A saga da Banda Sinfônica de SP

Publicado: 16 de fevereiro de 2017 por Kzuza em cultura, liberalismo
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AVISO INICIAL IMPORTANTÍSSIMO AOS LEITORES MAIS SENSÍVEIS: Esse post não é sobre cultura. Esse post não é sobre música. O autor não é contra a Banda Sinfônica de SP. Esse post é sobre liberalismo!


Você conhece o Cirque du Soleil? Provavelmente já ouviu falar. É uma companhia circense canadense, que viaja o mundo afora com seus espetáculos, que envolvem atos de dança, malabarismo, música, entre outros.

Eu nunca fui a um espetáculo deles. Talvez você também nunca tenha ido. Mesmo assim, a companhia existe há mais de 30 anos (foi fundada em 1984) e é a maior do mundo em seu ramo, tendo hoje mais de 3500 funcionários em mais de 40 países.


Você conhece o filme Avatar? Se nunca assistiu, provavelmente já tenha ouvido falar. É a maior bilheteria da história do cinema mundial.

Eu não assisti no cinema, só em casa, em um blu-ray que meu pai comprou.


Você conhece Andrea Bocelli? Com certeza já deve ter ouvido falar. É considerado por muitos o maior tenor ainda vivo. Roda o mundo com shows (ano passado inclusive esteve aqui por terras tupiniquins) e já vendeu mais de 70 milhões de discos pelo mundo todo.


Sabe qual a semelhança dos 3 casos apresentados acima?

Todos eles são representantes de produções culturais de excelente qualidade. O Cirque du Soleil, de um grupo de artistas. Avatar, uma produção que contou com uma porção de gente talentosa para chegar ao seu resultado, incluindo atores, diretores, artistas visuais, entre inúmeros outros. Andrea Bocelli, o expoente de um talento ímpar na música.

Mas há algo ainda mais intrigante nos 3 casos citados: nunca, em nenhum lugar do mundo, ninguém foi obrigado a assistir a um espetáculo do grupo circense, nem a comprar um CD ou a assistir a um show do tenor italiano, nem a ir ao cinema ou comprar o blu-ray do filme para que eles se tornassem fenômenos culturais modernos. E eles continuam fazendo um sucesso tremendo! (Guarde isso com você que logo chegaremos lá!)


Então o que faz desses artistas e suas produções serem tão reconhecidos, aclamados e símbolos de sucesso? Bem, isso daria uma lista enorme, eu acredito, mas o ingrediente fundamental tem um nome: TALENTO!

O talento dos artistas que produzem os resultados mencionados é de um tamanho e de uma singularidade que obviamente se traduzem em obras de extrema qualidade em seus ramos artísticos.

E é claro que as pessoas comuns, independentemente do seu grau de instrução e classe social, conseguem reconhecer a excelência do resultado desses trabalhos geniais, que envolvem criação, inspiração e dedicação extremas. O trabalho do artista é árduo. O resultado disso é que praticamente não há quem não consiga reconhecer a qualidade do que foi produzido.

Coloque, por exemplo, uma pressoa em frente à Pietá de Michelangelo, ou para ouvir uma sinfonia de Beethoven, ou para assistir a um espetáculo do Cirque du Soleil, e verá as emoções que são despertadas por essas obras. Mesmo que essas pessoas nunca tenham tido contato com arte, mesmo que nunca tenham tido acesso à alta cultura. O poder que essas obras têm de despertar bons sentimentos nas pessoas é algo único.


Vou lembrar aqui de uma experiência pessoal minha. Nunca estudei arte. Nunca fui nenhum entusiasta de arte. Mas quando fui ao Museu do Louvre em Paris e me vi frente à frente com Psiquê e Eros, de Antonio Canova, eu senti um negócio que poucas vezes na minha vida eu senti. Foi uma emoção boba, ingênua, mas forte. Algo tipo quando entrei na Catedral de São Pedro no Vaticano pela primeira vez. Não dá para se sentir indiferente frente ao belo, ao Sagrado.

psique

Psyche revived by cupid kiss, de Antonio Canova

Roger Scruton revela, em um documentário excelente produzido pela BBC, a importância da beleza para a existência humana. O vídeo tem quase 1 hora, então recomendo assisti-lo após a leitura desse artigo:


Agora, esse ano, o Governo do Estado de São Paulo resolveu demitir os músicos da Banda Sinfônica de São Paulo. Essa notícia foi divulgada amplamente por aí. Os músicos, do dia para a noite, viram-se desempregados (o que infelizmente se tornou uma realidade para muitas pessoas no país nos últimos 2 anos).

