Medo

Publicado: 3 de maio de 2014 por Kzuza em Comportamento
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Eu ainda não consegui definir se tenho mais medo da grande massa ignorante do nosso país ou da nossa nova classe média. E vou explicar.

Entenda como ignorantes aqueles que não tiveram acesso a uma educação de qualidade, e nem mesmo a condições sociais dignas que lhes proporcionassem acesso à informação ou oportunidades de crescimento. Eu sei que esse conceito é extremamente difícil para alguns entenderem, mas isso existe no nosso país. Aliás, eles são mais de 85% da nossa população, acredite você ou não. O problema é que muitos os consideram como parte responsável pela condição de vida em que vivem. E isso já é uma das coisas que me preocupam.

Nessa nova era da informação, onde nós somos bombardeados diariamente com informações vindas das mais diversas fontes (e em boa parte, nada confiáveis, diga-se de passagem), é difícil encontrar quem consiga discernir as coisas e gerar algum conhecimento a partir de tudo o que recebemos. O anonimato que a internet nos permite hoje em dia originou uma proliferação dos pensamentos mais absurdos que poderíamos imaginar. Não que o homem de hoje seja diferente do que sempre foi, absolutamente; a diferença básica é que hoje ele pode externalizar seus desejos e opiniões mais profundos de uma forma aberta, apoiando-se em princípios tão “valorizados” como a livre expressão e a democracia. Com base nisso, esse mesmo homem moderno abomina opiniões contrárias ou tradicionais, julgando-as preconceituosas, antiquadas ou, como gostam de dizer hoje em dia, fascistas (mesmo sem entender o que o termo quer dizer).

O abismo social criado entre as duas camadas da sociedade descritas no primeiro parágrafo, resultando principalmente do controle da inflação e do crescimento econômico moderado, além obviamente dos programas sociais dos últimos governos, acabou por favorecer também o crescimento de um sentimento nazista nessa nova classe média. E isso é o que mais me preocupa.

Fico assustado com as opiniões de pessoas do meu ciclo social a respeito da situação do nosso país e das soluções de problemas que muitos deles enxergam. Vou mais longe. Na minha visão, essas pessoas que deveriam ser, por razões óbvias, as mais sensatas e as mais preparadas, acabam por mostrar as piores projeções de futuro que eu gostaria de ver.

Estou englobando nessa minha observação geral pessoas de até 40 anos que hoje possuem empregos estáveis e uma boa remuneração que lhes permite ter uma vida extremamente boa, regada a luxos que alguns de seus pais não puderem lhes dar, como carros importados, casa própria e viagens ao exterior. São “jovens” que, como gostam de dizer também, conseguiram chegar lá, através do acesso a educação de qualidade, condições sociais favoráveis e, claro, aos seus próprios esforços. Eu me incluo nesse grupo. Não vou nem mencionar os jovens filhos adolescentes dessas pessoas (isso daria um outro texto ainda mais extenso) que, como seus pais, compartilham das mesmas opiniões.

A questão é que essas pessoas criaram um sentimento de que estão acima de tudo e de todos. Desenvolveram dentro de si um sentimento que Hitler levou anos a colocar dentro dos corações alemães durante o terceiro Reich. Porra, Zuza, agora você pegou pesado!

Há uma bipolarização das opiniões agora extremamente preocupante pois, quando não se há um moderador nessas discussões, as soluções adotadas são as piores possíveis. Não há consenso quando se trata de duas opiniões totalmente divergentes e radicais.

Atualmente, o governo tornou-se inimigo número 1 da classe média. E quem apoia o governo também. E é aí que mora o problema.

O beneficiário do Bolsa Família é a escória da humanidade. A empregada doméstica com direitos adquiridos é a usurpadora. Os haitianos que chegaram em São Paulo são os miseráveis que merecem ser deportados. E aí a coisa vai se desenrolando e começa a atingir níveis diferentes que já nem fazem mais sentido, mas que seguem o mesmo padrão de raciocínio. Como o jovem adolescente que não usa roupas de marcas importadas e deve sofrer bullying. Como os funkeiros que devem morrer por ouvir uma música (?) de tão baixa qualidade. Como o eleitor que vota no PT e deve ser xingado. Como o Luan Santana que não merece cantar para o Papa ou na Fórmula 1 porque é um cantor “sertanejo”. Como o nordestino que deve voltar para a terra natal e abandonar São Paulo porque ele não nasceu aqui e é feio. E assim vai.

Eu sinceramente acho que as pessoas com esse tipo de opinião não fazem ideia do que é o nosso país. Não fazem ideia de como nossa sociedade é composta. E também nunca ouviram falar em sociologia ou antropologia. Vivem em um mundo coberto por uma redoma de vidro e nunca procuraram estudar o porquê de sermos assim. São os “Caco Antibes” da vida real.

Defender a meritocracia, a redução da maioridade penal, a liberação do porte de arma de fogo, o aborto ou a pena de morte em um país como o nosso é assinar um atestado de burrice imenso. Acreditar que somos um país preparado para o futuro é de uma ingenuidade tremenda. Achar que tirar o PT do poder do país, depois de 12 anos, é o início da solução dos nossos problemas é como tomar aspirina para tentar curar um câncer.

A doença está dentro de nossas próprias casas.

Pais que usam seus filhos como objetos de ostentação. Filhos hoje são para mostrar para os outros. “Olhe como ele é bonito! Olhe que belas roupas ele usa! Olha como é inteligente! blábláblá”. Os pais de hoje se sacrificam pelos seus filhos diferentemente do que seus pais se sacrificaram por eles. Antigamente os pais lutavam para educar seus filhos e lhes dar bons exemplos; para colocar comida na mesa; para comprar uma roupa e um tênis que durassem até o fim do ano; para educá-los religiosamente. Hoje essa nova classe média se sacrifica para colocar seus filhos nas melhores escolas, bilíngues, em período integral. Para que usem as melhores roupas, importadas e de marca. Para que estejam somente no ciclo social em que vivem. Para que se sintam incluídos em algum grupo. Para que se preparem para um mercado de trabalho extremamente competitivo no futuro. Para que não tenham que trabalhar até terminar uma faculdade e estarem, então, prontos para conquistar o planeta. Religião? Fé? Deus? Para que? Nós é que traçamos o nosso futuro. Nós somos capazes de traçar o nosso destino. E na escola vão te explicar direitinho como tudo surgiu e o porquê de todas as coisas.
Sim, o último parágrafo também foi um desabafo!

Esse tipo de pensamento é o que mais me preocupa. A criação de um apartheid moderno, na crença de um “eu sou melhor que você” ou (talvez pior) em “somos todos igualmente preparados”, ao invés de um “somos diferentes sim, e por que não nos tratarmos e respeitarmos assim?”.

Para finalizar, uma dica. Para você que acha que o Brasil e o seu povo não são dignos de você. Para você que adora dizer: eu tenho vergonha de ser brasileiro. Há uma chuva de ofertas de emprego no Canadá. A Europa facilitou a entrada de estrangeiros nos últimos anos frente à crise. Os EUA facilitaram a concessão de vistos aos brasileiros. Então, amigo: vá e seja feliz! Porque aqui, devo lhe dizer, não vai mudar nada. Infelizmente. E a tua opinião a respeito disso, sinceramente, só tem a piorar as coisas.

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