Direita ou esquerda: de que lado você está?

Publicado: 24 de março de 2015 por Kzuza em Política
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Há algum tempo venho me perguntando por qual motivo eu me tornei um cara de direita.

Amigos ou críticos esquerdistas diriam que eu sofro de Síndrome de Estocolmo, ou que por eu sempre ter tido tudo na vida (o que não é verdade, mas sempre funciona para a esquerda quando você é branco e nunca passou fome) , eu não tenho simpatia pelos mais necessitados. Também dirão que eu nunca sofri na vida, tampouco faço ideia de quão cruel é a vida daqueles que sofrem (seja por doença, miséria, preconceito ou outros infortúnios da vida). Ou podem dizer também que eu sou um cara extremamente egoísta, que não se preocupa com os outros, muito menos com quem mais precisa.

Já amigos ou adeptos do pensamento de direita podem dizer que é porque sou um cara muito inteligente e que estudou bastante para chegar nessa situação. Também diriam que eu finalmente acabei enxergando o quanto sempre fui manipulado pela doutrina esquerdopata praticada pelo nosso sistema de educação há mais de 60 anos. Alguns ainda dirão que isso se deve ao fato de eu ser um cara conservador, que preza pela moral e pelos bons costumes. Ou quem sabe porque eu sempre fui um cara muito trabalhador e estudioso, que mostrou que é possível “chegar lá” mesmo vindo do nada.

Mas enfim, como pode a opinião das pessoas ser tão diferente sobre um mesmo ser humano, somente baseada nas convicções políticas de cada um? É possível haver assim uma divergência tão grande da percepção da realidade somente por conta do viés político de cada um?

É óbvio que, por ter certeza das minhas convicções políticas, eu acredito que tenha escolhido um caminho certo a seguir. Estou convicto das minhas ideias liberais e para mim não há bem maior no mundo do que a liberdade individual.

E foi então que eu comecei a pensar melhor no que leva cada indivíduo a seguir uma ou outra vertente política. Sim, todos, querendo ou não, politizados ou não, possuem uma inclinação para um dos dois lados, mesmo que inconscientemente. Isso acaba refletindo nas suas ações no dia-a-dia, no seu relacionamento com as pessoas, no seu comportamento social e, no final de tudo, nas suas escolhas políticas.

Mas o que difere um esquerdista de um liberal de direita?

Antes de qualquer coisa, é preciso entender que existem princípios éticos que são comuns a todos os seres humanos (ou ao menos deveriam ser). Se você entende isso, já é um bom ponto de partida.

Mario Sergio Cortella define ética assim:

Ética é o conjunto de valores e princípios que usamos para responder a três grandes questões da vida: (1) quero?; (2) devo?; (3) posso?
Nem tudo que eu quero eu posso; nem tudo que eu posso eu devo; e nem tudo que eu devo eu quero. Você tem paz de espírito quando aquilo que você quer é ao mesmo tempo o que você pode e o que você deve.

O mesmo Cortella então conclui:

Ética é a concepção dos princípios que eu escolho, Moral é a sua prática.

Para mim é claro que cada um é livre para escolher os princípios éticos que serão seguidos. Isso vem conforme sua educação familiar e sua cultura. O conjunto de princípios que cada um escolhe seguir na vida formam a sua moral.

É justamente aqui que residem, para mim, as principais diferenças entre os dois lados políticos existentes. Direitistas tendem muito mais a respeitar princípios éticos universais do que os esquerdistas. Sim, isso é duro de ser dito, mas é um ponto importante. Eu vou detalhar mais isso durante esse texto, então aconselho você a ler tudo até o final antes de tirar conclusões precipitadas.

Há um ponto extremamente crítico onde direita e esquerda começam a se dividir. Esse ponto é denominado por muitos Justiça Social. É bem aqui que as pessoas se separam.

Em primeiro lugar, é muito importante entender o que é justiça. Eu gosto da definição de John Rawls (aliás, um autor sobre o qual eu preciso conhecer mais) em A Theory of Justice, onde ele afirma que uma sociedade justa deve respeitar três princípios:

  1. garantia das liberdades fundamentais para todos;
  2. igualdade equitativa de oportunidades;
  3. manutenção de desigualdades apenas para favorecer os mais desfavorecidos.

Não há discussão entre seres humanos com o mínimo de dignidade e ética sobre esses três princípios, independente de serem de direita ou esquerda. Embora a esquerda reivindique para si unicamente a virtude da luta pela justiça social, isso não passa de mera propaganda (ou o tal puxar a sardinha para o seu lado). O fato é que qualquer ser humano minimamente digno é capaz de defender os três princípios de justiça defendidos por Rawls. E, ao contrário do que muita gente pensa, isso independe do viés político de cada um. Assumir que as pessoas de esquerda são as únicas que lutam por justiça social é a mesma coisa que assumir que os crentes em Deus são os únicos seres honestos do planeta.

O que difere a direita da esquerda é justamente o terceiro princípio de Rawls. Quando se trata de “favorecer os mais desfavorecidos”, há duas formas de se fazer isso:

  1. Oferecendo-lhes proteção contra agressores mais fortes e provendo-lhes igualdade de tratamento jurídico;
  2. Atacando os mais fortes e tomando-lhes à força o que possuem para distribuir entre os mais fracos.

