É apenas uma questão de opinião?

Publicado: 13 de janeiro de 2017 por Kzuza em Política
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Um casal de amigos veio jantar na minha casa. Perguntei a eles se gostariam de tomar um vinho, e eles aceitaram. Abri a garrafa, servi as taças, brindamos e cada um deu um gole. Minha amiga disse: Hum, esse vinho é bom! Eu disse na sequência: Olha, se é bom, eu não sei, mas eu gosto bastante!

Eu não entendo nada de vinho. Não sou capaz de diferenciar uma uva de outra (exceto Syrah, que não sei porque caralhas me deixa alterado já na segunda taça). Então, em meu universo particular, costumo categorizar os vinhos em apenas 2 grupos: os que eu gosto, e os que eu não gosto. Como meu paladar definitivamente não é o meu sentido mais aguçado, pode-se imaginar então que nem sempre o que eu gosto está associado com a boa qualidade do vinho.


A música de 2017, o hit do verão, que está fazendo balançar até as bundas peludas das mais feministas é o tal de “Meu pau te ama”. (Quem diria que até essa meninada de hoje, a geração “mimimi”, estaria tão empolgada e se divertindo com algo tão ridiculamente machista!). Parece-me que o vídeo original da música (e nem vou contar todas as versões das coreografias de famosos e outros não tão famosos assim) tem milhões de visualizações no Youtube. Pasmem, está cheio de gente que gosta! Mas isso também não quer dizer que a música seja de boa qualidade, e nem preciso ser especialista no assunto para dizer.


Um dos grandes sucessos do Netflix em 2016 foi a série “Stranger Things”. É uma espécie de terror adolescente, cheio de sustinhos, uma Winona Ryder magistral e 4 moleques e uma menininha que são os protagonistas da história (carismáticos que só eles!). A série é super bem produzida, cheia de computação gráfica, efeitos especiais, etc. e tal. Não há dúvida que é de excelente qualidade. Mas eu não gostei muito. E conheço vários amigos que também não gostaram, ou pelo menos não se empolgaram tanto quanto a crítica prometia.


Ludwig van Beethoven é talvez o maior compositor da história. Segundo a Wikipedia:

É considerado um dos pilares da música ocidental, pelo incontestável desenvolvimento, tanto da linguagem como do conteúdo musical demonstrado nas suas obras, permanecendo como um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos.

Agora me diga: quantas pessoas você conhece que de fato gostam de Beethoven?


Os 4 exemplos que dei na introdução desse texto ilustram um fato que muita gente desconsidera:

Nem sempre o que você gosta é de boa qualidade, e nem sempre o que é de boa qualidade você gosta.

Gosto pessoal muitas vezes não tem a ver com a qualidade. Ele depende muito de vários fatores, como sua criação, o local onde você cresceu, seu círculo de amizade, suas experiências sensoriais, entre outros.

Mas como então saber o que é e o que não é de boa qualidade?

Bem, hoje em dia há especialistas para tudo. Tem gente que dedica a vida toda a estudar determinado assunto. Enólogos, musicistas, críticos de arte… em todos esses grupos, há sempre expoentes que podem ser ouvidos e considerados. Veja, não estou dizendo que todo especialista é bom (e até isso tem grau de qualidade), mas estou certo de que cada ramo possui um especialista considerável.

É óbvio que a nossa opinião pessoal nem sempre irá ao encontro de tais especialistas. Um crítico de arte moderna pode considerar determinado quadro pintado por um grande pintor como uma obra-prima, e para mim aquilo pode não passar de um rabisco mal-feito.

Basicamente, quando se tratam de opiniões pessoais que se mantém dentro da esfera privada, o impacto social disso é muito pequeno (para não dizer nulo). Sim, dane-se a minha opinião sobre o vinho XPTO. Se eu não gostar dele, isso não vai fazer muita diferença. Dane-se se você não gosta de estrogonofe, mesmo que tenha sido feito com creme de leite fresco e filé mignon.

Mas há um problema nesse conceito. Quando isso passa para o aspecto das ideias, bem, aí sim o impacto pode ser desastroso.


Recentemente, tive uma conversa com um amigo meu sobre essa questão. Ele se dizia preocupado com um grupo do Facebook onde jovens adolescentes estão defendendo ideias conservadoras, de livre mercado e machistas de uma forma absurda.

Isso corrobora uma teoria minha:

O problema não são as ideias, mas os indivíduos imbecis.

