Pixo é arte? Grafite é arte? Público x Privado, e a guerra de Dória!

Publicado: 27 de janeiro de 2017 por Kzuza em Comportamento
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É claro que eu não poderia deixar de escrever sobre a polêmica do momento. Vira e mexe esse assunto retorna à tona, e não foi diferente agora que o novo prefeito de São Paulo resolveu declarar guerra aos pixadores.


Opinião Pessoal

Bem, primeiro vamos à minha opinião. Opinião pura e simples, sem juízo de valor. Vamos falar do que eu gosto, lembrando, como eu disse em um post recente, que não é porque eu gosto de alguma coisa que ela é necessariamente boa.

Acho grafite um negócio legal pra caralho. Bonito mesmo. Há, entre artistas mais famosos e os anônimos, gente de extrema qualidade que consegue embelezar qualquer pedacinho de muro por aí. Se você mora em São Paulo, consegue ver diariamente vários exemplos disso. O mais legal deles, na minha opinião, é esse:

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Foto de Fernando de Santis

Por mim, a cidade seria coberta de painéis como esse ou como os da Avenida 23 de Maio. Ah, como eu gostaria que as coisas fossem simples assim. Mandaria grafitar até o Obelisco do Ibirapuera, a Ponte Estaiada todinha, o Minhocão, todas as pontes da Marginal Tietê… ia faltar tinta nessa porra! Ah, como eu gostaria que a cidade fosse minha!

Opa, mas pera lá. Gosto muito de grafite, mas odeio pixação. E sabe por quê? Porque pixo não me diz nada. Não entendo porra nenhuma daquelas letras. E não há ordem nenhuma. E não há respeito nenhum. Basta ver essa foto aí em cima. O que está no primeiro plano não é um muro, nem um painel. É um tapume que cerca uma área em obras no local (obra esta que está lá há pelo menos uns 6 anos). E os caras pixaram em cima dos grafites feitos nesse tapume. O cara foi lá e cagou em cima da arte de um outro.

Mas novamente, finalizando essa parte, isso é mera opinião pessoal. É um gosto meu. Não estou fazendo juízo de valor. É apenas o que eu acho, baseado no que vejo e no que sinto. Ou seja, é algo meu, então você nunca vai entender completamente.


Arte de rua ou bandeira política?

Aqui entra a parte mais delicada dessa história toda.

Antes de entrar em qualquer discussão sobre arte x não-arte, é importante entender o porquê desse assunto ter vindo à tona nesse momento.

O fato é que, após 4 anos de administração petista na cidade de São Paulo, Fernando Haddad não conseguiu se reeleger. Apesar de todas as suas boas intenções (e eu acredito muito nisso), sua administração não foi bem recebida pela população. Tanto é que foi derrotado ainda em primeiro turno, com uma vitória esmagadora de João Dória, do PSDB. Foi a primeira vez que as eleições na capital paulista foram decididas em primeiro turno. (Veja bem, animal, antes de me criticar: aqui são só fatos, não opiniões!)

Dória tem, portanto, grande apelo popular, apesar de não ser nem um pouco o queridinho da mídia mainstream. Pelo contrário. Desde que assumiu o cargo, há menos de um mês, é bombardeado diariamente por 2 dos maiores veículos de informação em massa do Brasil: o jornal Folha de São Paulo (que pauta também o maior portal de internet do país – o UOL) e a Rede Globo. Às vezes de forma velada, às vezes às claras, mas o novo prefeito está sendo alvo das críticas diariamente. Não vou abordar aqui, para não me estender mais do que o habitual, sobre os motivos desta perseguição, então permito-me relatar apenas fatos.

Isso leva, infelizmente, ao que Leandro Narloch relatou em seu artigo na Folha de São Paulo (veja só!!!) essa semana, onde ele diz que nós fingimos defender ideias e princípios, mas na verdade, defendemos pessoas.

Ou seja, muita gente (senão a maioria) não está muito preocupada em discutir se as decisões do prefeito a respeito da guerra à pixação e da limitação dos grafites na capital paulista faz sentido ou não, se é boa ou não, se tem impacto positivo ou negativo. A regra é: se foi o Dória que decidiu, então não deve ser coisa boa.


Discussões sobre o tema

Para que eu pudesse formar um juízo a respeito do assunto, de forma racional, decidi pesquisar mais a respeito e ver o que as pessoas estavam dizendo por aí. Então selecionei as coisas mais interessantes que vi sobre o assunto.

