenhum. Basta ver essa foto aí em cima. O que está no primeiro plano não é um muro, nem um painel. É um tapume que cerca uma área em obras no local (obra esta que está lá há pelo menos uns 6 anos). E os caras pixaram em cima dos grafites feitos nesse tapume. O cara foi lá e cagou em cima da arte de um outro.

Mas novamente, finalizando essa parte, isso é mera opinião pessoal. É um gosto meu. Não estou fazendo juízo de valor. É apenas o que eu acho, baseado no que vejo e no que sinto. Ou seja, é algo meu, então você nunca vai entender completamente.


Arte de rua ou bandeira política?

Aqui entra a parte mais delicada dessa história toda.

Antes de entrar em qualquer discussão sobre arte x não-arte, é importante entender o porquê desse assunto ter vindo à tona nesse momento.

O fato é que, após 4 anos de administração petista na cidade de São Paulo, Fernando Haddad não conseguiu se reeleger. Apesar de todas as suas boas intenções (e eu acredito muito nisso), sua administração não foi bem recebida pela população. Tanto é que foi derrotado ainda em primeiro turno, com uma vitória esmagadora de João Dória, do PSDB. Foi a primeira vez que as eleições na capital paulista foram decididas em primeiro turno. (Veja bem, animal, antes de me criticar: aqui são só fatos, não opiniões!)

Dória tem, portanto, grande apelo popular, apesar de não ser nem um pouco o queridinho da mídia mainstream. Pelo contrário. Desde que assumiu o cargo, há menos de um mês, é bombardeado diariamente por 2 dos maiores veículos de informação em massa do Brasil: o jornal Folha de São Paulo (que pauta também o maior portal de internet do país – o UOL) e a Rede Globo. Às vezes de forma velada, às vezes às claras, mas o novo prefeito está sendo alvo das críticas diariamente. Não vou abordar aqui, para não me estender mais do que o habitual, sobre os motivos desta perseguição, então permito-me relatar apenas fatos.

Isso leva, infelizmente, ao que Leandro Narloch relatou em seu artigo na Folha de São Paulo (veja só!!!) essa semana, onde ele diz que nós fingimos defender ideias e princípios, mas na verdade, defendemos pessoas.

Ou seja, muita gente (senão a maioria) não está muito preocupada em discutir se as decisões do prefeito a respeito da guerra à pixação e da limitação dos grafites na capital paulista faz sentido ou não, se é boa ou não, se tem impacto positivo ou negativo. A regra é: se foi o Dória que decidiu, então não deve ser coisa boa.


Discussões sobre o tema

Para que eu pudesse formar um juízo a respeito do assunto, de forma racional, decidi pesquisar mais a respeito e ver o que as pessoas estavam dizendo por aí. Então selecionei as coisas mais interessantes que vi sobre o assunto.

Primeiramente, deixo um documentário francês bem bacana sobre a pixação em São Paulo:

Agora, um vídeo do canal Cidade Ocupada, do jornalista Fred Melo Paiva, também falando sobre o assunto:

Além dos vídeos, também dei uma olhada sobre o que o pessoal anda falando nas redes sociais, o que, querendo ou não, acaba sendo um bom termômetro.

Treta #1

Uma postagem bem interessante é a que está abaixo. Desconheço o autor, mas a mensagem foi postada por um amigo meu em sua página:

Na discussão que se seguiu nos comentários da postagem, a posição desse meu amigo (que ao contrário do que ele pensa sobre ele mesmo, é inteligente pra caralho!) é a de que o Dória é extremamente marketeiro. Ele não chegou a criticar abertamente a ação do prefeito em apagar pixações (embora talvez meu amigo tenha considerado isso bizarro), mas sim o fato do prefeito estar utilizando isso como uma bandeira para aparecer.

Nesse ponto, concordo completamente com ele. Dória chegou como um “não-político”, e até por causa disso sempre foi odiado dentro do próprio partido, com exceção do seu padrinho Geraldo Alckmin. Chegou com a promessa de trabalhar duro, de fazer acontecer. Mas o cara é empresário, entende de marketing, e precisa cuidar da sua imagem, precisa estar em evidência, e tem feito isso como ninguém. O prefeito tem pautado a imprensa paulistana diariamente, e tem feito isso como um grandessíssimo político.