Não há como não se sensibilizar com isso. Ponto final.


A despeito do que eu sinto pelos músicos, vamos ao ponto da polêmica aqui. Vocês já podem começar a pegar as pedras para atirar em minha direção.

Alguém sabe me dizer por que o Estado tinha uma banda sinfônica, paga com o dinheiro de toda a população?

Afe!!!! Kzuza fascista! Insensível! Não sabe valorizar a cultura! Não sabe que a cultura é importante para o país todo, para todas as pessoas! Um povo sem cultura não é nada. Você mesmo disse ali em cima que é importantíssimo para as pessoas terem contato com esse tipo de expressão artística! Isso é um patrimônio do nosso estado, um orgulho da população! Você também não pensa nos músicos, nem nos futuros músicos, que precisam da existência da instituição para poderem exercer seus ofícios!

Bem, se você leu esse parágrafo em azul e se identificou com ele, é justamente para você que eu estou escrevendo. Aqueles que já entenderam onde eu quero chegar apenas deram risada quando leram a minha ironia.


Ponto 1: eu não sou a favor da extinção da Banda Sinfônica de São Paulo, muitíssimo pelo contrário. Desejo que eles continuem com o trabalho e tenham muito sucesso por mais várias gerações.

Ponto 2: se você nunca foi a uma apresentação da Banda Sinfônica de SP, se você não conhece o trabalho deles, se você não admira o tipo de música que eles produzem, mas mesmo assim é contra o governo acabar com o vínculo com a banda, você pode se enquadrar em dois tipos de pessoas: aquelas que nunca pararam para refletir o quanto de imoralidade há nesse cenário; ou aquelas que são canalhas por natureza mesmo.

Não acredito ter leitores canalhas, então vou descartar esse grupo aqui.

Vou tratar apenas da questão da imoralidade. Veja bem: você defende que alguém (nesse caso, o Estado) tome à força o dinheiro de toda a população para bancar um trabalho do qual apenas alguns irão se beneficiar. Sim, à força, através de impostos, porque se você não pagar, o Estado vai atrás de você.

Em uma analogia simples, é algo como se você apoiasse o governo canadense a obrigar os cidadãos canadenses a pagarem impostos de forma a bancar o Cirque du Soleil. Ou como se o governo italiano cobrasse impostos para bancar o Andrea Bocelli e seus músicos.

Se você está nesse grupo dos que não entenderam ainda essa questão de imoralidade, é quase certo que você irá se valer de um dos argumentos abaixo:

  1. Mas é cultura! Música é cultura! O Estado deve promover a cultura!
  2. Nosso país não valoriza a cultura! Então o Estado tem o papel de ajudar!
  3. Não é sobre dinheiro que estamos falando! Estamos falando em valorizar um patrimônio cultural!

Bem, em primeiro lugar, ser músico é uma profissão. Pergunte a qualquer músico. É óbvio que eles têm um dom especial, amam o que fazem, amam a arte. Mas eles também precisam receber por isso, e não estou falando somente em reconhecimento. Um músico estuda demais, e também trabalha demais. A criação exige tempo, esforço e dedicação. E sem dúvida alguma, trata-se de um trabalho de extrema importância. Ponto final.

Mas seguindo a mesma lógica, há inúmeros outros trabalhos fundamentais para a existência da humanidade e que nem por isso precisamos do Estado para que eles sejam executados. Pense nos trabalhadores que plantam e colhem a comida que chega à sua mesa para que você se alimente. Pense nos caminhoneiros que transportam esses alimentos até os mercados onde você os adquire. Pense nas costureiras que confeccionam os agasalhos que lhe mantém quentinho durante o inverno. Esses trabalhos também exigem esforço e dedicação, mas nós não achamos nem um pouco razoável que o governo recolha impostos de nós para bancar esse trabalho e fazer com o que o produto final chegue até nós. O produto simplesmente chega até nós através de uma cadeia que vai muito além da nossa compreensão e que nem vale à pena me alongar aqui.

