Opiniões modernas

Publicado: 2 de setembro de 2015 por Kzuza em Sem categoria

Faz muito tempo que não apareço por aqui, mas achei a causa nobre. Estou querendo escrever sobre isso há um tempo, e agora surgiu uma oportunidade.

A altíssima quantidade de informação disponível que nos está acessível hoje em dia proporciona à todos nós uma maior possibilidade de análise de argumentos na hora de formar uma opinião. No entanto, apesar dessa possibilidade, eu não sei muito bem o motivo, mas a maioria das pessoas não está preocupada em analisar informações, mas sim em simplesmente filtrar somente o que lhes é interessante. Não sei se é preguiça ou se é uma característica do nosso cérebro mesmo, pois nos sentimos mais confortáveis dentro do nosso padrão de opinião estabelecido. Porém, o fato é que percebo essa falta de julgamento na maioria das pessoas.

Mas como isso funciona? Vou dar um exemplo. Eu sou são paulino. Quando quero ler notícias sobre meu time, tenho oportunidade de checar em jornais especializados, em blogs de jornalistas esportivos, ou mesmo em sites do meu time, seja o oficial ou os de torcedores. A questão é que jornais especializados costumam ser bem mais imparciais. Alguns jornalistas (ou pseudo-jornalistas) também. Já o site do meu clube será o que, teoricamente, mais vai me agradar. Isso porque críticas serão veladas. Defeitos do time em campo não serão destaque. As glórias do meu time também serão sempre superiores às dos rivais. Enfim, se alguém que não conhece do assunto chegar primeiro nessas informações, acreditará que se trata do melhor time de futebol do mundo!

Como eu não sou lá muito fanático pelo meu time e acredito até ser um pouco sensato nesse assunto (enfim, quando se trata de algo passional como é o futebol, onde o time pelo qual torço não faz diferença nenhuma na vida das outras pessoas, isso não chega a ser nenhuma qualidade relevante), eu sempre leio diferentes fontes para poder me informar melhor sobre o que acontece no clube. Isso me faz ser ponderado. No entanto, conheço alguns torcedores fanáticos que torcem o nariz para quem desce a lenha no time, para quem aponta defeitos, para quem tira sarro.

Mas como o mundo não se resume a futebol, tenho visto muita gente levando esse tipo de comportamento para outras esferas da vida, e é aí que mora o problema. As pessoas começam a levar a polarização entre opiniões distintas como se fosse uma rivalidade futebolística, independentemente das opiniões contrárias serem baseadas em fatos ou não.

Dessa forma, qualquer pessoa que diga aquilo que eu espero ouvir é considerada um herói, mesmo que seus argumentos sejam baseados em falácias. Já se alguém diz algo diferente do que eu gostaria de ouvir, esse é tratado imediatamente como inimigo, mesmo que seus argumentos sejam embasados.

Quantas vezes você parou para ler ou escutar, com cuidado e atenção, alguém com opinião diferente da sua, para entender se ele está mesmo com a razão? Conheço até algumas pessoas que costumam fazer isso, não com muita frequência. Porém, a outra pergunta é: quantas vezes você parou para analisar realmente com cuidado pessoas que emitem opiniões favoráveis às suas, para entender se elas estão mesmo sendo coerentes? Isso, meus amigos, é cada vez mais difícil de encontrar.

Por exemplo: meu gênero musical favorito é o rock. Mas isso não quer dizer que, em todos os casos, quando alguém diz que o rock é o melhor gênero musical que existe, esse alguém tenha razão. Se alguém diz que o rock é o melhor porque acalma as pessoas, eu serei obrigado automaticamente a discordar e desconsiderar o argumento, já que eu sei que é justamente o efeito contrário (a agitação) que faz de nós fãs de rock.

Da mesma forma, se alguém diz que rock é ruim porque é música do demônio, eu também não posso concordar, já que o argumento não tem fundamento. Mas se alguém diz que rock não é bom porque costuma ser barulhento e incomodar os ouvidos mais sensíveis, eu sou obrigado a dar o braço a torcer.

