Vamos falar sobre educação?

Publicado: 20 de janeiro de 2017 por Kzuza em educação
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Sempre fui um cara que, seguindo o senso comum, acreditava que a chave para o sucesso estava na educação. Uma nação bem educada era uma nação próspera. Com educação, todos estariam bem. Sem uma educação de qualidade, a nação estaria fadada ao fracasso, à criminalidade e toda a sorte de coisas ruins.

Eu era assim.

Tudo começou a mudar em uma palestra que assisti do Leandro Narloch. Ele colocou um ponto de vista no qual até então eu nunca havia pensado, nem sequer tido contato com algo parecido. Ele disse que não acreditava que educação trouxesse progresso, mas sim que o progresso trazia a educação. E exemplificou com um caso da época em que começou a trabalhar em uma revista aqui em São Paulo (acho que era a Superinteressante), e percebeu que suas chances de crescer profissionalmente eram pequenas porque ele não falava inglês. Então, resolveu ir atrás de aprender para poder se destacar. Ou seja, seguindo a lógica dele, as pessoas só buscam a educação por necessidade, não porque seja algo prazeroso.

Bem, mas um exemplo pessoal isolado e um ponto de vista único não seriam suficientes para me fazer mudar de ideia.


Recentemente, li o livro Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, do psiquiatra britânico Theodore Dalrymple (pseudônimo utilizado pelo senhor Anthony Daniels). Nele, o autor destrincha um pouco mais esse assunto e dá uma série de exemplos que corroboram o ponto de vista do Leandro Narloch.

Ele começa explicando a postura de Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico, que defendia o objetivo de ajudar todas as crianças da África a concluir pelo menos o ensino primário. Segundo o autor:

Na perspectiva dele (Gordon Brown), o baixo nível da educação na África inibe o crescimento econômico. A África é pobre porque as pessoas são ignorantes e iletradas. Acabe com a ignorância e ensine-as a ler, (…), e tudo ficará bem, ou pelo menos muito melhor.

Mas será mesmo? Haverá mesmo qualquer correlação na África entre os níveis de educação e as taxas de crescimento econômico? E, mesmo que exista essa correlação, será que podemos ter certeza de que foi a educação que causou o crescimento, e não o crescimento que causou a educação? Ou será que, na verdade, não houve relação causal nenhuma?

Então ele passa a alguns exemplos reais, vivenciados inclusive por ele. Cita o caso da Tanzânia, onde durante o governo de Julius Nyerere, um devoto da educação, o nível de alfabetização em seu país melhorou rapidamente, provavelmente chegando ao nível da Grã-Bretanha na época. Porém, essa melhoria não melhorou em nada o desenvolvimento econômico do país, que foi ficando cada vez mais pobre. Isso porque Nyerere destruiu a economia do país com políticas socialistas. Além disso, Dalrymple dá duas razões para que o alto nível de alfabetização não tenha melhorado a situação econômica do país: uma econômica, outra cultural, a saber:

O custo econômico de aumentar a alfabetização foi considerável e usou recursos escassos; isso teria sido uma coisa boa, do ponto de vista econômico, apenas se fosse um fato que um alto nível educacional automaticamente resultasse em desenvolvimento econômico. Do contrário, esse investimento em educação é economicamente nocivo, por ser um desperdício.

Um alto nível educacional foi economicamente nocivo também por razões culturais. Um dos legados do colonialismo, na Tanzânia como no resto da África, era que o estudo era visto pelas pessoas como o meio pelo qual se poderia entrar para o serviço público, o qual, mesmo que pagasse pouco a olhos europeus, oferecia os confortos e a segurança de um trabalho de escritório, quando a única alternativa era trabalhar a terra com o suor do próprio rosto e sem qualquer garantia de retorno. Era essa a principal e, muitas vezes, a única razão pela qual a educação era tão altamente valorizada.

Dessa forma, ele mostra que aumentar o número de pessoas com instrução pode ser um problema do ponto de vista econômico, pois significa que:

(…) um excedente econômico maior precisa ser extraído de uma base econômica menor, porque é preciso encontrar posições no governo para pessoas com instrução.

