Abraham Lincoln e o efeito Dunning-Kruger

Publicado: 12 de novembro de 2014 por Kzuza em Divergência de opiniões, Política
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Tudo começou com um post do meu amigo Angelo no Facebook, que continha a seguinte imagem:

Assim-ensinou-Abraham-Lincoln

E aí um amigo dele, chamado Rodrigo, resolveu comentar. Segue a íntegra do seu comentário:

Angelo, bom dia. Peço-lhe licença para comentar as afirmações acima: “Não criarás a prosperidade se desestimulares a poupança” – Talvez sim, não tenho certeza. “Não fortalecerás os fracos se enfraqueceres os fortes” – Quem é forte e quem é fraco nessa afirmação?. “Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos” – Eu inverteria o raciocínio, eu diria que, não se ajuda os pobres alimentando os ricos. “Não ajudarás o assalariado se arruinares aqueles que o pagam”. Certamente sim, mas o ideal não é arruinar e sim propor que ele valorize mais seus assalariados, e isso não significa estar arruinado. “Não estimularás a fraternidade humana se alimentares o ódio de classes”. Não faz bem à fraternidade qualquer tipo de ódio, seja de classe ou qualquer outro. O fato é que as classes existem e precisam ser reconhecidas. Esse discurso de combate ao ódio é bem típico dos ricos que tem medo de perder sua riqueza. “Não poderás criar estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado” – Talvez sim, talvez não, não sei. Mas claro que se a pessoa conseguir viver dignamente sem precisar pedir dinheiro emprestado, é melhor, e para isso é importante serem bem remuneradas. “Não evitarás dificuldades se gastares mais do que ganhas” – Obviamente sim, mas isso não deve servir de argumento pra culpar o sujeito que está endividado, porque ele pode estar em dificuldade por ganhar pouco e esse pouco não é suficiente para sustentar sua família. “Não fortalecerás a dignidade se tirar do homem a iniciativa e a liberdade” – Sim, concordo. Mas é importante criar condições para o homem tomar iniciativas e exercer sua liberdade. Não podemos esperar que o cego tome a iniciativa de enxergar ou que o paralítico tome a iniciativa de andar. “Não poderás ajudar os homens permanentemente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer sozinhos”. Se puderem fazer sozinho, concordo. Mas pegando o Brasil como exemplo, sabemos que somente agora o país saiu do mapa da fome. Isso significa que durante mais de 500 anos, muitas pessoas não conseguiram suprir a própria fome. Por isso é importante fazer por essas pessoas. Até pra pescar é importante estar alimentado, como poderá o sujeito, pescar com fome?

Bem, isso iniciou uma discussão tremenda com o Mathias. Conheço o Matheus há mais de 16 anos e posso dizer: o cara não é fácil. A discussão toda está na página do Angelo e sua continuação, na página do próprio Rodrigo no Facebook. Eu coloquei um único comentário no post, somente questionando o quanto argumentos como “pode ser que sim, pode ser que não, não sei” podem colaborar com uma discussão decente, e aí o Rodrigo solicitou uma resposta. Vou usar, então, esse meu espaço para responder, usando palavras do próprio Rodrigo e a minha posição. Vou incluir trechos de outros comentários que estão na sequência da discussão até para você entender melhor.

1 – “Não criarás a prosperidade se desestimulares a poupança”

Talvez sim, não tenho certeza.

Então acredite: é verdade. Há uma frase que gosto do professor Luiz Antonio Joia, da Fundação Getúlio Vargas: “Só tem dinheiro quem guarda”. Só quem poupa consegue investir para obter retorno.

Observações: guarde seus comentários como “mas quem não tem dinheiro sequer para se alimentar, jamais consegue guardar dinheiro” para mais adiante, onde chegaremos ao assunto. Aqui estamos falando somente sobre poupança.

2 – “Não fortalecerás os fracos se enfraqueceres os fortes”

Quem é forte e quem é fraco nessa afirmação?

Olha, sinceramente não conheci Abraham Lincoln pessoalmente, então não sei a quem ele se referia, mas tenho minhas suspeitas. Acredito que ele esteja falando da própria diferença natural entre os seres humanos. Há humanos fisicamente ou intelectualmente superiores aos outros, isso é natural. Acontece o mesmo em todo o reino animal. Por exemplo: você acha justo fazer o Usain Bolt correr a prova dos 100 metros rasos com um saco de 5 kg de areia amarrado em cada perna, somente pelo fato de que ele é superior aos seus adversários?

3 – “Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos”

Eu inverteria o raciocínio, eu diria que, não se ajuda os pobres alimentando os ricos.

Concordo tanto com Lincoln quanto com o Rodrigo. Ambos estão corretos. Faz todo sentido, não é mesmo? Afinal, cada um deveria ser (teoricamente) livre, sem ser ajudado ou prejudicado somente pela sua condição financeira.

4 – “Não ajudarás o assalariado se arruinares aqueles que o pagam”.

Certamente sim, mas o ideal não é arruinar e sim propor que ele valorize mais seus assalariados, e isso não significa estar arruinado.

Aqui começa uma discussão bastante interessante. George Orwell descreve no seu livro “1984” um termo chamado duplipensamento, palavra de um novo idioma chamado novalíngua. Em termos mais atualizados (e reais), talvez aqui o Rodrigo comece a cair no fenômeno chamado Dissonância Cognitiva (já escrevi sobre isso aqui).

Enfim, é um assunto delicado o tal “valorizar mais seus assalariados”. Afinal, quem sabe o real valor do trabalho que é executado por um profissional? Quem é que de fato tem esse senso de justiça? O governo? O sindicato? O trabalhador?

O próprio Rodrigo tenta se explicar em outro comentário, na sua própria página, onde diz:

Continuando, resumidamente, minha visão de economia, riqueza e salário, baseia-se na lógica de que, quem detém o modo de produção, dita o ritmo das vidas das pessoas. Você disse em seu primeiro comentário: “Não entende que salário não se define por decreto, a pessoa ganha de acordo com o que produz, de acordo com a demanda da sua mão de obra”. Primeiro, nunca pensei em decreto para definir salários, penso numa justiça maior, na distribuição da riqueza, com isso não falo em igualdade, mas sim justiça. Mas vamos lá, então você acha realmente que as pessoas ganham de acordo com o que produz??? Daquilo que você produz (se é que você sabe) quanto volta pra você em forma de salário? Então você acredita fielmente no senso de justiça dos empresários? Explique-me melhor isso. “de acordo com a demanda de sua mão de obra”. Te pergunto, quem estabelece a importância da demanda?. Qual a importância do trabalho de um Coletor de Lixo em sua opinião? Se não coletar o lixo da cidade, o que acontece? Aí te pergunto, quanto ganha um Coletor de Lixo? Você acha justo o que ele ganha? Ou você acha que a lógica de remuneração deve ser o quanto estudou a pessoa e não a importância do que ela realiza?? Estendo essa raciocínio aos Bombeiros, aos Professores etc… eles são remunerados de acordo com a importância do que realizam??

