Em defesa da liberdade

Publicado: 31 de agosto de 2017 por Kzuza em liberalismo
Tags:, ,

O blog Estado da Arte do Estadão tem publicado recentemente uma série de artigos em um chamado Especial Liberdade. Há muito tempo tenho vontade de escrever algo a respeito, mas hoje me deparei com um texto sensacional do doutor Eduardo Wolf que serviu para me incentivar a escrever essas linhas.

Nesse texto, o filósofo explica, de maneira detalhada e fundamentada, o porquê do politicamente correto ser uma grande ameaça à liberdade. Um dos pontos importantes ressaltados por ele é:

Não seria uma demasia dizer que, mais do que a corriqueira troca de administradores públicos e do que novos rumos políticos expressos por partidos e coalizões de governo, é a peculiar tendência de corrosão e esfacelamento de nossa compreensão do conceito de liberdade que emerge, penso eu, como dilema político contemporâneo desafiador. Se a liberdade deixa de ser central aos arranjos democráticos contemporâneos, ou, ainda, se a noção de liberdade que vai se tornando cara às sociedades contemporâneas opera com outro conceito de liberdade que não aquele que habitualmente concebemos, é por que estamos passando por uma dessas mudanças que ainda mobilizarão historiadores, filósofos e intérpretes vários nas décadas por vir.

De fato, como ele explica mais adiante no texto, há um esfacelamento da nossa compreensão moderna do conceito de liberdade. Já postei aqui alguns capítulos do livro do Dalrymple Em Defesa do Preconceito, onde ele explica um pouco sobre isso também.

Adiciono ao texto do autor aqui um ponto de vista meu em particular. Encaro como um dos grandes dilemas do nosso país atualmente a imensa dificuldade que as pessoas têm quando o assunto é civilidade. Vejo, de forma triste, que as pessoas têm cada vez mais dificuldade em se viver em sociedade. É cada vez mais raro, apesar de que não seja ao meu ver a maioria dos casos, encontrar pessoas que se preocupem com o próximo. E quando eu digo se preocupar não estou apenas me referindo a esferas altamente nobres, como amparar e ajudar os necessitados, participar de ações voluntárias, contribuir com atividades filantrópicas ou coisas assim. Eu estou me referindo a atitudes cotidianas banais, como segurar a porta do elevador para alguém que está se aproximando, ceder lugar na fila a um idoso ou ouvir sua música predileta em um volume que não incomode o seu vizinho.

Acontece que cada vez mais as pessoas estão recorrendo à falsa ideia de que ‘tudo aquilo que não me é proibido é, automaticamente, permitido’. Há uma diminuição constante do sentimento de que ‘não devo fazer isso porque não acho correto’ e, consequentemente, um aumento da noção do ‘eu posso fazer isso porque não há nenhuma lei dizendo que é proibido’.

Esse tipo de comportamento tem levado a cada vez mais pessoas solicitarem a intervenção de algum poder superior (invariavelmente, o Estado) para agir de maneira autoritária de forma a proibir tudo o que não lhe é agradável através de leis, impondo sanções e penas aos que as infringem.

E é aqui que mora o problema. Estamos retornando ao passado, na época da Grécia antiga. Como cita o autor:

Soberano em todas as matérias públicas, escravo em todas as relações privadas – eis, em uma fórmula feliz de Benjamin Constant, a síntese algo trágica dessa liberdade dos antigos. Tal experiência somente foi possível, digo eu agora, porque vida pública e privada no mundo clássico vinham de par, cimentadas por relação indissociável que lhes fornecia, a uma e a outra forma de vida, a existência comunitária e a cultura que lhe animava. O fato de que os antigos viviam a cultura, a religião e os costumes como uma experiência partilhada com relativa homogeneidade permitia não apenas o ímpeto comunitarista de sua vida política e de sua concepção de liberdade como, e sobretudo, franqueava o coletivismo em matéria privada, com a intrusão que hoje nos parece absurda, nos costumes mais recônditos da vida dos indivíduos.

Ele ainda adiciona:

O que poderia ser mais estranho ao ideal de liberdade dos modernos, que é o nosso, do que a convicção de que o político, o homem de estado, deva nos ensinar a virtude? O que poderia ser mais intruso e agressivo para o indivíduo do que esse poder do político e do Estado para determinar, para o indivíduo, que valores ele deve cultivar? Nossa sensibilidade liberal moderna sai ofendida com a essa intromissão, e a razão para isso é que, durante quase 400 anos, o Ocidente – e somente o Ocidente – caminhou para uma concepção de Estado e de vida comum em que nenhum corpo social pudesse impor a outros ou a indivíduos isoladamente suas concepções abrangentes do Bem.

Convido ao leitor deste pobre blog a acompanhar todos os textos que vêm sendo publicados no blog do Estadão. Há muita coisa interessante por lá.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s