Sobre armas e desonestidade intelectual

Publicado: 15 de março de 2016 por Kzuza em Divergência de opiniões
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Dia desses eu li em algum lugar um artigo que dizia: “Para a esquerda, não importam os resultados de uma decisão tomada, mas sim a intenção da decisão”. Isso abriu meus olhos para muita coisa, e hoje consigo entender o pensamento de muita gente.

Quantas vezes na nossa vida não fazemos isso? Tomamos uma decisão com uma boa intenção, mas depois os resultados não são satisfatórios? Um fato ocultado na intenção de não magoar alguém, que depois descoberto, acaba trazendo prejuízos para uma amizade? Uma verdade dita em hora errada, que acaba magoando ao invés de ajudar?

Pessoas sérias e honestas avaliam os resultados posteriores e, em muitos casos, são capazes de se arrependerem. Pessoas desonestas, nunca. Procuram justificativas, subterfúgios, desculpas, mas jamais admitem uma decisão errada. Não são capazes (ou simplesmente não querem) avaliar os fatos, mas sentam-se em cima das intenções iniciais para justificar resultados nem sempre positivos.


Essa semana entramos, eu, o Mathias e mais um grande amigo de longas datas, em uma discussão sobre um tema muito polêmico (Desarmamento) com um quarto conhecido.

Para resumir a história: eu, Math e o amigo somos contra o desarmamento civil; o conhecido, a favor.

Há uma coisa a se dizer, antes do que será escrito daqui em diante e que será comprovado através de tudo que foi dito: nem eu, nem Math e nem o amigo teríamos uma arma em casa. Cada um provavelmente por uma razão específica, mas o fato é esse. Eu, e isso digo considerando apenas o meu próprio ponto de vista, sou contra o desarmamento simplesmente pelo fato de que sou contra restringir o direito de qualquer cidadão à sua autodefesa. Não, não acho que o simples aumento de armas em posse de cidadãos de bem seria responsável pela redução da criminalidade (embora hajam indícios disso, é difícil estabelecer causalidade, pelo menos para mim).


 

Aliás, isso me lembrou agora um post antigo do perfil Paródia da Opinião no Facebook:

Não teria uma arma para combater a violência. Isso é função da polícia. Aliás, quando você usa uma blusa, qual sua intenção: se proteger do frio ou combater o inverno?


Bem, a discussão começou com nosso conhecido postando a notícia abaixo:

Ativista pró-armas é atingida por tiro disparado acidentalmente pelo filho de 4 anos

O comentário do autor foi:

Quando eu comento com amigos e familiares sobre ser contra o armamento, é desse tipo de trauma que me refiro.

Sejamos honestos: quem é que deseja um trauma desses para alguém? Ou mesmo: quem é que não se sensibiliza com um fato desse?

Mas o problema começa justamente nesse ponto. Tanto a mídia quanto pessoas a favor do desarmamento adoram esse tipo de notícia. Porque sensibiliza! E quanto mais tocar no lado emotivo, mais propensas as pessoas estarão a concordar com a proibição de armas de fogo. Afinal, quem gostaria de passar por um trauma desses?


Agora vamos lá, onde a discussão começa.

Peguei uma ideia de um post que li em algum lugar e que dizia:

Imaginem que a notícia fosse: Ativista que luta pelo direito das mulheres dirigirem na Arábia Saudita bate o carro e morre.

Usei a mesma lógica com o seguinte comentário:

Quando uma médica, defensora dos direitos das mulheres, comete um erro e mata um paciente, isso quer dizer que não seria justo mulheres trabalharem?


Daqui para a frente, caro leitor, eu sugiro ter estômago e um cérebro honesto funcionando.

Sim, porque a coisa mais normal do mundo é existirem opiniões opostas em assuntos polêmicos. Quando se há debates honestos entre pessoas coerentes, isso é extremamente construtivo. Sugiro, por exemplo, o debate publicado no Spotniks com opiniões pró e contra o aborto. Ambos os autores, Eli Vieira e Francisco Razzo, são completamente honestos e convictos ao defenderem suas opiniões. Eu, como um simples mortal e pouco inteligente que sou, aprendo muito com isso. Faz parte do meu crescimento como ser humano.

Quantas vezes já não entrei em discussões e acabei derrotado por ter argumentos fracos ou não ter uma opinião baseada em fatos? Faz parte, acontece. Mas a única coisa que eu posso dizer é que eu jamais sou desonesto nas minhas narrativas. Posso sim mudar de opinião, e admito que isso acontece comigo com mais frequência do que eu gostaria, mas isso sempre fica às claras.

Porém, o que eu não admito em conversas de alto nível é canalhice (seja ela velada ou descarada) e confusão mental.


Em linhas gerais, o nosso conhecido, autor do post que iniciou nossa discussão, até certo ponto saudável, usa-se de um único argumento para defender o desarmamento civil: evitar traumas nas famílias em caso de acidentes com arma de fogo.

Como eu disse lá na primeira parte desse texto, para o autor, não importa se o desarmamento vai ou não evitar traumas nas famílias, evitando acidentes com armas. O importante para ele é a intenção.

Veja bem: avaliando-se o Mapa da Violência de 2015, é possível se verificar que o número de mortes acidentais causados por arma de fogo no país mantém-se praticamente estável desde o início do Estatuto do Desarmamento, em 2003.


A discussão se desenrolou em vários aspectos. Primeiramente, o autor focou somente no risco trazido pelas armas de fogo. Tentamos mostrar que, na verdade, se fôssemos proibir tudo o que pode trazer risco à vida das pessoas, teríamos que começar proibindo coisas aparentemente mais inofensivas, como piscinas, por exemplo. Esse artigo aqui mostra bem isso.