Não, meu amigo não é um imbecil. Pelo contrário. Mas o que o espanta são justamente indivíduos imbecis, e talvez não justamente as ideias gerais do conservadorismo e do livre mercado. (Obs1: Aqui, excluo o machismo, que não há como defender de forma alguma racionalmente. Obs2: brincadeira minha, as ideias conservadoras e de livre mercado também não devem agradá-lo.).

Na verdade, aqui voltamos novamente aos exemplos lá do início do texto. Quando se tratam de ideias, o mesmo princípio se aplica: Não é porque eu gosto de A que A é necessariamente bom; e não é porque eu não gosto de B que B é necessariamente ruim. No entanto, aqui o impacto de não se conseguir identificar se A ou B são bons ou ruins pode ter consequências desastrosas. E essas consequências podem chegar a violência física contra os que não concordam com o seu gosto pessoal (ou à eleição de políticos que justamente defendem péssimas ideias para nos governar).

Mas por que há tantos imbecis?


Li um texto essa semana excelente sobre essa questão aplicada ao gerenciamento de projetos de desenvolvimento de software. Talvez a parte mais legal desse texto seja esse vídeo aqui ó:

Segundo Carl Jung:

Pessoas não possuem ideias; ideias possuem pessoas.

Aqui, cabe uma reflexão interessante sobre algo que tenho observado com uma frequência absurda nas redes sociais (e que com certeza reflete exatamente o mundo real em que vivemos): as pessoas se identificam com uma certa ideia e passam a se agarrar a elas como uma criança ao seu bicho de pelúcia predileto. Tente arrancar isso delas e terá como consequência muito choro, muita birra e muita malcriação. E mais que tudo: as pessoas têm tentado com frequência personalizar essas ideias em alguns “seres iluminados” que se tornam imaculados. Então, esses “seres iluminados” passam a ganhar um salvo indulto para dizer e fazer o que quiserem, e então serem glorificados por isso.

Tente discordar de algum absurdo que algum desses iluminados tenha dito e verá a fúria de seus seguidores. Discorde de um argumento de um deles e será tachado como adversário, como um ser repugnante, como um opositor, traidor das ideias.

Claro, estou generalizando aqui, e isso nem sempre é bom. É óbvio que nesse mar de gente estúpida há mentes iluminadas, abertas ao diálogo, ao confronto de pensamentos, à análise crítica das posições, e que não se deixam levar por falácias ad hominen.

Veja, estou sendo completamente imparcial aqui. Isso é válido para coxinhas e petralhas, para feministas e feminazzis, para abortistas e não abortistas. Enfim, não estou me atendo às ideias, mas sim aos imbecis existentes.


É claro para mim, no entanto, que nesse ponto há uma diferença muito grande entre as verdadeiras mentes pensantes dos dois lados da moeda (chame de direita e esquerda, se preferir). E nesse caso, vou me ater somente às verdadeiras mentes pensantes. Pessoas abertas ao diálogo, que entendem do assunto, que lêem bastante, dominam assuntos como filosofia, economia, política, etc. Não estou falando de mim, nem provavelmente de você que está lendo esse texto. Estou falando de gente realmente brilhante, e não de 99,99% das pessoas desses grupos de redes sociais que se propõem a debater esses assuntos.

A diferença nesse ponto reside na forma de apelo e defesa de suas ideias. Enquanto a direita se pauta no objetivismo, na razão e no empirismo, a esquerda baseia-se no subjetivismo, no sentimentalismo e no que Roger Scruton chama de “Falácia da Melhor das Hipóteses” (leia As Vantagens do Pessimismo: e o perigo da falsa esperança). Ou, melhor dizendo (já provocando), conforme assisti em um live feito pela Renata Barreto outro dia: uns tomam decisões baseados no que é bom, outros tomam decisões baseadas no que lhes faz bem.


Aliás, ainda sobre esse livro, no qual o autor explica por que uma dose considerável de pessimismo deve ser sempre levada em conta quando se há alguma decisão a ser analisada (ideia com a qual eu me identifiquei completamente), acredito que aí está o grande X da questão.

Quando as pessoas são dominadas pelas ideias, e elas se armam de um otimismo inescrupuloso, observamos exatamente toda essa sorte de imbecis vociferando besteiras por aí.

Se você não mantém sempre um pé atrás com as ideias nas quais você acredita, se não está sempre desconfiando das informações, investigando as fontes, analisando e pensando, você fatalmente está condenado a se tornar um desses imbecis.


Atualização: Achei que ficaram algumas coisas em aberto, então resolvi gravar esse vídeo para complementar.

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