Uma questão de mindset

Publicado: 22 de junho de 2017 por Kzuza em Sem categoria

Mindset_Master_System

Essa semana participei de um treinamento onde foi apresentado um vídeo sobre a cultura de engenharia de software do Spotify. Para simplificar para o leitor (caso você não seja da área, não entenda inglês ou apenas esteja com preguiça de assistir ao vídeo completo que tem 25 minutos), basicamente a empresa funciona com base em alguns valores principais como confiança e autonomia. Alguns pontos importantes mencionados no vídeo:

  1. Community > Structure: para eles, mais importante do que uma estrutura organizacional rígida e hierárquica é a comunidade criada pelos seus funcionários.
  2. Fail Fast -> Learn Fast -> Improve Fast: a empresa é altamente tolerante a falhas. Falhas, segundo a filosofia deles, são o combustível para o aprendizado. Se é para falhar, que cada um falhe rápido e aprenda rapidamente com seus erros, conseguindo evoluir de forma também rápida.
  3. Fail Recovery > Fail Avoidance: ter um comportamento positivo e uma resposta rápida e eficaz às falhas é mais importante do que tentar evitar que as falhas aconteçam.
  4. If you need to know who’s making decisions, you’re in the wrong place: se você precisa saber quem está tomando as decisões, você está no lugar errado. Em outras palavras, você deve tomar suas próprias decisões.

Ontem pela manhã, assisti a uma reportagem em um jornal matutino falando sobre o abandono da prefeitura em relação ao cuidado com as praças públicas em diferentes bairros da cidade de São Paulo. Uma repórter mostrou ao vivo a situação de uma pracinha em algum bairro da periferia que estava com lixo amontoado e mato alto. Os brinquedos para as crianças ainda estavam em boas condições. Os moradores reclamavam que a funcionária da prefeitura que cuidava do local havia sido demitida há algumas semanas e desde então não havia mais nenhum cuidado com a praça.


Engraçado perceber como duas coisas aparentemente tão distintas entre si me fizeram pensar a respeito de como a mentalidade e a atitude das pessoas são capazes de influenciar tão diretamente o ambiente em que vivem.

Conversei com um primo meu sobre o modelo do Spotify. Parece-me bastante intuitivo e sem muita novidade que a abordagem de desenvolvimento de software adotada por eles seja muito mais eficaz do que tudo o que havia sendo feito antes dos anos 2000. Também soa muito positivo que todo o comportamento valorizado pela organização seja altamente motivador para os profissionais envolvidos. Mas então conversávamos sobre o quanto isso tudo parece inviável de ser implementado hoje nas empresas em que trabalhamos. Há uma série de fatores que vão desde o tamanho das empresas (o Spotify tem 1200 funcionários; a empresa na qual trabalho tem mais de 20 mil, sendo mais de 600 apenas no cliente para o qual atuo) até o alto grau de regulamentação do mercado em que atuamos. Mas o principal fator sobre o qual concordamos foi: como convencer as pessoas (contando com profissionais de mais de 20 ou 30 anos de experiência) que a forma como elas sempre trabalharam estava errada e que a melhor forma de trabalhar é essa agora?

Pareceu-nos bastante razoável que explicar a tal cultura do Spotify para alguém novo, sem vícios, não deve ser algo difícil pois, como disse, é algo bastante intuitivo. Não é de se espantar que uma empresa criada no final dos anos 2000 com sede na Inglaterra, um país com valores bem diferentes dos nossos, conseguisse implantar algo tão inovador (apenas aparentemente, pois na verdade só procura valorizar comportamentos próximos ao que as pessoas escolheriam ter de uma forma voluntária).

A adoção de um modelo próximo ao que o Spotify utiliza passa, portanto, muito mais por uma mudança de mentalidade do que propriamente por altos conhecimentos técnicos e tecnológicos. Não se trata de educar alguém formalmente para que ele descubra como as coisas funcionam, mas sim abrir-lhe os olhos para algo perfeitamente intuitivo (sei que estou sendo repetitivo com a palavra, mas é justamente esse o objetivo).

Mas o que isso tem a ver com as condições da praças de São Paulo?

