Interesse próprio não é egoísmo

Publicado: 22 de abril de 2015 por Kzuza em Economia, liberalismo
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kardecLi um texto hoje de Gary Galles, para o Instituto Ludwig von Mises Brasil, com o título Individualismo e interesse próprio não são egoísmo.

Você deve ler o texto inteiro, mas para ajudar eu extraí alguns trechos que achei muito inteligentes:

Quando Madre Teresa, por exemplo, utilizou seu Prêmio Nobel para construir um hospital para leprosos, ela estava agindo de acordo com seu interesse próprio, pois tais recursos foram utilizados para efetuar algo com o qual ela se importava. Mas ela não agiu de maneira egoísta.

O que pouca gente entende é que os seres humanos são, em sua maioria, muito mais sensíveis às mazelas dos demais espontaneamente do que quando forçados a isso. O que quero dizer é que as pessoas se prontificam muito mais a ajudar as demais de forma espontânea do que quando são forçadas a isso por algum motivo.

[Adam Smith] conclui que “restringir nossas emoções egoístas e satisfazer as emoções benevolentes é o que constitui a perfeição da natureza humana.” Em outras palavras, nosso interesse individual inclui o aprofundamento da nossa natureza benevolente.

É basicamente o que disse Allan Kardec na citação incluída no início desse texto.

Os ataques vêm de pessoas que pensam que suas preferências subjetivas deveriam se sobrepor às preferências dos proprietários e da maneira como estes controlam suas propriedades.  Para essas pessoas, os proprietários e suas respectivas propriedades devem ser, por meio da coerção do estado, domados, subjugados e forçados a se adaptar a essa visão redistributivista do mundo.  A intenção desses pretensos reformadores é simplesmente impor, à força, suas preferências sobre terceiros.

Ao agirem assim, eles paradoxalmente não parecem perceber que tal comportamento é a exata definição da ganância que eles tanto criticam.

Essa é uma conclusão perfeita, mas que machuca muita gente. Não é nada fácil para muita gente aceitar isso.

Terceirização, medo e alienação

Publicado: 14 de abril de 2015 por Kzuza em Economia, liberalismo
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Estava aqui relutando em escrever a respeito da PL 4330/2004, que regulamenta a terceirização de atividades fim pelas empresas, mas hoje vi o post abaixo na minha timeline, escrito por um amigo meu:

celão

Não pude me conter. Vou ser obrigado a escrever sobre o assunto, embora o post acima já diga muita coisa do que penso.

Bem, em primeiro lugar, eu já escrevi aqui sobre a CLT e sobre por que eu sou a favor da flexibilização da mesma. Mesmo assim vou continuar dando a minha opinião.

O fato é que o Estado joga para o empresariado, para o capitalismo e para tudo o mais que estiver a seu alcance a responsabilidade por não resolver os problemas que ele mesmo cria. E aí o Estado apresenta-se como salvador dos problemas criados por ele mesmo, e muita gente cai nessa cilada. Só que, para solucionar esses entraves, o Estado exige então de você, cidadão comum, uma colaboração involuntária, seja através de votos que elegem políticos que dizem defendê-lo dos patrões (aqueles diabos que acabam com sua vida diariamente!), seja através de mais impostos diretos ou indiretos que você acabará pagando.

Em suma, há um pensamento quase homogêneo na nossa sociedade (embora eu não esteja nesse meio e conheça muitas pessoas que felizmente não pensem assim também) de que patrões são ruins por só pensar em aumentar seus lucroso Estado é a única entidade que pode nos salvar da opressão dos patrões.


Pausa para uma reflexão: outro dia a casa de repouso onde minha avó, com Alzheimer, está internalizada completou 2 anos de atividade. A dona da casa de repouso fez uma festa para comemorar, e fez questão de reunir todos os funcionários. Minha mãe achou bacana o fato da dona e sua família terem tirado foto com todos os funcionários, pois segundo ela a clínica só funciona graças a eles. E completou: é uma relação de cumplicidade; a clínica depende dos funcionários, e os funcionários dependem da clínica para viverem.