Acontece que ter uma opinião a respeito de algo nem sempre faz com que sua opinião esteja certa. Há um vídeo que adoro a respeito disso:

Outra tática usada cada vez mais para defender ou criticar um posicionamento é a generalização dessa posição a partir de casos isolados (ou de uma minoria) que justifiquem a mesma. Tenho comigo a impressão de que esse tipo de comportamento também vem dos campos de futebol. Sabe aquela história de pegar meia dúzia de torcedores corinthianos que são bandidos e xingar a torcida toda de vagabundo? Ou de meia dúzia de são paulinos afeminados para zoar a torcida toda de bambi? Então, isso acontece também em todos os outros assuntos polêmicos. No futebol, acho isso até saudável e engraçado, mas na vida cotidiana… Se um evangélico imbecil joga uma pedra na cabeça de uma garota umbandista, todos os evangélicos são intolerantes com a religião alheia. Se um cara se diz cristão e usa isso para justificar ser contra o casamento homossexual, todos os cristãos são homofóbicos. E por aí vai.


Também está em voga nos dias atuais vangloriar a nossa “democracia”. Há quem diga que democracia é o pior tipo de de regime, depois de todos os outros. Ou então quem diga que democracia nada mais é que a ditadura da maioria. Mas a principal tônica da discussão acerca do tema é: democracia é o oposto de ditadura, então isso é necessariamente bom.

Em partes.

O maior problema do brasileiro é acreditar que viver em um regime democrático legitima o cara que está no poder a fazer qualquer bosta. Quer dizer, desde que eu tenha votado nele, é claro! Veja bem, essa não é uma observação partidária, ela vale para todos. Por exemplo: se o governo tucano que está no poder há mais de 20 anos no estado de São Paulo superfatura obras do metrô e impede a criação de CPIs para a investigação, mas eu sou contra o PT, isso não me incomoda (Alckmin é meu pastor, nada me faltará!). Outro exemplo: se o governo petista, que está no poder federal há mais de 12 anos, criou o maior esquema de corrupção da história do país e chafurdou o país em um crise econômica depois de tanto tempo, mas eu acho que o PSDB é uma bosta de partido e odeio o Aécio Neves, isso nem me incomoda tanto.

E ai de alguém que critique o cara em quem votei! Vivemos em uma democracia! Ele foi eleito pelo voto popular, então deve permanecer lá até o final do mandato! Poderia ser pior, não poderia? Toda crítica de quem não votou no meu candidato deve ser descartada, pois essas pessoas só fazem isso porque foram derrotadas nas urnas! O meu candidato, o meu partido, só governa para quem o elegeu! E ele pode fazer o que quiser, pois foi eleito democraticamente!

Pronto, agora posso desligar o meu modo irônico de escrever.


Mas creio eu que o grande problema do brasileiro em geral é esperar que o governo traga todas as soluções para os nossos mais diversos problemas. Acho isso uma baita de uma contradição, tendo em vista que as instituições e os partidos políticos são aqueles nos quais os brasileiros menos confiam. O Bruno Garschagen explica isso muito bem no seu livro Pare de Acreditar no Governo – Por que os Brasileiros não confiam no governo e amam o Estado.

Cansei de assistir gente aplaudir de pé projetos de lei que tenham intenções boazinhas, sem mesmo avaliar quais as consequências dessa intervenção cada vez maior do Estado na vida dos indivíduos. Qualquer lei que se declare pró-trabalhadores, pró-vida, pró-criancinhas, pró-animaizinhos indefesos, contra a burguesia, contra a fome ou contra os patrões é avaliada, sem muito critério, como uma vitória da cidadania! Pode observar. Ninguém se importa com os efeitos colaterais. Temos a nítida impressão de que problemas são automaticamente solucionados a partir de canetadas de algum burocrata.

O problema é que a criação de leis absurdas que, no geral, parecem boazinhas e indefesas, traz consigo uma série de problemas também. Se você quer saber o quão absurda é uma legislação, basta observar o quanto as pessoas estão propensas a respeitá-la. E isso não tem (muito) a ver com a cultura do brasileiro, com o jeitinho Gerson de ser. É claro, e eu não sou um idiota em negar aqui, que brasileiro em geral adora tirar vantagem em tudo. No entanto, é criado um ciclo vicioso quando, para um povo “espertão” e sem educação, o Estado passa a impor cada vez mais restrições absurdas. É como alimentar um monstrinho.

Eu poderia ficar aqui horas e horas escrevendo sobre o quanto nossa legislação tributária e trabalhista são danosas ao crescimento econômico do país, e o quanto elas favorecem a informalidade e a sonegação de impostos, mas acho desnecessário. E o que é feito para solucionar isso? Vamos simplificar? Não, vamos aumentar o cerco, vamos apertar os contribuintes, vamos aumentar a fiscalização, vamos restringir. E, no geral, a gente acaba se acostumando com isso, como se esse fosse o movimento geral das coisas.