Primeiramente, deixo um documentário francês bem bacana sobre a pixação em São Paulo:

Agora, um vídeo do canal Cidade Ocupada, do jornalista Fred Melo Paiva, também falando sobre o assunto:

Além dos vídeos, também dei uma olhada sobre o que o pessoal anda falando nas redes sociais, o que, querendo ou não, acaba sendo um bom termômetro.

Treta #1

Uma postagem bem interessante é a que está abaixo. Desconheço o autor, mas a mensagem foi postada por um amigo meu em sua página:

Na discussão que se seguiu nos comentários da postagem, a posição desse meu amigo (que ao contrário do que ele pensa sobre ele mesmo, é inteligente pra caralho!) é a de que o Dória é extremamente marketeiro. Ele não chegou a criticar abertamente a ação do prefeito em apagar pixações (embora talvez meu amigo tenha considerado isso bizarro), mas sim o fato do prefeito estar utilizando isso como uma bandeira para aparecer.

Nesse ponto, concordo completamente com ele. Dória chegou como um “não-político”, e até por causa disso sempre foi odiado dentro do próprio partido, com exceção do seu padrinho Geraldo Alckmin. Chegou com a promessa de trabalhar duro, de fazer acontecer. Mas o cara é empresário, entende de marketing, e precisa cuidar da sua imagem, precisa estar em evidência, e tem feito isso como ninguém. O prefeito tem pautado a imprensa paulistana diariamente, e tem feito isso como um grandessíssimo político.

Talvez a diferença de pensamento entre eu e esse amigo esteja no fato de que eu estou pouco me importando se o cara faz as coisas por marketing ou não. O importante para mim é fazer o trabalho bem feito e trazer bem estar para a população. (Veja, ainda não emiti meu juízo sobre as ações do prefeito acerca do tal “Cidade Linda”, pois isso vai ficar só para a última parte do texto, então não dê xilique!) É claro que eu preferia um cara mais na dele, que só mostrasse resultados, que trabalhasse e não precisasse estar na capa do jornal vestido de gari, lixeiro, cadeirante, drag queen, nem nada parecido. Mas sinceramente, isso pouco me importa se ele estiver garantindo que a população esteja bem. Até porque, tratando-se de uma das 6 maiores cidades do mundo, acho bem difícil um prefeito passar desapercebido pela mídia. Imagino a quantidade de jornalistas atrás dele diariamente, a cada passo que ele dá. E foi assim com todos os prefeitos de São Paulo que me lembro.

Mas esse não foi o principal ponto da discussão desse post. O principal ponto aqui é justamente o que eu mencionei na sessão anterior: a bandeira política.

O fato é que pixar é crime, previsto em código penal. Discordo do deputado Conte Lopes, no vídeo do Fred Melo, onde ele usa o argumento raso de que “é crime porque está previsto em lei”. A escravidão já esteve prevista em lei, e nem por isso deixava de ser um crime moral. O que torna a pixação um crime não é o fato disso estar escrito em um pedaço de papel, mas sim que ela não respeita um código moral e ético básico da sociedade em que vivemos que é o respeito à propriedade privada. Ainda vou gravar um vídeo falando sobre isso, mas o que vale dizer aqui é que qualquer violação à propriedade de outrem (seja ela física ou mental) é sim um crime. Assim como eu não posso chegar e tatuar o seu braço porque eu acho isso bonito, sem sua autorização, você também não pode pintar a parede da minha casa sem meu consentimento.

Não se trata, portanto, de uma guerra entre direita e esquerda. Não se trata de jogar a culpa por uma cidade suja aos “esquerdopatas”, e sim a criminosos que violam a propriedade de outras pessoas. Simples. E travar essa luta não é pauta de direita ou de esquerda (você pode procurar por aí, mas até a Marilena Chauí fez isso quando era secretária de Luiza Erundina, o Haddad mesmo fez isso durante sua administração, e a polícia sempre perseguiu pixadores desde que eu me conheço por gente).

Outro ponto bastante interessante, ainda na discussão desse post, foi a posição de um rapaz que eu desconheço. Ele disse:

O problema é que em momento algum o cara questionou porque a galera está pixando, acha que ir lá e tentar apagar resolve o problema. Talvez se tentasse entender o início do fenômeno teria uma articulação melhor para resolver do que apenas jogar aquela tinta cinza escrota.