Enfim, eu acho perfeitamente compreensível que os patrões pensem sempre em aumentar seus lucros. Eu mesmo faço isso também, embora não seja patrão, e também não conheço um único cara que não pense o mesmo. A diferença, na verdade, entre todos nós, é a forma como procuramos fazer isso. Há alguns que preferem roubar. Outros preferem explorar outras pessoas, usando para isso a força. Tem gente que prefere trabalhar mais, fazendo horas-extras no trabalho ou um “bico” por fora. Há até quem troque de turno de trabalho para receber um “adicional noturno”. Enfim, há diversas maneiras, algumas morais, outras imorais. O fato é que TODOS nós desejamos ganhar mais dinheiro.

O problema maior é que temos uma cultura que cultua o “mais por menos”. Queremos sempre mais, fazendo cada vez menos. Nem todo mundo está disposto a abrir mão de algumas coisas hoje (direitos, tempo, dinheiro, etc.) para colher frutos futuros. Não temos a cultura do investidor. O brasileiro é um povo que cultua o agora, o momento, e pouco se preocupa com o futuro. Olhe ao seu redor e comprove o que estou falando.

Dessa maneira, qualquer coisa que modifique o status quo é imediatamente apontada como ameaça. Mas será mesmo que a terceirização é uma ameaça, como tenta induzir esse artigo aqui, da Carta Capital? Dos 9 motivos apresentados, 5 deles possuem os verbos “dever” ou “poder”, indicando uma suposição.

Eu prefiro ter uma outra leitura, como esse artigo aqui. Acho que reflete um pouco melhor a realidade da coisa. Tem um outro aqui também bem bacana, para você ler um ponto de vista diferente.

O fato é que pouca gente entende que a relação do patrão forte versus empregado fraco só ocorre justamente porque nossa economia é extremamente fraca e pouco diversa. Temos uma indústria cada dia mais fraca e ultrapassada, com empregados cada vez menos produtivos e menos competitivos. Não há incentivo ao empreendedorismo no país. O governo sufoca o empresariado que, por sua vez, sufoca os empregados. Alta carga tributária, burocratização exagerada, infraestrutura fraca, entre outros, são fatores que cada vez mais suprimem nosso crescimento. E qual o resultado disso? A corda sempre arrebenta do lado mais fraco, o lado do trabalhador.

Há um texto bem curtinho aqui que mostra exatamente isso. Sem prosperidade, ninguém ganha.

Mas ainda querem te convencer que o cara mau da situação é o empregador, e não o governo. E muita gente cai nessa falácia.

Agora imaginem um lugar próspero, onde a livre iniciativa predomina, onde o emprego é abundante e a diversidade econômica é grande. Você acha que nesse lugar, o poder do empregado é maior ou menor do que aqui no Brasil, por exemplo? Você acha que patrões não irão querer pagar melhor seus bons funcionários, com medo de perdê-los para os concorrentes? Você acha que empresas que oferecem melhores condições de trabalho não irão atrair os melhores profissionais para trabalharem para ela? Você não acha que haverá, dessa forma, mais incentivo ao empresariado para reter seus talentos e remunerá-los melhor?

Aqui no Brasil hoje em dia esses incentivos são baixíssimos. Isso porque os patrões sabem que o emprego é raro. Sabem que uma pessoa tem medo de ficar desempregada e então faz qualquer coisa para ficar no trabalho, mesmo em condições ruins, mesmo com salários baixos. Sabem que a concorrência não é vasta o suficiente para “roubar” seus melhores profissionais e levá-los para trabalhar com ela. E isso não é culpa do empresariado, é apenas uma situação cômoda da qual eles se aproveitam, contando para isso ainda com o apoio do governo.

