A saga da Banda Sinfônica de SP

Publicado: 16 de fevereiro de 2017 por Kzuza em cultura, liberalismo
Tags:

AVISO INICIAL IMPORTANTÍSSIMO AOS LEITORES MAIS SENSÍVEIS: Esse post não é sobre cultura. Esse post não é sobre música. O autor não é contra a Banda Sinfônica de SP. Esse post é sobre liberalismo!


Você conhece o Cirque du Soleil? Provavelmente já ouviu falar. É uma companhia circense canadense, que viaja o mundo afora com seus espetáculos, que envolvem atos de dança, malabarismo, música, entre outros.

Eu nunca fui a um espetáculo deles. Talvez você também nunca tenha ido. Mesmo assim, a companhia existe há mais de 30 anos (foi fundada em 1984) e é a maior do mundo em seu ramo, tendo hoje mais de 3500 funcionários em mais de 40 países.


Você conhece o filme Avatar? Se nunca assistiu, provavelmente já tenha ouvido falar. É a maior bilheteria da história do cinema mundial.

Eu não assisti no cinema, só em casa, em um blu-ray que meu pai comprou.


Você conhece Andrea Bocelli? Com certeza já deve ter ouvido falar. É considerado por muitos o maior tenor ainda vivo. Roda o mundo com shows (ano passado inclusive esteve aqui por terras tupiniquins) e já vendeu mais de 70 milhões de discos pelo mundo todo.


Sabe qual a semelhança dos 3 casos apresentados acima?

Todos eles são representantes de produções culturais de excelente qualidade. O Cirque du Soleil, de um grupo de artistas. Avatar, uma produção que contou com uma porção de gente talentosa para chegar ao seu resultado, incluindo atores, diretores, artistas visuais, entre inúmeros outros. Andrea Bocelli, o expoente de um talento ímpar na música.

Mas há algo ainda mais intrigante nos 3 casos citados: nunca, em nenhum lugar do mundo, ninguém foi obrigado a assistir a um espetáculo do grupo circense, nem a comprar um CD ou a assistir a um show do tenor italiano, nem a ir ao cinema ou comprar o blu-ray do filme para que eles se tornassem fenômenos culturais modernos. E eles continuam fazendo um sucesso tremendo! (Guarde isso com você que logo chegaremos lá!)


Então o que faz desses artistas e suas produções serem tão reconhecidos, aclamados e símbolos de sucesso? Bem, isso daria uma lista enorme, eu acredito, mas o ingrediente fundamental tem um nome: TALENTO!

O talento dos artistas que produzem os resultados mencionados é de um tamanho e de uma singularidade que obviamente se traduzem em obras de extrema qualidade em seus ramos artísticos.

E é claro que as pessoas comuns, independentemente do seu grau de instrução e classe social, conseguem reconhecer a excelência do resultado desses trabalhos geniais, que envolvem criação, inspiração e dedicação extremas. O trabalho do artista é árduo. O resultado disso é que praticamente não há quem não consiga reconhecer a qualidade do que foi produzido.

Coloque, por exemplo, uma pressoa em frente à Pietá de Michelangelo, ou para ouvir uma sinfonia de Beethoven, ou para assistir a um espetáculo do Cirque du Soleil, e verá as emoções que são despertadas por essas obras. Mesmo que essas pessoas nunca tenham tido contato com arte, mesmo que nunca tenham tido acesso à alta cultura. O poder que essas obras têm de despertar bons sentimentos nas pessoas é algo único.


Vou lembrar aqui de uma experiência pessoal minha. Nunca estudei arte. Nunca fui nenhum entusiasta de arte. Mas quando fui ao Museu do Louvre em Paris e me vi frente à frente com Psiquê e Eros, de Antonio Canova, eu senti um negócio que poucas vezes na minha vida eu senti. Foi uma emoção boba, ingênua, mas forte. Algo tipo quando entrei na Catedral de São Pedro no Vaticano pela primeira vez. Não dá para se sentir indiferente frente ao belo, ao Sagrado.

psique

Psyche revived by cupid kiss, de Antonio Canova

Roger Scruton revela, em um documentário excelente produzido pela BBC, a importância da beleza para a existência humana. O vídeo tem quase 1 hora, então recomendo assisti-lo após a leitura desse artigo:


Agora, esse ano, o Governo do Estado de São Paulo resolveu demitir os músicos da Banda Sinfônica de São Paulo. Essa notícia foi divulgada amplamente por aí. Os músicos, do dia para a noite, viram-se desempregados (o que infelizmente se tornou uma realidade para muitas pessoas no país nos últimos 2 anos).

Não há como não se sensibilizar com isso. Ponto final.


A despeito do que eu sinto pelos músicos, vamos ao ponto da polêmica aqui. Vocês já podem começar a pegar as pedras para atirar em minha direção.

Alguém sabe me dizer por que o Estado tinha uma banda sinfônica, paga com o dinheiro de toda a população?

Afe!!!! Kzuza fascista! Insensível! Não sabe valorizar a cultura! Não sabe que a cultura é importante para o país todo, para todas as pessoas! Um povo sem cultura não é nada. Você mesmo disse ali em cima que é importantíssimo para as pessoas terem contato com esse tipo de expressão artística! Isso é um patrimônio do nosso estado, um orgulho da população! Você também não pensa nos músicos, nem nos futuros músicos, que precisam da existência da instituição para poderem exercer seus ofícios!

Bem, se você leu esse parágrafo em azul e se identificou com ele, é justamente para você que eu estou escrevendo. Aqueles que já entenderam onde eu quero chegar apenas deram risada quando leram a minha ironia.


Ponto 1: eu não sou a favor da extinção da Banda Sinfônica de São Paulo, muitíssimo pelo contrário. Desejo que eles continuem com o trabalho e tenham muito sucesso por mais várias gerações.

Ponto 2: se você nunca foi a uma apresentação da Banda Sinfônica de SP, se você não conhece o trabalho deles, se você não admira o tipo de música que eles produzem, mas mesmo assim é contra o governo acabar com o vínculo com a banda, você pode se enquadrar em dois tipos de pessoas: aquelas que nunca pararam para refletir o quanto de imoralidade há nesse cenário; ou aquelas que são canalhas por natureza mesmo.

Não acredito ter leitores canalhas, então vou descartar esse grupo aqui.

Vou tratar apenas da questão da imoralidade. Veja bem: você defende que alguém (nesse caso, o Estado) tome à força o dinheiro de toda a população para bancar um trabalho do qual apenas alguns irão se beneficiar. Sim, à força, através de impostos, porque se você não pagar, o Estado vai atrás de você.

Em uma analogia simples, é algo como se você apoiasse o governo canadense a obrigar os cidadãos canadenses a pagarem impostos de forma a bancar o Cirque du Soleil. Ou como se o governo italiano cobrasse impostos para bancar o Andrea Bocelli e seus músicos.

Se você está nesse grupo dos que não entenderam ainda essa questão de imoralidade, é quase certo que você irá se valer de um dos argumentos abaixo:

  1. Mas é cultura! Música é cultura! O Estado deve promover a cultura!
  2. Nosso país não valoriza a cultura! Então o Estado tem o papel de ajudar!
  3. Não é sobre dinheiro que estamos falando! Estamos falando em valorizar um patrimônio cultural!

Bem, em primeiro lugar, ser músico é uma profissão. Pergunte a qualquer músico. É óbvio que eles têm um dom especial, amam o que fazem, amam a arte. Mas eles também precisam receber por isso, e não estou falando somente em reconhecimento. Um músico estuda demais, e também trabalha demais. A criação exige tempo, esforço e dedicação. E sem dúvida alguma, trata-se de um trabalho de extrema importância. Ponto final.

Mas seguindo a mesma lógica, há inúmeros outros trabalhos fundamentais para a existência da humanidade e que nem por isso precisamos do Estado para que eles sejam executados. Pense nos trabalhadores que plantam e colhem a comida que chega à sua mesa para que você se alimente. Pense nos caminhoneiros que transportam esses alimentos até os mercados onde você os adquire. Pense nas costureiras que confeccionam os agasalhos que lhe mantém quentinho durante o inverno. Esses trabalhos também exigem esforço e dedicação, mas nós não achamos nem um pouco razoável que o governo recolha impostos de nós para bancar esse trabalho e fazer com o que o produto final chegue até nós. O produto simplesmente chega até nós através de uma cadeia que vai muito além da nossa compreensão e que nem vale à pena me alongar aqui.

Não consigo entender quem acredita que a cultura não será produzida sem a ajuda do Estado. É como pensar que Michelangelo, Beethoven, Shakespeare, Van Gogh jamais teriam produzido suas obras sem que houvesse uma entidade que tomasse dinheiro à força das demais pessoas para pagá-los pelos seus trabalhos.

Quanto ao desinteresse da população pela arte e pela cultura, também me parece bastante incoerente acreditar que tomar dinheiro à força dessa mesma população para bancar as produções artísticas seja sequer parte da solução do problema. Lembrando que nosso governo é extremamente hábil em fazer esse tipo de coisa, vide Lei Rouanet. A solução para esse problema de desinteresse passa, no meu entendimento, primeiramente por garantir que a população por completo tenha acesso às condições mínimas para a existência humana: água, alimentação e saneamento básico. Depois disso, tudo passa a ser uma questão de educação. O resultado final desejado, o real interesse pelas artes (principalmente pela alta cultura, como é o caso da Banda Sinfônica de São Paulo) é apenas uma consequência.

