Keynesianismo colocado à prova

Publicado: 4 de março de 2015 por Kzuza em Economia, Política
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Curioso observar pelas ruas do centro da cidade de São Paulo como Keynes e suas ideias são colocados à prova por aqui (não, não acho que isso é exclusividade da gestão Haddad!). É impressionante como diariamente um grupo de trabalhadores refaz o calçamento das ruas da região central, no quadrilátero delimitado pelas ruas Boa Vista, Libero Badaró, Benjamin Constant e Praça da Sé.

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Se você não sabe quem foi Lord Keynes, você pode ler um pouquinho aqui ou aqui nesses artigos. Peguei alguns trechinhos para você entender melhor:

Imaginemos um sistema em que o governo imprime um milhão de unidades monetárias e as entrega a quinhentos mil indivíduos, a metade da população, com ordens expressas de gastar esse dinheiro integralmente na contratação da outra metade da população para o fim específico de cavar buracos com as mãos nuas. Estes, por sua vez, terão que gastar toda a sua renda contratando aqueles para tapar os buracos cavados. A propensão a consumir é, pois, de 100%, perfeitamente estável e constante. A poupança felizmente não existe, de maneira que não ocorre o entesouramento. Também não há investimento privado, graças aos céus, de modo que essa variável inconveniente e instável não atrapalha o funcionamento da economia. O multiplicador pode ser calculado com precisão e seus efeitos idem: como a propensão marginal a consumir é 1, o multiplicador de renda é infinito. Keynes descobriu o moto contínuo econômico! Não há comércio exterior nem problemas com a taxa de câmbio. O juro está suprimido; o rentier não oprime mais o povo. Voilá! O ponto da demanda efetiva coincide permanente e eternamente com o ponto do pleno emprego. É verdade que a ninguém é permitido fazer outra coisa senão cavar e tapar buracos. Mas que importam esses detalhes? O desemprego está eliminado para sempre. O pleno emprego é tudo o que a humanidade necessita!

Ou então:

A solução Keynesiana é, literalmente, cavar buracos. Keynes sugeria que fosse o Estado o propulsor da economia, efetuando investimento público, mesmo que fosse escavar buracos. O investimento público aumenta o nível de emprego que por sua vez aumenta o rendimento disponível. Mais rendimento, mais consumo, pelo que altera as expectativas das empresas e as faz investir também. Certo?

É exatamente isso que a prefeitura faz há muito tempo aqui no centro. O calçamento das ruas é antigo, de pedra portuguesa. Como o tráfego de pedestres é intenso, sem contar o tráfego controlado de veículos de serviço (carros-forte, viaturas policiais, etc.), as pedras estão sempre se soltando, então todos os dias há trabalho a ser feito. Não sei qual a lógica disso, mas temos a impressão de que quando eles terminam de consertar a última rua, já está na hora de começar a consertar novamente a primeira. E é um trabalho infinito que não gera absolutamente nada além de gastos.

Ao invés de um investimento único para se trocar em definitivo o calçamento por outro de menor manutenção, preferem manter o trabalho de alguns trabalhadores e um investimento contínuo alto. Completamente sem sentido.

Isso também me lembra muito a Parábola da Janela Quebrada, ilustrada por Frédéric Bastiat:

Alguma vez você já testemunhou a ira do bom lojista James Goodfellow quando seu filho descuidado quebrou uma vidraça? Se você já presenciou tal cena você vai dar testemunho com toda a certeza do fato de que cada um dos espectadores, uns trinta deles, de comum acordo, aparentemente, ofereceram ao infeliz proprietário esta consolação invariável: – “Para cada coisa ruim há algo de bom. Todos devem viver e o que seria dos vidraceiros se os vidros dos paineis nunca fossem quebrados?”

Agora, esta forma de condolências contém toda uma teoria que aparece bem neste simples caso, já que é a mesma que infelizmente regula a maior parte de nossas instituições econômicas.

Suponha que repara o dano lhe custou seis francos e você diz que o acidente traz seis francos ao comércio do vidraceiro – o que incentiva o comércio com a quantidade de seis francos – admito isso, não tenho uma palavra a dizer contra isso; a razão se justifica. O vidraceiro vem, realiza sua tarefa, recebe seus seis francos, esfrega as mãos, e, em seu coração, abençoa a criança descuidada. Tudo isto é o que é visto.

Mas se, por outro lado, você chegar à conclusão, como é muitas vezes o caso, de que é uma coisa boa quebrar janelas, que faz com que o dinheiro circule e que o incentivo da indústria em geral, será o resultado dele, você vai me obrigar a gritar: “Pare! A sua teoria se limita ao que é visível! Ela não leva em conta o que não é.”
Ela não vê como o nosso lojista gastou seis francos em uma coisa e que então não pode gastar em outra. Não vê que se ele não tivesse uma janela para substituir ele teria talvez substituído seus sapatos velhos ou comprado um outro livro para sua biblioteca. Em suma, ele teria empregado os seus seis francos, de alguma forma, se este acidente tivesse sido evitado.

Será que alguma vez os nossos governantes já procuraram estudar sobre isso?

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