Uma crença maléfica

Publicado: 9 de dezembro de 2016 por Kzuza em Política
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Temos observado recentemente uma crise política no Brasil sem precedentes. Mais do que política, a crise é institucional, colocando em xeque nossa República e a nossa tal democracia participativa.

Não há nesse país um único cidadão que confie 100% na classe política brasileira. Nesse ponto, todos estão de acordo, o que é cada vez mais raro em um país tão dividido nos últimos tempos entre coxinhas e mortadelas, azuis e vermelhos, direita e esquerda.

No entanto, apesar dessa ausência de confiança, o nosso povo, em sua maioria, apresenta um duplipensar (na novilíngua de George Orwell em 1984, ou, se preferir, pode chamar de dissonância cognitiva) que chega a ser assustador em muitos casos. Vejamos.

Você alguma vez já ouviu as seguintes frases:

  • “O governo não investe em educação porque não tem interesse em ter um povo inteligente, que pensa, que tem senso crítico.”
  • “Precisamos escolher melhor os nossos candidatos na hora de votar. Checar seus antecedentes, sua índole, sua honestidade.”
  • “O governo precisa investir mais em saúde.”
  • “A prefeitura precisa melhorar o transporte público.”

Aposto qualquer coisa que você escutou pelo menos uma das 4 citações acima nos últimos 6 meses.

Se você não entendeu a dissonância cognitiva desse discurso, eu explico.

Aqui, funcionamos como um fazendeiro que cria ovelhas para obter lã. E aí colocamos uma raposa para tomar conta de nosso rebanho. A cada dia, uma ovelha some do nosso rebanho. Não entendemos porque isso acontece. A raposa é alimentada, bem cuidada, tem nosso carinho, mas mesmo assim ela não cuida direito das ovelhas. Pensamos o que pode estar errado, e então decidimos trocar a raposa. No seu lugar, colocamos outra raposa. Dessa vez, uma raposa mais boazinha, gordinha, que nem come muito. Ela diz que trabalhará melhor se tiver mais ovelhas para cuidar. Passamos a tratá-la melhor, com mais carinho, e ainda lhe pagamos melhores salários. Nossas ovelhas continuam sumindo, mas a um ritmo menor. Mesmo assim, não estamos satisfeitos porque ainda temos prejuízo. Então, mais uma vez, vamos lá e trocamos a raposa cuidadora do rebanho. Porém, o problema continua. Dessa vez, mais ovelhas somem diariamente. Decidimos cobrar mais empenho da raposa. Impomos novas regras para punir mais severamente o sumiço das ovelhas. Pedimos um controle maior do rebanho. Então a raposa se reúne com as outras raposas que fazem parte do seu sindicato, o Sindicato das Raposas Pastoras. Elas decidem fazer vista grossa. E por aí vai.

Nosso maior problema aqui é negar a natureza predatória das raposas. Não importa o que façamos, é da natureza delas comerem ovelhas. Faz parte da cadeia alimentar delas. Mesmo que elas tenham que fingir ser boazinhas, mesmo que elas tenham que fazer isso na calada da noite, sem ninguém perceber, elas continuarão o fazendo. Quando necessário, inventarão desculpas, dirão que não são responsáveis pelo sumiço das ovelhas. Colocarão a culpa em outros animais, até no fazendeiro se puderem, mas tudo continuará como está.

E em vez de retirarmos as raposas de lá e assumirmos nós mesmos o controle do rebanho, cobramos cada vez mais empenho das raposas. Dizemos: eu não quero ter esse trabalho, não quero tomar conta do que é meu. Nem temos muito ideia do que fazer com as ovelhas. As raposas que se virem, pois eu as pago para isso.