Bem, eu respondo. Ninguém recebe salário de acordo somente com o que produz ou com a tal “importância do que ele realiza”. Cada profissional (seja ele qual for) recebe de acordo com o quão complexo é executar a sua atividade, e então de acordo com o quanto seu trabalho é necessário para a sociedade naquele momento. Além disso, existem bons e maus profissionais em qualquer que seja a profissão. Seria justo, ao seu ver, remunerar todos que possuem uma mesma ocupação (já que executam uma mesma atividade) da mesma forma? Tenho certeza que sua resposta é não (e também que eu não entendi o que você quer dizer, blábláblábláblá…. ok). Então, como estabelecer justiça? Eu, particularmente, confio muito mais no dono da minha empresa (que possui um número restrito de funcionários para “julgar”) do que nas boas intenções de qualquer governo que seja para fazer esse julgamento (que, no nosso caso, possui 200 milhões de pessoas para entender).

Então, é óbvio que a lógica da remuneração seja pagar mais aos melhores profissionais que executem os trabalhos mais necessários para a sociedade. É um quadrante, simplificando, mais ou menos assim:

quadrante

Volto àquela fábula conhecida da filha que tenta convencer o pai de que o comunismo é melhor que o capitalismo. Então ele propõe que a nota de todos os alunos da sala dela seja igual, considerando a média da turma. Ela esbraveja, dizendo que não é justo com ela, que passou noites em claro estudando, ter a mesma nota de um aluno que mal frequenta as aulas.

Para finalizar esse assunto, uma pergunta que eu sempre faço quando alguém questiona se o fulano ganha bem ou mal pelo que faz: “Quanto tempo você precisaria para se preparar e conseguir fazer o que ele faz?”. Quanto maior esse tempo, maior deve ser a remuneração dele. Simples assim.

5 – “Não estimularás a fraternidade humana se alimentares o ódio de classes”.

Não faz bem à fraternidade qualquer tipo de ódio, seja de classe ou qualquer outro. O fato é que as classes existem e precisam ser reconhecidas. Esse discurso de combate ao ódio é bem típico dos ricos que tem medo de perder sua riqueza.

De novo, o duplipensamento. Você está tentando invalidar um argumento utilizando-se de outro distinto. Mas no fundo eu entendi: você concorda com a afirmação de Lincoln. Isso para mim já basta.

No mais, o seu discurso EXPLORADOR X EXPLORADO faz sentido de acordo com a sua ideologia política. Talvez seu único equívoco seja achar que a solução para tal disputa esteja nas mãos do Estado. Ou seja, você acredita em uma terceira força apaziguadora para solucionar o conflito. Mas, para que isso seja possível, você acha viável oferecê-la um poder invisível, para equilibrar os problemas que o mercado (ao seu ver) não é capaz de solucionar. E é justamente aí que caímos em um grande problema, enfrentado em todas as nações que adotaram esse tipo de estratégia. Fortalecemos um terceiro monstro, mais poderoso, chamado ESTADO, capaz (nas mentes de pessoas que pensam como você) de resolver tudo isso na marra, na porrada. Eu sinceramente desafio você a citar um único exemplo concreto de sucesso desse modelo onde o ESTADO centralizador e acima dos indivíduos trouxe prosperidade.

6 – “Não poderás criar estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado”

Talvez sim, talvez não, não sei. Mas claro que se a pessoa conseguir viver dignamente sem precisar pedir dinheiro emprestado, é melhor, e para isso é importante serem bem remuneradas.

Não sei, já falei sobre Dissonância Cognitiva por aqui hoje? Acho que sim.

Enfim, Lincoln diz uma coisa, Rodrigo diz outra diferente. É por esse tipo de comentário que o Matheus deitou e rolou na ironia. A afirmação do ex-presidente é claríssima, não tem do que discordar. Voltando à afirmação 1, a única forma de prosperidade é a poupança.

7 – “Não evitarás dificuldades se gastares mais do que ganhas”

Obviamente sim, mas isso não deve servir de argumento pra culpar o sujeito que está endividado, porque ele pode estar em dificuldade por ganhar pouco e esse pouco não é suficiente para sustentar sua família.

Bem, Rodrigo já concordou com Lincoln, então já estou contente. Também não vi nenhum indício de que o ex-presidente estava “culpando o sujeito que está endividado”. Mais uma vez, o discurso de vítima, na defensiva.

Mas pelas afirmações, é possível ver que você acredita que o Estado é capaz de apaziguar os problemas dos indivíduos como um pai (ou o tal Grande Irmão, de 1984), já que eles próprios são incapazes de gerirem suas vidas de maneira adequada. Enfim, mais adiante no meu texto vou usar um próprio texto seu para mostrar como você cai em contradições.

Se você quiser entender melhor as causas da pobreza, convido você a ler esse texto aqui.

8 – “Não fortalecerás a dignidade se tirar do homem a iniciativa e a liberdade”

Sim, concordo. Mas é importante criar condições para o homem tomar iniciativas e exercer sua liberdade. Não podemos esperar que o cego tome a iniciativa de enxergar ou que o paralítico tome a iniciativa de andar.

Aí você acertou em cheio na questão da liberdade individual. Pincei uma outra frase precisa sua a respeito disso:

Não acredito em Igualdade no sentido de todos serem iguais economicamente, mas acredito na Igualdade de Oportunidades.

Então vamos lá. Você acredita que o Estado deva oferecer condições iguais para que todos possam evoluir de acordo com suas vontades, valores e aptidões. Eu penso exatamente igual. Mas acho que você foi infeliz naquele exemplo da corrida, onde diz:

Mas aí te convido a uma pequena analogia: Imagine uma corrida, com Largada e Chegada, 15 pessoas estão concorrendo. Um Larga em 1°, outro em 10º, outro em 15º. O que largou em 1º ganhou a corrida. Ele ganhou só por méritos? Quem largou em 10º e em 15º não ganhou a corrida por deméritos?? Faço essa analogia, pois é o que percebo nessa corrida que o mercado impõe às vidas das pessoas. Quem nasce em uma classe mais abastada, larga em primeiro, quem nasce numa classe menos abastada, larga nas últimas posições.

Quem é mesmo que impõe isso às vidas das pessoas? O mercado? Quem impõe isso à vida das pessoas é o Estado, meu caro. Você está redondamente enganado. Quem deve oferecer condições iguais de todos competirem é o Estado, como você mesmo disse. Não caia em contradições. O desempenho de cada um depende, repito, das suas vontades, valores e aptidões. Não coloque isso nas costas do mercado. Você fala tanto de justiça social e ainda parece não entender o que isso quer dizer. Vou além: o nosso Estado atual torna-se cada vez mais incompetente ao promover a tal injustiça social ao desviar suas atenções do que realmente promove essa justiça (subjetiva, no meu ponto de vista).