Outro ponto bastante interessante nessas pessoas que ainda não pensaram a fundo sobre a imoralidade que é tomar dinheiro à força de alguém para bancar algo que é considerado vital ou importante para todos, mesmo que não seja desfrutado por todos, é pensar que esses artistas não conseguiriam nenhuma outra forma de conseguir dinheiro para pagar os seus trabalhos. De duas, uma: ou acreditamos que a qualidade do trabalho executado por eles não é boa o suficiente para atrair investimentos, ou não reconhecemos que isso é não só possível como um fato. Basta citar que, por exemplo, a própria Banda Sinfônica de São Paulo já conseguiu patrocínios para continuar os seus trabalhos.


Conclusão: Não vejo absolutamente nenhum motivo para que qualquer causa ou trabalho artístico seja bancado pelo Estado. Isso porque isto significa que o Estado deverá tomar dinheiro à força de toda a população para pagar por algo que não será desfrutado por todos. Não se trata, no entanto, de não reconhecer o valor da cultura. Trata-se apenas de reconhecer as limitações que devem ser impostas ao Estado, que deveria se preocupar apenas em garantir que a população toda tenha direito à vida, à liberdade e à propriedade privada.

Tenho a mais absoluta convicção que artistas de talento conseguem se manter com a qualidade das obras que eles produzem, como exemplifiquei no início desse texto e concluí com o próprio patrocínio privado já conseguido pela Banda Sinfônica de São Paulo. O trabalho desses sempre será reconhecido e não tenho dúvidas de que há muita gente interessada nisso (myself included).

Para quem se interessar, você mesmo pode ajudar a Banda através de doações. O link é esse aqui.


Notinha final do Zuza: Nós, a sociedade civil, somos plenamente capazes de mudar o país quando nos organizamos e nos dedicamos. Apoie as causas nas quais você acredita. Convença seus amigos a também apoia-las. Dedique-se, faça trabalhos voluntários, busque doações voluntárias e pare, simplesmente pare, de exigir que o governo faça isso por você simplesmente pelo fato de que você paga impostos. Quanto maior o caminho que esse dinheiro passa entre o seu bolso e a causa à qual ele teoricamente deveria ser destinado, maior a probabilidade dele ser desperdiçado ou desviado. Isso não deveria ser novidade para você que vive no Brasil, mas mesmo assim fica esse toque. Quer realmente contribuir com algo que acha importante? Dê o seu dinheiro diretamente a quem faz o trabalho acontecer, e não para alguém que vai repassar para outro alguém, e para outro, e para outro, até chegar onde você gostaria que chegasse.

Deixar esses assuntos tão importantes na mão de pessoas que são eleitas de 4 em 4 anos, e cujas vontades você quase sempre desconhece, parece-me completamente insano (principalmente pelo fato de que essa pessoa eleita pode não ter sido a escolhida por você).

Também não exija que todos tenham as mesmas prioridades que você. Converse, convença-as, mas não coloque uma arma apontada na cabeça de ninguém obrigando que ela te apoie apenas porque a sua causa é válida, importante e altruísta. As pessoas são diferentes, têm prioridades diferentes, apenas respeite isso e não interfira na liberdade que elas têm de serem diferentes.

E o principal: acredite, tem jeito. A mudança começa a partir de nós.


Ps: Leia esse textinho aqui que o tio Zuza escreveu há 2 anos sobre basicamente a mesma coisa.

Quando a exceção vira regra

Publicado: 30 de janeiro de 2017 por Kzuza em Comportamento
Tags:,

Andei reparando em uma coisa ultimamente: quase todo mundo está se utilizando de casos excepcionais para (tentar) confirmar as suas convicções ideias. E isso em todos os aspectos da vida.

Já disse aqui anteriormente que as pessoas utilizam-se de vários subterfúgios para confirmar suas ideologias. Procuram encaixar os fatos, nem que seja manipulando-os, em sua forma de pensar. Mas nada para mim é tão gritante quando tentar se utilizar de casos isolados para confirmar determinado pensamento. Exemplos para isso não faltam.

O cara pega o exemplo do filho da faxineira, cujo pai alcoólatra fugiu de casa quando ele ainda era um bebê, e que passou em primeiro lugar em Oxford após ter estudado apenas com livros encontrados no lixão de Carapicuíba para dizer: está vendo só? Basta ter vontade e se esforçar! A meritocracia funciona! Vagabundo tem mais é que se foder mesmo!

O outro pega um caso de massacre dentro de uma escola americana, onde um estudante armado de uma submetralhadora matou 10 coleguinhas e depois se suicidou, e sai bradando por aí: a solução é proibir a venda de armas de fogo! Veja que absurdo! Se o garoto não tivesse uma arma, nada disso teria acontecido! Vidas precisam ser poupadas!

O terceiro pega o caso do avião da Airfrance que caiu no meio do oceano em 2009 por uma falha mecânica e diz: É por isso que eu não vôo! Voar é muito perigoso!

O quarto pega um dos muitos casos de estupro registrados no Brasil e brada: Vivemos uma cultura do estupro!

O quinto pega um caso onde um preto foi discriminado por conta da cor da sua pele e logo se prontifica: vivemos em uma sociedade racista!

Enfim, poderia ficar citando inúmeros exemplos aqui. E o que eu quero dizer com isso?

Nos 5 casos acima, independentemente do acontecimento ocorrer em proporções maiores ou menores dentro do todo, o conjunto desses acontecimentos nunca é maioria. Há muitos poucos casos de filhos de faxineira sendo aprovados em Oxford. O número de mortos em massacres em escolas americanas é muito baixo (para se ter uma ideia, mais pessoas morrem atingidas por raio nos EUA do que nesses massacres). O número de aviões que decolam e pousam em seus destinos normalmente é infinitamente maior do que aqueles que sofrem acidentes. A maioria esmagadora da população brasileira abomina ferozmente o estupro, inclusive os presidiários. E eu duvido que você me comprove que a maioria das pessoas que você conhece são racistas.

Por outro lado, veja só, esses casos isolados servem para nos mostrar uma coisa extremamente importante: tais eventos são perfeitamente possíveis, tanto é que ocorrem muitas vezes. Isso não quer dizer que esse seja um comportamento padrão, mas sim nos deixam em alerta para a possibilidade de ocorrência desse evento. Além disso, são eles que nos fazem evoluir como sociedade: eles nos ensinam como prevê-los, como combatê-los e, principalmente, o que fazer quando eles ocorrem.

O problema que eu vejo quando se toma a exceção como regra para um certo tipo de comportamento é que as pessoas então perdem o foco. Ao invés de atacarem a causa-raiz do problema, passam a eleger entes abstratos a serem combatidos e, dessa forma, não chegam a conclusão nenhuma. Quando o inimigo é invisível, quando ele não tem nome e nem forma, nossa evolução enquanto civilização é freada. Porém, mesmo quando a causa-raiz não possui uma identidade concreta, esses casos de generalização a partir da exceção fatalmente incorrem em mirar nos alvos errados.

Quando um garoto pobre não consegue frequentar uma faculdade de primeira linha, aqueles que defendiam o primeiro caso como regra, não como exceção, irão culpar a falta de disciplina, de esforço, de dedicação. Deixam, portanto, de avaliar outros fatores que contribuem para isso, como principalmente a diferença de oportunidades e condições de vida.

Quando um massacre ocorre em uma escola, poucos irão se ater ao fato de que escolas e igrejas são as tais gun free zones (zonas livres de armas) nos EUA e, fatalmente, os locais das maiores tragédias. Ninguém irá se atentar, até porque não existe nenhuma ONG e nenhuma rede de televisão interessada nisso, à quantidade de vidas salvas diariamente pelo fato das pessoas possuírem armas para se defender de bandidos nos EUA. Não se olha a quantidade de atentados evitados apenas porque um ser humano de boa índole estava armado quando um bandido apareceu. Exemplos para isso não faltam, é só pesquisar.

O caso da queda de avião demonstra bem um caso de sucesso, porque quando um avião cai, investigadores e especialistas se reúnem para analisar a causa raiz e determinar ações para que o problema não volte a acontecer em outras situações. Em um paralelo com o que acontece nas esferas sociais e políticas de nosso país, se acidentes aéreos fossem tratados como os demais casos que acontecem por aqui, teríamos imediatamente o governo agindo para reduzir drasticamente o número de vôos.

Quando um estupro acontece, e isso tem acontecido com uma frequência assustadora no Brasil, há um barulho enorme causado por pessoas que culpam a sociedade, a cultura do estupro, o machismo, o Schwarzenegger, o Rambo e até o Van Damme pelo ocorrido. Bullshit. São raras as mentes pensantes que identificam os únicos culpados pelos casos de estupro: os estupradores. Pasmem, isso é verdade! Identifiquem, divulguem, prendam e punam exemplarmente os estupradores, e a incidência desse crime diminuirá. Tolerância zero com eles!