O autor também cita no livro problemas semelhantes fora da África. Segundo ele, as guerrilhas revolucionárias da América Latina foram resultado da expansão do ensino terciário (ou o que chamamos de ensino superior aqui no Brasil) para além da capacidade da economia de absorver seus produtos. Um exemplo é o grupo peruano Sendero Luminoso, iniciado no campus da Universidade de Ayacucho por um professor de filosofia. Outro caso interessante é descrito assim:

Na Grã-Bretanha, não por acidente, (…) a burocracia aumentou pari passu com a expansão da educação terciária, normalmente em assuntos sem valor profissional e muitas vezes de quase nenhum valor intelectual. Algo precisa ser feito com todos os formados para que eles não se transformem em profissionais frustrados. (…) o paradoxo, ou absurdo, de que o governo britânico pretenda mandar para a universidade 50% da população que está saindo da escola, ao mesmo tempo que 40% dessa mesma população mal consegue ler. Claro que alongar as carreiras educacionais e fazer as pessoas pagarem por elas é um modo de fazer com que jovens financiem seu próprio desemprego.

Observação desse cara aqui que vos escreve: qualquer semelhança com a expansão desenfreada do ensino superior no Brasil nos últimos governos é mera coincidência.

Dalrymple ainda dá os exemplos:

  • Guiné Equatorial, que apesar do alto nível de instrução da população na época da sua independência da Espanha, em 1968, e de um dos maiores níveis de riqueza per capita do continente, não esteve livre os abusos cometidos por Macías Nguema.
  • Congo, que ao se tornar independente da Bélgica em 1960, possuía apenas cerca de uma dúzia de pessoas com diploma universitário e que hoje, onde eles existem aos milhares, não se pode dizer que as coisas tenham melhorado.
  • Serra Leoa, apesar de um longo histórico de realização educacional, não fortalece a fé de ninguém no papel da educação como propulsora do desenvolvimento econômico.

No entanto, talvez o parágrafo mais importante de Dalrymple é:

Isso ignora o fato de que os regimes que demonstram entusiasmo para alfabetização também costumam demonstrar entusiasmo pela censura e por garantir que todos tenham as mesmas ideias, ou, ao menos, que as expressem. No mundo moderno, a alfabetização foi tanto o instrumento da ditadura quanto a liberdade.

É bem aqui que mora o problema, o qual eu volto a discutir em breve nesse texto.

O autor conclui que a educação não é condição suficiente para o desenvolvimento, mas talvez ela seja uma condição necessária. Ele dá os exemplos da Índia e da Irlanda, que investiram pesado em educação mas que, somente quando finalmente adotaram política econômicas que promoviam o crescimento, conseguiram tirar vantagem das pessoas altamente instruídas.

Em outras palavras, uma consideração das evidências sugere que uma população instruída não é nem necessária nem suficiente para o desenvolvimento econômico da África, ao menos nesse momento. O que é necessário é a oportunidade, acesso a mercados, e a educação, seja primária, secundária ou terciária, não substitui isso. É verdade que, num estágio posterior de desenvolvimento, uma população mais bem instruída e treinada se tornará necessária: mas não há razão para supor que uma sociedade em desenvolvimento não pode adaptar seu sistema educacional a suas necessidades. Nas circunstâncias africanas, uma população instruída deveria ser a consequência, não a causa do desenvolvimento.

Peço licença aqui para complementar o raciocínio do Sr. Dalrymple, estendendo suas colocações também ao nosso Brasil. Não acho isso nem um pouco insano, para falar a verdade. Acho que o autor só não colocou isso no texto porque não tem experiências aqui em nosso território.


Hoje também vi uma postagem super interessante sobre esse assunto, de autoria do jornalista Alexandre Garcia:

Por causa das matanças selvagens em prisões, ouço e leio todos os dias teorias de como combater as facções do tráfico de drogas. Construir prisões se contrapõe a esvaziar prisões; punir ainda mais traficantes se choca com aliviar a pena de pequenos traficantes; liberar a droga versus vigiar mais a fronteira; deixar que se matem nas prisões ou deixar que nos matem nas ruas – e por aí vai uma série de palpites que convergem para a suposta sensatez do politicamente correto que se resume numa frase bonita: “construir escolas para não precisar construir prisões”.