Mas a cereja do bolo é a seguinte afirmação:

E as condições que o modelo capitalista, oferece para as pessoas ascenderem socialmente, é quase nula. Porque quem tem dinheiro tem a maior probabilidade de gerar mais dinheiro, e quem não tem, a remuneração do seu trabalho, em regra não possibilita obter maior qualificação e ainda sustentar sua família etc.

Eu não sei nem por onde começar. Pela sua lógica, quem sempre foi pobre será sempre pobre, e quem foi rico será sempre rico. Ou pouquíssimas pessoas são capazes de mudar a partir dos seus próprios esforços, trocando em miúdos, pois vivemos nesse mundo capitalista opressor. Essa redução da auto-estima das pessoas é justamente o que um Estado poderoso gosta de ver. Eles devem estar orgulhosos de você. Pois quem está com a auto-estima baixa precisa mesmo de amparo, de atenção e de ajuda, pois não acredita ser capaz de vencer por conta própria. Ou, olhando por um outro lado, qualquer pessoa que consiga ascender socialmente não o fez sozinha, mas isso sim é atribuído a um governo cada vez mais efetivo.

De novo, quem não oferece condições para as pessoas ascenderem socialmente não é o modelo capitalista. Quem não oferece condições para isso é um governo assistencialista, paternalista, que não oferece condições básicas de educação, saúde e segurança jurídica ao seu povo.

Eu poderia até citar aqui meu exemplo e vida, ou do Matheus, ou de tantas outras pessoas que conheço que, através do seu próprio esforço, venceram na vida. Mas isso tomaria proporções absurdas. Então convido você a ler esse texto aqui. Acho que ilustra bem o seu tipo de pensamento.

9 – “Não poderás ajudar os homens permanentemente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer sozinhos”.

Se puderem fazer sozinho, concordo. Mas pegando o Brasil como exemplo, sabemos que somente agora o país saiu do mapa da fome. Isso significa que durante mais de 500 anos, muitas pessoas não conseguiram suprir a própria fome. Por isso é importante fazer por essas pessoas. Até pra pescar é importante estar alimentado, como poderá o sujeito, pescar com fome?

Eu não sei se você reparou no advérbio “permanentemente” na frase de Lincoln. Eu concordaria com você se houvesse um mínimo esforço dos governos socialistas para libertar os indivíduos das suas garras assistencialistas. Concordaria com você se houvesse uma mínima sinalização de que as pessoas estão, efetivamente, passando a depender cada vez menos do Estado para sobreviver e estivessem em franca ascensão social. Ou melhor, acreditaria em você se realmente as pessoas se sentissem encorajadas a sair, nesse modelo que você propõe, dessa situação de dependência para correr sozinhas. Mas você sabe, assim como eu, que as coisas não são bem assim. Eu até acredito nas suas boas intenções, mesmo sem lhe conhecer. Mas você realmente acredita nas boas intenções do governo (seja ele qual for, não estamos falando de partido aqui) nesse aspecto?

Se você realmente é um cara tão bem intencionado com os pobres e que luta pela redução das desigualdades, como de fato eu acredito que seja (sem ironia nesse ponto), você tem uma leitura mandatória: esse artigo aqui. Leia com calma e não se arrependa. É sério.


Para finalizar, eu percebo que você, em todos os seus comentários, focou demais em uma distribuição mais igualitária da renda e da riqueza, mas em momento algum conseguiu explicar como gerar mais riqueza (afinal, o mundo anda pra frente, não é mesmo?). Sim, porque essa é uma conta que não fecha. Tem um texto muito interessante nesse link que explica direitinho o porquê. Você possui uma visão simplista de que, se tirarmos um pouquinho dos que têm muito dinheiro e dividirmos com os que têm pouco dinheiro, estamos ajudando a corrigir injustiças histórias desse modelo opressor capitalista fracassado e, dessa forma, vamos conseguir prosperar. Realmente, os países com melhores índices de qualidade de vida e com baixos índices de desigualdade social são aqueles que tomaram esse tipo de atitude proposta por você (sim, aqui eu fui irônico!).

Fique tranquilo. Isso não é um ataque pessoal. Você não é único. Ninguém consegue explicar como a conta fecha no socialismo; isso é um defeito do modelo, e não das pessoas. Não é à toa que esse modelo sim fracassou em todas as nações onde foi implantado. Repito: em TODAS. Enquanto o capitalismo…. bem, ele tem falhas, mas promoveu os maiores avanços até hoje observados pela humanidade. Se você discorda, eu realmente não tenho mais argumentos.

Outra coisa bastante interessante que observei é que você foge das suas próprias convicções. Veja:

Não estou generalizando. Sugiro até que você leia novamente meus comentários. Perceba que faço uso exaustivo, de palavras e frases como: “talvez” “pode ser” “é possível”. Faço algumas perguntas. Isso que você ridicularizou, faz parte da minha postura reflexiva. Não costumo adotar uma postura imperativa e definitiva, gosto de me colocar aberto às reflexões.

Poxa, mas se você não gosta de generalizar, então você volta lá no assunto do duplipensamento (ou dissonância cognitiva). Porque é exatamente isso que você prega em toda sua linha de raciocínio. Veja só um exemplo:

Nunca disse que o indivíduo não tem responsabilidade. O que eu disse em outras palavras é que, os que tem responsabilidade e lutam para um condição de vida melhor, são injustiçados pelo mercado.

Eu não acho que eu sou injustiçado pelo mercado. Você se sente injustiçado? Sentir-se vítima é um assunto complicado. Você se vale desse discurso em praticamente todos os argumentos do seu texto. Há sempre uma vítima, e há sempre um opressor.


Mas enfim, Zuza, no que você acredita?

Eu acredito que temos um problema gigante hoje de falta de geração de riqueza no país. E grande parte do que é gerado de riqueza é consumido por um Estado cada vez maior, o que faz com que sobre cada vez menos para quem realmente precisa. Isso se reflete em todos esses problemas que vemos por aí diariamente, seja na televisão, nos jornais, ou dentro das nossas próprias casas.

E como solucionar isso?

Simplificando. Devolvendo às pessoas o que delas é de direito. Cada um deve ser livre para administrar a sua vida, com cada vez menos intervenção do Estado. Como? Só com o Estado saindo de jogo e diminuindo o seu papel de pai, ou de herói salvador. Hoje, o governo não foca nos três únicos pilares necessários para promover a igualdade social:

  • Educação de qualidade ao acesso de todos;
  • Saúde de qualidade ao acesso de todos;
  • Segurança jurídica para toda a população.

De resto, se TODOS tiverem acesso aos 3 pilares acima mencionados, a vida se ajeitaria naturalmente na sociedade. Todos somos capazes, desde que tenhamos as condições básicas, de correr na nossa melhor velocidade.