A mesma observação segue para os casos de racismo. E olha que estou falando de racismo mesmo, discriminação pura e simples, como privar uma pessoa de seus direitos somente por conta da cor da sua pele. Esses casos existem no Brasil, não há dúvidas, mas eu duvido que sejam compartilhados pela maioria da população (até porque nossa maioria é preta). Normalmente quem brada contra uma “sociedade racista” o faz do alto do conforto do seu lar, em bairros nobres de cidades grandes. O que pouca gente quer enxergar é que os casos de pretos sendo assassinados apenas pelo fato de serem pretos são minoria. Pretos normalmente são assassinados por outros pretos, e isso denuncia a real causa do problema no Brasil: nossa segregação aqui não é racial, é social. A discriminação que ocorre aqui é social, não pela cor da pele. Pretos, em sua maioria, vivem à margem da sociedade, e esse é o problema. (Aliás, vi um vídeo muito interessante sobre isso!)

Assim, eu vejo que essa dificuldade em pensar, em analisar e em identificar corretamente as causas dos problemas a fim de combatê-los é um grande obstáculo para nossa sociedade. As pessoas estão mais preocupadas em defender suas bandeiras ideológicas, através de nomes bonitinhos e causas que são facilmente aceitas pela maioria das pessoas, e tornam-se demagogas demais. Os problemas continuam acontecendo e ninguém faz nada contra isso.


Ps1: achei o texto raso demais, mas foi o que eu consegui produzir. Logo devo complementá-lo.

Ps2: sim, não gosto do termo “negro”, por isso chamo de “preto” mesmo. Esse cara aqui me ajudou com isso:

Partilho da mesma opinião do Zuza no texto anterior, que foi mais focado em comentar sobre, 1) a comparação grafite x pichação, 2) o ato ser ou não artístico e 3) a legitimação do ato.

Mas meu objetivo é apenas alimentar a treta sobre outro aspecto:

Toda essa pseudo-polêmica atual é puramente política ideológica!

 E respondendo ao título:

Porque falamos de pichação agora, e desde quando isso se tornou relevante?

Porque quem controla os meios de comunicação quer. Porque redações de jornais agem em conluio aos movimentos progressistas, pautando o que deve ser discutido na maior cidade do Brasil apenas porque precisam fazer oposição política ao prefeito que nem fechou um mês de mandato.

É fato, a mídia cria a notícia e define a opinião em nome de todos nós.

E vale lembrar que João Dória foi eleito de forma democrática, pela maioria esmagadora da população, mas os derrotados não aceitam o resultado das urnas! (Hahahahaha, adorei usar esse argumento!!!)

Por trás disso tudo existe uma militância que usa os pichadores como massa de manobra para fazer oposição politica ao atual prefeito de SP, o inimigo número 1 da extrema esquerda progressista brasileira.

Por que penso assim?

Em 2016 a prefeitura de SP sob o comando do petista Fernando Haddad, mesmo tentando agradar todos os movimento da sua agenda de extrema-esquerda, cobriu diversos espaços grafitados no Minhocão. Ele alegou que não estava “autorizado” e que não era um espaço apropriado… Não houve um pio!

Antes disso o ex-prefeito Gilberto Kassab, com a lei cidade limpa, apagou diversos grafites, do tipo cartão postal, no centro da cidade, inclusive algumas dos famosos artistas “os gêmeos”… nenhum pio!

Agora intelectuais, urbanistas da USP, fefeleches e opinadores de programas matinais, enxergam nas ações do programa “cidade linda” a oportunidade de se apropriarem dos pichadores, criaram um novo factóide e ganharam os holofotes na imprensa, que por sua vez é conivente, sem nunca tocar numa lata de spray, roubando assim o protagonismo de quem picha.

Desde então o que se lê e vê nos noticiários diários gira em torno da suposta “importância do picho para a cidade”.

No mundo mágico da UOL/FalhadeSP, GoebbelsNews e demais portais, Sampa se tornou uma cidade maravilhosa sem problemas sérios, cujo interesse da população é reconhecer os pichadores como cidadãos exemplares, merecedores de medalhas e aplausos. 

Querem tornar o picho uma manifestação social de “expressão dos excluídos”, através de uma narrativa de que este ato precisa ser entendido, compreendido, e qualquer política de combate é uma ação preconceituosa, repressora, excludente, que marginaliza o grupo, e os pichadores representam grande parte da sociedade.

Desde quando o pichador está afim de protestar? Desde quando pichador quer algum tipo de reconhecimento social?

Pura besteira, nada muda o fato de que pichação é degradação e feio!

A pichação é transgressora desde suas origens no movimento punk, é contracultura, e ser contra o sistema de estado faz parte do ato.

Transgredir é o objetivo da pichação e a transgressão é, por si, desrespeitar as normas, ultrapassar os limites, violação da lei!

Na boa, vocês acham que pichador quer, por exemplo, que um PM ou um cidadão o ajude a subir um muro, invadir um prédio e aplaudir seu ato de pichar?

Acha que pichador quer receber medalha em assembléias legislativas ou que o ato de pichar seja considerado algo correto, belo e moral?

Acha que pichador quer incentivo estatal, ou que tenham suas latas de spray subsidiadas? (É, esse eu acho que sim, :/)

É isso que estão querendo? 

Duvido, isso é coisa de carola, coxinha, coisa de crianças querendo atenção.

Não vejo pichadores assim, mas vejo esse desejo nos intelectuais burgueses que buscam o protagonismo desse grupo sem nunca sujar o dedo numa lata de spray, nem tiveram a cara pintada ao ser pego por um PM, nem sentiram a adrenalina em escalar prédios de fazer inveja a qualquer praticante de parkour.

Que nada… essa trupe se contenta em analisar sociologicamente o picho das suas sacadas gourmet revestida com uma textura cinza pastel, ou então tomando uma cerveja artesanal em um bar na Vila Madalena, cujo parede está coberta por adereços que embelezam o lugar é o torna aconchegante do inverno e descolado no verão.

Olha que bonito o filhinho playboy do embaixador transgredindo!

Pichador quer reconhecimento entre pichadores, querem desafiar as autoridades do estado, quer incomodar, querem adrenalina, quer ser xingado por aquele tiozinho que pinta a fachada da casa recém pichada, quer transgredir!

Criar uma suposta divisão social é o objetivo político da extrema esquerda progressista, mesmo que a unanimidade trata a pichação como um ato criminoso em SP e em qualquer outro estado brasileiro ou em qualquer outra cidade do mundo, um dano ao patrimônio público, um ato de vandalismo, que degrada a paisagem e gera prejuízo a terceiros. “Curtir” pichação nunca foi um sentimento compartilhado nem por 1% das pessoas, e nem mesmo é compartilhado por pichadores!

Não caia nessa galera, não sejam manipulados! Pensem!

A patota militante usa da velha estratégia de tentar mudar o sentido das coisas apenas criando rótulos e mudando o nome do que quer subverter.

Não adianta chamar um garfo de colher para que ela se torne uma colher, continua sendo um garfo, continua péssima ferramenta para degustar uma deliciosa sopa!

Portanto camarada… Pichação é pichação! Um dano a propriedade pública ou privada.

Dizer que é “manifestação” não muda nada. Dizer que é “cultural” não muda nada. Dizer que é “uma forma de expressão” não muda nada.

Acho hilário quem tenta mudar o sentido das coisas por birra ideológica, por puro embate político…

Baloeiros, fica dica… Busquem pelos mestres das massas políticas, quem sabe a mídia e esses movimentos não consigam elege-los como os novo baluartes da aviação!!

Amigão pichador, quer pichar? Picha!

Mas aceite as consequências!

O pichador que não gosta de pichar a própria casa, Mito! https://www.youtube.com/shared?ci=e3S8RBtizPc

Fui!

Mathias.

É claro que eu não poderia deixar de escrever sobre a polêmica do momento. Vira e mexe esse assunto retorna à tona, e não foi diferente agora que o novo prefeito de São Paulo resolveu declarar guerra aos pixadores.


Opinião Pessoal

Bem, primeiro vamos à minha opinião. Opinião pura e simples, sem juízo de valor. Vamos falar do que eu gosto, lembrando, como eu disse em um post recente, que não é porque eu gosto de alguma coisa que ela é necessariamente boa.

Acho grafite um negócio legal pra caralho. Bonito mesmo. Há, entre artistas mais famosos e os anônimos, gente de extrema qualidade que consegue embelezar qualquer pedacinho de muro por aí. Se você mora em São Paulo, consegue ver diariamente vários exemplos disso. O mais legal deles, na minha opinião, é esse:

screenshot-24-de-jan-de-2017-11-02-57

Foto de Fernando de Santis

Por mim, a cidade seria coberta de painéis como esse ou como os da Avenida 23 de Maio. Ah, como eu gostaria que as coisas fossem simples assim. Mandaria grafitar até o Obelisco do Ibirapuera, a Ponte Estaiada todinha, o Minhocão, todas as pontes da Marginal Tietê… ia faltar tinta nessa porra! Ah, como eu gostaria que a cidade fosse minha!