Quando confrontado, quando disseram que as pessoas pixavam apenas porque estavam “cagando” para a cidade e para qualquer coisa que não fosse o umbigo delas, a resposta foi:

Aí é que tá cara, esse é o pensamento generalista. Tem um conceito social nisso aí, não digo que todos os que pixam tem questionamento social, mas fazem parte de um meio. A própria cidade criou isso. A cidade não tem lazer, não oferece alternativas, é um lazer que os caras tem. Aqui em Florianópolis quase não se vê pixação, e quando vê é de são Paulo.

Tá cagando pra cidade sim, mas o que são Paulo devolve pra essas pessoas? É cultural da cidade de são Paulo por que? Tá tão intrínseco, tem tanta gente que pratica. É gigante a parada é rola uma interação social enorme entre esses caras. Nunca são casos isolados, os caras estão se comunicando através daquilo, é uma outra forma de se falar dentro da cidade. Independente de gostar ou não de pixação você não acha que vale tentar sacar o que realmente tá por trás? O que motiva alguém a arriscar a vida, ser preso por algo que nunca vai trazer retorno? É de questionamento que eu estou falando. Se rolar essa interpretação aí tem formas de resolver de uma maneira menos paleativa do que só desperdiçar um monte de grana em tinta pra gerar uma guerra que não vai se resolver.

Esse ponto de vista me lembrou muito o que Roger Scruton chama de “culpa transferida”, no capítulo Defesas Contra a Verdade de seu livro “As Vantagens do Pessimismo”. No livro, ele cita o exemplo da imediata explosão de culpa direcionada aos Estados Unidos logo após os ataques de 11 de Setembro:

Todo mundo sabia – e a natureza dos ataques demonstrava isso sobejamente – que a al-Qaeda não é uma organização com a qual seja possível manter algum diálogo, ou que tenha o hábito de examinar a consciência e lamentar os seus atos. Ela existe para recrutar o ressentimento e para canalizá-lo contra o alvo habitual, que é aquele que está à vontade no mundo e que desfruta dos benefícios que os ressentidos do mundo não conseguiram obter. Qual é o sentido de culpar uma organização desse tipo, ou até mesmo de fazer julgamentos morais? Não, em vez disso, votemo-nos contra a América e vejamos o que ela fez – por meio de seu próprio sucesso – para merecer aqueles ataques.

A questão aqui não é comparar o potencial destrutivo de uma organização como a al-Qaeda  com o bando de pixadores paulistanos, pois são coisas muito distintas. Mas enfim, depois de assistir aos vídeos e aos depoimentos dos pixadores, fica bem claro que não é muito uma questão de diálogo ou de ceder a exigências. Eles vandalizam porque querem vandalizar. Sujam porque querem sujar, porque isso os faz sentir bem. Não é para um reconhecimento da sociedade, não é para fazer exigências de algo em troca (seja o reconhecimento do pixo como arte ou de melhores condições sociais). E aqui, nesse ponto, ambos os grupos se equivalem: é necessário encontrar um culpado pelo crime que cometemos. Isso, caros amigos, é um grave problema!

Treta #2

danilo

Nesse caso, printei diretamente a conversa que tive com o Danilo. O cara é praticamente meu irmão, e me autorizou mencioná-lo aqui.

Achei um ponto de vista bastante interessante, principalmente o caso que ele mencionou sobre a cidade que ele conheceu. Eu acho que tenho um indício do porquê da cidade medieval ser diferente nesse aspecto em relação a São Paulo. Talvez seja porque São Paulo é uma cidade que não dá para ser comparada com quase nenhuma outra cidade no mundo, tendo em vista suas proporções gigantescas. Tanto em população quanto em área territorial, a cidade é enorme. Não vou nem mencionar aqui as diferenças culturais e sociais, mas só o tamanho já faz com que qualquer comparativo nesse aspecto só possa começar a ser feito com cidades como Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio.

Outra coisa bem legal foi: todos nós podemos atingir níveis maiores de cultura, tolerância e desenvolvimento. E acho que aqui está o X da questão. Até fazendo um paralelo com o último comentário da Treta #1, a chave para a solução do problema, ao meu ver, não está em reconhecer o pixo como algo bom, como arte, ou como expressão válida. Isso talvez mantenha essas pessoas à margem da sociedade, aprisionadas em seu mundo, presas à baixa cultura e ao submundo do vandalismo. A chave, portanto, é prover a elas acesso ao que há de melhor, é resgatá-las para um mundo de dignidade, de beleza. Já dizia Albert Einstein: uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.


Mas enfim, o que é arte?

