Quem está preparado?

Publicado: 5 de maio de 2015 por Kzuza em educação, Trabalho
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Nas últimas semanas andei discutindo com alguns amigos e lendo alguns artigos a respeito da queda de produtividade dos profissionais de TI. Trabalho há 17 anos com desenvolvimento de software e posso afirmar que tenho visto, nesse período, uma redução constante na produtividade dos profissionais com quem trabalho. Percebo que, apesar dos avanços observados em relação a metodologias de desenvolvimento e ferramentas de produtividade nas últimas décadas, isso não tem chegado a impulsionar a qualidade de software e a velocidade das entregas nas mesmas proporções. Mas por quê?

Conversando com um amigo meu, gerente de um grande banco, mas de uma área não relacionada diretamente à TI chegamos a um primeiro indício, o qual acredito ser o principal fator: as pessoas não se preparam para aquilo que querem ser.

Uma amiga minha, psicóloga, afirmou que essa é uma característica presente na tal Geração Y. Realmente, devo concordar com ela. Principalmente a geração mais nova, na qual eu também me incluo, possui esse tipo de pressa em “chegar lá” rapidamente, numa velocidade maior do que aquela que consegue aprender e se capacitar. Isso vem se acentuando cada vez mais, e para mim é cada vez mais claro entre jovens de 20 e poucos anos.

Vejamos um exemplo. Há alguns anos atrás, fui professor do ensino médio em uma escola particular. Era um curso profissionalizante de Informática, com duração de 3 anos e aulas aos sábados, que era quando eu lecionava. Essa era, na época, a “vantagem competitiva” do colégio, pois as demais escolas conceituadas da região ofereciam o mesmo curso no período de 4 anos (como foi o meu caso, na época na Fundação Bradesco). No entanto, ao término do meu segundo ano como professor, a escola modificou sua grade curricular para oferecer o mesmo curso em 3 anos, mas sem aulas aos sábados. Isso porque um outro colégio da região fez a mesma coisa e passou a ser, então, uma ameaça. Não é necessário ser muito esperto para concluir que a qualidade do curso piorou com essa redução na carga horária. Menos aulas = menos conteúdo. Mas afinal, quem liga, já que o MEC aprova?

Outro exemplo: na minha época, cursos de faculdade tinham no mínimo 4 anos de duração. E olha que eu nem estou falando de tanto tempo assim. Mas de uns tempos para cá, o MEC passou a reconhecer cursos tecnólogos com 2 anos de duração, que apesar da metade da duração, possuem teoricamente o mesmo valor de qualquer outro curso superior.

Ou seja, se há 10 anos atrás, um adolescente de 18 anos estava se preparando para iniciar uma faculdade, hoje é perfeitamente que um mesmo adolescente já esteja formado em um colégio técnico profissionalizante e com um diploma de curso superior, reconhecidos pelo MEC. Na cabeça do infeliz, ele já está pronto para dominar o mundo, muito embora o seu conhecimento adquirido seja pífio.

Não é raro ver, nas empresas, jovens recém-saídos de um programa de estágio sentirem-se mestres na arte de desenvolvimento de software. Com 1 ou 2 anos de experiência, já julgam-se seniores e almejam salários astronômicos. Outro dia entrevistei um candidato que estava há 4 meses desempregado. Jovem, cerca de 23 anos, com apenas 2 anos de experiência em desenvolvimento Java em pequenas consultorias de fundo de quintal. Pretensão salarial: R$ 6.500, contratação CLT. Surgiu uma dúvida: como será que ele julga o valor que traz a uma empresa com o trabalho que realiza com o conhecimento que possui?

O fato é que estamos enfrentando uma crise intelectual gigante (e acho que isso não se restringe somente à área de TI). O conhecimento é cada vez menos valorizado, totalmente subestimado. Diplomas e certificados passam a ter um valor muito maior, como se fosse possível alguém carimbar um pedaço de papel e, automaticamente, transformar um cidadão em mestre.

Há um outro fator também intrigante: o tempo de experiência de um profissional de TI está sendo, ao meu ver, completamente sub-julgado. Explico melhor. Há muita gente considerando o tempo de experiência (seja na área, seja na empresa) como fator primordial para determinação de uma promoção ou aumento salarial. A senioridade do profissional está sendo associada somente aos seus fios de cabelo branco. Pois bem, vamos lá: eu já conheci inúmeros moleques que, com 2 ou 3 anos de experiência, são seniores no que fazem, ao mesmo tempo em que conheci inúmeros senhores com mais de 20 anos de área que não valem um tostão furado. Mas qual a diferença entre os dois casos? A diferença é que esses moleques sabiam o que queriam e se capacitaram para aquilo, através de cursos, palestras e mesmo auto-didática, enquanto os mais velhos sentavam a bunda na cadeira e achavam que apenas seus fios de cabelo branco (ou a falta deles) seriam suficientes para colocá-los como intocáveis.

Veja bem, não estou dizendo que somente a aplicação acadêmica é suficiente para transformar gatinhos em leões, mas ela é fundamental. E essa capacitação não vem somente através de certificados emitidos por órgãos competentes, mas sim de dedicação interna. Isso, associado à experiência prática e, não menos importante, a mentores competentes que podem direcionar suas carreiras profissionais, certamente cria ótimos profissionais. Isso serve para qualquer área.


Ps.: Li um artigo científico excelente (original em inglês aqui) onde o autor aponta que o fator principal em um processo de desenvolvimento de software são as pessoas, e não a metodologia ou a tecnologia envolvidas. Isso serve para comprovar o que escrevi acima. Enquanto tivermos maus profissionais, incapacitados, não adianta adotarmos metodologias modernas tampouco ferramentas de produtividade.

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