Opa, mas pera lá. Gosto muito de grafite, mas odeio pixação. E sabe por quê? Porque pixo não me diz nada. Não entendo porra nenhuma daquelas letras. E não há ordem nenhuma. E não há respeito nenhum. Basta ver essa foto aí em cima. O que está no primeiro plano não é um muro, nem um painel. É um tapume que cerca uma área em obras no local (obra esta que está lá há pelo menos uns 6 anos). E os caras pixaram em cima dos grafites feitos nesse tapume. O cara foi lá e cagou em cima da arte de um outro.

Mas novamente, finalizando essa parte, isso é mera opinião pessoal. É um gosto meu. Não estou fazendo juízo de valor. É apenas o que eu acho, baseado no que vejo e no que sinto. Ou seja, é algo meu, então você nunca vai entender completamente.


Arte de rua ou bandeira política?

Aqui entra a parte mais delicada dessa história toda.

Antes de entrar em qualquer discussão sobre arte x não-arte, é importante entender o porquê desse assunto ter vindo à tona nesse momento.

O fato é que, após 4 anos de administração petista na cidade de São Paulo, Fernando Haddad não conseguiu se reeleger. Apesar de todas as suas boas intenções (e eu acredito muito nisso), sua administração não foi bem recebida pela população. Tanto é que foi derrotado ainda em primeiro turno, com uma vitória esmagadora de João Dória, do PSDB. Foi a primeira vez que as eleições na capital paulista foram decididas em primeiro turno. (Veja bem, animal, antes de me criticar: aqui são só fatos, não opiniões!)

Dória tem, portanto, grande apelo popular, apesar de não ser nem um pouco o queridinho da mídia mainstream. Pelo contrário. Desde que assumiu o cargo, há menos de um mês, é bombardeado diariamente por 2 dos maiores veículos de informação em massa do Brasil: o jornal Folha de São Paulo (que pauta também o maior portal de internet do país – o UOL) e a Rede Globo. Às vezes de forma velada, às vezes às claras, mas o novo prefeito está sendo alvo das críticas diariamente. Não vou abordar aqui, para não me estender mais do que o habitual, sobre os motivos desta perseguição, então permito-me relatar apenas fatos.

Isso leva, infelizmente, ao que Leandro Narloch relatou em seu artigo na Folha de São Paulo (veja só!!!) essa semana, onde ele diz que nós fingimos defender ideias e princípios, mas na verdade, defendemos pessoas.

Ou seja, muita gente (senão a maioria) não está muito preocupada em discutir se as decisões do prefeito a respeito da guerra à pixação e da limitação dos grafites na capital paulista faz sentido ou não, se é boa ou não, se tem impacto positivo ou negativo. A regra é: se foi o Dória que decidiu, então não deve ser coisa boa.


Discussões sobre o tema

Para que eu pudesse formar um juízo a respeito do assunto, de forma racional, decidi pesquisar mais a respeito e ver o que as pessoas estavam dizendo por aí. Então selecionei as coisas mais interessantes que vi sobre o assunto.

Primeiramente, deixo um documentário francês bem bacana sobre a pixação em São Paulo:

Agora, um vídeo do canal Cidade Ocupada, do jornalista Fred Melo Paiva, também falando sobre o assunto:

Além dos vídeos, também dei uma olhada sobre o que o pessoal anda falando nas redes sociais, o que, querendo ou não, acaba sendo um bom termômetro.

Treta #1

Uma postagem bem interessante é a que está abaixo. Desconheço o autor, mas a mensagem foi postada por um amigo meu em sua página:

Na discussão que se seguiu nos comentários da postagem, a posição desse meu amigo (que ao contrário do que ele pensa sobre ele mesmo, é inteligente pra caralho!) é a de que o Dória é extremamente marketeiro. Ele não chegou a criticar abertamente a ação do prefeito em apagar pixações (embora talvez meu amigo tenha considerado isso bizarro), mas sim o fato do prefeito estar utilizando isso como uma bandeira para aparecer.

Nesse ponto, concordo completamente com ele. Dória chegou como um “não-político”, e até por causa disso sempre foi odiado dentro do próprio partido, com exceção do seu padrinho Geraldo Alckmin. Chegou com a promessa de trabalhar duro, de fazer acontecer. Mas o cara é empresário, entende de marketing, e precisa cuidar da sua imagem, precisa estar em evidência, e tem feito isso como ninguém. O prefeito tem pautado a imprensa paulistana diariamente, e tem feito isso como um grandessíssimo político.

Talvez a diferença de pensamento entre eu e esse amigo esteja no fato de que eu estou pouco me importando se o cara faz as coisas por marketing ou não. O importante para mim é fazer o trabalho bem feito e trazer bem estar para a população. (Veja, ainda não emiti meu juízo sobre as ações do prefeito acerca do tal “Cidade Linda”, pois isso vai ficar só para a última parte do texto, então não dê xilique!) É claro que eu preferia um cara mais na dele, que só mostrasse resultados, que trabalhasse e não precisasse estar na capa do jornal vestido de gari, lixeiro, cadeirante, drag queen, nem nada parecido. Mas sinceramente, isso pouco me importa se ele estiver garantindo que a população esteja bem. Até porque, tratando-se de uma das 6 maiores cidades do mundo, acho bem difícil um prefeito passar desapercebido pela mídia. Imagino a quantidade de jornalistas atrás dele diariamente, a cada passo que ele dá. E foi assim com todos os prefeitos de São Paulo que me lembro.

Mas esse não foi o principal ponto da discussão desse post. O principal ponto aqui é justamente o que eu mencionei na sessão anterior: a bandeira política.

O fato é que pixar é crime, previsto em código penal. Discordo do deputado Conte Lopes, no vídeo do Fred Melo, onde ele usa o argumento raso de que “é crime porque está previsto em lei”. A escravidão já esteve prevista em lei, e nem por isso deixava de ser um crime moral. O que torna a pixação um crime não é o fato disso estar escrito em um pedaço de papel, mas sim que ela não respeita um código moral e ético básico da sociedade em que vivemos que é o respeito à propriedade privada. Ainda vou gravar um vídeo falando sobre isso, mas o que vale dizer aqui é que qualquer violação à propriedade de outrem (seja ela física ou mental) é sim um crime. Assim como eu não posso chegar e tatuar o seu braço porque eu acho isso bonito, sem sua autorização, você também não pode pintar a parede da minha casa sem meu consentimento.

Não se trata, portanto, de uma guerra entre direita e esquerda. Não se trata de jogar a culpa por uma cidade suja aos “esquerdopatas”, e sim a criminosos que violam a propriedade de outras pessoas. Simples. E travar essa luta não é pauta de direita ou de esquerda (você pode procurar por aí, mas até a Marilena Chauí fez isso quando era secretária de Luiza Erundina, o Haddad mesmo fez isso durante sua administração, e a polícia sempre perseguiu pixadores desde que eu me conheço por gente).

Outro ponto bastante interessante, ainda na discussão desse post, foi a posição de um rapaz que eu desconheço. Ele disse:

O problema é que em momento algum o cara questionou porque a galera está pixando, acha que ir lá e tentar apagar resolve o problema. Talvez se tentasse entender o início do fenômeno teria uma articulação melhor para resolver do que apenas jogar aquela tinta cinza escrota.

Quando confrontado, quando disseram que as pessoas pixavam apenas porque estavam “cagando” para a cidade e para qualquer coisa que não fosse o umbigo delas, a resposta foi:

Aí é que tá cara, esse é o pensamento generalista. Tem um conceito social nisso aí, não digo que todos os que pixam tem questionamento social, mas fazem parte de um meio. A própria cidade criou isso. A cidade não tem lazer, não oferece alternativas, é um lazer que os caras tem. Aqui em Florianópolis quase não se vê pixação, e quando vê é de são Paulo.

Tá cagando pra cidade sim, mas o que são Paulo devolve pra essas pessoas? É cultural da cidade de são Paulo por que? Tá tão intrínseco, tem tanta gente que pratica. É gigante a parada é rola uma interação social enorme entre esses caras. Nunca são casos isolados, os caras estão se comunicando através daquilo, é uma outra forma de se falar dentro da cidade. Independente de gostar ou não de pixação você não acha que vale tentar sacar o que realmente tá por trás? O que motiva alguém a arriscar a vida, ser preso por algo que nunca vai trazer retorno? É de questionamento que eu estou falando. Se rolar essa interpretação aí tem formas de resolver de uma maneira menos paleativa do que só desperdiçar um monte de grana em tinta pra gerar uma guerra que não vai se resolver.

Esse ponto de vista me lembrou muito o que Roger Scruton chama de “culpa transferida”, no capítulo Defesas Contra a Verdade de seu livro “As Vantagens do Pessimismo”. No livro, ele cita o exemplo da imediata explosão de culpa direcionada aos Estados Unidos logo após os ataques de 11 de Setembro:

Todo mundo sabia – e a natureza dos ataques demonstrava isso sobejamente – que a al-Qaeda não é uma organização com a qual seja possível manter algum diálogo, ou que tenha o hábito de examinar a consciência e lamentar os seus atos. Ela existe para recrutar o ressentimento e para canalizá-lo contra o alvo habitual, que é aquele que está à vontade no mundo e que desfruta dos benefícios que os ressentidos do mundo não conseguiram obter. Qual é o sentido de culpar uma organização desse tipo, ou até mesmo de fazer julgamentos morais? Não, em vez disso, votemo-nos contra a América e vejamos o que ela fez – por meio de seu próprio sucesso – para merecer aqueles ataques.

