A Sociedade VIP; ou A Onda da Gourmetização

Publicado: 12 de maio de 2015 por Kzuza em Comportamento
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Essa semana me deparei com algo interessante, de fazer chorar todos os pseudo-intelectuais modernos, amantes da cultura tupiniquim, defensores das nossas tradições mais pobres e bizarras, odiadores de “coxinhas” e do “viralatismo” do povo. A Rua 25 de Março, famosa por ser o centro do comércio popular em São Paulo, foi invadida por Food Trucks! Pois é, a moda gourmet chegou em pleno centro popular!

Tá, vamos lá, não chegam a ser aqueeeeeles Food Trucks que os nacionalistas e amantes da porcaria generalizada adoram criticar. Os carrinhos são mais simples e nem vendem tanta comida diferenciada assim. São apenas lanches um pouco mais caprichados. Um deles conta até com uma geladeira elétrica, alimentada por um gerador à gasolina. Os donos espalham alguns banquinhos para os clientes poderem comer com um pouco mais de conforto. Enfim, no geral, são mais do que os velhos carrinhos de cachorro-quente (estereotipados pelos hot-dogs da novela Amor à Vida), mas ainda menos que os food trucks do Butantã Food Park.

Oras, mas onde quero chegar com isso?

Bem, temos visto ultimamente uma invasão em massa de novidades gastronômicas por aí. Tudo começou com os rodízios de comida japonesa, que rapidamente se espalharam pelas cidades. De uns tempos para cá, percebemos a invasão de brigaderias, cervejas artesanais, wine houses e, recentemente, as tais paletas mexicanas. Comidas e bebidas diferentes, com qualidade superior e preços também superiores (muitas vezes, não na mesma proporção). Os food trucks talvez tenham sido a última dessas novidades.

Mas a pergunta que fica é: o que faz o cidadão pagar tão mais caro por algo que ele já tinha antes?

Muita gente vai argumentar: porque são trouxas! Porque são “modinha”! Porque querem ter status! Porque querem postar nas redes sociais fotos com o rosto lambuzado de chocolate belga! Porque são coxinhas!

Olha, vou dizer, conheço um monte de gente assim, que se enquadra justamente em quase todos os argumentos do parágrafo anterior. No Facebook, então, tem um monte! Mas será que somente esse tipo de gente sustenta todo esse movimento gourmet? Será que somente o fator “moda” sustenta esse modelo? Eu até acredito que um ou outro tipo de novidade seja mesmo questão de moda e que se acabe rapidamente (lembra-se do Frozen Yogurt?), mas será que tudo é assim?

Eu prefiro pensar diferente. Eu acredito que, em vários aspectos, nossos gostos vêm mudando porque estamos tendo cada vez mais acesso à produtos de qualidade superior. As experiências sensoriais que adquirimos expandem o nosso cérebro e, invariavelmente, o ensinam sabores diferentes, cheiros diferentes, experiências visuais diferentes. E tudo o que é superior em qualidade é inconscientemente reconhecido, por mais que a gente tente negar. Às vezes tendemos a negar a superioridade de pessoas ou de coisas com as quais não estamos habituados simplesmente por inveja, ou orgulho próprio, ou medo, ou incerteza, ou posicionamento político, ou por ene outros fatores. Mas isso é consciente, é ato pensado, pois inconscientemente sabemos o que é bom ou ruim. Por exemplo: ninguém precisou te ensinar que o cheiro do café é melhor do que o cheiro da buchada de bode.

Olavo de Carvalho escreveu assim no seu artigo Desprezo Afetado:

[…] o maior obstáculo à formação superior da inteligência não está em fatores de ordem econômica, social, racial ou familiar, mas de ordem moral. Está naquilo que os gregos chamavam apeirokalia: a falta de experiência das coisas mais belas. A alma que, desde tenra idade, não seja exposta à visão de exemplos concretos de beleza natural, artística, intelectual, espiritual e moral, torna-se incapaz de conceber qualquer realidade mais alta que o topo das suas percepções corriqueiras. Como o sapo do fundo do poço, se lhe perguntamos: “Que é o céu?”, responde: “É um buraquinho no teto da minha casa.”

Esse é o mal crônico da cultura nacional, sempre devota do irrelevante e cheia de despeito por tudo o que esteja acima da sua precária capacidade de compreensão.

Engana-se, portanto, quem acredita que somente “riquinhos” gastam mais dinheiro com comida e bebida gourmet simplesmente porque querem aparecer e ter status. Qualquer um consegue reconhecer qualidade superior em algum produto. A diferença é quem está disposto a pagar e o quanto está disposto a pagar por isso (e aí já é uma questão de mercado).


Observação final: O mesmo conceito se aplica a outros produtos culturais existentes, como música e esportes, por exemplo. Se você acha, por exemplo, que o futebol europeu tem crescido no gosto popular do brasileiro somente porque nós somos “modinha” ou porque somos “vira-latas”, acredito que você tenha um problema sério de percepção. A qualidade dos eventos e dos jogadores por lá é incomparável em relação à nossa. Mas por que isso então só começou a ganhar destaque agora, nas últimas décadas? Muito simples: hoje, cada vez mais gente tem acesso. Quanto mais gente conhece o que é superior, mais isso ganha destaque.

Ps.: Eu adoro futebol de várzea e o futebol brasileiro como um todo, mas isso não me deixa louco o suficiente para acreditar que isso aqui é melhor do que lá fora. Emoção é uma coisa, qualidade é outra.

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