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comentários
  1. […] eliminaram os alicerces capitalistas da sociedade, por exemplo Cuba, citado inclusive em resposta ao post do Renato como modelo de […]

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  2. Rodrigo disse:

    Renato, boa noite. Antes de mais nada, quero agradecer-lhe pela atenção destinada a cada comentários meu. Esteja certo que fiz o mesmo em relação aos seus. Vou publicá-los aqui, seguindo aquela esquematização que você fez. Se preferir, te mando via Word, pois por aqui a leitura pode ser mais difícil. Segue:

    Lincoln e o efeito Dunning-Kruger
    Publicado: 12 de novembro de 2014 por Kzuza em Divergência de opiniões, Política
    Tags:Abraham Lincoln, capitalismo, Efeito Dunning-Kruger, socialismo
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    Tudo começou com um post do meu amigo Angelo no Facebook, que continha a seguinte imagem:

    E aí um amigo dele, chamado Rodrigo, resolveu comentar. Segue a íntegra do seu comentário:
    Angelo, bom dia. Peço-lhe licença para comentar as afirmações acima: “Não criarás a prosperidade se desestimulares a poupança” – Talvez sim, não tenho certeza. “Não fortalecerás os fracos se enfraqueceres os fortes” – Quem é forte e quem é fraco nessa afirmação?. “Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos” – Eu inverteria o raciocínio, eu diria que, não se ajuda os pobres alimentando os ricos. “Não ajudarás o assalariado se arruinares aqueles que o pagam”. Certamente sim, mas o ideal não é arruinar e sim propor que ele valorize mais seus assalariados, e isso não significa estar arruinado. “Não estimularás a fraternidade humana se alimentares o ódio de classes”. Não faz bem à fraternidade qualquer tipo de ódio, seja de classe ou qualquer outro. O fato é que as classes existem e precisam ser reconhecidas. Esse discurso de combate ao ódio é bem típico dos ricos que tem medo de perder sua riqueza. “Não poderás criar estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado” – Talvez sim, talvez não, não sei. Mas claro que se a pessoa conseguir viver dignamente sem precisar pedir dinheiro emprestado, é melhor, e para isso é importante serem bem remuneradas. “Não evitarás dificuldades se gastares mais do que ganhas” – Obviamente sim, mas isso não deve servir de argumento pra culpar o sujeito que está endividado, porque ele pode estar em dificuldade por ganhar pouco e esse pouco não é suficiente para sustentar sua família. “Não fortalecerás a dignidade se tirar do homem a iniciativa e a liberdade” – Sim, concordo. Mas é importante criar condições para o homem tomar iniciativas e exercer sua liberdade. Não podemos esperar que o cego tome a iniciativa de enxergar ou que o paralítico tome a iniciativa de andar. “Não poderás ajudar os homens permanentemente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer sozinhos”. Se puderem fazer sozinho, concordo. Mas pegando o Brasil como exemplo, sabemos que somente agora o país saiu do mapa da fome. Isso significa que durante mais de 500 anos, muitas pessoas não conseguiram suprir a própria fome. Por isso é importante fazer por essas pessoas. Até pra pescar é importante estar alimentado, como poderá o sujeito, pescar com fome?
    Bem, isso iniciou uma discussão tremenda com o Mathias. Conheço o Matheus há mais de 16 anos e posso dizer: o cara não é fácil. A discussão toda está na página do Angelo e sua continuação, na página do próprio Rodrigo no Facebook. Eu coloquei um único comentário no post, somente questionando o quanto argumentos como “pode ser que sim, pode ser que não, não sei” podem colaborar com uma discussão decente, e aí o Rodrigo solicitou uma resposta. Vou usar, então, esse meu espaço para responder, usando palavras do próprio Rodrigo e a minha posição. Vou incluir trechos de outros comentários que estão na sequência da discussão até para você entender melhor.
    1 – “Não criarás a prosperidade se desestimulares a poupança”
    Talvez sim, não tenho certeza.
    Então acredite: é verdade. Há uma frase que gosto do professor Luiz Antonio Joia, da Fundação Getúlio Vargas: “Só tem dinheiro quem guarda”. Só quem poupa consegue investir para obter retorno.

    R: Quando eu disse: “talvez sim, não tenho certeza” quis dizer que era algo que eu precisava me aprofundar numa discussão para se chegar a uma conclusão. Tenho a impressão que, se preocupa mais em poupar, quem tem menos dinheiro

    Observações: guarde seus comentários como “mas quem não tem dinheiro sequer para se alimentar, jamais consegue guardar dinheiro” para mais adiante, onde chegaremos ao assunto. Aqui estamos falando somente sobre poupança.
    2 – “Não fortalecerás os fracos se enfraqueceres os fortes”
    Quem é forte e quem é fraco nessa afirmação?
    Olha, sinceramente não conheci Abraham Lincoln pessoalmente, então não sei a quem ele se referia, mas tenho minhas suspeitas. Acredito que ele esteja falando da própria diferença natural entre os seres humanos. Há humanos fisicamente ou intelectualmente superiores aos outros, isso é natural. Acontece o mesmo em todo o reino animal. Por exemplo: você acha justo fazer o Usain Bolt correr a prova dos 100 metros rasos com um saco de 5 kg de areia amarrado em cada perna, somente pelo fato de que ele é superior aos seus adversários?

    R: “Há humanos fisicamente ou intelectualmente superiores aos outros, isso é natural. Acontece o mesmo em todo o reino animal.”. Percebo que você quer parametrizar o mundo humano ao Reino Animal. Isso me sugere que você defende então, que prevaleça a lei dos mais fortes. Quero lhe dizer que isso não é possível em função da questão SIMBÓLICA. O simbolismo nos distancia e muito dos animais. No mundo animal, dentre outras coisas, matar não é crime; Não há política; não há governo; Eles não têm condições cognitivas e emocionais de estruturarem uma sociedade, com Leis, Moral, Religião, Estado, Justiça. Nessa perspectiva, talvez caiba naturalizar o sucesso e /ou fracasso, mas no mundo humano, o mais forte pode olhar pelo mais fraco. Ele pode sobreviver sem precisar matar o mais fraco. Mas entendi seu modo de pensar, você quer colocar como lei natural da vida, o sucesso, o fracasso, a riqueza, a pobreza e etc. Penso diferente, acredito que, os mais “fortes” precisam criar meios para que os menos “fortes” também prosperem. Até porque os mais “fracos” também pagam imposto

    3 – “Não ajudarás os pobres se eliminares os ricos”
    Eu inverteria o raciocínio, eu diria que, não se ajuda os pobres alimentando os ricos.
    Concordo tanto com Lincoln quanto com o Rodrigo. Ambos estão corretos. Faz todo sentido, não é mesmo? Afinal, cada um deveria ser (teoricamente) livre, sem ser ajudado ou prejudicado somente pela sua condição financeira.