A questão aqui não é comparar o potencial destrutivo de uma organização como a al-Qaeda  com o bando de pixadores paulistanos, pois são coisas muito distintas. Mas enfim, depois de assistir aos vídeos e aos depoimentos dos pixadores, fica bem claro que não é muito uma questão de diálogo ou de ceder a exigências. Eles vandalizam porque querem vandalizar. Sujam porque querem sujar, porque isso os faz sentir bem. Não é para um reconhecimento da sociedade, não é para fazer exigências de algo em troca (seja o reconhecimento do pixo como arte ou de melhores condições sociais). E aqui, nesse ponto, ambos os grupos se equivalem: é necessário encontrar um culpado pelo crime que cometemos. Isso, caros amigos, é um grave problema!

Treta #2

danilo

Nesse caso, printei diretamente a conversa que tive com o Danilo. O cara é praticamente meu irmão, e me autorizou mencioná-lo aqui.

Achei um ponto de vista bastante interessante, principalmente o caso que ele mencionou sobre a cidade que ele conheceu. Eu acho que tenho um indício do porquê da cidade medieval ser diferente nesse aspecto em relação a São Paulo. Talvez seja porque São Paulo é uma cidade que não dá para ser comparada com quase nenhuma outra cidade no mundo, tendo em vista suas proporções gigantescas. Tanto em população quanto em área territorial, a cidade é enorme. Não vou nem mencionar aqui as diferenças culturais e sociais, mas só o tamanho já faz com que qualquer comparativo nesse aspecto só possa começar a ser feito com cidades como Paris, Londres, Nova Iorque e Tóquio.

Outra coisa bem legal foi: todos nós podemos atingir níveis maiores de cultura, tolerância e desenvolvimento. E acho que aqui está o X da questão. Até fazendo um paralelo com o último comentário da Treta #1, a chave para a solução do problema, ao meu ver, não está em reconhecer o pixo como algo bom, como arte, ou como expressão válida. Isso talvez mantenha essas pessoas à margem da sociedade, aprisionadas em seu mundo, presas à baixa cultura e ao submundo do vandalismo. A chave, portanto, é prover a elas acesso ao que há de melhor, é resgatá-las para um mundo de dignidade, de beleza. Já dizia Albert Einstein: uma mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original.


Mas enfim, o que é arte?

Esse é um assunto delicado, sobre o qual não sou especialista para falar. A única observação que tenho é aquela máxima: quando tudo é arte, nada é arte.

E por que isso é importante?

É importante porque quando consideramos tudo o que gostamos, apenas pelo fato de que gostamos, como algo supremo, sem discutir qualidade, tudo passa a ser irrelevante. E quando tudo é irrelevante, perdemos a referência do sagrado, do puro, do belo. Uma cultura sem referências é algo pobre, insignificante.


E os outros crimes? E a corrupção? E a saúde? E a educação?

Sempre quando um assunto polêmico desses vêm à tona, imediatamente surgem os espantalhos. Isso é invariável!

Há um problema na maioria das discussões atuais onde as pessoas não gostam de se ater apenas à questão central, mas sim tergiversar sobre tudo que o cerca e possa ter alguma relação. E as pessoas fazem isso justamente porque procuram esses subterfúgios para defender uma ideia. Procura-se mudar o contexto, maquiar a realidade, a fim de que tudo se adapte àquela ideia central que a pessoa defende.

Justificar um crime de dano à propriedade alheia porque outras coisas não vão bem me parece bastante insano. Também me parece insano dizer que combater crimes de menor potencial de violência não tem relevância tendo em vista as grandes atrocidades que vemos por aí. Como se tivéssemos que ser tolerantes com um assaltante só porque tem muita gente sendo estuprada por aí.

Outra insanidade é o pensamento do: não adianta apagar as pixações pois elas vão continuar aparecendo. E aqui cito dois motivos:

1 – Isso faz tanto sentido quanto dizer que não devemos prender assassinos porque assassinatos continuarão acontecendo.

2 – Conhece a teoria das janelas quebradas? Deixo aqui um texto bem interessante sobre o assunto.


Conclusão

Como eu sempre digo, não é porque eu gosto de algo que isso é verdadeiramente bom. Então as minhas opiniões pessoais sobre determinado assunto são meramente emotivas, baseadas em sensações.

No entanto, há um ponto que precisamos ser racionais aqui.

Ninguém é obrigado (ou não deveria ser) a aceitar o meu gosto pessoal e ter que conviver com ele. Isso se chama respeito. Eu posso ouvir a música que eu quiser, ler o livro que eu quiser, decorar o ambiente como eu quiser, assistir o filme que eu quiser, desde que isso esteja na minha esfera privada e não interfira na vida de ninguém. Claro, posso indicar tudo isso para as pessoas com base nas minhas opiniões pessoais, mas não posso obrigá-las a aceitar isso.

Invadir o espaço de alguém para marcar algo que eu acho legal é imoral. É como ouvir uma música alta que eu gosto, obrigando meus vizinhos a compartilharem do meu gosto. É como escrever na parede da casa do meu amigo uma frase interessante que li em um livro que gosto. É como projetar na parede do vizinho um filme bacana que assisti.

Mas como o poder público pode resolver isso?

Eu acredito que espaços públicos não devem ser espaços para divulgação de NENHUMA opinião, seja ela expressada como for. Viadutos, pontes, parques, monumentos, todos devem estar limpos e impecáveis. E você vai me perguntar: pô, Zuza, mas não era você que queria tudo grafitado? Sim, eu quero. Mas quem disse que todo mundo tem que querer, só porque eu acho bacana? Acho legal pra caralho carro na cor azul marinho, mas isso não quer dizer que eu queira que algum político obrigue todas as pessoas a terem um carro azul marinho.

Por outro lado, espaços privados poderiam sim servir de vitrine para os artistas de rua. E isso deveria, de certa forma, inclusive ser incentivado pela prefeitura, ao meu ver, através de reduções tributárias para esses casos. Já temos vários casos desses pela cidade, onde fachadas inteiras de prédios são grafitadas com autorização dos proprietários. É aqui que mora a chave da questão: autorização! Se o espaço é meu, eu posso autorizar fazer o que quiserem nele. Se eu sou a favor do pixo, ou do grafite, eu posso autorizar fazer o que quiserem na minha propriedade. E nisso o Estado não precisa sequer intervir.

Outro meio bastante bacana, ao meu ver, é a iniciativa do atual prefeito em estabelecer galerias / museus específicos para esse tipo de arte. Espaços reservados para os artistas exporem seus trabalhos, serem reconhecidos, ganharem dinheiro. Só espero que isso não fique apenas na vontade e realmente saia do papel.

Enfim, minha conclusão é que tudo deve ser baseado no respeito. Meu espaço, minhas regras.

Vamos falar sobre educação?

Publicado: 20 de janeiro de 2017 por Kzuza em educação
Tags:, ,

educacao_infantil2

Sempre fui um cara que, seguindo o senso comum, acreditava que a chave para o sucesso estava na educação. Uma nação bem educada era uma nação próspera. Com educação, todos estariam bem. Sem uma educação de qualidade, a nação estaria fadada ao fracasso, à criminalidade e toda a sorte de coisas ruins.

Eu era assim.

Tudo começou a mudar em uma palestra que assisti do Leandro Narloch. Ele colocou um ponto de vista no qual até então eu nunca havia pensado, nem sequer tido contato com algo parecido. Ele disse que não acreditava que educação trouxesse progresso, mas sim que o progresso trazia a educação. E exemplificou com um caso da época em que começou a trabalhar em uma revista aqui em São Paulo (acho que era a Superinteressante), e percebeu que suas chances de crescer profissionalmente eram pequenas porque ele não falava inglês. Então, resolveu ir atrás de aprender para poder se destacar. Ou seja, seguindo a lógica dele, as pessoas só buscam a educação por necessidade, não porque seja algo prazeroso.

Bem, mas um exemplo pessoal isolado e um ponto de vista único não seriam suficientes para me fazer mudar de ideia.


Recentemente, li o livro Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, do psiquiatra britânico Theodore Dalrymple (pseudônimo utilizado pelo senhor Anthony Daniels). Nele, o autor destrincha um pouco mais esse assunto e dá uma série de exemplos que corroboram o ponto de vista do Leandro Narloch.

Ele começa explicando a postura de Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico, que defendia o objetivo de ajudar todas as crianças da África a concluir pelo menos o ensino primário. Segundo o autor:

Na perspectiva dele (Gordon Brown), o baixo nível da educação na África inibe o crescimento econômico. A África é pobre porque as pessoas são ignorantes e iletradas. Acabe com a ignorância e ensine-as a ler, (…), e tudo ficará bem, ou pelo menos muito melhor.

Mas será mesmo? Haverá mesmo qualquer correlação na África entre os níveis de educação e as taxas de crescimento econômico? E, mesmo que exista essa correlação, será que podemos ter certeza de que foi a educação que causou o crescimento, e não o crescimento que causou a educação? Ou será que, na verdade, não houve relação causal nenhuma?

