Sobre boas ideias

Publicado: 15 de abril de 2017 por Kzuza em liberalismo
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Ontem tive uma conversa bastante proveitosa com um grande amigo. Um cara que sequer concorda com a maioria das minhas ideias, mas chegamos a um ponto em comum e que gostaria muito de compartilhar.

A conversa começou com o caso da United Airlines, onde um passageiro foi retirado à força de um avião. Ele comentou que já há muitas pessoas organizando um boicote à companhia aérea, negando-se a voar com uma empresa que é capaz de tratar os seus clientes dessa maneira. Eu concordei, adicionando que sou favorável a esse tipo de atitude, onde pessoas se reúnem voluntariamente para protestar em defesa de uma causa, e que tentam convencer outras a fazerem o mesmo.

Veja, não é preciso que haja um esforço muito grande para se convencer as pessoas de que a atitude da companhia aérea, personificada nesse caso em seus profissionais que faziam parte da tripulação, foi errada. Talvez seja mais complicado convencer as outras pessoas de que o boicote seja a melhor forma de se protestar ou de que isso tenha algum resultado prático (e aqui a discussão realmente se estenderia por horas e horas). De qualquer forma, desde que não seja algo arbitrário e imposto, acho a iniciativa bem bacana.

Mas o cerne da questão aqui não é nem o protesto contra a United Airlines.

O ponto no qual concordamos é que qualquer boa ideia é capaz de resistir e prevalecer sobre as piores ideias sem que ninguém precise apontar uma arma e ameaçar as outras pessoas a concordarem. De maneira análoga, ideias estapafúrdias também estão fadadas a serem imediatamente rejeitadas pela maioria das pessoas sem que ninguém precise alertá-las sobre o seu perigo.

Eu acredito (e já devo ter escrito isso aqui ou em algum outro lugar) que a livre associação de indivíduos que concordam com uma mesma ideia e a colocam em prática possui muito mais resultados (e muito melhores!) do que quando tentam impor essas ideias através de leis e decretos a toda uma população.

Eu acredito que boas ideias atraem naturalmente o apoio de muitos indivíduos. No entanto, quando essas ideias tentam ser empurradas goela abaixo das pessoas, mesmo que essas sejam boas ideias, o resultado passa a ser o contrário. Seres humanos tendem a ter aversão àquilo que lhes é imposto como bom, justo e necessário. Por exemplo, um indivíduo não começa a ir a uma igreja quando um testemunha de Jeová bate à sua porta no domingo de manhã para lhe obrigar a isso; esse indivíduo o faria no caso de se identificar com a palavra pregada, com as boas energias trazidas pelo ambiente, com a comunhão da sua comunidade.

Vamos pensar. O programa Teleton, em 2016, arrecadou 27 milhões de reais que foram destinados à AACD. A campanha foi liderada pelo SBT. Diversos artistas fizeram campanha, pediram doações, mostraram onde o dinheiro era aplicado, as crianças que dependiam do tratamento especial, etc. Centenas de milhares (ou até milhões) de brasileiros se mobilizaram e doaram dinheiro em prol da causa. Veja só, não é muito difícil convencer alguém de que uma criança que nasceu com alguma necessidade especial precisa de atenção especial, profissionais capacitados para o tratamento e medicamentos. As pessoas imediatamente se sentem tocadas com isso.

Agora, imagine que um presidente da república aprovasse uma lei que criasse um imposto a ser pago obrigatoriamente por todo cidadão comum com renda mensal superior a dois salários mínimos. A receita obtida por esse imposto (estimada em R$27 milhões) seria revertida integralmente à AACD. O que você acharia disso?

Vamos analisar. O resultado final para o destinatário seria efetivamente o mesmo. Porém, qual a moralidade de um arranjo como esse? Fatalmente, isso iria obrigar pessoas que não contribuem com a AACD (independente do motivo) ou que contribuíam com quantias menores a desembolsar compulsoriamente uma quantia com a qual não estão de acordo. Isso também faria com que pessoas com renda mensal inferior a dois salários mínimos e que, por ventura, tenham doado voluntariamente alguma quantia pelo Teleton não consigam mais contribuir (ou ao menos, não com a facilidade que tinham anteriormente).

Portanto, convido você a pensar sobre isso quando estiver requisitando algum serviço público ou alguma lei em especial que obrigue uma ideia ou uma causa as quais você defende serem impostas a todo o restante da comunidade na qual você vive. Isso parece bastante tentador quando é algo com o qual você concorda, mas tenha certeza de que na maioria das vezes será algo com o qual você está contra. Depois não adianta reclamar.

 

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