Talvez a diferença de pensamento entre eu e esse amigo esteja no fato de que eu estou pouco me importando se o cara faz as coisas por marketing ou não. O importante para mim é fazer o trabalho bem feito e trazer bem estar para a população. (Veja, ainda não emiti meu juízo sobre as ações do prefeito acerca do tal “Cidade Linda”, pois isso vai ficar só para a última parte do texto, então não dê xilique!) É claro que eu preferia um cara mais na dele, que só mostrasse resultados, que trabalhasse e não precisasse estar na capa do jornal vestido de gari, lixeiro, cadeirante, drag queen, nem nada parecido. Mas sinceramente, isso pouco me importa se ele estiver garantindo que a população esteja bem. Até porque, tratando-se de uma das 6 maiores cidades do mundo, acho bem difícil um prefeito passar desapercebido pela mídia. Imagino a quantidade de jornalistas atrás dele diariamente, a cada passo que ele dá. E foi assim com todos os prefeitos de São Paulo que me lembro.

Mas esse não foi o principal ponto da discussão desse post. O principal ponto aqui é justamente o que eu mencionei na sessão anterior: a bandeira política.

O fato é que pixar é crime, previsto em código penal. Discordo do deputado Conte Lopes, no vídeo do Fred Melo, onde ele usa o argumento raso de que “é crime porque está previsto em lei”. A escravidão já esteve prevista em lei, e nem por isso deixava de ser um crime moral. O que torna a pixação um crime não é o fato disso estar escrito em um pedaço de papel, mas sim que ela não respeita um código moral e ético básico da sociedade em que vivemos que é o respeito à propriedade privada. Ainda vou gravar um vídeo falando sobre isso, mas o que vale dizer aqui é que qualquer violação à propriedade de outrem (seja ela física ou mental) é sim um crime. Assim como eu não posso chegar e tatuar o seu braço porque eu acho isso bonito, sem sua autorização, você também não pode pintar a parede da minha casa sem meu consentimento.

Não se trata, portanto, de uma guerra entre direita e esquerda. Não se trata de jogar a culpa por uma cidade suja aos “esquerdopatas”, e sim a criminosos que violam a propriedade de outras pessoas. Simples. E travar essa luta não é pauta de direita ou de esquerda (você pode procurar por aí, mas até a Marilena Chauí fez isso quando era secretária de Luiza Erundina, o Haddad mesmo fez isso durante sua administração, e a polícia sempre perseguiu pixadores desde que eu me conheço por gente).

Outro ponto bastante interessante, ainda na discussão desse post, foi a posição de um rapaz que eu desconheço. Ele disse:

O problema é que em momento algum o cara questionou porque a galera está pixando, acha que ir lá e tentar apagar resolve o problema. Talvez se tentasse entender o início do fenômeno teria uma articulação melhor para resolver do que apenas jogar aquela tinta cinza escrota.

Quando confrontado, quando disseram que as pessoas pixavam apenas porque estavam “cagando” para a cidade e para qualquer coisa que não fosse o umbigo delas, a resposta foi:

Aí é que tá cara, esse é o pensamento generalista. Tem um conceito social nisso aí, não digo que todos os que pixam tem questionamento social, mas fazem parte de um meio. A própria cidade criou isso. A cidade não tem lazer, não oferece alternativas, é um lazer que os caras tem. Aqui em Florianópolis quase não se vê pixação, e quando vê é de são Paulo.

Tá cagando pra cidade sim, mas o que são Paulo devolve pra essas pessoas? É cultural da cidade de são Paulo por que? Tá tão intrínseco, tem tanta gente que pratica. É gigante a parada é rola uma interação social enorme entre esses caras. Nunca são casos isolados, os caras estão se comunicando através daquilo, é uma outra forma de se falar dentro da cidade. Independente de gostar ou não de pixação você não acha que vale tentar sacar o que realmente tá por trás? O que motiva alguém a arriscar a vida, ser preso por algo que nunca vai trazer retorno? É de questionamento que eu estou falando. Se rolar essa interpretação aí tem formas de resolver de uma maneira menos paleativa do que só desperdiçar um monte de grana em tinta pra gerar uma guerra que não vai se resolver.

