Minha carta à ‘presidenta’

Publicado: 6 de fevereiro de 2013 por Kzuza em Política
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Cara ‘presidenta’ Dilma,

Primeiramente, desculpe-me por colocar o ‘presidenta’ entre aspas. Talvez os leitores do blog pudessem achar que eu cometi um erro ortográfico, e iria pegar mal para o meu lado. Mas como a senhora faz questão de ser chamada assim, não sou eu que irei contrariá-la. Acredito que desde a sua época de ‘estudanta’, quando você ainda era uma ‘adolescenta’, a senhora sempre tenha sido digna de respeito.

Deixe-me apresentar: meu nome é Renato Netto de Matos, tenho 31 anos, sou casado, não tenho filhos, atualmente faço um curso de MBA em Gestão Estratégica de Tecnologia da Informação, moro em São Caetano do Sul – SP, e sou Coordenador de Projetos na área de Tecnologia da Informação.

Não sou filiado a nenhum partido político. Aliás, tratando-se de política, infelizmente sou como a maioria dos brasileiros: não tenho lá minhas convicções muito bem definidas. Assumo. Mas em diversos outros pontos, sou diferente da maioria da nossa população. Não sei se devia me gabar por isso, mas tenho consciência que sou. Tenho uma renda mensal muito acima da média nacional, o que não quer dizer lá muita coisa, considerando a nossa ainda triste situação. Tenho ciência que o seu governo tem dado continuidade ao excelente trabalho feito no governo anterior na luta contra a pobreza, mas vamos concordar que o trabalho é longo e estamos muito longe do ideal. Além disso, também faço parte da minoria do país que possui curso superior completo. Também tenho ciência do vosso trabalho árduo nessa área, e reconheço os avanços, mas o cenário ainda é desfavorável para o nosso lado. Mas o mais importante, ‘presidenta’, é deixar claro que, mesmo com toda essa minha apresentação ainda superficial, eu não sou ignorante. Não sou um analfabeto funcional. Cursei boas escolas e tive um apoio enorme dentro de casa, o que me permitiu desenvolver um intelecto acima da média nacional. Veja bem, ‘presidenta’, isso não quer dizer que eu seja um gênio. Estou falando da média nacional. Isso apenas quer dizer que eu consigo discernir as informações que chegam até mim diariamente, interpretá-las e fazer o meu julgamento. Sem que ninguém precise me dizer como pensar, ou no que acreditar. Fantástico isso, não? Nesse ponto, acho que somos parecidos.

Apesar da carta parecer um pouco irônica até aqui, quero deixar claro que a intenção não é essa.

Eu não sou um desses revoltadinhos da internet que costumam aparecer por aí. Aqueles que querem queimar vivos os governantes da nação (embora eu confesse que às vezes me sinto tentato a isso). O vosso partido político, ‘presidenta’, hoje virou o alvo favorito dos críticos anônimos. Sim, aqueles, donos de blogs, ou que adoram fazer piadinha nos seus perfis do Facebook. O PT virou o mordomo da vez: é o culpado por tudo. Sei que a senhora e seus amigos de partido devem achar que esses críticos aí são simpatizantes dos seus principais adversários políticos, os tucanos. São os direitistas. Sabe, durante um tempo eu também achei isso, mas cheguei à outra conclusão. O divertido, para esses daí, é jogar pedra em quem quer que seja. Hoje são vocês que estão na vitrine, amanhã serão outros, fiquem tranquilos.

Eu sou diferente. Eu votei no Lula quando ele foi eleito pela primeira vez. Acabei me decepcionando e não votei nele na segunda. E também não votei na senhora (embora eu seja um dos maiores torcedores para que a senhora seja a melhor ‘presidenta’ que nosso país já teve, alcançando um sucesso enorme). Mas devo dizer que isso não tem nada a ver com o vosso partido, ‘presidenta’. Só para dar um exemplo, nas últimas eleições para prefeito, ajudei a eleger um companheiro do PT para a prefeitura de Carapicuíba, cidade da Grande São Paulo onde voto até hoje. Foi onde eu fui criado, e é onde meus pais ainda moram. Como já disse, não sou um cara de convicções políticas muito bem definidas. Mas até aí, ‘presidenta’, convenhamos que até mesmo os partidos políticos de hoje também não estão muito bem definidos, não é mesmo?

Além disso, devo-lhe dizer outra coisa que me diferencia da maioria do povo do nosso país. Eu sou moderado. Tentando exemplificar, eu sou o cara que não enxerga o país nem como as propagandas do governo e a senhora dizem por aí, nem como a revista Veja e os revoltados do Facebook tentam pregar. Eu sou o meio-termo. Como paulista, devo admitir que temos a tendência a julgar a situação do país somente pelo que está diante dos nossos olhos. A senhora sabe tão bem quanto eu que as coisas não são bem assim. Nosso país é enorme e as diferenças são tão grandes quanto a nossa extensão territorial. Mas eu tenho ciência do progresso que tivemos nos últimos 10 anos, eu não sou cego. Tem gente que prefere não enxergar. Talvez seja difícil assumir que, apesar dos inúmeros erros, vocês acertaram em muita coisa. Não vou me estender aqui, pois isso basta.