O problema do Brasil é esperar direitos antes de ter deveres. É esperar benefícios antes de fazer por merecer. É esperar um crescimento econômico sem antes se esforçar. É priorizar o fim e não os meios. É querer retorno sem fazer investimento.

Lutar por mais direitos trabalhistas em um país com uma pífia estrutura governamental, com péssima educação e o pior sistema tributário do mundo, é continuar dando tiro no próprio pé.

Meritocracia, moralidade e inveja

Publicado: 10 de abril de 2015 por Kzuza em Comportamento
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escada

A charge acima foi “likeada” por vários amigos meus na última semana no Facebook. Achei inteligentíssima! Mostra que crianças de famílias abastadas têm muito mais facilidade para subir os degraus de uma escada, que simboliza a vida, do que crianças de famílias mais pobres.

Mas a charge também é perigosa em alguns aspectos.

Vi muita gente usando a charge para criticar a meritocracia. Aliás, a própria meritocracia é um assunto perigoso. Cada um interpreta o uso do termo da maneira como lhe convém, de acordo com o seu viés político. Mas pouca gente realmente pensa nos fatores que levam alguém ao sucesso ou ao fracasso na vida. Li um texto muito interessante a respeito disso. O autor diz:

O que realmente determina a remuneração no mercado não é o mérito, não é a virtude, não é o esforço ou a dedicação. É apenas a criação de valor; o valor que aquela pessoa consegue adicionar à vida dos demais.

Não importa se é por esforço, inteligência, sorte, talento natural, herança; quanto mais imprescindível ela for aos outros, mais os outros estarão dispostos a servi-la.

Enfim, esclarecido isso, esse é o primeiro passo para entendermos que não é somente o esforço e dedicação que fazem alguém alcançar o sucesso.


Nota do Zuza: é importante deixar claro que o conceito de sucesso na vida é subjetivo. Você pode acreditar que alguém alcançou o sucesso por ter fama, uma boa grana e uma mulher bonita. Já do ponto de vista do sujeito, ele pode achar que não tem tudo o que deseja, como por exemplo, uma boa saúde. Tentar medir o sucesso de outra pessoa somente de acordo com o valor que você dá para as coisas (seja dinheiro, família, saúde, viagens, mulheres, etc.) é um julgamento premeditado, podendo incorrer em inveja na maioria das vezes.


Mas continuo achando claro que o caminho a ser percorrido rumo ao sucesso pessoal é mesmo mais fácil para os mais abastados. Eu sou de uma família pobre, sem posses. Comecei a trabalhar cedo para poder ter minhas coisas. Eu reconheço que não era tão inteligente, muito menos tão esforçado, a ponto de conseguir ingressar em uma universidade pública, então tive que suar para conseguir pagar minha própria faculdade particular, pois meu pai não tinha condições de fazer isso. Ralei, trabalhei bastante, consegui me formar e desenvolver minha carreira profissional.

Agora vamos pegar o que aconteceu antes disso.

Meu avô era mineiro de Raul Soares, e minha avó é de Mococa, no interior de São Paulo. Casaram-se e vieram para Carapicuíba. Meu avô trabalhou a vida inteira como um condenado, era motorista. Criaram os 4 filhos com muito trabalho. Meu pai, o mais velho, só foi fazer uma faculdade com mais de 50 anos. Trabalhou com afinco (e ainda trabalha até hoje) para criar eu e minha irmã, graças a Deus (e ao trabalho) em condições melhores das que teve na sua infância.

Hoje, portanto, acredito que eu tenha condições de criar um filho em condições financeiras muito melhores que meu pai me criou, assim como ele me criou em condições muito melhores das quais ele foi criado. Hoje, se eu tivesse um filho, ele possivelmente seria o que sobe a escada com degraus menores na charge do início do texto. No entanto, isso não quer dizer necessariamente que ele teria sucesso na vida.