O Mathias já escreveu muito bem sobre isso aqui. Muita gente aplaudiu quando a CET divulgou que o número de acidentes nas marginais caiu 30% no primeiro mês após a redução no limite de velocidade das marginais. Bem, sinceramente, eu acho que isso era meio que inevitável. Da mesma forma como se eu propusesse o fim de piscinas em casas particulares para a redução do número de crianças mortas por afogamento. Eu elaboraria uma lei, colocaria em prática, e estabeleceria multas altíssimas para quem insistisse em ter uma piscina em casa. Tenho certeza de que, após algum tempo, o número de crianças mortas afogadas iria cair muito. Será que eu também seria aplaudido? Se você acha esse meu projeto absurdo, pensa que é exatamente o que eu penso sobre a redução da velocidade nas ruas de São Paulo.

Veja bem, eu não sou contra as leis. Não sou a favor de uma anarquia. Não sou contra a fiscalização. Sou simplesmente a favor da simplificação.

Vejo muita gente a favor, por exemplo, do aumento da fiscalização de trânsito na cidade de São Paulo. A arrecadação com as multas subiu 22% no primeiro semestre desse ano em relação à 2014. Há gente que fica raivosinha por aí, como o tal do Camilo Cristófaro, que para mim é um babaca de primeira linha (vou deixar um post para depois para explicar o porquê acho isso). Vi um vídeo na internet outro dia onde um cara filma fiscais da CET em treinamento sobre a ponte da Vila Guilherme e ele diz: “Eles estão aqui, para multar todos os cidadãos contribuintes”. Sinto dizer, meu camarada, mas eles não multam todos os cidadãos contribuintes. Eles multam somente aqueles que infringem as leis. Simples assim. (Aliás, o mesmo raciocínio se aplica na discussão sobre a maioridade penal. Dizem que querem prender os jovens negros. Não, querem prender jovens criminosos, só isso!)

Eu entendo que o aumento na fiscalização não é, por si só, algo maléfico. Sou completamente contra a impunidade. Acho sim que as leis devem ser aplicadas e os seus infratores, punidos. O problema nesse caso é justamente o que eu mencionei antes: a criação de leis absurdas. Como eu disse no comecinho desse trecho, se muita gente não está conseguindo respeitar a legislação, pode haver algo muito mais grave por trás disso tudo.

Eu, que trabalho no centro de São Paulo, gostaria muito de uma lei que obrigasse as pessoas a andarem nas calçadas a uma velocidade mínima de 5 km/h, e que fossem proibidas de parar nas calçadas a menos que fosse para atravessar a rua. Parece absurdo, não é mesmo? Mas evitaria uma série de colisões entre pessoas e tombos de velhinhos que ocorrem todos os dias por aqui. Seriam muito menos ossos quebrados, muito menos stress para as pessoas…. A pergunta é: será que todos conseguem cumprir?

Além disso, o aumento na arrecadação com multas deveria, por outro lado, melhorar a condição das vias e das sinalizações, bem como na educação dos condutores. Não acho que é bem isso que acontece. Dessa forma, tenho uma visão bem crítica a respeito desse caso específico. Qual o real objetivo desse projeto?


Nota final: acho louvável a postura da prefeitura de São Paulo em investir em transporte público e alternativas de transporte, como as bicicletas. Estão no caminho certo, haja vista que a maioria das administrações anteriores negligenciou esses assuntos em prol do transporte individual (Maluf que o diga). Há, no entanto, dois grandes equívocos do prefeito Fernando Haddad nesse ponto, que ao meu ver explicam sua baixíssima aprovação pela população paulistana:

1 – Sobre as ciclovias, já escrevi aqui: Não se cria uma demanda artificial somente aumentando a oferta de um serviço. A via é contrária.

2 – Não há como se alterar um fato: a cidade tem mais de 8 milhões de veículos. O paulistano USA o carro como meio de transporte. Negligenciar esse ponto, sem projetos de melhorias nas vias onde os veículos trafegam, apenas trabalhando para punir quem usa o automóvel (como se isso fosse um crime), seja através de alteração de limites de velocidade, locais para estacionamento ou espaço nas vias para os carros (com a implantação de faixas de ônibus ou ciclofaixas), é ser irresponsável.

Anúncios
comentários
  1. […] um tempo atrás escrevi esse texto aqui, ó. Queria usar a primeira parte dele (até o vídeo do Clarion) como introdução para esse post de […]

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s