Mas por que eu estou escrevendo tudo isso para a senhora? Qual a minha intenção? Eu explico. Achei interessante me apresentar antes, para que a senhora saiba que as respostas esperadas por mim devem ser sérias e sinceras. Se eu esperasse respostas marketeiras, bonitinhas e ilusórias, eu não me daria ao trabalho de escrever aqui. Eu já dei uma olhada nos sites oficiais, acompanho as propagandas do governo, mas até agora nada satisfez à minha curiosidade chata. Eu estou em busca somente da verdade, embora eu tenha a certeza de que nunca irei encontrá-la. Eu queria notícias imparciais. Queria fatos. Mas hoje em dia isso aqui no Brasil é tão difícil quanto na época da ditadura, não é mesmo?

Enfim, ‘presidenta’, o que eu queria mesmo era apenas uma ajuda. Uma ajuda para entender alguns simples assuntos:

1 – Qual a real posição da nossa ‘presidenta’ e da cúpula do Partido dos Trabalhadores (afinal, em um país tão grande, a senhora não pode governar sozinha) em relação ao assunto do Mensalão? Se, conforme vi algumas afirmações de vocês na mídia, o esquema não existiu e estamos cometendo uma grande injustiça contra os (até o momento) condenados no processo, devo acreditar que o mais alto escalão da Justiça Brasileira está sendo comandado por incompetentes? Em uma linguagem mais simples: ainda devo acreditar na justiça em nosso país, já que os (teoricamente) mais competentes do país julgaram culpados um grande grupo de inocentes?

2 – Atualmente, a Petrobrás é a 5ª maior empresa de energia do mundo. O governo tem anunciado por aí que finalmente somos um país autossuficiente em petróleo. Então eu gostaria de entender por que ainda pagamos tão caro pelo combustível? Veja bem, estou analisando somente o lado do consumidor comum, que é justamente quem mais sente no bolso essa carga. Mas enfim, quais são as razões básicas para pagarmos mais caro por um litro de gasolina, por exemplo, do que nosso país vizinho, a Argentina, que importa o petróleo bruto da nossa Petrobrás?

3 – Em relação à crise energética, negada veementemente pelo governo, pela qual estamos passando (ou prestes a passar), tenho outras dúvidas. O governo conseguiu uma redução generosa nas tarifas de energia elétrica no último mês. Eu sou muito grato a isso, vou economizar bastante. Vai dar para bancar a diferença, pois vou passar a gastar mais com gasolina para o meu carro. De novo, estou olhando só o meu lado. Como disse, não sou um completo idiota. Analisando pelo âmbito nacional, muito mais pessoas e empresas serão beneficiadas com a redução das tarifas de energia do que prejudicadas com o aumento do combustível. As dúvidas:
3.1 – Sobre aquela história lá que durante anos as empresas de energia elétrica cobraram mais do que deviam dos consumidores, sei que isso ainda está em trânsito na justiça do nosso país. O TCU já ‘tirou o dele da reta’ (desculpe-me pela linguagem usada), mas ainda tem gente de bem recorrendo. Minha dúvida é: qual a relação entre a redução nas tarifas de energia com o valor cobrado indevidamente durante anos e anos? Digo, se por acaso a justiça decidir pelo ressarcimento dos consumidores, isso não afetará o preço da energia novamente para cima, correto?
3.2 – Existe alguma ação prevista pelo governo para fiscalizar e exigir que as empresas repassem a redução do custo de produção ao preço final dos seus produtos? Pergunto isso porque me lembro muito bem quando a CPMF foi extinta. Havia uma cobrança enorme dos industriais brasileiros pelo fim do imposto, pois o mesmo onerava demais a produção e, no fim das contas, o preço dos produtos continuou o mesmo.

4 – O último tópico é sobre o assunto que julgo o mais importante. Eu gostaria de saber qual o real trabalho do Ministério da Educação em prol da melhoria da qualidade de ensino no nosso país? Esse é o assunto que mais me preocupa, ‘presidenta’. E falo muito sério. Isso me deixa em pânico. Não precisa me explicar sobre o ENEM, ou sobre o PROUNI. Eu os conheço muito bem. Eu queria saber o que de fato é feito com os resultados do ENEM. Quais são as medidas tomadas. Quanto ao PROUNI, eu sinceramente tenho pavor desse programa. Assim como o SISU (não quanto à sua forma, mas ao seu objetivo). Colocar cada vez mais gente na universidade em um país com a educação básica e fundamental que temos é a mesma coisa que darmos armas aos macacos. Criamos uma falsa ilusão de que somos um país de excelentes acadêmicos, o que é muito pior do que reconhecermos nossa falência. Eu queria que a senhora me explicasse quais são os planos para revertermos o nosso quadro de piora e passarmos a melhorar a qualidade da nossa educação. Esse tópico daria um texto enorme, mas como já escrevi bastante, vou parar por aqui.

Enfim, tudo isso na verdade é uma baita brincadeira. Porque eu sei que a senhora, que deveria ser a destinatária dessa carta, nunca irá ler a mensagem. E também sei que, caso alguém se dê ao trabalho de responder às minhas dúvidas, terei somente respostas vagas e políticas. Não alimento falsas esperanças. Mas enfim, foi um belo exercício escrever isso aqui. Tentei sintatizar minhas principais preocupações, mas elas são muito maiores que essas.

Um grande abraço. E continuo torcendo pela senhora e por quem quer que esteja no poder, mas só porque gosto muito de viver aqui.

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