A pergunta que eu faço é: quantas pessoas, ao longo dessa minha curta história familiar retratada, foram prejudicadas e empobreceram para que eu pudesse chegar onde estou? Meu avô, por exemplo, dedicou sua vida inteira a ajudar os pobres através da Sociedade de São Vicente de Paulo. Digo, cheio de orgulho, que foi o cara mais bondoso que conheci na minha vida. Mas tenho certeza de que o seu desejo de fazer o bem ao próximo só se tornou realidade graças ao seu trabalho e às suas condições de vida. Ele só pode ajudar os pobres por não ter se tornado um deles. E o principal: ninguém o obrigou a isso.

Mas onde eu quero chegar com isso?

Para muita gente que eu conheço, é justo forçar os que possuem melhores condições de vida a ajudarem os demais. Como se não houvessem pessoas boas suficientes no mundo. Como se fosse imoral alguém enriquecer. Como se fosse impossível alguém enriquecer sem prejudicar alguém. Como se os filhos de um pai que trabalhou honestamente sua vida toda não tivesse direito de usufruir desses frutos.

Eu me pergunto: qual o seu objetivo de vida? Você trabalha para que?

Diria que a maioria esmagadora das pessoas responderia na primeira pergunta: constituir uma boa família. E também responderia na segunda: para dar boas condições de vida para minha família. Esses são os principais objetivos da maioria de nós (a menos que eu esteja completamente enganado). Todo o resto é consequência disso, inclusive as boas ações que fazemos para os outros.

Portanto, aconselho a todos a não nutrirem esse sentimento de inveja que muitas vezes temos por aqueles aos quais julgamos “mais bem sucedidos”. Espelhem-se neles. Eles são os que podem ajudar os demais, mesmo sem serem forçados a isso. O mundo não é 100% bom, mas também não é 100% ruim. Porém, tenho certeza que existem muito mais pessoas dispostas a ajudar os demais nesse mundo do que os seres egoístas que você pinta por aí. Não julgue imoral que famílias consigam enriquecer através de trabalho honesto e oferecer aos seus filhos melhores condições de vida. É justamente isso que você mesmo quer para si.

maioridade

Vi a charge acima em algum lugar por aí e resolvi que já era hora de me posicionar a respeito do projeto de redução da maioridade penal que tramita pelo Congresso Nacional.

Em primeiro lugar, devemos destacar a questão da constitucionalidade do projeto. A discussão jurídica acerca do mesmo é imensa, e eu infelizmente não tenho capacidade técnica de dizer se a mesma enquadra-se ou não na Constituição Federal. Já ouvi argumento de ambos os lados, mas ninguém conseguiu me convencer nem de uma, nem de outra coisa.

Sendo assim, vou partir do pressuposto que a mudança é constitucional, para poder expor qualquer argumento. Caso contrário, se eu presumisse que era inconstitucional, nada do que eu dissesse faria sentido.

É necessário, antes de expor a minha opinião, desmistificar uma série de argumentos que vêm sendo utilizados por aí e que não fazem o mínimo sentido. E pior: são desonestos.

1 – A redução da maioridade penal só vai prejudicar negros e pobres

Definitivamente, não. A redução só vai prejudicar criminosos que tenham mais de 16 anos. Negros e pobres, ou quaisquer outros cidadãos, que sejam pessoas de bem, não serão presos indiscriminadamente somente pelo fato de terem mais de 16 anos.

O que de fato prejudica negros e pobres é um governo mais preocupado com seu enriquecimento próprio do que com as necessidades básicas de vida desses cidadãos.

2 – As penitenciárias não servem para reformar ninguém; são escolas do crime!

OK, se isso então for verdade, vamos também parar de prender estupradores, assassinos e traficantes maiores de idade, porque eles também não têm solução mediante a um sistema penitenciário tão arcaico.