É exatamente isso que acontece no Brasil, desde o fim da ditadura militar na década de 80. Estamos sempre em busca de uma raposa (ou, no nosso caso, inúmeras raposas) salvadora, honesta, bem intencionada, boazinha, que irá cuidar bem do nosso rebanho. Damos cada vez mais poder aos políticos para que eles resolvam nossos problemas. Pedimos cada vez mais soluções. Deu errado? Basta mudar as peças. FHC deu errado? Colocamos o Lula e o PT. Deu errado? Mudemos para outro partido. E assim vamos, na tentativa e erro. Como se uma raposa fosse diferente da outra e não gostasse de ovelhas. Esperamos uma raposa vegetariana. E colocamos nela não só esperanças, mas cada vez mais poder. Sim, porque as raposas são sedentas e sedutoras. Elas dizem que são diferentes. Dizem que resolverão nossos problemas. Que estão cheias de boas intenções. Que irão criar leis que ajudem os menos desfavorecidos. Que irão emitir decretos, PECs, que vão nos proteger dos poderosos e exploradores. Que tornarão o mundo mais justo. Que irão gerar empregos com uma canetada qualquer. Que reduzirão a inflação com uma canetada qualquer, como num passe de mágica. Porque essas raposas são seres iluminados, que dominam toda e qualquer esfera do conhecimento. Pois nós, indivíduos comuns, não somos capazes de resolver nada por nós mesmos. Precisamos, além de tudo, nos preocupar com os outros. Os menos favorecidos, que são pouco informados, e também não sabem como resolver suas coisas. Precisamos ajudar todo mundo, pelo simples fato de ajudar, mesmo que a pessoa não mereça ou não precise. Precisamos pensar no próximo, e são as raposas que farão isso, pois nós não somos capazes de saber quem ajudar. Damos nosso trabalho e nosso dinheiro para que as raposas então o distribuam.

A pergunta que eu sempre faço é: até quando?

Até quando vamos continuar nessa brincadeira? Até quando vamos fugir das nossas responsabilidades? Até quando vamos abrir a mão da nossa liberdade individual, o direito fundamental mais importante depois do nosso direito à vida? Até quando vamos continuar sendo seduzidos por propostas de solução de problemas que não passam de demagogia e palavras bem intencionadas?

Você deve então me perguntar: pô, então qual a solução?

Eu respondo que não sei a solução, mas tenho certeza absoluta que ela não passa pela mão do governo. Ninguém melhor para saber o que precisa e o que deseja do que o próprio indivíduo. Terceirizar isso para uma entidade externa qualquer é um devaneio insano demais para minha compreensão, muito mais para a classe política.

Então como mudar isso?

A minha alternativa, já que sou contra qualquer tipo de intervenção, guerrilha ou golpe que tire alguém do poder para colocar qualquer outro que seja, é usar as próprias armas democráticas que já temos, mesmo que ainda tenham falhas. Já que o nosso único poder é o voto, que seja através dele. Mas não da forma como o TSE propagandeia por aí. Eu sugiro: vote em um não-político. Vote em alguém que não tem qualquer vínculo com o Estado. Se possível, vote em um administrador privado (seja empresário, seja executivo, seja diretor de empresa). Vote em alguém com estudo especializado e com experiência administrativa privada. E, o principal, vote em alguém que não tem ambição nenhuma em resolver os problemas do país. Vote em alguém que se comprometa em reduzir o Estado ao mínimo possível e em aumentar as liberdades individuais. Vote em quem se proponha a reduzir o número de parlamentares, o salário dos políticos, a renúncia ao poder de decisão. Vote em quem se propõe a privatizar tudo o que for possível. Vote em quem dá valor ao que o dinheiro representa. Vote em quem tem muito conhecimento em economia. Vote em quem dá mais valor ao trabalho do que a relacionamentos pessoais. Vote em quem é objetivo, e não demagogo.

Isso já é um bom começo. Agora se você continuar votando em quem diz que vai resolver os problemas da saúde, da educação, da desigualdade, da pobreza, da fome, dos transportes e da previdência privada, somente dizendo que vai “aumentar os investimentos” ou que vai “criar novas oportunidades”, sinto muito, amigão. Você continuará condenando o país dos seus filhos e netos a ser essa merda para sempre.

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