Quais são as causas da violência?

Publicado: 6 de outubro de 2015 por Kzuza em violência
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Entrei em um debate ontem que me fez pensar muito a respeito do assunto, então decidi escrever um post aqui para tentar esclarecer um pouco a minha linha de raciocínio.

O post original era de um amigo falando sobre violência, e argumentando que, para ele, a principal causa da violência em nosso país era a desigualdade social. Eu então disse que para mim, a principal causa era a impunidade, oriunda de uma polícia mal preparada e de uma justiça falha. Mas foi a resposta dele que me fez pensar:

Será que a polícia Suíça é extremamente eficiente, ou dado aos altíssimos níveis sociais, ela nem tem tanto trabalho assim?

Essas perguntas que seguem a máxima da Tostines (“Vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho porque vende mais?”) sempre dão um nó na minha cabeça.

Eu realmente acho que, nesse caso específico, as duas afirmações são verdadeiras: a polícia (e a justiça) suíça devem ser extremamente eficientes; e devido aos altíssimos níveis sociais, ela nem tem tanto trabalho assim. A questão maior nesse caso, ao meu ver, é estabelecer a relação de causalidade entre as coisas. Seriam a polícia e a justiça eficientes porque elas não tem muito trabalho, ou porque o país tem altíssimos níveis sociais?

É muito difícil separar as coisas porque tudo caminha junto. Afinal, tanto a polícia quanto a justiça de um país são comandadas por pessoas que fazem parte da população desse mesmo país. Elas são fruto de uma formação social, que vem dos valores culturais e da educação disponível para esses cidadãos ao longo de suas vidas. Ninguém nasce juiz, advogado, policial, delegado ou detetive.

Bem, então eu entendo que baixos índices sociais influenciam a sociedade como um todo: não somente bandidos, mas também cidadãos de bem. Ou seja, uma polícia mal preparada, corrupta em muitos casos, também é fruto de um ambiente social desfavorável.

Outro ponto importante no qual fiquei pensando é: se nos últimos anos houve uma melhora significativa nos níveis de desigualdade social no país (a maior bandeira levantada pelo atual governo federal), deveríamos ter então também uma redução significativa nos índices de criminalidade. Quer dizer, isso partindo da premissa de que a desigualdade social é a principal causa dos índices de violência.

Vejamos: o índice de Gini, que é um dos principais indicadores de desigualdade, vêm caindo sistematicamente nos últimos anos.

gini

Por outro lado, o número de homicídios no país não tem diminuído, pelo contrário.

homicidios

Ou seja, aparentemente uma coisa não tem assim tanto impacto sobre outra. Portanto, desconfio que a desigualdade não é uma doença, e sim o sintoma de algo grave acontecendo.

Mas eu também devo reconhecer que, pensando melhor, eu talvez não esteja certo quando disse que a impunidade é a principal causa da violência no país. Ela também é um sintoma.

A doença principal é, ao meu ver, o repúdio que temos a quem quer ganhar dinheiro honestamente, trabalhando. O cara quer empreender, a burocracia não permite. Aí o nego vira camelô, e a polícia toma a mercadoria dele (vi isso ontem e hoje no centro de São Paulo, e isso me disse muita coisa). O jovem quer trabalhar mas a legislação não permite. O estudante quer começar a trabalhar, mas a burocracia dificulta e encarece tanto o jovem profissional que a barreira para sua entrada no mercado de trabalho se torna instransponível. O pequeno empresário quer expandir seu negócio, mas o capitalismo de compadres praticado pelo governo federal com seus grandes amigos empresários dificulta a sua empreitada. Enfim, eu poderia ficar por linhas e linhas aqui dando exemplos. Mas o que eu quero dizer é:

Em um país onde se é tão difícil ganhar dinheiro honestamente (e quando você o faz, o governo lhe toma metade), e onde as punições para quem infringe as leis não são lá essas coisas, não me espanta tanta gente escolher o caminho errado.


Houve quem questionasse, nesse mesmo debate, que:

Não há nem metade dessa ‘impunidade’ que as manchetes sensacionalistas adoram propagar. Quando se entra em um curso de direito, o tapa na cara é imediato, a vida real é completamente diferente do que a mídia e as conversas de fila de banco nos dizem.

De maneira proposital, resolvi alfinetar com uma resposta mostrando uma reportagem do G1 sobre o assunto. Fui imediatamente massacrado, como já podia esperar. “Vir com uma matéria do G1 para provar que eu estou errada?”. E também: “não espero que saiba a diferença entre a polícia e o judiciário”. Bastou isso para saber qual o rumo que o debate tomaria, então eu me poupei de responder.

No entanto, cabem alguns comentários:

  • Quando eu disse impunidade (segundo o dicionário: estado de impune; falta de punição, de castigo), não me restringi ao culpado pela mesma. Se um assassino comete um crime e não é punido, ele foi impune. That’s all.
  • A matéria do G1 foi proposital, justamente para saber se o importante eram os fatos ou as fontes.
  • Uma pesquisa rápida no Google mostra que existem vários estudos a respeito da quantidade de crimes de homicídio solucionados no Brasil (aqui, aqui, aqui ou aqui). Quem confirma isso é a Associação Brasileira de Criminalística, ou outras publicações como o Mapa da Violência.
  • Eu acho sinceramente que a parte da realidade que consigo observar em todo o universo é microscópica. Não consigo ter a real compreensão da realidade apenas pelo que eu observo ou ouço de relatos de amigos (ou de fila de banco, como foi o exemplo citado).
  • Eu nunca vi uma cobra cascavel. Nunca fui atacado por uma cobra cascavel. Não tenho um conhecido sequer que tenha tido contato com uma cobra cascavel. Tenho amigos biólogos que nunca viram uma cobra cascavel. Mas eu sei que elas existem e são muito perigosas. O simples fato de eu nunca ter tido contato com algo não muda a realidade dos fatos.
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comentários
  1. Luciana Garcia disse:

    Queria responder no próprio post, mas minha inteligência limitada não me permite çriar uma conta no word press. Acredite, já tentei outras vezes, mas…. Enfim, não só sobre esse assunto específico, mas outros textos seus que li aqui, vejo que pensamos de forma bem parecida. Não ouço sobre a violência somente na fila do banco. Ouço em todo lugar. Infelizmente com todo mundo que paro pra conversar (e olha que converso pra cacete), sempre tem um conhecido, um vizinho, um parente que faz parte de alguma estatística que se enquadram num daqueles gráficos que você demonstrou. É uma realidade. E comparar com qualquer outro país de primeiro mundo é bullshit. Quer um bom exemplo de punição? Pega o muleque que deu um tiro na vizinha de oito anos. É criança? Foi acidente? A legislação permite que se compre armas com muita facilidade? Foda-se! Puxou o gatilho tá encrencado e ponto final.

    Beijo!

    Lu

    Enviado do meu iPad

    >

    Curtir

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