Então ele passa a alguns exemplos reais, vivenciados inclusive por ele. Cita o caso da Tanzânia, onde durante o governo de Julius Nyerere, um devoto da educação, o nível de alfabetização em seu país melhorou rapidamente, provavelmente chegando ao nível da Grã-Bretanha na época. Porém, essa melhoria não melhorou em nada o desenvolvimento econômico do país, que foi ficando cada vez mais pobre. Isso porque Nyerere destruiu a economia do país com políticas socialistas. Além disso, Dalrymple dá duas razões para que o alto nível de alfabetização não tenha melhorado a situação econômica do país: uma econômica, outra cultural, a saber:

O custo econômico de aumentar a alfabetização foi considerável e usou recursos escassos; isso teria sido uma coisa boa, do ponto de vista econômico, apenas se fosse um fato que um alto nível educacional automaticamente resultasse em desenvolvimento econômico. Do contrário, esse investimento em educação é economicamente nocivo, por ser um desperdício.

Um alto nível educacional foi economicamente nocivo também por razões culturais. Um dos legados do colonialismo, na Tanzânia como no resto da África, era que o estudo era visto pelas pessoas como o meio pelo qual se poderia entrar para o serviço público, o qual, mesmo que pagasse pouco a olhos europeus, oferecia os confortos e a segurança de um trabalho de escritório, quando a única alternativa era trabalhar a terra com o suor do próprio rosto e sem qualquer garantia de retorno. Era essa a principal e, muitas vezes, a única razão pela qual a educação era tão altamente valorizada.

Dessa forma, ele mostra que aumentar o número de pessoas com instrução pode ser um problema do ponto de vista econômico, pois significa que:

(…) um excedente econômico maior precisa ser extraído de uma base econômica menor, porque é preciso encontrar posições no governo para pessoas com instrução.

O autor também cita no livro problemas semelhantes fora da África. Segundo ele, as guerrilhas revolucionárias da América Latina foram resultado da expansão do ensino terciário (ou o que chamamos de ensino superior aqui no Brasil) para além da capacidade da economia de absorver seus produtos. Um exemplo é o grupo peruano Sendero Luminoso, iniciado no campus da Universidade de Ayacucho por um professor de filosofia. Outro caso interessante é descrito assim:

Na Grã-Bretanha, não por acidente, (…) a burocracia aumentou pari passu com a expansão da educação terciária, normalmente em assuntos sem valor profissional e muitas vezes de quase nenhum valor intelectual. Algo precisa ser feito com todos os formados para que eles não se transformem em profissionais frustrados. (…) o paradoxo, ou absurdo, de que o governo britânico pretenda mandar para a universidade 50% da população que está saindo da escola, ao mesmo tempo que 40% dessa mesma população mal consegue ler. Claro que alongar as carreiras educacionais e fazer as pessoas pagarem por elas é um modo de fazer com que jovens financiem seu próprio desemprego.

Observação desse cara aqui que vos escreve: qualquer semelhança com a expansão desenfreada do ensino superior no Brasil nos últimos governos é mera coincidência.

Dalrymple ainda dá os exemplos:

  • Guiné Equatorial, que apesar do alto nível de instrução da população na época da sua independência da Espanha, em 1968, e de um dos maiores níveis de riqueza per capita do continente, não esteve livre os abusos cometidos por Macías Nguema.
  • Congo, que ao se tornar independente da Bélgica em 1960, possuía apenas cerca de uma dúzia de pessoas com diploma universitário e que hoje, onde eles existem aos milhares, não se pode dizer que as coisas tenham melhorado.
  • Serra Leoa, apesar de um longo histórico de realização educacional, não fortalece a fé de ninguém no papel da educação como propulsora do desenvolvimento econômico.

No entanto, talvez o parágrafo mais importante de Dalrymple é:

Isso ignora o fato de que os regimes que demonstram entusiasmo para alfabetização também costumam demonstrar entusiasmo pela censura e por garantir que todos tenham as mesmas ideias, ou, ao menos, que as expressem. No mundo moderno, a alfabetização foi tanto o instrumento da ditadura quanto a liberdade.

É bem aqui que mora o problema, o qual eu volto a discutir em breve nesse texto.

O autor conclui que a educação não é condição suficiente para o desenvolvimento, mas talvez ela seja uma condição necessária. Ele dá os exemplos da Índia e da Irlanda, que investiram pesado em educação mas que, somente quando finalmente adotaram política econômicas que promoviam o crescimento, conseguiram tirar vantagem das pessoas altamente instruídas.

Em outras palavras, uma consideração das evidências sugere que uma população instruída não é nem necessária nem suficiente para o desenvolvimento econômico da África, ao menos nesse momento. O que é necessário é a oportunidade, acesso a mercados, e a educação, seja primária, secundária ou terciária, não substitui isso. É verdade que, num estágio posterior de desenvolvimento, uma população mais bem instruída e treinada se tornará necessária: mas não há razão para supor que uma sociedade em desenvolvimento não pode adaptar seu sistema educacional a suas necessidades. Nas circunstâncias africanas, uma população instruída deveria ser a consequência, não a causa do desenvolvimento.

Peço licença aqui para complementar o raciocínio do Sr. Dalrymple, estendendo suas colocações também ao nosso Brasil. Não acho isso nem um pouco insano, para falar a verdade. Acho que o autor só não colocou isso no texto porque não tem experiências aqui em nosso território.


Hoje também vi uma postagem super interessante sobre esse assunto, de autoria do jornalista Alexandre Garcia:

Por causa das matanças selvagens em prisões, ouço e leio todos os dias teorias de como combater as facções do tráfico de drogas. Construir prisões se contrapõe a esvaziar prisões; punir ainda mais traficantes se choca com aliviar a pena de pequenos traficantes; liberar a droga versus vigiar mais a fronteira; deixar que se matem nas prisões ou deixar que nos matem nas ruas – e por aí vai uma série de palpites que convergem para a suposta sensatez do politicamente correto que se resume numa frase bonita: “construir escolas para não precisar construir prisões”.

Muito lindo mas, esquecemos que as escolas já estavam construídas quando a droga se expandiu. E começou justamente nas escolas. Também a frase embute uma falácia: de que a escola é para dar educação. Não é. A escola é para ensinar. Educação, formação, é na família. Estão esquecendo que a responsabilidade pela formação é do pai e da mãe. E se as famílias estão desagregadas, então é preciso reconstruir a família, para não depender da construção de escolas ou de presídios. É preciso mostrar ao pai e a mãe que são os responsáveis pela educação dos filhos, pela formação da cidadania nas novas gerações. A escola ensina matemática, linguagem, ciências e até civismo. Mas o caráter da criança que está pronta a recusar a oferta de droga, vem de casa.

Parece fácil, mas não é. Agora mesmo leio nos jornais o estardalhaço que se faz porque a ANVISA liberou um remédio à base da Cannabis Sativa, no Brasil conhecida como maconha, palavra inventada pelos escravos que recebiam cânhamo para aplacar o cansaço, segundo deduzo. E nos títulos dos jornais, a palavra maconha aparece como remédio. Falam em “uso recreativo da droga”. É mentira. A maconha e as outras drogas piores destroem os neurônios e, pior ainda, destroem a vontade, transformando seres livres em escravos. Chama-me a atenção o marketing que tem a maconha na mídia. Por isso, é preciso uma luta constante dos pais, mostrando que a droga só tem lado ruim. A propaganda da droga fala em sensações. Ora, a melhor maneira de desfrutar qualquer momento da vida é estando consciente.

Aí vem outra questão que devem estar esquecendo deliberadamente, por medo. Só se fala em combater a ponta final da droga, o tráfico. É o final, quando não tem mais jeito. Pois tudo isso que se combate se alimenta, é financiado, pelo que não se combate publicamente: o consumo, na ponta inicial. O usuário é quem sustenta tudo isso. Ora, se a droga não vender, não tiver mercado, não haverá tráfico, porque não haverá consumo. E as consequências da droga nos consumidores são piores que as consequências entre os traficantes das diferentes facções, nas prisões. Nas prisões, pouco mais de uma centena foram decapitados. Nas famílias, nas escolas e nas ruas brasileiras, milhões já perderam a cabeça para a droga.

Li também outro dia alguém que dizia que a redução da impunidade, com punições mais severas, fazendo com que o crime não compensasse, levaria muito mais crianças e jovens às escolas do que qualquer outra medida. É polêmico, mas é algo para pensar.


Outro ponto importante nessa discussão, onde remeto ao parágrafo mais importante de Dalrymple, é que a maioria esmagadora das pessoas (sejam ela de direita ou de esquerda) concorda que o governo (seja ele qual for) está pouco preocupado com um povo “educado”. Para o governo, quanto mais ignorante a população, melhor. É mais fácil manipulá-la.

Isso é senso comum.

O que não me entra na cabeça é: se o governo não quer uma população “educada”, por que então as pessoas pedem para que esse mesmo governo invista em educação?


Minha conclusão: educação é a consequência, e não a causa, do progresso.

Não vejo indícios de que o aumento na qualidade do ensino, com mais escolas, professores bem remunerados, e seu fácil acesso pela população resultem em uma sociedade mais próspera. A melhoria na educação deve ser o nosso objetivo, e não o meio para se alcançar o desenvolvimento econômico.