    R: Nisso concordamos

    4 – “Não ajudarás o assalariado se arruinares aqueles que o pagam”.
    Certamente sim, mas o ideal não é arruinar e sim propor que ele valorize mais seus assalariados, e isso não significa estar arruinado.
    Aqui começa uma discussão bastante interessante. George Orwell descreve no seu livro “1984” um termo chamadoduplipensamento, palavra de um novo idioma chamado novalíngua. Em termos mais atualizados (e reais), talvez aqui o Rodrigo comece a cair no fenômeno chamado Dissonância Cognitiva (já escrevi sobre isso aqui).
    Enfim, é um assunto delicado o tal “valorizar mais seus assalariados”. Afinal, quem sabe o real valor do trabalho que é executado por um profissional? Quem é que de fato tem esse senso de justiça? O governo? O sindicato? O trabalhador?
    O próprio Rodrigo tenta se explicar em outro comentário, na sua própria página, onde diz:
    Continuando, resumidamente, minha visão de economia, riqueza e salário, baseia-se na lógica de que, quem detém o modo de produção, dita o ritmo das vidas das pessoas. Você disse em seu primeiro comentário: “Não entende que salário não se define por decreto, a pessoa ganha de acordo com o que produz, de acordo com a demanda da sua mão de obra”. Primeiro, nunca pensei em decreto para definir salários, penso numa justiça maior, na distribuição da riqueza, com isso não falo em igualdade, mas sim justiça. Mas vamos lá, então você acha realmente que as pessoas ganham de acordo com o que produz??? Daquilo que você produz (se é que você sabe) quanto volta pra você em forma de salário? Então você acredita fielmente no senso de justiça dos empresários? Explique-me melhor isso. “de acordo com a demanda de sua mão de obra”. Te pergunto, quem estabelece a importância da demanda?. Qual a importância do trabalho de um Coletor de Lixo em sua opinião? Se não coletar o lixo da cidade, o que acontece? Aí te pergunto, quanto ganha um Coletor de Lixo? Você acha justo o que ele ganha? Ou você acha que a lógica de remuneração deve ser o quanto estudou a pessoa e não a importância do que ela realiza?? Estendo essa raciocínio aos Bombeiros, aos Professores etc… eles são remunerados de acordo com a importância do que realizam??
    Bem, eu respondo. Ninguém recebe salário de acordo somente com o que produz ou com a tal “importância do que ele realiza”. Cada profissional (seja ele qual for) recebe de acordo com o quão complexo é executar a sua atividade, e então de acordo com o quanto seu trabalho é necessário para a sociedade naquele momento. Além disso, existem bons e maus profissionais em qualquer que seja a profissão. Seria justo, ao seu ver, remunerar todos que possuem uma mesma ocupação (já que executam uma mesma atividade) da mesma forma? Tenho certeza que sua resposta é não (e também que eu não entendi o que você quer dizer, blábláblábláblá…. ok). Então, como estabelecer justiça? Eu, particularmente, confio muito mais no dono da minha empresa (que possui um número restrito de funcionários para “julgar”) do que nas boas intenções de qualquer governo que seja para fazer esse julgamento (que, no nosso caso, possui 200 milhões de pessoas para entender).
    Então, é óbvio que a lógica da remuneração seja pagar mais aos melhores profissionais que executem os trabalhos mais necessários para a sociedade. É um quadrante, simplificando, mais ou menos assim:

    Volto àquela fábula conhecida da filha que tenta convencer o pai de que o comunismo é melhor que o capitalismo. Então ele propõe que a nota de todos os alunos da sala dela seja igual, considerando a média da turma. Ela esbraveja, dizendo que não é justo com ela, que passou noites em claro estudando, ter a mesma nota de um aluno que mal frequenta as aulas.
    Para finalizar esse assunto, uma pergunta que eu sempre faço quando alguém questiona se o fulano ganha bem ou mal pelo que faz: “Quanto tempo você precisaria para se preparar e conseguir fazer o que ele faz?”. Quanto maior esse tempo, maior deve ser a remuneração dele. Simples assim.

    R: Você disse: “Além disso, existem bons e maus profissionais em qualquer que seja a profissão. Seria justo, ao seu ver, remunerar todos que possuem uma mesma ocupação (já que executam uma mesma atividade) da mesma forma? Tenho certeza que sua resposta é não (e também que eu não entendi o que você quer dizer, blábláblábláblá…. ok). Então, como estabelecer justiça?” Renato não sou tão simplista como os seus comentários querem sugerir. Não acho que todos que exerçam a mesma função devam ter a mesma remuneração. O que eu questiono é a distância de salário que existe entre categorias. Mas indo na esteira do seu comentário, quero constatar que hoje acontece o contrário. Na categoria Coletor de Lixo, por ex. sendo bom ou mal profissional eles são remunerados da mesma forma. Os salários são nivelados por baixo. Sou contra isso. O curioso é que, pra combater minha fala que trata da disparidade entre salários, você argumenta que quero que todos ganhem a mesma coisa pra cima, mas esquece de mencionar que hoje, eles ganham a mesma coisa pra baixo. Seria mesmo um esquecimento ou você considera natural que seja assim?

    5 – “Não estimularás a fraternidade humana se alimentares o ódio de classes”.
    Não faz bem à fraternidade qualquer tipo de ódio, seja de classe ou qualquer outro. O fato é que as classes existem e precisam ser reconhecidas. Esse discurso de combate ao ódio é bem típico dos ricos que tem medo de perder sua riqueza.
    De novo, o duplipensamento. Você está tentando invalidar um argumento utilizando-se de outro distinto. Mas no fundo eu entendi: você concorda com a afirmação de Lincoln. Isso para mim já basta.
    No mais, o seu discurso EXPLORADOR X EXPLORADO faz sentido de acordo com a sua ideologia política. Talvez seu único equívoco seja achar que a solução para tal disputa esteja nas mãos do Estado. Ou seja, você acredita em uma terceira força apaziguadora para solucionar o conflito. Mas, para que isso seja possível, você acha viável oferecê-la um poder invisível, para equilibrar os problemas que o mercado (ao seu ver) não é capaz de solucionar. E é justamente aí que caímos em um grande problema, enfrentado em todas as nações que adotaram esse tipo de estratégia. Fortalecemos um terceiro monstro, mais poderoso, chamado ESTADO, capaz (nas mentes de pessoas que pensam como você) de resolver tudo isso na marra, na porrada. Eu sinceramente desafio você a citar um único exemplo concreto de sucesso desse modelo onde o ESTADO centralizador e acima dos indivíduos trouxe prosperidade.

