O ano em que ficamos vulneráveis

Publicado: 17 de agosto de 2011 por Mathias em Geral

GAIL SCRIVEN – O Globo, 29 de julho de 2011

O mundo ficou louco? Os EUA, a maior potência, mantêm os mercados de todo o mundo com a respiração presa enquanto lutam contra o relógio para evitar o calote. Um cenário inimaginável.

O euro, até há alguns anos a grande promessa, enfrenta sua maior encruzilhada devido à crise da dívida soberana, uma doença cujo contágio se espalha implacavelmente de um país a
outro, apesar dos desesperados esforços (e bilhões de euros de resgate) da União Europeia.

A América Latina, que era uma virtual pária para os investidores, começa a ser considerada uma estrela, uma ilha de estabilidade e refúgio.

A Noruega, o país do Prêmio Nobel da Paz, o paraíso da tolerância e do respeito, acaba de ser sacudida por um sangrento atentado duplo que poderá mudar para sempre sua imagem. A vista das aprazíveis ruas do centro de Oslo convertidas num dantesco cenário mais digno do Iraque marcará o antes e o depois num país que parece ter perdido a inocência. O mesmo vale para uma Europa que, da noite para o dia, se descobriu vulnerável, não ao terrorismo islâmico, mas ao de extrema direita.

Rupert Murdoch, para muitos o homem mais poderoso das últimas décadas na Grã-Bretanha, cortejado e temido tanto por políticos como por celebridades, se vê obrigado a pedir perdão e a se mostrar “humilhado” diante do Parlamento em Londres, devido a um
escândalo de espionagem que ameaça enterrar todo seu império.

O mundo ficou louco? Como explicar a qualquer desprevenido os títulos dos jornais das últimas semanas? Difícil, muito difícil. E é só o começo. Tudo que era impensável se passou — e está se passando — neste surpreendente 2011.

Começou com força demolidora, com uma catástrofe que deixou o mundo olhando para o Oriente com pavor. Foram imagens que ficam marcadas a fogo na memória coletiva; fatos
que marcam toda uma geração. O Japão, o país mais preparado do mundo para suportar um terremoto, a potência tecnológica por excelência, ficou de joelhos e vulnerável ante a força demolidora da natureza, um golpe triplo que desnudou todas as suas fragilidades. Terremoto, tsunami e uma catástrofe nuclear cujas consequências ainda não se vislumbram
por completo. No Japão e no resto do planeta.

O mundo árabe, onde os ditadores passavam décadas e décadas confiantes que seguiriam firmes em seus tronos, se viu sacudido por um terremoto, mas de outras características: uma inesperada brisa democrática que se converteu num furacão terminou por varrer líderes autoritários desde a Tunísia ao Egito. A indignação popular e a fúria contra a velha guarda, encabeçadas por jovens e impulsionadas pelas redes sociais, se propagaram a países como Líbia, Iêmen, Síria e, inclusive, Arábia Saudita.

Mas a indignação dos jovens não se limitou ao mundo árabe. Também os líderes europeus, desde José Luis Zapatero até David Cameron, passando por Nicolas Sarkozy e Silvio Berlusconi, se converteram em alvo de fúria de uma nova e heterogênea massa de “indignados”, numa espécie de “que se vão todos!” similar ao que se viveu na Argentina há uma década, o que também parecia inimaginável nas estáveis democracias europeias. O som das caçarolas retumbando nas ruas de Madri, Atenas e Roma? Incrível.

Osama bin Laden, o homem das mil fugas, o terrorista mais procurado e temido do mundo, caiu abatido em casa em Abbottabad, perto da capital do Paquistão. Supunha-se que estivesse em alguma remota caverna nas montanhas do Afeganistão, ou inclusive que estivesse morto há anos. Mas se escondia em plena luz do dia numa cidade de 500 mil habitantes e a poucos metros de uma academia militar. Quem poderia suspeitar?

Dominique Strauss-Kahn, o homem à frente da instituição mais poderosa do mundo, firme candidato a ser o próximo presidente da França, acaba algemado num tribunal de Nova York, acusado de agressão sexual. E nada menos que por uma camareira negra, mãe solteira e imigrante de baixos recursos. Uma luta de David contra Golias.

O onipresente Hugo Chávez, das intermináveis diatribes na televisão, das insistentes mensagens no twitter, das intromissões nos assuntos de toda a região (e além dela), repentina e misteriosamente emudeceu. Foi notícia em todo o mundo pela ausência. Foram 20 longos dias em que o mistério e o silêncio desconcertaram a Venezuela, até que o próprio Chávez admitiu, desde Cuba, que lutava contra um câncer que o obrigou inclusive a delegar alguns poderes.

São todas imagens inconcebíveis. Algumas podem passar à História como simples pés de página, pouco mais que anedotas. Outras, não. Mas todas nos dizem algo sobre cada um de nós. Obrigam-nos a uma profunda reflexão: não importa se se trata de um ditador árabe, de Strauss-Kahn ou Murdoch. Não importa se vivemos nos EUA, no Japão, na Noruega ou no Paquistão. Não importa se se trata da fúria da natureza, da pressão dos “indignados” nas ruas, dos jovens ávidos por democracia, de um escândalo de sexo ou espionagem, ou da saúde de alguém. Todos somos vulneráveis; é um poderoso chamado à atenção que não podemos ignorar.

Que mais se pode pedir a 2011? Ainda resta metade do ano pela frente. Dá até medo imaginá-lo.

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