Esse é um assunto delicado, sobre o qual não sou especialista para falar. A única observação que tenho é aquela máxima: quando tudo é arte, nada é arte.

E por que isso é importante?

É importante porque quando consideramos tudo o que gostamos, apenas pelo fato de que gostamos, como algo supremo, sem discutir qualidade, tudo passa a ser irrelevante. E quando tudo é irrelevante, perdemos a referência do sagrado, do puro, do belo. Uma cultura sem referências é algo pobre, insignificante.


E os outros crimes? E a corrupção? E a saúde? E a educação?

Sempre quando um assunto polêmico desses vêm à tona, imediatamente surgem os espantalhos. Isso é invariável!

Há um problema na maioria das discussões atuais onde as pessoas não gostam de se ater apenas à questão central, mas sim tergiversar sobre tudo que o cerca e possa ter alguma relação. E as pessoas fazem isso justamente porque procuram esses subterfúgios para defender uma ideia. Procura-se mudar o contexto, maquiar a realidade, a fim de que tudo se adapte àquela ideia central que a pessoa defende.

Justificar um crime de dano à propriedade alheia porque outras coisas não vão bem me parece bastante insano. Também me parece insano dizer que combater crimes de menor potencial de violência não tem relevância tendo em vista as grandes atrocidades que vemos por aí. Como se tivéssemos que ser tolerantes com um assaltante só porque tem muita gente sendo estuprada por aí.

Outra insanidade é o pensamento do: não adianta apagar as pixações pois elas vão continuar aparecendo. E aqui cito dois motivos:

1 – Isso faz tanto sentido quanto dizer que não devemos prender assassinos porque assassinatos continuarão acontecendo.

2 – Conhece a teoria das janelas quebradas? Deixo aqui um texto bem interessante sobre o assunto.


Conclusão

Como eu sempre digo, não é porque eu gosto de algo que isso é verdadeiramente bom. Então as minhas opiniões pessoais sobre determinado assunto são meramente emotivas, baseadas em sensações.

No entanto, há um ponto que precisamos ser racionais aqui.

Ninguém é obrigado (ou não deveria ser) a aceitar o meu gosto pessoal e ter que conviver com ele. Isso se chama respeito. Eu posso ouvir a música que eu quiser, ler o livro que eu quiser, decorar o ambiente como eu quiser, assistir o filme que eu quiser, desde que isso esteja na minha esfera privada e não interfira na vida de ninguém. Claro, posso indicar tudo isso para as pessoas com base nas minhas opiniões pessoais, mas não posso obrigá-las a aceitar isso.

Invadir o espaço de alguém para marcar algo que eu acho legal é imoral. É como ouvir uma música alta que eu gosto, obrigando meus vizinhos a compartilharem do meu gosto. É como escrever na parede da casa do meu amigo uma frase interessante que li em um livro que gosto. É como projetar na parede do vizinho um filme bacana que assisti.

Mas como o poder público pode resolver isso?

Eu acredito que espaços públicos não devem ser espaços para divulgação de NENHUMA opinião, seja ela expressada como for. Viadutos, pontes, parques, monumentos, todos devem estar limpos e impecáveis. E você vai me perguntar: pô, Zuza, mas não era você que queria tudo grafitado? Sim, eu quero. Mas quem disse que todo mundo tem que querer, só porque eu acho bacana? Acho legal pra caralho carro na cor azul marinho, mas isso não quer dizer que eu queira que algum político obrigue todas as pessoas a terem um carro azul marinho.

Por outro lado, espaços privados poderiam sim servir de vitrine para os artistas de rua. E isso deveria, de certa forma, inclusive ser incentivado pela prefeitura, ao meu ver, através de reduções tributárias para esses casos. Já temos vários casos desses pela cidade, onde fachadas inteiras de prédios são grafitadas com autorização dos proprietários. É aqui que mora a chave da questão: autorização! Se o espaço é meu, eu posso autorizar fazer o que quiserem nele. Se eu sou a favor do pixo, ou do grafite, eu posso autorizar fazer o que quiserem na minha propriedade. E nisso o Estado não precisa sequer intervir.

Outro meio bastante bacana, ao meu ver, é a iniciativa do atual prefeito em estabelecer galerias / museus específicos para esse tipo de arte. Espaços reservados para os artistas exporem seus trabalhos, serem reconhecidos, ganharem dinheiro. Só espero que isso não fique apenas na vontade e realmente saia do papel.

Enfim, minha conclusão é que tudo deve ser baseado no respeito. Meu espaço, minhas regras.

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