Direita x Esquerda; ou Realidade x Utopia

Publicado: 9 de novembro de 2016 por Kzuza em Política
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Observando os mais recentes (e rasos) debates político-filosóficos, principalmente em redes sociais, tenho verificado cada vez mais uma polarização entre ideias de esquerda e direita. Cada um com suas convicções, cada um com suas fontes de informação (umas mais confiáveis que as outras), mas há sempre uma dicotomia quanto às formas de pensamento.

Eu particularmente não me sinto muito confortável entre classificar o que é direita e o que é esquerda. Talvez por não ser especialista no assunto (deve até ser), mas o que fica latente para mim é que há, basicamente, duas visões de mundo diferentes entre as pessoas: aquelas que preferem encarar a realidade nua e crua, o mundo como ele é, e aquelas que preferem buscar o mundo ideal, utópico, onde a paz e a felicidade reinam absolutas por toda a humanidade.

O que muitos chamam de esquerda, para mim, nada mais é do que uma filosofia humana que acredita ser capaz de extirpar todo o mau da humanidade. É uma visão romântica de mundo, baseada nos princípios de Rousseau, na qual o homem é bom por natureza e vai sendo corrompido pela sociedade. Por isso, basta tratá-lo bem, com amor, carinho e respeito, que ele sempre continuará assim. Basicamente, esse é o ideal perseguido: um mundo onde todos estejam em seu estado natural inicial, bonzinhos, fofinhos e bonitinhos.

Eu, no entanto, acho isso uma utopia.

Já o que muitos chamam de direita, novamente no meu conceito, é basicamente a filosofia de se encarar o mundo como ele é: imperfeito. É encarar a sociedade na menor escala possível: o indivíduo. É aceitar que, feliz ou infelizmente, os homens são diferentes entre si e um homem pode ser mau. Aliás, não um, mas vários. É identificar que os homens, apesar de serem iguais perante à lei, são diferentes em suas condições únicas: capacidade intelectual, valores morais, porte físico, etc.

É por isso que a direita machuca. A realidade machuca.

A principal diferença entre ambos os lados, diferente do que muitos pregam por aí, não está nos objetivos perseguidos por eles. É desnecessário afirmar que, em sua maioria, independentemente da filosofia de vida seguida, os homens buscam viver em paz e harmonia. No geral, todos almejamos um mundo justo, privilegiando os homens de bem. A diferença, portanto, está nos meios em que cada lado acredita serem necessários para atingir o objetivo comum.

Qualquer tipo de fé cega em algo que não é real, palpável e cientificamente comprovado é perigosa. Mas a humanidade infelizmente ainda é assim, seja por desinformação, seja por ignorância, seja por comodismo (para não falar preguiça, senão fica pesado). Somos frequentemente tentados, principalmente agora na era da informação, quando somos bombardeados diariamente por uma quantidade absurda de dados, a nos levar por discursos bonitos, românticos, calmos e serenos. A forma como as narrativas chegam até nós muitas vezes se destaca em relação aos seus conteúdos.

É como aquela história do rei que sonhou que havia perdido todos os dentes da boca e mandou um de seus empregados encontrar no reino um súdito que soubesse interpretar sonhos. O primeiro dos interpretadores, ao ouvir a história, disse ao rei, de forma ríspida, que o sonho significava que todos os seus parentes morreriam antes dele. Foi imediatamente condenado à forca. O segundo interpretador disse, de calma serena, para o rei não se preocupar, afinal o sonho significava que ele viveria muito mais do que todas as pessoas da sua família. Foi agraciado com 100 moedas de ouro.

Encaro que, muito mais do que um discurso entre esquerda e direita, há um conflito maior entre sentimentalismo e racionalidade. Theodore Dalrymple, psiquiatra britânico e um grande autor moderno, explora bem isso no seu livro Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico. Luiz Felipe Pondé, filósofo brasileiro, comenta o livro nesse vídeo aqui, que vale à pena ser assistido.

O problema maior que vejo nessa dicotomia é que há aproveitadores em ambos os lados.

Do lado do sentimentalismo (ou esquerda, como queiram chamar), há claro pessoas de boas intenções, ingênuas, românticas, que estão apenas cegas pela sua fé na humanidade onde o mau não exista (e quando se deparam com ele no mundo real, não sabem o que fazer). O problema é que há muita gente esperta que se aproveita dessas pessoas. Ou seja, para quem espera o impossível, nada mais reconfortante do que uma mentira suave bem dita na hora certa. Assistam ao filme O Primeiro Mentiroso (The Inventation of Lying) e entendam bem o que é isso. E são justamente os aproveitadores os que mais lucram com isso, seja se elegendo para cargos políticos, seja vendendo livros, seja sendo colunista da Folha de São Paulo, seja sendo músico no Leblon.

Já do lado da racionalidade (ou direita), o principal problema é o extremismo. Não do jeito que seus amigos pregam por aí, chamando todos de fascistas (que nem é de direita), racistas, xenófobos, machistas. Não. O extremismo que eu digo é aquele de enxergar o mal em qualquer parte, em qualquer texto, em qualquer fala, em qualquer gesto, em qualquer ação. Isso tende a um superprotecionismo, a uma vigília constante, a um estado de “sempre alerta”, a uma perseguição desenfreada a tudo e a todos.

Portanto, não vejo o recente movimento de abandono aos ideais mais de esquerda (representado de forma mais palpável pelo Brexit, pela negação ao acordo de paz com as FARC na Colômbia, pelas derrotas do PT e do PSOL na eleições municipais, e pela derrota da democrata Hillary Clinton na eleição presidencial americana) meramente como uma ascensão da direita. O que eu enxergo, na verdade, é o que chamam de “choque de realidade”. Os resultados nas urnas, seja em plebiscitos, seja em eleições, nada mais é do que o reflexo da mente das pessoas que estão passando a enxergar o mundo como ele é. As pessoas estão sentindo na pele. A realidade é avassaladora, e não tem discurso hipócrita / demagogo capaz de superá-la. E aí não é questão de manipulação midiática, não é questão de ignorância, não é questão de ingratidão com a esquerda. A questão é que quando o discurso não começa a bater com o mundo real lá fora, a credibilidade do discurso vai mesmo pelo ralo.

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comentários
  1. […] mencionei aqui e aqui o livro “Podres de Mimados” do Dalrymple, onde ele explica muito bem tudo isso. Volto […]

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  2. AntimidiaBlog disse:

    Nem de longe o pensamento de direita significa “aquelas que preferem encarar a realidade nua e crua, o mundo como ele é”………essa é uma construção filosófica distorcida e demagoga, que, em partes, tenta desconstruir o pensamento de que pensar de forma conservadora é uma utopia tanto quanto um pesamento social……….seja entre sentimentalismo e racionalismo, esquerda ou direita, a utopia é característica intrínseca de qualquer ideologia dessa dicotomia que você escolher………o suposto mundo de direita, ou racional, é tão utópico quanto o suposto mundo de esquerda, sentimental…………para se entender o que significa direita e esquerda, politicamente falando, recomendo que se leia o como nasceram estes termos e o que eles significavam na Revolução Francesa (da onde eles se originam)…….fora desse contexto (a Revolução Francesa), naturalmente os termos (esquerda e direita) são distorcidos e massacrados……………

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