Esse ponto de vista me lembrou muito o que Roger Scruton chama de “culpa transferida”, no capítulo Defesas Contra a Verdade de seu livro “As Vantagens do Pessimismo”. No livro, ele cita o exemplo da imediata explosão de culpa direcionada aos Estados Unidos logo após os ataques de 11 de Setembro:

Todo mundo sabia – e a natureza dos ataques demonstrava isso sobejamente – que a al-Qaeda não é uma organização com a qual seja possível manter algum diálogo, ou que tenha o hábito de examinar a consciência e lamentar os seus atos. Ela existe para recrutar o ressentimento e para canalizá-lo contra o alvo habitual, que é aquele que está à vontade no mundo e que desfruta dos benefícios que os ressentidos do mundo não conseguiram obter. Qual é o sentido de culpar uma organização desse tipo, ou até mesmo de fazer julgamentos morais? Não, em vez disso, votemo-nos contra a América e vejamos o que ela fez – por meio de seu próprio sucesso – para merecer aqueles ataques.

A questão aqui não é comparar o potencial destrutivo de uma organização como a al-Qaeda  com o bando de pixadores paulistanos, pois são coisas muito distintas. Mas enfim, depois de assistir aos vídeos e aos depoimentos dos pixadores, fica bem claro que não é muito uma questão de diálogo ou de ceder a exigências. Eles vandalizam porque querem vandalizar. Sujam porque querem sujar, porque isso os faz sentir bem. Não é para um reconhecimento da sociedade, não é para fazer exigências de algo em troca (seja o reconhecimento do pixo como arte ou de melhores condições sociais). E aqui, nesse ponto, ambos os grupos se equivalem: é necessário encontrar um culpado pelo crime que cometemos. Isso, caros amigos, é um grave problema!

Treta #2

danilo

Nesse caso, printei diretamente a conversa que tive com o Danilo. O cara é praticamente meu irmão, e me autorizou mencioná-lo aqui.

Achei um ponto de vista bastante interessante, principalmente o caso que ele mencionou sobre a cidade que ele conheceu. Eu acho que tenho um indício do porquê da cidade medieval ser diferente nesse aspecto em relação a São Paulo. Talvez seja porque São Paulo é uma cidade que não dá para ser comparada com quase nenhuma outra cidade no mundo, tendo em vista suas proporções gigantescas. Tanto em população quanto em área territorial, a cidade é enorme. Não vou nem mencionar aqui as diferenças culturais e sociais, mas só o tamanho já faz com que qualquer comparativo nesse aspecto só possa começar a ser feito com cidades como Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio.

Outra coisa bem legal foi: todos nós podemos atingir níveis maiores de cultura, tolerância e desenvolvimento. E acho que aqui está o X da questão. Até fazendo um paralelo com o último comentário da Treta #1, a chave para a solução do problema, ao meu ver, não está em reconhecer o pixo como algo bom, como arte, ou como expressão válida. Isso talvez mantenha essas pessoas à margem da sociedade, aprisionadas em seu mundo, presas à baixa cultura e ao submundo do vandalismo. A chave, portanto, é prover a elas acesso ao que há de melhor, é resgatá-las para um mundo de dignidade, de beleza. Já dizia Albert Einstein: uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.


Mas enfim, o que é arte?

Esse é um assunto delicado, sobre o qual não sou especialista para falar. A única observação que tenho é aquela máxima: quando tudo é arte, nada é arte.

E por que isso é importante?

É importante porque quando consideramos tudo o que gostamos, apenas pelo fato de que gostamos, como algo supremo, sem discutir qualidade, tudo passa a ser irrelevante. E quando tudo é irrelevante, perdemos a referência do sagrado, do puro, do belo. Uma cultura sem referências é algo pobre, insignificante.


