Ainda sobre as ciclofaixas…

Publicado: 16 de junho de 2015 por Kzuza em Economia, Política
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Há muita divergência de opiniões a respeito das ciclofaixas implantadas na cidade de São Paulo na atual administração do prefeito Fernando Haddad.

Eu sou um cara apaixonado por bicicleta. Infelizmente não moro em São Paulo, então as ciclofaixas não me permitem ir de casa até o trabalho com a minha bike, senão certamente eu o faria. Embora muitos dos projetos para implantação dessas faixas tenham falhas, eu acho que no geral elas prestam um bom serviço. Os mais radicais vão ficar me criticando e postando vários casos aqui de ciclofaixa na calçada, ou que termina em lugar algum, ou que tem uma árvore no meio, ou que tem buracos, etc, etc, etc. O fato é que isso, sinceramente, existe em qualquer cidade grande onde esse meio de transporte é bastante utilizado. Tem até gente fazendo piada com isso.

De fato, para os amantes das duas rodas, o prefeito fez um bom trabalho no geral.

Por outro lado, muita gente (a maioria esmagadora, diga-se de passagem) critica a prefeitura. Entre os argumentos estão: os altos custos das ciclofaixas (o que faz muita gente suspeitar de eventuais superfaturamentos, o que não é surpresa em caso de administrações públicas brasileiras), a falta de planejamento, a retirada de espaço das ruas onde antes passavam carros, entre outros. Segundo o prefeito, esse tipo de crítica parte principalmente dos coxinhas. Não sei qual o conceito que ele tem de coxinha, mas eu acredito que eu possivelmente faça parte desse grupo.

Já ouvi muita gente criticando essa gente que não gosta das ciclovias porque elas seriam “adoradoras de automóveis”. A típica elite paulistana, que só anda de carro e quer que o resto se dane. Que odeia também as faixas exclusivas de ônibus (essa sim, para mim, uma baita iniciativa válida da prefeitura!). Isso porque paulistano não quer abrir mão de sair com seu carro na rua com conforto (como se isso fosse possível antes das ciclofaixas). Enfim…

O fato é que eu me peguei a pensar outro dia e descobri o porquê de tanta divergência de opinião. O porra do prefeito conseguiu transformar um negócio legal pra caralho que é andar de bike em algo a ser odiado, como se os ciclistas fossem vistos como parceiros da administração petista na prefeitura da maior cidade do país. Mas como ele conseguiu essa façanha?

Bem, se há um negócio que a administração pública desconsidera por completo é a lei da oferta e da demanda. Encontrei um texto legal do Hans F. Sennholz, onde ele diz:

A demanda de mercado é gerada e conduzida por consumidores, isto é, por pessoas que voluntariamente decidem o que comprar e o que não comprar com o dinheiro que ganharam com seu próprio esforço.  As prioridades dos consumidores determinam o que deve ser produzido no mercado, como deve ser produzido e para quando deve ser produzido.  Os financiamentos serão ofertados de acordo com estas preferências.

Já a demanda criada pelos gastos do governo é conduzida por políticos e burocratas.  O que quer que eles determinem ser “bom” para a população será produzido de acordo com decretos governamentais, e não de acordo com a real preferência dos consumidores.  As prioridades e conveniências eleitorais de políticos e burocratas é que irão determinar quem será beneficiado pelos gastos do governo e o que tais empresas deverão produzir.

A demanda de mercado é satisfeita por empreendedores que incorrem em riscos.  Ou eles obtêm êxito em produzir e vender justamente aquilo que os consumidores querem (e, consequentemente, são recompensados por isso), ou eles fracassam e se mostram incapazes de ofertar aquilo que os consumidores queriam (e, consequentemente, pagam o preço por este seu julgamento mal sucedido, incorrendo em prejuízos).  Esta constante necessidade de estar sempre tendo de agradar aos consumidores implica necessariamente prudência e poupança para os contínuos investimentos futuros.

Já a demanda do governo é financiada pelo dinheiro extraído via impostos.  Os cidadãos pagadores de impostos são obrigados a sustentar os desejos e projetos de uma elite de políticos e burocratas coligada aos grandes setores empresariais, que são poderosos lobistas.  Tal demanda, totalmente artificial, gera desperdícios de capital e investimentos insustentáveis, muito embora seja bastante eficiente para encher os bolsos daqueles mais bem conectados politicamente.  Nenhum sacrifício é exigido da parte deste grupo beneficiado — todo o capital é confiscado da sociedade e redistribuído entre eles.

É exatamente isso que aconteceu em São Paulo. A prefeitura ignorou completamente que não havia uma demanda suficiente para todos os muitos quilômetros de ciclofaixas que foram implantados na cidade. Gastou muito dinheiro para isso e hoje o serviço disponível não é consumido. Basta dar uma volta por aí e verificar a quantidade de ciclistas nas ruas utilizando essas faixas. É uma quantidade realmente irrisória.

Fazendo um comparativo, é como se investíssemos uma quantidade enorme de dinheiro para implantar uma fábrica de aquecedores à gás em Cuiabá e esperássemos que, de uma hora para a outra, as pessoas resolvessem comprar nossos aquecedores simplesmente porque eles estavam disponíveis no mercado.

A implantação de ciclofaixas não cria, de maneira alguma, uma demanda para o serviço. A prefeitura achou que, pintando faixas vermelhas no chão, as pessoas passariam a comprar bicicletas e deixar de usar seus automóveis ou transportes coletivos.

Oras, Zuza, mas em vários outros países existem ciclovias convivendo com carros e transportes coletivos. É claro, meu amigo. A pergunta que eu faço é: as ciclofaixas foram criadas devido à necessidade de vários ciclistas que demandaram as suas implantações, ou foi o contrário? Fica fácil descobrir, não é mesmo?

O texto citado anteriormente ainda diz:

[…] a demanda do governo é limitada unicamente pela perspectiva de falência da entidade estatal.  Ocasionalmente, ela pode também ser limitada pela ação de eleitores mais sensatos.  O primeiro cenário é factível apenas na zona do euro.  O segundo, por enquanto, em lugar nenhum.

Sei lá, mas talvez no caso da cidade de São Paulo, não seja nem tão necessário termos eleitores muito sensatos para perceber que a prefeitura agiu precipitadamente nesse caso específico. É complicado criar demandas artificialmente, como é a intenção da gestão Fernando Haddad.

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