    R: Não concordo que o meu argumento tenha sido distinto. O argumento do Lincoln fala do ódio de classes, eu disse que todo tipo de ódio não estimulará a fraternidade, o de classes é mais um entre eles. Você disse “Talvez seu único equívoco seja achar que a solução para tal disputa esteja nas mãos do Estado. Ou seja, você acredita em uma terceira força apaziguadora para solucionar o conflito”. Você está equivocado, não acho que a solução esteja nas mãos do Estado, mas sim nas mãos da maioria (POVO) que precisa se organizar enquanto Classe e cobrar do Estado que sua vontade seja feita. É importante que você entenda, quando falo que penso numa participação maior do estado, estou dizendo que isso deva acontecer em conseqüência do Desejo da classe mais numerosa da população. Perceba que nessa perspectiva, o POVO é parte ATIVA e não passiva como você quer sugerir. As classes mais abastadas da população vem triunfando até hoje, porque a população mais numerosa nunca se reconheceu nem se organizou enquanto Classe. Ao contrário disso, combatem um ao outro por lugar ao sol. Você quer fazer seu leitor pensar, que eu acredito que Estado deva dar esmolas ao povo que é coitadinho. Mas não é isso que estou dizendo. Dizer que a maior da população é explorada desde o início da civilização, é diferente de dizer que são coitados que precisam receber esmolas. Na Democracia deve prevalecer o desejo da maioria, E a maioria precisa se organizar politicamente e ideologicamente a fim de cobrar o Estado. Nesse sentido, penso numa participação maior do Estado e não como manipulador como você sugere. Quero deixar claro que, penso em qualidade de vida para toda a população, não acho que uma classe deva triunfar sobre a outra. Sou contra a CASTA, contra a sociedade Estratificada. Mas é o que temos, e precisamos dialogar com o que temos.

    6 – “Não poderás criar estabilidade permanente baseada em dinheiro emprestado”
    Talvez sim, talvez não, não sei. Mas claro que se a pessoa conseguir viver dignamente sem precisar pedir dinheiro emprestado, é melhor, e para isso é importante serem bem remuneradas.
    Não sei, já falei sobre Dissonância Cognitiva por aqui hoje? Acho que sim.
    Enfim, Lincoln diz uma coisa, Rodrigo diz outra diferente. É por esse tipo de comentário que o Matheus deitou e rolou na ironia. A afirmação do ex-presidente é claríssima, não tem do que discordar. Voltando à afirmação 1, a única forma de prosperidade é a poupança.

    R: Mais uma vez não concordo. Aponte em que momento eu disse algo diferente. Quando falo: “talvez sim, talvez não” novamente estou sugerindo que não tenho opinião definida sobre o assunto. Talvez por não ser um exímio conhecedor técnico de Economia ao ponto de fazer uma análise de Estabilidade Permanente. Mas eu complemente dizendo, que obviamente se a pessoa não precisar pedir dinheiro emprestado, é melhor

    7 – “Não evitarás dificuldades se gastares mais do que ganhas”
    Obviamente sim, mas isso não deve servir de argumento pra culpar o sujeito que está endividado, porque ele pode estar em dificuldade por ganhar pouco e esse pouco não é suficiente para sustentar sua família.
    Bem, Rodrigo já concordou com Lincoln, então já estou contente. Também não vi nenhum indício de que o ex-presidente estava “culpando o sujeito que está endividado”. Mais uma vez, o discurso de vítima, na defensiva.
    Mas pelas afirmações, é possível ver que você acredita que o Estado é capaz de apaziguar os problemas dos indivíduos como um pai (ou o tal Grande Irmão, de 1984), já que eles próprios são incapazes de gerirem suas vidas de maneira adequada. Enfim, mais adiante no meu texto vou usar um próprio texto seu para mostrar como você cai em contradições.
    Se você quiser entender melhor as causas da pobreza, convido você a ler esse texto aqui.

    R: Chama-me a atenção em seus comentários, a sua satisfação quando concordo com Lincoln. É impressionante. Por curiosidade, ele é o seu Guru político. Um Deus? Parece algo dogmático. Mas vamos lá, você disse: “Mas pelas afirmações, é possível ver que você acredita que o Estado é capaz de apaziguar os problemas dos indivíduos como um pai (ou o tal Grande Irmão, de 1984), já que eles próprios são incapazes de gerirem suas vidas de maneira adequada” Mais uma vez você falha em sua percepção e interpretação. Você fala algumas vezes em Dissonância Cognitiva, estou começando a desconfiar de um possível Défit Cognitivo em você. Mas é só suspeita por enquanto, posso estar enganado. Continuando, tenho que repetir que penso sim numa maior participação Estado, pois é a ele que pagamos impostos. Mas penso numa participação em decorrência do desejo da maioria da população. Não acho que a população tenha que se organizar para cobrar o Mercado e sim o Estado. É dele que precisam vir as políticas sociais de inclusão, políticas educacionais, culturais e etc.. Penso num Estado forte, mas com população ATIVA. Penso que, o que abre espaço para o descaso nos serviços públicos no Brasil, corrupção etc. é a ausência da participação da população na vida pública; Resumindo, penso num Estado Forte, População Ativa, engajada, cobrando e pressionando, com menos poder ao Mercado.

    8 – “Não fortalecerás a dignidade se tirar do homem a iniciativa e a liberdade”
    Sim, concordo. Mas é importante criar condições para o homem tomar iniciativas e exercer sua liberdade. Não podemos esperar que o cego tome a iniciativa de enxergar ou que o paralítico tome a iniciativa de andar.
    Aí você acertou em cheio na questão da liberdade individual. Pincei uma outra frase precisa sua a respeito disso:
    Não acredito em Igualdade no sentido de todos serem iguais economicamente, mas acredito na Igualdade de Oportunidades.
    Então vamos lá. Você acredita que o Estado deva oferecer condições iguais para que todos possam evoluir de acordo com suas vontades, valores e aptidões. Eu penso exatamente igual. Mas acho que você foi infeliz naquele exemplo da corrida, onde diz:
    Mas aí te convido a uma pequena analogia: Imagine uma corrida, com Largada e Chegada, 15 pessoas estão concorrendo. Um Larga em 1°, outro em 10º, outro em 15º. O que largou em 1º ganhou a corrida. Ele ganhou só por méritos? Quem largou em 10º e em 15º não ganhou a corrida por deméritos?? Faço essa analogia, pois é o que percebo nessa corrida que o mercado impõe às vidas das pessoas. Quem nasce em uma classe mais abastada, larga em primeiro, quem nasce numa classe menos abastada, larga nas últimas posições.
    Quem é mesmo que impõe isso às vidas das pessoas? O mercado? Quem impõe isso à vida das pessoas é o Estado, meu caro. Você está redondamente enganado. Quem deve oferecer condições iguais de todos competirem é o Estado, como você mesmo disse. Não caia em contradições. O desempenho de cada um depende, repito, das suas vontades, valores e aptidões. Não coloque isso nas costas do mercado. Você fala tanto de justiça social e ainda parece não entender o que isso quer dizer. Vou além: o nosso Estado atual torna-se cada vez mais incompetente ao promover a tal injustiça social ao desviar suas atenções do que realmente promove essa justiça (subjetiva, no meu ponto de vista).
    Mas a cereja do bolo é a seguinte afirmação:
    E as condições que o modelo capitalista, oferece para as pessoas ascenderem socialmente, é quase nula. Porque quem tem dinheiro tem a maior probabilidade de gerar mais dinheiro, e quem não tem, a remuneração do seu trabalho, em regra não possibilita obter maior qualificação e ainda sustentar sua família etc.
    Eu não sei nem por onde começar. Pela sua lógica, quem sempre foi pobre será sempre pobre, e quem foi rico será sempre rico. Ou pouquíssimas pessoas são capazes de mudar a partir dos seus próprios esforços, trocando em miúdos, pois vivemos nesse mundo capitalista opressor. Essa redução da auto-estima das pessoas é justamente o que um Estado poderoso gosta de ver. Eles devem estar orgulhosos de você. Pois quem está com a auto-estima baixa precisa mesmo de amparo, de atenção e de ajuda, pois não acredita ser capaz de vencer por conta própria. Ou, olhando por um outro lado, qualquer pessoa que consiga ascender socialmente não o fez sozinha, mas isso sim é atribuído a um governo cada vez mais efetivo.
    De novo, quem não oferece condições para as pessoas ascenderem socialmente não é o modelo capitalista. Quem não oferece condições para isso é um governo assistencialista, paternalista, que não oferece condições básicas de educação, saúde e segurança jurídica ao seu povo.
    Eu poderia até citar aqui meu exemplo e vida, ou do Matheus, ou de tantas outras pessoas que conheço que, através do seu próprio esforço, venceram na vida. Mas isso tomaria proporções absurdas. Então convido você a ler esse textoaqui. Acho que ilustra bem o seu tipo de pensamento.