E os outros crimes? E a corrupção? E a saúde? E a educação?

Sempre quando um assunto polêmico desses vêm à tona, imediatamente surgem os espantalhos. Isso é invariável!

Há um problema na maioria das discussões atuais onde as pessoas não gostam de se ater apenas à questão central, mas sim tergiversar sobre tudo que o cerca e possa ter alguma relação. E as pessoas fazem isso justamente porque procuram esses subterfúgios para defender uma ideia. Procura-se mudar o contexto, maquiar a realidade, a fim de que tudo se adapte àquela ideia central que a pessoa defende.

Justificar um crime de dano à propriedade alheia porque outras coisas não vão bem me parece bastante insano. Também me parece insano dizer que combater crimes de menor potencial de violência não tem relevância tendo em vista as grandes atrocidades que vemos por aí. Como se tivéssemos que ser tolerantes com um assaltante só porque tem muita gente sendo estuprada por aí.

Outra insanidade é o pensamento do: não adianta apagar as pixações pois elas vão continuar aparecendo. E aqui cito dois motivos:

1 – Isso faz tanto sentido quanto dizer que não devemos prender assassinos porque assassinatos continuarão acontecendo.

2 – Conhece a teoria das janelas quebradas? Deixo aqui um texto bem interessante sobre o assunto.


Conclusão

Como eu sempre digo, não é porque eu gosto de algo que isso é verdadeiramente bom. Então as minhas opiniões pessoais sobre determinado assunto são meramente emotivas, baseadas em sensações.

No entanto, há um ponto que precisamos ser racionais aqui.

Ninguém é obrigado (ou não deveria ser) a aceitar o meu gosto pessoal e ter que conviver com ele. Isso se chama respeito. Eu posso ouvir a música que eu quiser, ler o livro que eu quiser, decorar o ambiente como eu quiser, assistir o filme que eu quiser, desde que isso esteja na minha esfera privada e não interfira na vida de ninguém. Claro, posso indicar tudo isso para as pessoas com base nas minhas opiniões pessoais, mas não posso obrigá-las a aceitar isso.

Invadir o espaço de alguém para marcar algo que eu acho legal é imoral. É como ouvir uma música alta que eu gosto, obrigando meus vizinhos a compartilharem do meu gosto. É como escrever na parede da casa do meu amigo uma frase interessante que li em um livro que gosto. É como projetar na parede do vizinho um filme bacana que assisti.

Mas como o poder público pode resolver isso?

Eu acredito que espaços públicos não devem ser espaços para divulgação de NENHUMA opinião, seja ela expressada como for. Viadutos, pontes, parques, monumentos, todos devem estar limpos e impecáveis. E você vai me perguntar: pô, Zuza, mas não era você que queria tudo grafitado? Sim, eu quero. Mas quem disse que todo mundo tem que querer, só porque eu acho bacana? Acho legal pra caralho carro na cor azul marinho, mas isso não quer dizer que eu queira que algum político obrigue todas as pessoas a terem um carro azul marinho.

Por outro lado, espaços privados poderiam sim servir de vitrine para os artistas de rua. E isso deveria, de certa forma, inclusive ser incentivado pela prefeitura, ao meu ver, através de reduções tributárias para esses casos. Já temos vários casos desses pela cidade, onde fachadas inteiras de prédios são grafitadas com autorização dos proprietários. É aqui que mora a chave da questão: autorização! Se o espaço é meu, eu posso autorizar fazer o que quiserem nele. Se eu sou a favor do pixo, ou do grafite, eu posso autorizar fazer o que quiserem na minha propriedade. E nisso o Estado não precisa sequer intervir.

Outro meio bastante bacana, ao meu ver, é a iniciativa do atual prefeito em estabelecer galerias / museus específicos para esse tipo de arte. Espaços reservados para os artistas exporem seus trabalhos, serem reconhecidos, ganharem dinheiro. Só espero que isso não fique apenas na vontade e realmente saia do papel.

Enfim, minha conclusão é que tudo deve ser baseado no respeito. Meu espaço, minhas regras.