Não consigo entender quem acredita que a cultura não será produzida sem a ajuda do Estado. É como pensar que Michelangelo, Beethoven, Shakespeare, Van Gogh jamais teriam produzido suas obras sem que houvesse uma entidade que tomasse dinheiro à força das demais pessoas para pagá-los pelos seus trabalhos.

Quanto ao desinteresse da população pela arte e pela cultura, também me parece bastante incoerente acreditar que tomar dinheiro à força dessa mesma população para bancar as produções artísticas seja sequer parte da solução do problema. Lembrando que nosso governo é extremamente hábil em fazer esse tipo de coisa, vide Lei Rouanet. A solução para esse problema de desinteresse passa, no meu entendimento, primeiramente por garantir que a população por completo tenha acesso às condições mínimas para a existência humana: água, alimentação e saneamento básico. Depois disso, tudo passa a ser uma questão de educação. O resultado final desejado, o real interesse pelas artes (principalmente pela alta cultura, como é o caso da Banda Sinfônica de São Paulo) é apenas uma consequência.

Outro ponto bastante interessante nessas pessoas que ainda não pensaram a fundo sobre a imoralidade que é tomar dinheiro à força de alguém para bancar algo que é considerado vital ou importante para todos, mesmo que não seja desfrutado por todos, é pensar que esses artistas não conseguiriam nenhuma outra forma de conseguir dinheiro para pagar os seus trabalhos. De duas, uma: ou acreditamos que a qualidade do trabalho executado por eles não é boa o suficiente para atrair investimentos, ou não reconhecemos que isso é não só possível como um fato. Basta citar que, por exemplo, a própria Banda Sinfônica de São Paulo já conseguiu patrocínios para continuar os seus trabalhos.


Conclusão: Não vejo absolutamente nenhum motivo para que qualquer causa ou trabalho artístico seja bancado pelo Estado. Isso porque isto significa que o Estado deverá tomar dinheiro à força de toda a população para pagar por algo que não será desfrutado por todos. Não se trata, no entanto, de não reconhecer o valor da cultura. Trata-se apenas de reconhecer as limitações que devem ser impostas ao Estado, que deveria se preocupar apenas em garantir que a população toda tenha direito à vida, à liberdade e à propriedade privada.

Tenho a mais absoluta convicção que artistas de talento conseguem se manter com a qualidade das obras que eles produzem, como exemplifiquei no início desse texto e concluí com o próprio patrocínio privado já conseguido pela Banda Sinfônica de São Paulo. O trabalho desses sempre será reconhecido e não tenho dúvidas de que há muita gente interessada nisso (myself included).

Para quem se interessar, você mesmo pode ajudar a Banda através de doações. O link é esse aqui.


Notinha final do Zuza: Nós, a sociedade civil, somos plenamente capazes de mudar o país quando nos organizamos e nos dedicamos. Apoie as causas nas quais você acredita. Convença seus amigos a também apoia-las. Dedique-se, faça trabalhos voluntários, busque doações voluntárias e pare, simplesmente pare, de exigir que o governo faça isso por você simplesmente pelo fato de que você paga impostos. Quanto maior o caminho que esse dinheiro passa entre o seu bolso e a causa à qual ele teoricamente deveria ser destinado, maior a probabilidade dele ser desperdiçado ou desviado. Isso não deveria ser novidade para você que vive no Brasil, mas mesmo assim fica esse toque. Quer realmente contribuir com algo que acha importante? Dê o seu dinheiro diretamente a quem faz o trabalho acontecer, e não para alguém que vai repassar para outro alguém, e para outro, e para outro, até chegar onde você gostaria que chegasse.

Deixar esses assuntos tão importantes na mão de pessoas que são eleitas de 4 em 4 anos, e cujas vontades você quase sempre desconhece, parece-me completamente insano (principalmente pelo fato de que essa pessoa eleita pode não ter sido a escolhida por você).

Também não exija que todos tenham as mesmas prioridades que você. Converse, convença-as, mas não coloque uma arma apontada na cabeça de ninguém obrigando que ela te apoie apenas porque a sua causa é válida, importante e altruísta. As pessoas são diferentes, têm prioridades diferentes, apenas respeite isso e não interfira na liberdade que elas têm de serem diferentes.

E o principal: acredite, tem jeito. A mudança começa a partir de nós.


Ps: Leia esse textinho aqui que o tio Zuza escreveu há 2 anos sobre basicamente a mesma coisa.

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