Crise moral

Publicado: 18 de abril de 2017 por Kzuza em Comportamento
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Palmeiras x Corinthians. Jogo válido pela primeira fase do campeonato paulista de 2017. O jogador Keno, do Palmeiras, sofre uma falta por trás cometida pelo volante Maycon, do Corinthians. O outro volante, o jogador Gabriel, que vinha acompanhando a jogada, já tinha cartão amarelo. Ao se levantar após a falta, Keno aponta imediatamente para Gabriel, e o árbitro aplica o segundo cartão amarelo e, consequentemente, o vermelho no jogador errado. Muita confusão. Jogadores do Corinthians em peso tentam alertar o árbitro do equívoco, mas ele não muda de opinião. Nenhum jogador do Palmeiras se manifestou.

São Paulo x Corinthians. Jogo válido pelas semifinais do mesmo campeonato paulista de 2017. Em uma bola no ataque do Corinthians, o atacante corinthiano Jô e o zagueiro Rodrigo Caio disputam a bola, que estava muito mais próxima do goleiro Renan Ribeiro, que fica com ela. No lance, Rodrigo Caio se choca com o goleiro do próprio time, que fica no chão. O árbitro, de longe, aplica o cartão amarelo no atacante Jô. Imediatamente, Rodrigo Caio comunica o juiz da partida que foi ele quem se chocou contra o goleiro, e que o cartão é injusto. O árbitro volta atrás e aplaude o jogador tricolor.

As situações relatadas acima são completamente antagônicas. Uso-as propositalmente nesse artigo para demonstrar uma crise moral pela qual passamos aqui no país.

No primeiro episódio, o foco foi colocado apenas no juiz da partida, que de fato cometeu um erro crasso. Ele acabou sendo punido, como de fato deveria ser. No entanto, pouco ou praticamente nada se comentou sobre o fato de nenhum jogador, nem o treinador e nem ninguém da comissão técnica do Palmeiras terem se manifestado. Não houve um mísero ser humano digno de um pingo de honestidade para poder safar o juiz, a partida e, principalmente, sua própria honra de homem.

Já agora no segundo episódio, apesar de felizmente muita gente estar comentando favoravelmente a atitude de extrema hombridade de Rodrigo Caio, inclusive os próprios adversários corinthianos, ainda somos obrigados a ver gente imbecil como o jornalista Juca Kfouri comentando: Não fez nada mais do que a obrigação. Sério, Juca?

Na minha opinião, a honestidade não é uma virtude. Ela é apenas uma característica moral que deveria passar desapercebida por aí. É algo como o fato de não se matar ninguém. Não é uma grande qualidade, apenas a obediência a um princípio moral universal. Acontece que aqui no Brasil desenvolvemos algo que vai além disso, a tal “Lei de Gerson”. A honestidade por aqui é vista com maus olhos, é coisa de gente tola. E acho que, justamente por isso, é extremamente necessário louvar atitudes como a do jogador sãopaulino de pé, exaltá-la aos quatro cantos, principalmente pela mídia formadora de opinião. É algo para se mostrar nas escolas para as crianças mais novas. É algo para se incentivar, vibrar. É digno de uma estátua no estádio do Morumbi. E sabe por quê? Para que possamos um dia tentar colocar fim à Lei de Gerson. Para que um dia não precisemos mais ficarmos maravilhados e atônitos diante de um gesto que deveria ser, como Juca disse, mera obrigação.

Esse desvio moral vai muito além do futebol. Recentemente, em uma entrevista no programa Pânico no rádio, os fundadores do site Ranking Políticos respondiam a uma pergunta do apresentador Emílio Surita: mas político não é tudo igual? Eles mencionavam que existiam atitudes que mostravam se um político era pior ou melhor que outro. Citaram o exemplo do senador José Reguffe que abriu mão de uma série de benefícios como parlamentar e reduziu o número de assessores, tudo em caráter irrevogável, economizando assim uma quantia absurda de dinheiro ao longo dos 4 anos de mandato. Tanto o apresentador quando outros integrantes da bancada do programa disseram que isso era mera propaganda, marketing, demagogia. Uma das integrantes do programa chegou até a criticar o prefeito João Dória por doar seu salário para entidades filantrópicas do terceiro setor e mostrar isso na internet.

Veja até que ponto vai a mente doentia das pessoas. As atitudes dignas desses políticos, por mais corretas que possam ser, são minimizadas porque são apenas objeto de propaganda. Sério? Eu quero é que se dane. Não me importa! O mais importante é que façam o que é certo. Se for para mostrar na internet, se for para ganhar votos, se for para deixar a mamãe feliz, eu não me importo, desde que seja o correto a fazer e que sirva de exemplo aos demais.

Se você anda relativizando boas atitudes por aí só porque não foram realizadas por seus amigos, por pessoas do seu partido político ou por jogadores do seu time de futebol, tenha muito cuidado. Você certamente já foi contagiado por essa crise moral avassaladora que passamos aqui no país.

Por mais Rodrigos Caios!

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