Precisamos muito mais de combate à criminalidade, redução da impunidade, facilidades para criar e realizar negócios, redução drástica da burocracia e consequentemente do tamanho do Estado, simplificação do regime tributário e trabalhista, do que propriamente de um maior número de escolas e universidades. Isso será apenas a consequência.

E você, concorda?

É apenas uma questão de opinião?

Publicado: 13 de janeiro de 2017 por Kzuza em Política
Tags:, , ,

 

pesquisa_cientifica_3-jpg-554x318_q85_crop

Um casal de amigos veio jantar na minha casa. Perguntei a eles se gostariam de tomar um vinho, e eles aceitaram. Abri a garrafa, servi as taças, brindamos e cada um deu um gole. Minha amiga disse: Hum, esse vinho é bom! Eu disse na sequência: Olha, se é bom, eu não sei, mas eu gosto bastante!

Eu não entendo nada de vinho. Não sou capaz de diferenciar uma uva de outra (exceto Syrah, que não sei porque caralhas me deixa alterado já na segunda taça). Então, em meu universo particular, costumo categorizar os vinhos em apenas 2 grupos: os que eu gosto, e os que eu não gosto. Como meu paladar definitivamente não é o meu sentido mais aguçado, pode-se imaginar então que nem sempre o que eu gosto está associado com a boa qualidade do vinho.


A música de 2017, o hit do verão, que está fazendo balançar até as bundas peludas das mais feministas é o tal de “Meu pau te ama”. (Quem diria que até essa meninada de hoje, a geração “mimimi”, estaria tão empolgada e se divertindo com algo tão ridiculamente machista!). Parece-me que o vídeo original da música (e nem vou contar todas as versões das coreografias de famosos e outros não tão famosos assim) tem milhões de visualizações no Youtube. Pasmem, está cheio de gente que gosta! Mas isso também não quer dizer que a música seja de boa qualidade, e nem preciso ser especialista no assunto para dizer.


Um dos grandes sucessos do Netflix em 2016 foi a série “Stranger Things”. É uma espécie de terror adolescente, cheio de sustinhos, uma Winona Ryder magistral e 4 moleques e uma menininha que são os protagonistas da história (carismáticos que só eles!). A série é super bem produzida, cheia de computação gráfica, efeitos especiais, etc. e tal. Não há dúvida que é de excelente qualidade. Mas eu não gostei muito. E conheço vários amigos que também não gostaram, ou pelo menos não se empolgaram tanto quanto a crítica prometia.


Ludwig van Beethoven é talvez o maior compositor da história. Segundo a Wikipedia:

É considerado um dos pilares da música ocidental, pelo incontestável desenvolvimento, tanto da linguagem como do conteúdo musical demonstrado nas suas obras, permanecendo como um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos.

Agora me diga: quantas pessoas você conhece que de fato gostam de Beethoven?


Os 4 exemplos que dei na introdução desse texto ilustram um fato que muita gente desconsidera:

Nem sempre o que você gosta é de boa qualidade, e nem sempre o que é de boa qualidade você gosta.

Gosto pessoal muitas vezes não tem a ver com a qualidade. Ele depende muito de vários fatores, como sua criação, o local onde você cresceu, seu círculo de amizade, suas experiências sensoriais, entre outros.

Mas como então saber o que é e o que não é de boa qualidade?

Bem, hoje em dia há especialistas para tudo. Tem gente que dedica a vida toda a estudar determinado assunto. Enólogos, musicistas, críticos de arte… em todos esses grupos, há sempre expoentes que podem ser ouvidos e considerados. Veja, não estou dizendo que todo especialista é bom (e até isso tem grau de qualidade), mas estou certo de que cada ramo possui um especialista considerável.

É óbvio que a nossa opinião pessoal nem sempre irá ao encontro de tais especialistas. Um crítico de arte moderna pode considerar determinado quadro pintado por um grande pintor como uma obra-prima, e para mim aquilo pode não passar de um rabisco mal-feito.

Basicamente, quando se tratam de opiniões pessoais que se mantém dentro da esfera privada, o impacto social disso é muito pequeno (para não dizer nulo). Sim, dane-se a minha opinião sobre o vinho XPTO. Se eu não gostar dele, isso não vai fazer muita diferença. Dane-se se você não gosta de estrogonofe, mesmo que tenha sido feito com creme de leite fresco e filé mignon.

Mas há um problema nesse conceito. Quando isso passa para o aspecto das ideias, bem, aí sim o impacto pode ser desastroso.


Recentemente, tive uma conversa com um amigo meu sobre essa questão. Ele se dizia preocupado com um grupo do Facebook onde jovens adolescentes estão defendendo ideias conservadoras, de livre mercado e machistas de uma forma absurda.

Isso corrobora uma teoria minha:

O problema não são as ideias, mas os indivíduos imbecis.

Não, meu amigo não é um imbecil. Pelo contrário. Mas o que o espanta são justamente indivíduos imbecis, e talvez não justamente as ideias gerais do conservadorismo e do livre mercado. (Obs1: Aqui, excluo o machismo, que não há como defender de forma alguma racionalmente. Obs2: brincadeira minha, as ideias conservadoras e de livre mercado também não devem agradá-lo.).

Na verdade, aqui voltamos novamente aos exemplos lá do início do texto. Quando se tratam de ideias, o mesmo princípio se aplica: Não é porque eu gosto de A que A é necessariamente bom; e não é porque eu não gosto de B que B é necessariamente ruim. No entanto, aqui o impacto de não se conseguir identificar se A ou B são bons ou ruins pode ter consequências desastrosas. E essas consequências podem chegar a violência física contra os que não concordam com o seu gosto pessoal (ou à eleição de políticos que justamente defendem péssimas ideias para nos governar).

Mas por que há tantos imbecis?


Li um texto essa semana excelente sobre essa questão aplicada ao gerenciamento de projetos de desenvolvimento de software. Talvez a parte mais legal desse texto seja esse vídeo aqui ó:

Segundo Carl Jung:

Pessoas não possuem ideias; ideias possuem pessoas.

Aqui, cabe uma reflexão interessante sobre algo que tenho observado com uma frequência absurda nas redes sociais (e que com certeza reflete exatamente o mundo real em que vivemos): as pessoas se identificam com uma certa ideia e passam a se agarrar a elas como uma criança ao seu bicho de pelúcia predileto. Tente arrancar isso delas e terá como consequência muito choro, muita birra e muita malcriação. E mais que tudo: as pessoas têm tentado com frequência personalizar essas ideias em alguns “seres iluminados” que se tornam imaculados. Então, esses “seres iluminados” passam a ganhar um salvo indulto para dizer e fazer o que quiserem, e então serem glorificados por isso.

Tente discordar de algum absurdo que algum desses iluminados tenha dito e verá a fúria de seus seguidores. Discorde de um argumento de um deles e será tachado como adversário, como um ser repugnante, como um opositor, traidor das ideias.

Claro, estou generalizando aqui, e isso nem sempre é bom. É óbvio que nesse mar de gente estúpida há mentes iluminadas, abertas ao diálogo, ao confronto de pensamentos, à análise crítica das posições, e que não se deixam levar por falácias ad hominen.

Veja, estou sendo completamente imparcial aqui. Isso é válido para coxinhas e petralhas, para feministas e feminazzis, para abortistas e não abortistas. Enfim, não estou me atendo às ideias, mas sim aos imbecis existentes.


É claro para mim, no entanto, que nesse ponto há uma diferença muito grande entre as verdadeiras mentes pensantes dos dois lados da moeda (chame de direita e esquerda, se preferir). E nesse caso, vou me ater somente às verdadeiras mentes pensantes. Pessoas abertas ao diálogo, que entendem do assunto, que lêem bastante, dominam assuntos como filosofia, economia, política, etc. Não estou falando de mim, nem provavelmente de você que está lendo esse texto. Estou falando de gente realmente brilhante, e não de 99,99% das pessoas desses grupos de redes sociais que se propõem a debater esses assuntos.

A diferença nesse ponto reside na forma de apelo e defesa de suas ideias. Enquanto a direita se pauta no objetivismo, na razão e no empirismo, a esquerda baseia-se no subjetivismo, no sentimentalismo e no que Roger Scruton chama de “Falácia da Melhor das Hipóteses” (leia As Vantagens do Pessimismo: e o perigo da falsa esperança). Ou, melhor dizendo (já provocando), conforme assisti em um live feito pela Renata Barreto outro dia: uns tomam decisões baseados no que é bom, outros tomam decisões baseadas no que lhes faz bem.


Aliás, ainda sobre esse livro, no qual o autor explica por que uma dose considerável de pessimismo deve ser sempre levada em conta quando se há alguma decisão a ser analisada (ideia com a qual eu me identifiquei completamente), acredito que aí está o grande X da questão.

Quando as pessoas são dominadas pelas ideias, e elas se armam de um otimismo inescrupuloso, observamos exatamente toda essa sorte de imbecis vociferando besteiras por aí.

Se você não mantém sempre um pé atrás com as ideias nas quais você acredita, se não está sempre desconfiando das informações, investigando as fontes, analisando e pensando, você fatalmente está condenado a se tornar um desses imbecis.


