Uma luz sobre processos de desenvolvimento de software

Publicado: 10 de julho de 2013 por Kzuza em Trabalho
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Ok, esse espaço aqui não foi criado para isso, mas decidi usá-lo para expor algumas opiniões minhas (nada científicas) a respeito da minha área de atuação profissional. Peço desculpas aos leitores habituais do blog.

Trabalho há 15 anos com prestação de serviços de desenvolvimento de software. Já trabalhei em 5 consultorias diferentes, sendo as extintas CPM, Politec e EDS, além da Fujitsu e BRQ. Atuei para diversos clientes diferentes, sempre de grande porte, entre eles Bradesco, Itaú, General Motors, Toyota, Unibanco e Caixa Econômica Federal. Como desenvolvedor, sempre atuei com Mainframe (Cobol/CICS/IMS/DB2). Como gerente de projetos, com diversas tecnologias: o mesmo Mainframe, SAP, Java e .Net.

Durante todos esses anos, vários enigmas dessa área tão turbulenta da chamada T.I. me instigaram a pensar sobre uma questão central: estamos sendo eficazes?

Até hoje, fico indignado com a quantidade de dinheiro gasto nesse nosso mundo para produzir o que eu chamo de fumaça. Eu, assim como você que trabalha na mesma área, já cansei de trabalhar demais para criar nada. Horas e horas de esforço, noites e finais de semana perdidos, fios de cabelo branco, gastrites e úlceras. Tudo isso para produzir NADA. Ou melhor: FUMAÇA. Quantas vezes você não passou por isso?

Eu explico melhor. Se você trabalha com isso, já pensou no tanto de coisa que você faz e que não é, propriamente, desenvolvimento de software? Inclua nesse balaio também o tanto de projetos propriamente de desenvolvimento de software que você fez, mas que não foram de fato implementados em um ambiente produtivo. Se formos colocar isso em um papel, eu posso apostar que passei mais de 50% desses meus 15 anos fazendo FUMAÇA. Em outras palavras, eu recebi mais dinheiro pra trabalhar e não produzir nada do que propriamente para produzir algo de concreto.

Vivemos hoje em uma era onde os clientes (compradores de serviço de TI), consultorias e seus funcionários estão vidrados em siglas que solucionem seus problemas. Nunca falou-se tanto em PMP, COBIT, ITIL, CMM-I, FPA, blábláblá… Estamos querendo encontrar fórmulas que tragam a maturidade da engenharia civil para a nossa engenharia de software. O problema reside no fato de que pouca gente consegue entender a diferença entre ambas, uma exata, e outra social e humana.

A tal era da informação, na qual estamos vivendo, modificou totalmente o ambiente organizacional. As empresas modernas exigem cada vez mais flexibilidade e agilidade em todos os seus processos e departamentos. O tempo está cada vez mais curto e requer decisões rápidas. E o que eu observo na área de desenvolvimento de software é que estamos nadando na contramão dessas necessidades.

Basicamente, saímos de um processo de desenvolvimento que passava pelo famoso “papel de pão” do analista de sistemas para um programador, e passamos para um processo de engenharia que envolve dezenas de áreas e papéis diferentes, documentações exageradas e aprovações diversas. Ou seja, enquanto a tendência das organizações modernas é desburocratizar seus processos, estamos fazendo exatamente o contrário. Quer dizer, vamos produzir mais FUMAÇA.

Sim, metodologias ágeis como o SCRUM estão por aí para tentar nos levar de volta aos anos 80, mas isso ainda é um paradigma enorme em grandes organizações. Quem tem mais dinheiro, quem compra mais TI, ainda está preso nas siglas.

Enfim, o que tenho observado é que cada vez temos mais processos e metodologias cada vez mais engessadas que vão de encontro aos objetivos organizacionais. E o que nós, profissionais de TI, fazemos, tendo em vista os prazos que nunca mudam (lembram-se da agilidade necessária nas empresas modernas)? Vivemos nos reinventando. Procurando soluções (ou, porque não, o “jeitinho brasileiro”) para entregarmos o tão sonhado produto final, o software, e depois nos preocuparmos em nos adequar aos processos. Todo aquele monte de documentos que precisamos gerar, processos de Change Request, peer-reviews, checklists de qualidade… Tudo isso serve de que? Sinceramente, eu acredito que os únicos objetivos disso tudo são garantir qualidade final e tentar dar uma forma de engenharia ao nosso dia-a-dia de trabalho, e nunca garantir agilidade e flexibilidade. E digo mais: falham em 50% dos objetivos previstos. Sim, porque apesar de termos uma forma, ainda assim não garantimos a qualidade do produto.

A qualidade, ao meu ver, não é garantida por processos, mas pela capacitação profissional. Esses 15 anos me mostraram que, quanto mais perto de um processo artesanal de engenharia de software, melhores os resultados obtidos. Quanto mais processos e documentos, menos qualidade e, pior, maior o grau de insatisfação de todos os envolvidos no trabalho. Há uma supervalorização dos meios, sem o foco no objetivo final. Isso cria, na minha visão, resultados cada vez menos significativos do trabalho realizado por nós.

Acredito que há um investimento exagerado em soluções mágicas que possam suprir à má capacitação dos nossos profissionais. Os tais PMOs e processos do CMM-I proliferam-se nas consultorias com o objetivo de fazer maus gerentes de projetos e maus analistas e desenvolvedores trabalharem direito. O que pouca gente percebe é que não fazemos um trabalho braçal, típico das indústrias, onde uma linha de produção sobrevive apenas de profissionais cumpridores de instruções de trabalho predeterminadas. Desestimulamos os nossos profissionais a pensar, numa visão taylorista de mais de um século atrás.

Enfim, não acredito que essa seja uma visão apocalíptica. Vejo uma luz no final do túnel, pois ainda somos uma ciência completamente nova, de apenas algumas décadas de existência. Somente penso que estamos seguindo uma linha de pensamento contrária das demais.

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