O mundo mimadinho

Publicado: 20 de dezembro de 2016 por Kzuza em Comportamento, Política
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Tenho reparado infelizmente que há um esforço generalizado globalmente, nas esferas política e social, para que as população em geral não seja ofendida ou fique chocada diante da realidade nua e crua do nosso mundo. Tenho reparado que tanto a mídia em geral quanto os governantes (e não estou falando só de Brasil) têm a cada dia se esforçado mais para não magoar ou ofender os pobres seres humanos que recebem suas mensagens. Em plena era da informação, onde somos bombardeados diariamente por inúmeras fontes de informação, há esse esforço enorme para que tudo nos chegue mastigadinho, bonitinho, maquiado e cheiroso, de maneira que fiquemos confortáveis e sem muita palpitação no peito.

Vejo esse esforço refletido em pais e mães modernos, principalmente naqueles que tiveram filhos após a década de 1990, que se empenham diariamente na luta de não frustrar os seus filhos. Esses pais que mentem para seus filhos, que escondem a realidade cruel do mundo lá fora. Colocam seus filhos em redomas de vidro, onde tudo o que desejam é possível e se torna real. Onde tudo é cheirosinho, bonitinho, fofinho e barato. Onde o esforço e o trabalho não são necessários para atender seus desejos: basta orar, ser um bom menino, pedir a Deus e ter pensamento positivo que tudo estará ali à disposição.

A fé tem superado a realidade. A crença em dias melhores, em pessoas melhores, em um mundo melhor, parece bastar. Não há trabalho requerido. Não há dinheiro que falte para atender nossos desejos, basta desejá-los. Basta alguém dizer que é possível. Basta dizer que podemos viver no oásis, em paz e abundância. É só dizer que tudo o que você faz é com as melhores intenções que automaticamente o resultado das suas ações será bom.

Isso porque pensar cansa. Analisar cansa. Castigar cansa. Punir cansa.

E assim criamos um mundo de bunda-moles (para não usar palavras mais pesadas aqui). Temos hoje uma geração de gente mimada que quando se depara com os problemas reais de um mundo real, com pessoas reais, desabam psicologicamente. Entram em depressão. Um mundo de pessoas que vivem se perguntando “Por quê????” depois que as coisas dão errado, mas que nunca se preocuparam em fazer a mesma pergunta quando estavam tomando suas decisões.

Então passamos a terceirizar a culpa. Culpamos as estrelas, o horóscopo, os que pensam diferente de nós, os ricos, os pobres, os pretos, os brancos. Mas nós não, nunca somos culpados. Nós gostamos de viver confortáveis, em casas de alvenaria, em frente a um computador com Netflix e Facebook, onde ninguém possa nos incomodar com a realidade cruel do mundo, onde ninguém possa dizer nada que vá contra o que pensamos.

E aí pensamos: o problema do mundo é que nem todas as pessoas pensam como eu. Nem todas as pessoas agem como eu. Se fosse assim, o mundo seria melhor. Isso para não citar os mais ignorantes, que preferem pensar: o problema do mundo é que nem todas as pessoas pensam como fulano-de-tal. Ou seja, além de preferirem uma heterogeneidade de ideias, ainda terceirizam a mente e subjugam a sua própria capacidade de pensar e agir.

Essa ideia de não querer se indispor com ninguém, de não querer causar desconforto, de não se opor a ideias completamente absurdas, apenas em nome de um bem estar alheio, está condenando a nossa sociedade. Eu não sei quando isso começou, mas creio que não é de agora. Deve vir em doses homeopáticas há bastante tempo, mas já contaminou o nosso mundo. Hoje passa quase imperceptível por nós em muitos casos, mas em outros é extremamente flagrante. E dessa forma as pessoas vão achando isso normal. Vão achando legal a iniciativa de censurar pensamentos que vão contra aos seus, pois é preferível ocultar e sufocar ideias indigestas do que simplesmente refutá-las com argumentos melhores. É preferível negar que existem pessoas más no mundo do que realmente combatê-las.

Agora você deve entender o porquê da mídia chamar de “suspeito” o homem que, em frente às câmeras fotográficas e de televisão, assassinou o diplomata russo em Ancara, na Turquia. Chamá-lo de assassino terrorista é dar nome a algo ruim, que não queremos encarar, então melhor suprimir isso.

Agora você entende porque chamam um assassino ou um ladrão com menos de 18 anos apenas de “menor”. Como se todos fossem iguais. Isso não causa desconforto.

Agora você entende porque tanto as autoridades quanto a mídia em geral evitam falar em “terrorismo”. Preferem dizer que um “caminhão atacou um mercado natalino em Berlim”, como se esses veículos fossem autônomos. Dizer que um homem mau fez isso pode fazer as pessoas crerem que existem homens maus no mundo, coisa que não existe lá naquela sociedade onde todos nós queremos viver.

E enquanto procuramos palavras mais amenas, enquanto procuramos encontrar eufemismos cada vez mais elaborados, enquanto o politicamente correto toma conta do nosso dia-a-dia, o mundo real continua lá fora, sendo cruel. Os homens maus continuam existindo. A economia continua sendo cruel, queira você ou não, goste você ou não. Os recursos continuam sendo finitos. E se ninguém fizer nada pelo que tanto desejamos, nada acontecerá.

Quando nos dermos conta de que não é um cartaz pela paz, ou a unha pintada de branco de uma atriz, ou uma hashtag nas redes sociais, que será capaz de fazer com que os homens maus parem, talvez seja tarde demais.

Quando nos dermos conta de que não basta nosso desejo puro, inocente e bem intencionado para que benefícios sejam concedidos pelo governo à população (e aqui você pode incluir toda a sorte de benefícios), talvez seja tarde demais.


Só para completar o texto, deixo um vídeo da Lucy Aharish comentando sobre a guerra na Síria. O vídeo está em inglês, mas é fácil de entender.

Ela completa com a frase de Albert Einstein: “O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os assistem sem fazer nada”.

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