Mais um caso clássico de duplipensamento! Ou: Aborto é Vida?

Publicado: 13 de fevereiro de 2015 por Kzuza em Divergência de opiniões
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Hoje li um texto sobre uma campanha que está rolando nas redes sociais contra a legalização do aborto. O título do texto é Por que não vou postar uma foto da minha barriga em campanha contra o aborto, publicado no blog Casa, Cozinha e Fralda Trocada. A autora é Vanessa Lima, que sequer conheço.

Pronto, apresentações e divulgação de blog feitas, vamos começar a dissecar o texto…

A campanha se diz contra o aborto e pró-vida, mas eu acho que as duas coisas não conversam. Sou sim pró-vida e é justamente por isso que sou a favor da legalização do aborto.

Eu juro que eu poderia ter parado de ler o texto aqui pois já previa o que viria a seguir, mas ainda assim insisti em continuar lendo para ver onde ela iria chegar. Isso porque esse é um caso clássico de duplipensamento (como explicou George Orwell), ou da tal paralaxe cognitiva que o Matheus já mencionou em seu último post. Mas vamos seguir adiante…

Quando dizemos “pró-vida”, estamos falando da vida de quem? Só do bebê? E a vida da mãe? Não conta? O bebê precisa sobreviver e a mulher que se dane. E se esse bebê sobreviver, que tipo de vida ele vai ter? Tudo bem se uma mulher entrar numa clínica num fundo de garagem e ser tratada como uma carne de terceira em um açougue de quinta?

Bem, acredito que quando nos dizemos “pró-vida”, somos pró-qualquer-vida. Ou pró-todas-as-vidas. Certo? Seguindo esse conceito básico, sem muitas delongas, todas as vidas devem ser defendidas por quem se declara pró-vida. Faz sentido? Todas!

Eu explico: eu sou contra o aborto em mim, mas, por uma questão de saúde pública, sou a favor da legalização para quem, por algum motivo (e podem existir vários, diversos, alguns até que a gente nunca imaginou) escolhe esse caminho. Não conheço as histórias de todas as mulheres que fizeram, fazem e farão essa opção. Então, simplesmente não dá para julgar.

Não entendi por que o aborto seria uma questão de saúde pública. Será que a autora acredita que o nosso maravilhoso sistema de saúde pública é comprometido, de alguma forma, por que mães não conseguem realizar abortos desejados, simplesmente por que isso não é legalizado?

Outra coisa bem complicada…. esse conceito de “não conheço todas as histórias, então não dá para julgar” é extremamente perigosa. Quer dizer então que, se não conhecemos a história de um assassino em série, por exemplo, não podemos julgar se o que ele fez é certo ou errado? Seguindo essa lógica brilhante, então se um homem enfia a porrada na cara da sua mulher, não dá para julgar se é certo ou errado por que não conhecemos a história do casal?

Quantos pais abortam e ninguém fala nada? É que o aborto do pai é mais fácil e livre de julgamentos. Ele simplesmente vai embora, some e nunca mais olha na cara daquela mulher, com a qual ele gerou um filho. Pronto, abortou. Não vai ser mais pai. A criança e a mulher morreram para ele. Ainda é capaz de receber tapinhas nas costas e ouvir elogios: “Fez bem, amigo, saiu na hora certa”.

Era óbvio que, depois de tantos posicionamentos de esquerda apresentados até o momento, não poderia faltar um argumento feminista. E aqui o encontramos. Veja bem quando ela usa a expressão “morreram para ele”, para equiparar um comportamento imoral (e vergonhoso, e covarde, e blábláblá) do homem com a decisão da mulher de acabar com a vida do seu filho (e aí sim ele estaria morto de verdade) por seja qual lá for o motivo.

Não fiz nenhuma pesquisa, mas não tenho medo de afirmar, mesmo assim, que, pelo menos 9 (se não 10) entre 10 mulheres, que já realizaram um aborto sofreram – e ainda sofrem, ainda que tenha sido há muito tempo – por isso. Ninguém é a favor do aborto dessa maneira, como apontam os tais pró-vida/contra aborto. Ninguém acha legal ou acorda de manhã pensando: “Nossa, que dia maravilhoso. Quer saber? Acho que vou ali fazer um aborto” ou então “Ah, dane-se. Não vou usar camisinha. Daqui a alguns meses faço um aborto e pronto”. É uma decisão trágica, desesperadora e que marca para sempre a vida da mulher.

Oras, mas se você é a favor da legalização do aborto, você automaticamente é a favor do aborto nas condições em que você mencionou, onde o aborto é premeditado. Afirmar que isso não existe é, no mínimo, pretensioso demais. É uma armadilha perigosa, assim como quem acha que a distribuição de Bolsa Família não vai fazer com que ninguém tenha vontade de deixar de trabalhar.

A diferença é que algumas delas vão de óculos-escuros a clínicas chiques e entregam cheques gordos a recepcionistas bem arrumadas e com brincos de pérolas nos bairros mais ricos das grandes metrópoles. Outras, se submetem aos açougueiros, que mencionei acima. E essas últimas, infelizmente, de maioria negra e pobre, se deitam nestas macas sujas e nunca mais se levantam.

Essa foi a cereja do bolo do discurso esquerdista até aqui. O tal discurso das minorias. Dispensa maiores comentários.

Sou contra o aborto, sim, em mim. Por isso não faço. E se você é contra o aborto também, que ótimo: simplesmente não faça também. Mas sou a favor da legalização do aborto, porque sei que as mulheres que decidem fazer, vão fazer de qualquer maneira. Que pelo menos elas possam fazer isso de maneira segura, sem arriscar a própria vida. Que existam menos Jandiras, menos Cláudias, menos Marias e menos Antônias. Afinal, somos ou não somos a favor da vida?

O último parágrafo do texto é a coroação da paralaxe cognitiva. É extremamente bacana alguém ser contra algo para si próprio, mas a favor disso para todos os demais. Não me espantaria se ela declarasse o contrário em outras situações também, algo como: “Sou a favor de eu poder andar na contramão porque estou atrasada, mas sou contra os outros fazerem isso”. Não consigo entender gente que pensa assim. Pensa só se a frase fosse: “Mas sou a favor da legalização das drogas/assassinatos/estupros, porque sei que as pessoas que decidem fazer, vão fazer de qualquer maneira”. Consegue imaginar o barulho que isso daria?


Pô, mas peraí, então você é contra o aborto, Zuza? Sinceramente, não tenho uma opinião final fechada a respeito do assunto. Ainda tenho uma série de dúvidas e considerações que preciso esclarecer antes de tomar qualquer posicionamento. Mas sou muito a favor de uma discussão honesta e clara, com argumentos coerentes (sejam eles contra ou a favor do aborto).

Tenho uma tendência a ser contra o aborto, por valores cristãos, assim como sou contra a pena de morte. Concordo com a autora quando ela diz que “o buraco é mais embaixo”, então não quero me limitar só a isso nesse momento. Por isso, para emitir qualquer opinião a respeito eu preciso me informar e ser coerente. Sair despejando um monte de frases pré-moldadas e discursos prontos de esquerda por aí não ajudam em nada nesse debate.


Atualização brilhante do Mathias:

A lógica falaciosa na criação de argumentos da autora:

A) Sou a favor da legalização do aborto.

B) Todas as mulheres sofrem quando fazem um aborto.

Logo:

C) Sou a favor de legalizar que todas as mulheres sofram com o aborto.

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