Meritocracia, moralidade e inveja

Publicado: 10 de abril de 2015 por Kzuza em Comportamento
Tags:, ,

escada

A charge acima foi “likeada” por vários amigos meus na última semana no Facebook. Achei inteligentíssima! Mostra que crianças de famílias abastadas têm muito mais facilidade para subir os degraus de uma escada, que simboliza a vida, do que crianças de famílias mais pobres.

Mas a charge também é perigosa em alguns aspectos.

Vi muita gente usando a charge para criticar a meritocracia. Aliás, a própria meritocracia é um assunto perigoso. Cada um interpreta o uso do termo da maneira como lhe convém, de acordo com o seu viés político. Mas pouca gente realmente pensa nos fatores que levam alguém ao sucesso ou ao fracasso na vida. Li um texto muito interessante a respeito disso. O autor diz:

O que realmente determina a remuneração no mercado não é o mérito, não é a virtude, não é o esforço ou a dedicação. É apenas a criação de valor; o valor que aquela pessoa consegue adicionar à vida dos demais.

Não importa se é por esforço, inteligência, sorte, talento natural, herança; quanto mais imprescindível ela for aos outros, mais os outros estarão dispostos a servi-la.

Enfim, esclarecido isso, esse é o primeiro passo para entendermos que não é somente o esforço e dedicação que fazem alguém alcançar o sucesso.


Nota do Zuza: é importante deixar claro que o conceito de sucesso na vida é subjetivo. Você pode acreditar que alguém alcançou o sucesso por ter fama, uma boa grana e uma mulher bonita. Já do ponto de vista do sujeito, ele pode achar que não tem tudo o que deseja, como por exemplo, uma boa saúde. Tentar medir o sucesso de outra pessoa somente de acordo com o valor que você dá para as coisas (seja dinheiro, família, saúde, viagens, mulheres, etc.) é um julgamento premeditado, podendo incorrer em inveja na maioria das vezes.


Mas continuo achando claro que o caminho a ser percorrido rumo ao sucesso pessoal é mesmo mais fácil para os mais abastados. Eu sou de uma família pobre, sem posses. Comecei a trabalhar cedo para poder ter minhas coisas. Eu reconheço que não era tão inteligente, muito menos tão esforçado, a ponto de conseguir ingressar em uma universidade pública, então tive que suar para conseguir pagar minha própria faculdade particular, pois meu pai não tinha condições de fazer isso. Ralei, trabalhei bastante, consegui me formar e desenvolver minha carreira profissional.

Agora vamos pegar o que aconteceu antes disso.

Meu avô era mineiro de Raul Soares, e minha avó é de Mococa, no interior de São Paulo. Casaram-se e vieram para Carapicuíba. Meu avô trabalhou a vida inteira como um condenado, era motorista. Criaram os 4 filhos com muito trabalho. Meu pai, o mais velho, só foi fazer uma faculdade com mais de 50 anos. Trabalhou com afinco (e ainda trabalha até hoje) para criar eu e minha irmã, graças a Deus (e ao trabalho) em condições melhores das que teve na sua infância.

Hoje, portanto, acredito que eu tenha condições de criar um filho em condições financeiras muito melhores que meu pai me criou, assim como ele me criou em condições muito melhores das quais ele foi criado. Hoje, se eu tivesse um filho, ele possivelmente seria o que sobe a escada com degraus menores na charge do início do texto. No entanto, isso não quer dizer necessariamente que ele teria sucesso na vida.

A pergunta que eu faço é: quantas pessoas, ao longo dessa minha curta história familiar retratada, foram prejudicadas e empobreceram para que eu pudesse chegar onde estou? Meu avô, por exemplo, dedicou sua vida inteira a ajudar os pobres através da Sociedade de São Vicente de Paulo. Digo, cheio de orgulho, que foi o cara mais bondoso que conheci na minha vida. Mas tenho certeza de que o seu desejo de fazer o bem ao próximo só se tornou realidade graças ao seu trabalho e às suas condições de vida. Ele só pode ajudar os pobres por não ter se tornado um deles. E o principal: ninguém o obrigou a isso.

Mas onde eu quero chegar com isso?

Para muita gente que eu conheço, é justo forçar os que possuem melhores condições de vida a ajudarem os demais. Como se não houvessem pessoas boas suficientes no mundo. Como se fosse imoral alguém enriquecer. Como se fosse impossível alguém enriquecer sem prejudicar alguém. Como se os filhos de um pai que trabalhou honestamente sua vida toda não tivesse direito de usufruir desses frutos.

Eu me pergunto: qual o seu objetivo de vida? Você trabalha para que?

Diria que a maioria esmagadora das pessoas responderia na primeira pergunta: constituir uma boa família. E também responderia na segunda: para dar boas condições de vida para minha família. Esses são os principais objetivos da maioria de nós (a menos que eu esteja completamente enganado). Todo o resto é consequência disso, inclusive as boas ações que fazemos para os outros.

Portanto, aconselho a todos a não nutrirem esse sentimento de inveja que muitas vezes temos por aqueles aos quais julgamos “mais bem sucedidos”. Espelhem-se neles. Eles são os que podem ajudar os demais, mesmo sem serem forçados a isso. O mundo não é 100% bom, mas também não é 100% ruim. Porém, tenho certeza que existem muito mais pessoas dispostas a ajudar os demais nesse mundo do que os seres egoístas que você pinta por aí. Não julgue imoral que famílias consigam enriquecer através de trabalho honesto e oferecer aos seus filhos melhores condições de vida. É justamente isso que você mesmo quer para si.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s