Todos nós sabemos que a responsabilidade da prefeitura da cidade é, entre outras coisas, cuidar do patrimônio público. Uma boa fatia do que ganhamos com o suor do nosso trabalho é destinada na forma de impostos à prefeitura. Ela então é responsável por administrar esse dinheiro e contratar pessoas ou empresas para realizar o trabalho de zeladoria das áreas públicas. Cabe a nós, portanto, fiscalizar se o trabalho que está sendo feito, pago com o nosso próprio dinheiro, está sendo realizado a contento. Caso não esteja, é perfeitamente correto cobrar para que isso seja cumprido.

Mas a pergunta que me ficou, vendo a tal pracinha abandonada da reportagem, que nem era tão grande assim, foi: e por que os moradores não estão fazendo nada? Uma ação simples de meia dúzia de moradores vizinhos à praça em um final de semana qualquer seria capaz de reverter a situação. Um ou dois com uma enxada para retirar os matos crescendo fora do lugar; outros 2 com luvas e sacos recolhendo o lixo acumulado; outros 2 com uma bacia com areia e cimento e uma pequena lata de tinta, para tapar alguns buracos na calçada e dar um toque a mais para embelezar o local. Aposto que não gastariam mais de 8 horas de trabalho nisso e devolveriam à região uma pracinha linda de se ver.

Alguns bradariam: Mas isso não é de minha responsabilidade!, e é aqui mesmo onde eu gostaria de chegar.


Excuse note: Peço licença para usar nesse post algumas referências a artigos que possuem referências políticas (Ela, sempre ela, e mesmo que eu queria fugir, ela está em todo lugar!).


Hoje me chamou a atenção um texto com o título: “Você quer melhorar o mundo? Esqueça o governo. Estude, trabalhe e tente criar alguma coisa de valor“. Apesar do título ser bastante autoexplicativo, recomendo a leitura. Esse texto faz referência a um artigo do economista americano Don Boudreaux também excelente, entitulado “Let’s change the ‘Change the World’ obsession” (Vamos mudar a obsessão de ‘mudar o mundo’). Talvez a frase mais emblemática de Boudreaux seja:

Esforços benéficos para mudar o mundo quase sempre são pequenos, graduais, e efetuados naquele setor voluntário da sociedade — nas transações comerciais, nas famílias, na sociedade civil.

De certa forma, o autor está cutucando o leitor. É algo como: FAÇA A SUA PARTE! Não é necessário que você seja formalmente responsável por algo para que você se sinta engajado em fazer essa coisa.

Em outro excelente artigo, Boudreaux expõe um conceito chamado “A piscina da prosperidade“. Para ele, a humanidade evolui constantemente através de contribuições individuais pequeninas, praticamente inidentificáveis isoladamente. No entanto, é a soma delas que faz com que nossa sociedade possa evoluir. A analogia usada por ele é que a prosperidade da humanidade é como se fosse uma enorme piscina que nunca está cheia. À borda da piscina, estamos todos nós, cada um com um conta-gotas, contribuindo com pequenas gotinhas para encher a piscina. Ele diz que é raríssimo, ao longo da história da humanidade, contribuições de alta escala que afetem o nível da piscina de forma perceptível a todos (como a invenção da vacina contra a poliomelite ou da penicilina). Segundo ele, em todas as vezes que pessoas ou organizações tentaram deliberadamente encher a piscina com uma grande volume de água de uma só vez, a onda foi tão grande que deixou a piscina mais vazia do que anteriormente (como o nazismo, por exemplo).

Essa visão de mundo certamente é compartilhada pelo Spotify: cada qual contribuindo um pouquinho, aprendendo uns com os outros, evoluindo, compartilhando informações, fazendo com que a comunidade cresça.


Essa sempre foi a minha visão de mundo: não esperar que ninguém faça as coisas por mim, ir atrás, trabalhar, ajudar. Mesmo que não seja formalmente minha responsabilidade. Não consigo, por exemplo, ficar com a bunda sentada na cadeira esperando por algo apenas porque não é da minha responsabilidade, é do outro. Eu sempre vou até o outro, vejo no que eu posso ajudá-lo a concluir a parte dele para que eu então possa fazer a minha. Isso acaba invariavelmente criando uma espécie de corrente do bem, uma corrente de ajuda mútua.

O fato do budismo pregar esse tipo de filosofia foi uma das coisas que fez com que eu me aproximasse da religião. Não me parece apenas uma questão de fé, pois é algo facilmente perceptível no nosso dia-a-dia. As coisas que acontecem ao nosso redor, as pessoas que estão próximas, tudo é um reflexo de quem somos. Como disse Gandhi: “Seja a mudança que você quer ver no mundo”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s