A direita luta pela primeira alternativa. A esquerda, pela segunda, independente se isso é moral ou não. É justamente aqui, onde os fins justificam os meios, que eu passo a repudiar completamente as ideias da esquerda. Digo isso porque a ânsia de se fazer justiça pelas próprias mãos acaba passando por cima de princípios éticos e do que os liberais adoram chamar de princípio de não-agressão. Ou seja, independentemente da forma como alguém chegou a ter sucesso na vida, ela deve ser forçada por alguém a dividir o que tem com os mais fracos. Normalmente esse alguém é o Estado, personificado como entidade máxima capaz de julgar esse equilíbrio.

Em um excelente artigo de João Cesar de Melo sobre justiça social, ele diz:

Quem, diante de uma favela, consegue apontar quais de seus moradores são bons filhos e quais são os bons pais, quais são os honestos e os desonestos, quais são os serenos e os violentos?

Quem, diante de um bairro nobre, consegue apontar quais de seus moradores são os bons filhos e quais são os bons pais, quais são os honestos e os desonestos, quais são os serenos e os violentos?

A partir do que alguém olha para um mendigo e afirma que seu caráter o torna merecedor de ajuda?

A partir do que alguém olha para um empresário e afirma que seu caráter o torna merecedor de repúdio?

A partir do que alguém olha para um mendigo e diz que sua pobreza é resultado da falta de oportunidade?

A partir do que alguém olha para um empresário e diz que sua riqueza não lhe exigiu esforços?

O que nenhum esquerdista é capaz de explicar (e olha que eu não conheço poucos!) é: qual o limite a ser ultrapassado para que um indivíduo ou família passe a ser considerado como “tendo mais do que precisa”? Veja só o caso do imposto sobre grandes fortunas. Pergunto a você: o que é uma grande fortuna? Você vai me dizer facilmente que o Roberto Justus possui uma grande fortuna, e nós dois vamos concordar. Mas e uma família de 4 pessoas, que mora em um sobrado grande na Zona Norte de São Paulo com 3 quartos e um grande quintal, e que possui um apartamento na Praia Grande e um terreno em um condomínio em Cotia: isso é uma grande fortuna? Provavelmente você dirá que não, mas pense com a cabeça de uma família que mora em uma favela, ou então em uma família integrante do MST. O que eles diriam?

Para todos os grandes dilemas que envolvem princípios morais, a esquerda sempre tem um argumento: precisamos ter bom senso. Oras, mas sem parâmetros, qual seria o bom senso?

O que eu tenho reparado é que há uma uniformidade no pensamento da maioria das pessoas e que fatalmente foi causado por uma enorme doutrinação educacional no nosso país. Não é à toa que as manifestações políticas recentes no país estão frequentemente fadadas ao fracasso. Há uma monopolização do pensamento esquerdista e que pouca gente percebe.

Vejam só o exemplo de polarização na política brasileira. Temos como adversários políticos um partido de esquerda, com certo viés comunista, e um partido social democrata, de centro esquerda. Temos um Fernando Henrique Cardoso vociferando quando é denominado direitista, ou neo-liberal. Isso porque ele realmente não o é (leia aqui sobre isso)! Engana-se quem ainda acredita que o PSDB é um partido de direita, e isso me assusta muito! Nem vou me estender muito aqui porque isso seria assunto para um post inteiro novo, mas essa associação é fruto de uma demência política extrema!

O problema maior de se enganar acreditando que a esquerda é quem mais luta por justiça social é exatamente depositar suas esperanças em um mundo melhor nas mãos das pessoas erradas. O discurso é extremamente bonito, as promessas são ótimas (apesar de vagas), mas as consequências são realmente terríveis. Basta você estudar um pouco a história e verá que as grandes matanças da humanidade ocorreram em consequência de um grupo esquerdista que tinha a intenção de promover um mundo melhor e mais justo. Leia sobre Pol Pot no Cambodja, ou sobre Fidel Castro e Che Guevara em Cuba, ou sobre Hitler na Alemanha, ou sobre Lenin na União Soviética, e entenderá o que estou a dizer.

Mas voltando à questão inicial, eu acredito que princípios éticos são invioláveis e, portanto, devem ser seguidos acima de qualquer coisa. Independente do seu viés político, se você não acredita nisso, você para mim não presta. Não é porque uma lei está promulgada, ou porque a constituição do seu país prega alguma coisa, que esse fator será moralmente justificado. Há na Bíblia, em Coríntios 6:12:

Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada domine.

Portanto, para mim, nada promove mais justiça social do que prover liberdade à todos para decidirem quais caminhos seguir, e permitir a todos terem acesso às suas escolhas, protegendo-os contra a agressão de quem quer que seja. Cada um deve ser livre para escolher o que fazer, mas também estar sujeito às consequências de sua escolha. Todos devem ter acesso igualitário aos meios (saúde, educação e justiça) para desenvolver suas atividades em paz. Eu não preciso tirar nada de ninguém à força para isso. Esse é meu princípio fundamental.

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comentários
  1. […] perigoso. Cada um interpreta o uso do termo da maneira como lhe convém, de acordo com o seu viés político. Mas pouca gente realmente pensa nos fatores que levam alguém ao sucesso ou ao fracasso na vida. […]

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