Atualização: Achei que ficaram algumas coisas em aberto, então resolvi gravar esse vídeo para complementar.

Sobre feminicídio

Publicado: 9 de janeiro de 2017 por Kzuza em Comportamento, violência
Tags:, , ,

violencia-contra-mulher-eleicao

Relutei muito antes de escrever sobre assunto. Pesquisei bastante, conversei bastante, fiz algumas reflexões e, enfim, tomei coragem.

Como qualquer assunto polêmico, a abordagem racional sobre o mesmo desperta a fúria e a indignação da maioria das pessoas. Minha proposta aqui não é oferecer soluções para o problema da violência contra as mulheres, mas sim apresentar o meu ponto de vista sobre o quanto a visão extremamente sentimentalista da nossa sociedade e a ausência de foco e debate por parte das feministas radicais acaba prejudicando o combate aos assassinatos de mulheres.


Bem, primeiro vamos às definições. Talvez a definição mais simplista do termo feminicídio seja:

O assassinato de uma mulher por um homem, pelo simples fato dela ser mulher.

Encontrei uma mais completa, e definitivamente muito melhor, no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Violência Contra a Mulher, de 2013:

O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.

Em 2015, o feminicídio foi incluído no código penal como circunstância qualificadora do crime de homicídio, passando também a ser enquadrado como crime hediondo.


Com exceção a psicopatas e outras pessoas com problemas mentais graves, ninguém seria capaz de considerar o assassinato de uma mulher como algo não digno da mais completa repulsa e indignação.

Eu particularmente também considero esse tipo de crime hediondo. Sou contra a pena de morte (por motivos que não vou explicar aqui, mas talvez em um post futuro), mas é um tipo de caso que para mim é digno de prisão perpétua.

Mas a discussão aqui não é sobre isso.

Hoje, o código penal brasileiro já possui seus qualificadores para o crime de homicídio. Não sou especialista em leis, mas sei que um dos agravantes é justamente quando o crime é cometido por motivo torpe:

É o moralmente reprovável, demonstrativo de depravação espiritual do sujeito. Torpe é o motivo abjeto, desprezível. É, pois, o motivo repugnante, moral e socialmente repudiado. No dizer de Hungria, revela alta depravação espiritual do agente, profunda imoralidade, que deve ser severamente punida.

Exemplos desses motivos são: crimes por motivação racial, questão religiosa, orientação sexual da vítima, matar por herança, etc. Ou seja, um assassinato cometido por qualquer motivo de preconceito se enquadraria nesse qualificador.

Aqui, obviamente, há uma diferença a respeito do feminicídio. Primeiro, seguindo as próprias definições que coloquei lá no início do meu texto, esse tipo de assassinato de mulheres não se enquadra meramente em uma questão de preconceito. Segundo, um assassinato qualificado como motivo torpe não torna o crime hediondo (até onde eu saiba, mas aceito aqui comentários de advogados para me esclarecer).

Aparentemente, o código penal ainda não fazia diferenciação de um crime de acordo com o sexo da vítima ou do criminoso, o que faz todo o sentido.


A questão que fica, então, é a seguinte: por que então esse tipo de crime tão abjeto, repugnante e nojento é hediondo apenas quando cometido contra mulheres?


É aqui, amiguinhos, que começa a treta.

Vou criar um nome fictício: machocídio. É um novo termo que criei para definir esse tipo de crime:

O machocídio é a instância última de controle do homem pela mulher: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando o homem a um objeto, quando cometido por parceira ou ex-parceira; como subjugação da intimidade e da sexualidade do homem, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade do homem, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade do homem, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.

Acreditem, isso acontece (veja aqui, aqui, aqui e aqui alguns exemplos). Talvez um dos mais marcantes recentemente tenha sido o do empresário da Yoki, cometido por Elize Matsunaga.


Novamente, coloco uma citação minha: Com exceção a psicopatas e outras pessoas com problemas mentais graves, ninguém seria capaz de considerar o assassinato desses homens como algo não digno da mais completa repulsa e indignação.


Se você consegue se indignar de maneira igual frente a crimes de igual crueldade e motivação, independente do sexo do autor e da vítima, você já está um passo à frente de muita gente por aí. Você inclusive já deve ter entendido onde quero chegar.

Mas se você ainda acha que há diferença quanto à pena aplicada ao criminoso ou à celeridade na condução do processo de julgamento apenas porque a vítima é uma mulher, você tem altas possibilidades de fazer uso de um dos argumentos abaixo:

1. Mas as mulheres são muito mais vítimas de violência doméstica do que os homens!

Bem, realmente não estudei sobre esse assunto. Não pesquisei números, mas vou assumir, com bases em experiências pessoais e no que nos é divulgado por meios de comunicação que SIM, homens são frequentemente mais violentos em casa com suas mulheres do que o contrário.

Mas há uma falha enorme nesse argumento. ENORME!

Se você for considerar a gravidade de um crime pelas características físicas mais comuns de seus criminosos, a situação fica complicada. Imagine só que no Brasil, de acordo com o relatório do Departamento Penitenciário Nacional de 2014, 67% dos presos são negros. Você acharia razoável considerar um assassinato cometido por um negro mais grave do que se o mesmo houvesse sido cometido por um branco?

Então por que um crime passional cometido por um homem é mais grave do que um cometido por uma mulher? Provavelmente, o argumento a seguir vai lhe servir.

2. Mas os homens estão em posição física superior às mulheres!

Também ouvi bastante sobre isso. E aqui entra todo um conflito com o princípio da isonomia do direito.

É claro que, fisicamente, os homens em sua maioria são superiores às mulheres. São mais altos, mais fortes, falam mais alto, mais grosso, e possuem um poder de intimidação superior. Há suas exceções, claro (as lutadoras de MMA e judô e as jogadoras de basquete que o digam).

Mas, se formos pensar em um contexto geral de violência física e assassinatos, parece-me bastante comum que as vítimas estejam quase sempre em desvantagem física perante aos criminosos, não?

Se um ladrão magrelo e baixinho, trabalhado no crack, chega para assaltar um transeunte qualquer e dá um tiro no coitado, matando-o, isso não faz dele um criminoso melhor ou pior do que um outro alto e bombadão, fazendo a mesma merda.

3. Mas as mulheres não são levadas a sério quando denunciam abusos à polícia!

Há aqui alguns pontos a serem considerados.

O primeiro deles é que a nossa polícia é muito despreparada para qualquer tipo de situação. Pasmem! Eu sei que isso pode parecer novo para vocês, mas qualquer pessoa (e aqui incluo homens e mulheres) que vá uma delegacia registrar um boletim de ocorrência sobre ameaça, violência, furto ou roubo, raramente os casos são investigados ou acompanhados. Assim, precisamos obviamente cobrar uma efetividade maior da polícia em TODOS os casos, senão fica parecendo coisa de gente egoísta, querendo privilégios.

O segundo ponto é que, acreditem, mulheres possuem delegacias próprias para atendimento às mulheres! Homens sequer têm esse privilégio.

E o terceiro e mais importante: quando você defende e incentiva punições mais duras a um crime apenas por conta de quem o comete e não pela natureza do crime, você também incentiva um aumento no número de denúncias de prática do mesmo apenas observando quem o cometeu. O problema aqui está que, nessa situação, você também passa a ter um número maior de denúncias de crimes falsos. Ou seja, você passa a focar no possível criminoso, e não no possível crime.

Quando você passa a considerar qualquer coisa como feminicídio, você passa a considerar o feminicídio como qualquer coisa. Se tudo é feminicídio, nada é feminicídio.

(Você provavelmente vai entender essa minha última afirmação de acordo com as suas convicções próprias, e dificilmente a observará sob a luz da razão, eu sei. Eu considero a violência física, a intimidação e, principalmente, o assassinato de inocentes algo grave a ser combatido, independente de quem os cometa. Se para você isso é ser machista, misógino, fascista ou qualquer desses termos que você adora, o problema não é meu.)


Conclusão: é óbvio que crimes graves de homicídio devem ser severamente combatidos e exemplarmente punidos, sejam eles contra quem forem. No entanto, se você considera que há diferenciação nos crimes por qualquer aspecto que não a motivação e a crueldade dos mesmos, temos uma diferença grande de princípios morais.

Sim, homens coagem e matam mais suas esposas e namoradas por questões relativas aos seus relacionamentos (posse, ciúme, afirmação, objetificação, etc.) do que mulheres o fazem com seus maridos ou namorados. Porém, você não acha justo que ambos os casos sejam combatidos e punidos igualmente, mesmo assim?


Considerações finais:

1 – Acredito que a impunidade no Brasil é hoje um dos maiores problemas que temos.

2 – Considero a legislação penal brasileira extremamente branda.

3 – Não há homicídio justificado, a não ser em legítima defesa.

4 – Homens são mais violentos que as mulheres, no geral. Mas tentei centrar meu texto não na violência física, mas sim nos casos de homicídio.

5 – Menos de 10% dos homicídios no Brasil são solucionados. Ou seja, mais de 90% dos assassinos não são sequer identificados, quanto menos presos. Isso sim deveria deixar o povo de cabelo em pé!