3 – Crianças não são criminosas

Não, de fato não são. Mais uma vez, ninguém sairá prendendo e condenando crianças por aí pelo simples fato delas serem…. CRIANÇAS! (Duvido muito que você considere, de fato, um jovem de 16 anos como criança.)

4 – Se o adolescente pode responder criminalmente por um ato, também pode dirigir, beber, viajar para o exterior sem os pais, etc.

Acho que estamos falando de coisas diferentes, não? Mas enfim, eu explico melhor. Responsabilidades nem sempre implicam em direitos adquiridos em contrapartida. Estamos tratando somente do problema da violência e da criminalidade nesse caso.

5 – A redução da maioridade não vai diminuir a criminalidade

Muito provavelmente, sozinha, não mesmo. Mas ela ajudará a inibir a violência. A existência de uma lei que prevê penas para quem mata uma pessoa não faz com que não existam assassinatos, mas inibe que tais crimes sejam cometidos à reveria por aí. O mesmo se aplica à leis de trânsito, por exemplo.


Para mim é muito claro que o projeto que prevê a redução da maioridade penal para 16 anos, por si só, não irá acabar com a criminalidade. Porém, também é claro que é uma das medidas válidas para que o objetivo final seja cumprido. Em conjunto, uma série de reformas no âmbito educacional, da justiça e do sistema penitenciário se fazem extremamente necessárias, em adição ao projeto. Enfim, muita coisa sim precisa ser feita ainda, mas isso não faz com que a redução da maioridade penal não seja vista com bons olhos. Punir responsáveis por crimes é apenas uma de todas as ações que eu e você, como cidadãos de bem, devemos exigir na nossa sociedade.

Favela e Liberalismo

Publicado: 6 de abril de 2015 por Kzuza em liberalismo
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favelaLi um texto semana passada que diz muito sobre a realidade da pobreza no nosso país. O texto é de João César de Melo. Eu já coloquei alguns textos dele aqui. Extraí as partes principais para que vocês possam apreciar, caso não queiram ler o artigo inteiro.

Ele comenta sobre o livro “Um país chamado favela”, escrito por Renato Meirelles e Celso Athayde. Vejamos algumas constatações:

Resumidamente, para 96% dos moradores das 63 favelas pesquisadas, não foram políticas públicas as responsáveis pela melhoria da qualidade de vida. Para 14%, a família foi a causa, para 40% foi Deus o responsável e para 42% a melhoria de suas vidas foi obra tão somente de seus próprios esforços, ou seja, aquilo que os liberais gritam todos os dias — a potência do indivíduo!

Ou seja, os verdadeiros beneficiários das tais políticas sociais sequer percebem o esforço do Estado para com eles. Os próprios autores do livro reconhecem:

Os jovens, em particular, são filhos e netos daqueles cidadãos abandonados e maltratados pelo Estado. Criados a partir dessa memória familiar recente, não enxergam o governo, qualquer que seja, como provedor de bem-estar. Não raro treinados em modelos espartanos de sobrevivência, convertem-se em homens e mulheres particularmente resilientes que aprendem, enfrentam preconceitos e fazem acontecer.

Outra constatação importante do autor do artigo é:

Darei um ajuda: oferecer seu tempo, seu trabalho, seu dinheiro ou apenas seu interesse aos pobres não faz uma pessoa socialista. Uma pessoa se torna socialista quando ela passa a cobrar que o Estado obrigue outras pessoas a fazer caridade, exigindo que os mais ricos, apenas por serem mais ricos, devam aceitar que o governo lhe tome dinheiro para supostamente dar aos pobres apenas por estes serem pobres.

Essa é uma lição que muita gente ainda não aprendeu. Li em algum lugar outro dia uma frase mais ou menos assim: Socialista é aquele que adora fazer planos para gastar o dinheiro dos outros.

A trajetória “social” de Athayde, relatada por Renato, culmina na criação da Favela Holding, iniciativa responsável pela criação de um shopping center dentro do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, empreendimento de R$ 22 milhões.