Muito lindo mas, esquecemos que as escolas já estavam construídas quando a droga se expandiu. E começou justamente nas escolas. Também a frase embute uma falácia: de que a escola é para dar educação. Não é. A escola é para ensinar. Educação, formação, é na família. Estão esquecendo que a responsabilidade pela formação é do pai e da mãe. E se as famílias estão desagregadas, então é preciso reconstruir a família, para não depender da construção de escolas ou de presídios. É preciso mostrar ao pai e a mãe que são os responsáveis pela educação dos filhos, pela formação da cidadania nas novas gerações. A escola ensina matemática, linguagem, ciências e até civismo. Mas o caráter da criança que está pronta a recusar a oferta de droga, vem de casa.

Parece fácil, mas não é. Agora mesmo leio nos jornais o estardalhaço que se faz porque a ANVISA liberou um remédio à base da Cannabis Sativa, no Brasil conhecida como maconha, palavra inventada pelos escravos que recebiam cânhamo para aplacar o cansaço, segundo deduzo. E nos títulos dos jornais, a palavra maconha aparece como remédio. Falam em “uso recreativo da droga”. É mentira. A maconha e as outras drogas piores destroem os neurônios e, pior ainda, destroem a vontade, transformando seres livres em escravos. Chama-me a atenção o marketing que tem a maconha na mídia. Por isso, é preciso uma luta constante dos pais, mostrando que a droga só tem lado ruim. A propaganda da droga fala em sensações. Ora, a melhor maneira de desfrutar qualquer momento da vida é estando consciente.

Aí vem outra questão que devem estar esquecendo deliberadamente, por medo. Só se fala em combater a ponta final da droga, o tráfico. É o final, quando não tem mais jeito. Pois tudo isso que se combate se alimenta, é financiado, pelo que não se combate publicamente: o consumo, na ponta inicial. O usuário é quem sustenta tudo isso. Ora, se a droga não vender, não tiver mercado, não haverá tráfico, porque não haverá consumo. E as consequências da droga nos consumidores são piores que as consequências entre os traficantes das diferentes facções, nas prisões. Nas prisões, pouco mais de uma centena foram decapitados. Nas famílias, nas escolas e nas ruas brasileiras, milhões já perderam a cabeça para a droga.

Li também outro dia alguém que dizia que a redução da impunidade, com punições mais severas, fazendo com que o crime não compensasse, levaria muito mais crianças e jovens às escolas do que qualquer outra medida. É polêmico, mas é algo para pensar.


Outro ponto importante nessa discussão, onde remeto ao parágrafo mais importante de Dalrymple, é que a maioria esmagadora das pessoas (sejam ela de direita ou de esquerda) concorda que o governo (seja ele qual for) está pouco preocupado com um povo “educado”. Para o governo, quanto mais ignorante a população, melhor. É mais fácil manipulá-la.

Isso é senso comum.

O que não me entra na cabeça é: se o governo não quer uma população “educada”, por que então as pessoas pedem para que esse mesmo governo invista em educação?


Minha conclusão: educação é a consequência, e não a causa, do progresso.

Não vejo indícios de que o aumento na qualidade do ensino, com mais escolas, professores bem remunerados, e seu fácil acesso pela população resultem em uma sociedade mais próspera. A melhoria na educação deve ser o nosso objetivo, e não o meio para se alcançar o desenvolvimento econômico.

Precisamos muito mais de combate à criminalidade, redução da impunidade, facilidades para criar e realizar negócios, redução drástica da burocracia e consequentemente do tamanho do Estado, simplificação do regime tributário e trabalhista, do que propriamente de um maior número de escolas e universidades. Isso será apenas a consequência.

E você, concorda?

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comentários
  1. […] mencionei aqui e aqui o livro “Podres de Mimados” do Dalrymple, onde ele explica muito bem tudo isso. […]

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