Sobre duas rodas

Publicado: 8 de setembro de 2014 por Kzuza em Comportamento, Cotidiano
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Há pouco mais de um ano comprei uma bicicleta para poder fazer algum tipo de exercício físico e tentar amenizar a minha vida sedentária. E foi aí também que comecei a prestar um pouco mais atenção no comportamento das pessoas nas ruas, sejam elas pedestres, motoristas, motociclistas ou ciclistas.

Sempre fui adepto de carro. Acredito ainda que, em uma cidade como São Paulo, o carro deixou de ser um luxo há muito tempo e se tornou uma necessidade. Não me vejo sem carro por aqui, mesmo que há mais de 3 anos e meio eu utilize apenas transporte público para vir trabalhar e fazer algumas atividades mais corriqueiras. E não faço isso porque sou um “ecochato” ou porque acho que posso salvar o planeta. Não. Simplesmente tenho como vir e voltar do trabalho de forma relativamente confortável utilizando ônibus ou metrô (sim, tenho duas opções!), coisa que nem todos têm. Além disso, sofro de um pavor absurdo por trânsito, o que me faz pensar duas vezes antes de sentar ao volante. De qualquer forma, nada substitui o seu próprio carro para longos trajetos aos finais de semana, compras no supermercado, viagens, etc. e tal.

Mas a bike me possibilitou ver as coisas por uma ótica diferente. A bicicleta, nas ruas, é a segunda presa mais frágil, perdendo somente para o pedestre (embora em muitos casos, até o pedestre se sobressaia). Então cada vez que saio de casa para rodar, estou sempre munido de uma garrafa d’água, um capacete e uma boa dose de medo. Sim, porque o medo é ingrediente fundamental para a sobrevivência do ser humano, principalmente quando ele está sob ameaça. E é exatamente assim que o ciclista se sente no trânsito: ameaçado. Não que todos os motoristas desrespeitem os ciclistas, pelo contrário; a maioria mantém distância segura e até dá a preferência para os que estão sobre duas rodas. No entanto, não é muito tranquilo circular cercado por veículos várias vezes maiores que o seu, sem saber se quem está dentro é educado ou não.

Enfim, não é uma questão de generalização, pois como disse, a maioria dos motoristas e dos ciclistas se respeitam mutuamente, mas algumas exceções a essa regra mostram o quanto nós somos um povo despreparado e mal educado. Ontem eu estava com minha esposa próximo ao shopping Metrópole, em São Bernardo do Campo, e presenciamos uma cena lamentável. Nós não vimos o que aconteceu antes, mas bem na nossa frente um ciclista começou a discutir com um motorista de ônibus, alegando que ele quase o havia atropelado. E a discussão começou a esquentar de uma forma absurda, com xingamentos de todos os tipos, e nenhum dos dois parava. O motorista passou a perseguir o ciclista, ameaçando jogar o ônibus em cima dele. Enfim, uma baixaria total, até que o ciclista subiu com a bicicleta em um canteiro e ficou esperando o ônibus ir embora. A questão aqui não é nem quem está certo ou errado nessa discussão. A verdade é que ninguém se respeita, e isso dificulta muito as coisas.

No centro de São Paulo, onde trabalho, a prefeitura implantou agora uma ciclovia. Ainda é muito cedo, na minha opinião, para saber se vai funcionar ou não, se as pessoas vão começar a mudar de comportamento ou não, mas eu acho a iniciativa extremamente válida. Investir em uma via de transporte alternativo realmente me parece uma boa ideia, principalmente porque isso aqui em São Paulo vêm sendo acompanhado de investimentos em corredores exclusivos de ônibus, renovação da frota de ônibus com veículos extremamente modernos, e também em investimentos constantes em novas linhas de metrô e VLT, cujas obras demoram bem mais para serem finalizadas. Enfim, eu acho que o caminho está certo.

Porém, as ciclovias por si só não resolvem o problema. Isso porque o povo não foi educado para isso, e é aí que mora o problema. Como foi bem descrito essa semana em reportagem da Folha, as faixas não vêm sendo respeitadas pelos próprios pedestres. Essa semana o Mathias presenciou um atropelamento aqui em frente ao prédio que trabalhamos, na Rua Boa Vista, pois uma senhora estava caminhando na ciclofaixa quando um ciclista estava nela.

Acabei de retornar de uma viagem pela Europa e por lá a bicicleta é um veículo tão comum quanto é uma motocicleta aqui em São Paulo. Em muitos lugares que visitamos, como Zagreb e Munique, não é todo lugar que possui ciclovia, e nem por isso as pessoas deixam de se respeitar. Bicicletas circulam, em grande quantidade, de forma tranquila por entre os pedestres mesmo nas calçadas, sem que ninguém se estresse ou se desrespeite por causa disso. É óbvio que a questão cultural pesa (e muito!) nessa hora, mas a diferença entre nós aqui e eles lá é gritante, e é difícil entender isso sendo que eles também são seres humanos como nós, com os mesmos tipos de emoções e razões.

Já ouvi dizerem assim: “Esses ciclistas são tudo folgado (sic)!”. E isso ilustra bem o que eu digo: a generalização é o primeiro passo para o desrespeito. Acho que falta muito para entendermos que independentemente do tipo de transporte, somos todos seres humanos iguais uns aos outros. A partir do momento em que houver respeito, todas as iniciativas de melhoria de transporte começam a surtir mais efeito.

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