Porém, esse fato foi completamente descartado pelo autor, mostrando, a partir daqui, boa parte da sua desonestidade. Primeiro, ele disse:

Há um equívoco em dizer que estou colocando a culpa no objeto. Não disse que o problema é o revólver, mas o risco que ele traz.

Oras, mas se o problema é o risco, então vamos focar no que traz mais risco à vida de pessoas, especialmente de crianças!


Mas o ápice da desonestidade do nosso autor veio a seguir. Confesso que isso me deixou extremamente desapontado, pois o cara é um palestrante que fala para uma quantidade grande de pessoas (eu imagino) e por quem eu até tinha certo respeito.

O Mathias fez um alerta:

Perceba que seu argumento está justamente em impor um proibição baseada em objetos considerados perigosos, como a arma.

O autor respondeu:

Há um equívoco quando você disse que a solução que impor proibição. Não disse isso em momento algum.

E completou:

Você está me acusando de algo que não estou fazendo. Não estou impondo nada nem teria como. Então, pare você de lançar sua frustração com uma determinação que surgir de uma votação popular sobre mim.

Eu, que não sou bobo nem nada, não demorei muito a desmascarar o canalha. Fiz a pergunta direta:

Agora sejamos honestos: em um plebiscito, você seria contra ou à favor da liberação de venda de armas para a população civil (com restrições de avaliação psicológica, antecedentes criminais, etc)?

As respostas dele, caros amigos, é de embrulhar o estômago:

Estou sendo honesto sempre aqui. Já houve o plebiscito e meu voto não mudou de lá pra cá. Sinto te dizer que (a opinião do Matheus) não (está certa sobre mim). Eu não estou tentando proibir nada. Eu exerci meu direito de escolha democraticamente e a maioria venceu. A maioria dos brasileiro é a favor do desarmamento. Por mais que isso caia mal pra você e pro Matheus M da Silva, essa é a realidade e não estou sozinho na minha convicção. Vocês querem achar que armas dão segurança, mas nenhuma arma impede que você tome um tiro nem te defende de um: no máximo, você vai atirar de volta. E se ter armas funciona em países mais evoluídos em termos de leis e educação, como Estados Unidos, Canadá e outros, infelizmente, no Brasil não funciona. Tanto não funciona que prefere-se que as pessoas não tenham armas, pelo menos na atual conjuntura.


Esclarecendo alguns pontos importantes:

1 – “Eu não estou tentando proibir nada”. Claro. Eu voto na Dilma, mas não estou tentando fazer com que ela ganhe. Eu voto pela proibição da venda de armas de fogo, mas não estou tentando proibir nada. Cara, isso é de uma desonestidade imensa! Por que não assume a opinião????

2 – “A maioria venceu. A maioria dos brasileiro (sic) é a favor do desarmamento”. Sério? Vamos refrescar a memória do nosso amigo mentecapto. O referendo sobre o desarmamento ocorreu em 2005. E qual foi o resultado? 63,94% da população respondeu NÃO à pergunta: “O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?”. Vou deixar essa na conta da ignorância do autor do post, na falta de conhecimento mesmo, e não na clara intenção de mentir. Recentes enquetes e pesquisas também mostram que a maioria da população é contra o desarmamento, mas nem vou entrar nesse aspecto aqui. O fato da vontade da maioria não ter sido respeitada após o referendo não muda o fato de que a maioria é contra o desarmamento.

3 – “E se ter armas funciona em países mais evoluídos em termos de leis e educação, como Estados Unidos, Canadá e outros, infelizmente, no Brasil não funciona.”. Sério? Não vou responder essa. Vou deixar esse texto aqui para leitura. Se quiser ignorar, que o faça, mas sugiro que compare pelo menos nossa realidade com a do Paraguai, por exemplo.

4 -“Vocês querem achar que armas dão segurança, mas nenhuma arma impede que você tome um tiro”. Gozado ler isso de um mesmo cara que, em um comentário anterior, disse defender o empoderamento da polícia que usa justamente armas para combater o crime. Isso é um tanto quanto conflitante.


 

Outra pérola da discussão foi a seguinte:

Mas o que não é óbvio é que uma arma guardada em casa traz mais riscos aos moradores do que a um eventual bandido.

Sim, porque armas disparam sozinhas por aí e saem matando sua família à esmo. Bandidos são bonzinhos e só querem uma parte do seu patrimônio material, sem violência.

Nota: OK, fui irônico só nesse ponto, mas não consegui me conter!


A questão desse meu texto não é defender o fim do desarmamento. Não é mostrar que armas trazem mais segurança para os cidadãos (embora nosso amigo discorde, uma simples busca na internet mostra inúmeros casos de assaltos frustrados por vítimas que estavam portando uma arma de fogo, mas isso nosso autor se nega a pesquisar). Também não é a de convencer ninguém a comprar uma arma.

Minha única intenção é mostrar o quanto as pessoas são infectadas por esses pensamentos hoje em dia. Suas convicções e crenças passam por cima dos fatos, que são simplesmente ignorados, para defender determinada opinião.

É uma pena…


Conclusão: não há mal nenhum em você ser contra ter uma arma em casa, caso avalie que o risco disso é maior do que os benefícios trazidos. Faz parte de uma opinião pessoal, mesmo que as evidências mostrem o contrário. Já querer impor sua opinião restringindo o direito das demais pessoas é algo bem diferente.

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