    R: Você disse: “Quem é mesmo que impõe isso às vidas das pessoas? O mercado? Quem impõe isso à vida das pessoas é o Estado, meu caro. Você está redondamente enganado. Quem deve oferecer condições iguais de todos competirem é o Estado, como você mesmo disse. Não caia em contradições. O desempenho de cada um depende, repito, das suas vontades, valores e aptidões. Não coloque isso nas costas do mercado. Você fala tanto de justiça social e ainda parece não entender o que isso quer dizer. Vou além: o nosso Estado atual torna-se cada vez mais incompetente ao promover a tal injustiça social ao desviar suas atenções do que realmente promove essa justiça (subjetiva, no meu ponto de vista)” Mais uma vez você se equivoca, não há contradição nessa fala. Concordo que, quem deve oferecer condições iguais é o Estado. E se ele falha nessa tarefa, precisa ser cobrado para que falhe menos. Não é porque o Estado erra, que devemos achar que ele tenha que ter uma papel reduzido. Não estou aqui defendendo o Estado atual (apesar de achar que avançamos bastante nos últimos 12 anos, especialmente no que se refere à inclusão social, mas isso é outro tema, que no faria fugir um pouco do foco aqui). O que defendo é participação adequada do Estado com a população Ativa Aliás, aí está uma contradição sua. Se mostra adepto do Liberalismo, mas cobra o Estado para oferecer as condições de igualdade. O que você deseja afinal? Reduzir ou Aumentar o papel do Estado?

    9 – “Não poderás ajudar os homens permanentemente se fizeres por eles aquilo que eles podem e devem fazer sozinhos”.
    Se puderem fazer sozinho, concordo. Mas pegando o Brasil como exemplo, sabemos que somente agora o país saiu do mapa da fome. Isso significa que durante mais de 500 anos, muitas pessoas não conseguiram suprir a própria fome. Por isso é importante fazer por essas pessoas. Até pra pescar é importante estar alimentado, como poderá o sujeito, pescar com fome?
    Eu não sei se você reparou no advérbio “permanentemente” na frase de Lincoln. Eu concordaria com você se houvesse um mínimo esforço dos governos socialistas para libertar os indivíduos das suas garras assistencialistas. Concordaria com você se houvesse uma mínima sinalização de que as pessoas estão, efetivamente, passando a depender cada vez menos do Estado para sobreviver e estivessem em franca ascensão social. Ou melhor, acreditaria em você se realmente as pessoas se sentissem encorajadas a sair, nesse modelo que você propõe, dessa situação de dependência para correr sozinhas. Mas você sabe, assim como eu, que as coisas não são bem assim. Eu até acredito nas suas boas intenções, mesmo sem lhe conhecer. Mas você realmente acredita nas boas intenções do governo (seja ele qual for, não estamos falando de partido aqui) nesse aspecto?
    Se você realmente é um cara tão bem intencionado com os pobres e que luta pela redução das desigualdades, como de fato eu acredito que seja (sem ironia nesse ponto), você tem uma leitura mandatória: esse artigo aqui. Leia com calma e não se arrependa. É sério.
    ________________________________________
    Para finalizar, eu percebo que você, em todos os seus comentários, focou demais em uma distribuição mais igualitária da renda e da riqueza, mas em momento algum conseguiu explicar como gerar mais riqueza (afinal, o mundo anda pra frente, não é mesmo?). Sim, porque essa é uma conta que não fecha. Tem um texto muito interessante nesse link que explica direitinho o porquê. Você possui uma visão simplista de que, se tirarmos um pouquinho dos que têm muito dinheiro e dividirmos com os que têm pouco dinheiro, estamos ajudando a corrigir injustiças histórias desse modelo opressor capitalista fracassado e, dessa forma, vamos conseguir prosperar. Realmente, os países com melhores índices de qualidade de vida e com baixos índices de desigualdade social são aqueles que tomaram esse tipo de atitude proposta por você (sim, aqui eu fui irônico!).
    Fique tranquilo. Isso não é um ataque pessoal. Você não é único. Ninguém consegue explicar como a conta fecha no socialismo; isso é um defeito do modelo, e não das pessoas. Não é à toa que esse modelo sim fracassou em todas as nações onde foi implantado. Repito: em TODAS. Enquanto o capitalismo…. bem, ele tem falhas, mas promoveu os maiores avanços até hoje observados pela humanidade. Se você discorda, eu realmente não tenho mais argumentos.
    Outra coisa bastante interessante que observei é que você foge das suas próprias convicções. Veja:
    Não estou generalizando. Sugiro até que você leia novamente meus comentários. Perceba que faço uso exaustivo, de palavras e frases como: “talvez” “pode ser” “é possível”. Faço algumas perguntas. Isso que você ridicularizou, faz parte da minha postura reflexiva. Não costumo adotar uma postura imperativa e definitiva, gosto de me colocar aberto às reflexões.
    Poxa, mas se você não gosta de generalizar, então você volta lá no assunto do duplipensamento (ou dissonância cognitiva). Porque é exatamente isso que você prega em toda sua linha de raciocínio. Veja só um exemplo:
    Nunca disse que o indivíduo não tem responsabilidade. O que eu disse em outras palavras é que, os que tem responsabilidade e lutam para um condição de vida melhor, são injustiçados pelo mercado.

    R: Reconheço que essa minha fala foi contraditória. Isso porque faltou um TENDEM A SER. Corrigindo então: Nunca disse que o indivíduo não tem responsabilidade. O que eu disse em outras palavras é que, os que têm responsabilidade e lutam por uma condição de vida melhor, tendem a ser injustiçados pelo mercado. Complementando: Isso acontece porque o Mercado existe para resolver os problemas do próprio mercado e não das pessoas. Quero até rever essa questão. Não vejo o Mercado como vilão, ele apenas age de acordo com sua dinâmica de funcionamento. Esperar que ele se comportasse diferente, seria o mesmo que esperar que um carro, que foi projetado para funcionar somente à gasolina, funcione via eletricidade. A crítica se dirige à ideologia que está por trás dele: A NEOLIBERAL

    Eu não acho que eu sou injustiçado pelo mercado. Você se sente injustiçado? Sentir-se vítima é um assunto complicado. Você se vale desse discurso em praticamente todos os argumentos do seu texto. Há sempre uma vítima, e há sempre um opressor.

    R: Antes quero lhe fazer algumas perguntas: Você já morou em algum país socialista? Pelo menos já visitou algum? O que significa pra você, uma sociedade FUNCIONAR? Só um dado a você, o Capitalismo fracassou para 2/3 da população mundial, que passam fome. 2/3, isso pra falar só em FOME alimentar, sem citar os outros tipos de fome. O capitalismo funciona para uma parcela mínima da população mundial. Outras duas perguntas. Você sabe qual é o país com a melhor educação da América Latina, reconhecida pela ONU? Sabe qual é o país cujo o índice de crianças nas ruas é ZERO? Posso estar enganado, mas acho que você está muito preso a questões abstratas e carece de experiências concretas. Sinto que você está ligado a algum DOUTRINADOR, que lhe ensina conceitos de ideologias e a partir disso, você forma suas idéias. Fale-me um pouco de suas experiências concretas, suas militâncias etc…Veja não é arrogância, quero saber de suas experiências para de repente, a gente mudar um pouco o PRISMA da conversa. Pra que não fique parecendo uma “guerra epistemológica” Até porque enquanto discutimos aqui, milhões de crianças passam fome nesse mundo capitalista. Há quem não tenha onde morar, enquanto batemos esse papo. Ainda que o Socialismo não seja o regime ideal, isso não serve como justificativa pra manter o capitalismo, esse já deu muitas provas do seu fracasso para a IMENSA MAIORIA da população. Teríamos então que pensar juntos enquanto sociedade, em outra alternativa de regime. Continuando: você me perguntou se eu me sinto injustiçado. Sinceramente não me sinto. Mas não por conta do Mercado. Ratifico que o Mercado foi idealizado para funcionar assim. Sobre mim, posso lhe assegurar que, o que alcancei até hoje foi por méritos, mas certamente contei com a ajuda do Estado. Sozinho Eu e o Mercado, seria muuuiiito difícil. Dentre outras coisas, o nível superior se tornou possível em decorrência do PROUNI. E conheço muitos outros com a mesma história. E ainda que alguém tenha saído da extrema pobreza e ascendido socialmente, essa pessoa não serviria de parâmetro, uma vez que ela representa a exceção. Um dos argumentos que me incomoda nos pensadores neoliberais, é quando eles pretendem legitimar a Meritocracia, citando casos isolados de sucesso em superação da pobreza. O LULA, poderia usar a própria experiência pessoal para isso. Saiu da extrema pobreza no sertão de Pernambuco e veja onde chegou. Ele mesmo poderia defender a meritocracia. Mas não é assim que funciona. Se alguém conseguiu, que bom. Realmente merece as honras, os méritos. Mas casos isolados não podem servir para manter um modelo excludente. Outra coisa, talvez concordando contigo, é a questão do assistencialismo. Apesar de o Estado ter uma dívida histórica com a população mais pobre, penso que a assistência deva ser emergencial e não estrutural. E isso vem acontecendo, quando observamos as milhões de pessoas que deixaram o bolsa família, assim que obtiveram uma renda maior. Você disse: “Para finalizar, eu percebo que você, em todos os seus comentários, focou demais em uma distribuição mais igualitária da renda e da riqueza, mas em momento algum conseguiu explicar como gerar mais riqueza (afinal, o mundo anda pra frente, não é mesmo?).” Penso em justiça e inclusão social. Penso que todos nós, enquanto sociedade precisamos desfrutar de uma vida social: Termos boa Alimentação, Moradia, Educação, Saúde, Podermos ir ao Teatro, Cinema, Estádios de Futebol, Museus, Baladas ou qualquer outra coisa que cada um queira. Penso em INCLUSÃO SOCIAL. E observo que muito disso já vem acontecendo. Mas penso também, que precisamos estar atuantes para cobrar do Estado, para que ele ofereça as condições que todos possam viver bem socialmente. Não acho que se deva tirar dos Ricos e dar aos Pobres. Penso num Estado Justo e Honesto, que possa oferecer a todos às condições de se incluir socialmente. E para isso é importante um Estado Forte. Sobre a geração de Riqueza? Ela se dá como já vem acontecendo, TRABALHO. Seja na área urbana ou rural. Talvez nossa maior divergência seja a seguinte: Você Renato, acredita em liberdade total ao mercado. Eu já penso em liberdade total às pessoas. Penso que o Estado deva regular o Mercado conforme as necessidades da maioria da população

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    • Kzuza disse:

      Rodrigo, obrigado pelo excelente debate e pela resposta.
      Para resumir, só alguns pontos:
      1 – Lincoln não é meu guru. Para ser sincero, pouco sei sobre ele. É que na verdade as suas frases foram o ponto inicial da discussão. Minha única satisfação em você concordar com ele era não precisar contra-argumentar. Assim o texto ficava mais curto (ou menos longo).
      2 – Eu me considero adepto ao Liberalismo, e não ao anarco-capitalismo. Dessa forma, defino a redução do Estado às suas funções mínimas, como expliquei na conclusão do meu texto. Não houve contradição. Só acho que você respondeu antes de ler o texto até o final.
      3 – Resumindo minha posição: quanto menor o Estado, menos impostos precisamos pagar (todos nós), e mais dinheiro sobra para que nós possamos administrar nossas vidas. A mesma lógica se aplica às empresas. Quanto menos impostos pagarem, mais dinheiro sobra para poderem remunerar melhor seus funcionários, aumentar seus negócios e gerar mais empregos. Mas, novamente, isso é só um resumo. É nisso que eu acredito. Não acredito em nenhum (veja bem: NENHUM!) modelo onde devamos pagar muitos impostos e depois cobrar um terceiro (nesse caso, o Estado) a tomar as ações que nós desejamos e precisamos.

      Grande abraço!

      Ps.: conheço Cuba. Não tem problema citar o nome do país não.

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