Os autores desconhecessem que isso se chama iniciativa privada e voluntária, o pilar do liberalismo. Ignoram que qualquer iniciativa desse tipo, se fosse empenhada pelo estado, custaria 10 vezes mais e ofereceria serviços ruins. Ignoram que o sucesso de empreendimentos como os citados no livro se deve principalmente por serem iniciativas de pessoas comuns e que, por isso, têm mais condições de saber o que pessoas comuns precisam — o que o estado nunca conseguirá saber.

Isso também é brilhante. É extremamente difícil para as pessoas reconhecerem isso e eu realmente não consigo entender o porquê. Ou é uma ingenuidade gigante, ou é mera desonestidade intelectual.

Reconhecendo o potencial das favelas — a despeito da ausência do estado —, os autores chegam a escrever: “Ali, portanto, por necessidade e vocação, funcionam alguns dos melhores laboratórios do país em termos de prática empreendedora”. Quando um liberal fala isso, ele é tachado de maluco — “Impossível um favelado se erguer sozinho!”, gritam os socialistas —, porém, quando são os próprios socialistas que atestam essa realidade, a pobreza deixa de ser vista como uma condenação e passa a ser vista como uma situação reversível a partir do conjunto de esforços individuais.

Muita gente ainda tenta desmerecer os pobres, e eu não vejo outro motivo para isso senão mantê-los para sempre nessa situação e aproveitar-se disso.

O erro, contudo, está na insistência dos socialistas em pregar que o estado deveria ajudar os esforços individuais. Não, não deveria. Todas as vezes que o estado estende sua mão, ele retira do indivíduo a necessidade de ser forte e criativo, empurrando-o na direção da dependência e da subserviência. Qualquer ação de caridade deve vir de indivíduos, nunca do estado.

Apenas pessoas (espontaneamente associadas entre si ou não) têm condições de avaliar a necessidade e o merecimento de outras pessoas e de acompanhar os desdobramentos de cada ação. O estado não tem esta condição.

Embora o argumento seja bem ancap, ele está extremamente correto.

Vale ressaltar também que um favelado só tem o poder de escolher o que consumir porque existe uma complexa rede de interesses individuais que sustentam incontáveis empresas que brigam entre si pela preferência até dos mais pobres.

Sem perceber, os autores reconhecem que, enquanto a “benevolência” do estado não chega a esse grupo de pagadores de impostos, os favelados, o “capitalismo opressor” sobe o morro com suas farmácias, supermercados, serviços de internet e de TV a cabo, lojas de eletrodomésticos, de computadores, de celulares e de material de construção.

Sim, claro! Tudo o que o Estado se propõe a fornecer, muitas vezes através de um monopólio (energia, rede de esgoto, água, etc.), acaba não chegando a todos por pura ineficiência estatal. Isso é claro. Serviços providos pela iniciativa privada sempre chegam a todos. Imaginem se o governo se propusesse a monopolizar o fornecimento de alimentos à toda população. Eu pergunto: você acha que teria comida para todo mundo?

A infelicidade do livro é a insistente interpretação ideológica da realidade — a capacidade dos indivíduos de se levantarem por si mesmos —, tentando nos fazer crer que a favela precisa de estado, muito estado, estado em tudo; e que essas comunidades devem ser protegidas, vejam só, dos interesses dos capitalistas.

O autor do texto só falta concluir com: CQD.

Olavo tinha razão – Parte 4

Publicado: 30 de março de 2015 por Kzuza em Política
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capa-do-livro-olavoContinuando com algumas pérolas do livro:

Já o poder, como bem viu Nietzsche, não é nada se não é mais poder. Isto é a coisa mais óbvia do mundo: por mais mediada que esteja pelas relações sociais, a riqueza é, em última instância, domínio sobre as coisas. O poder é domínio sobre os homens. Um rico não se torna pobre quando seus vizinhos também enriquecem, mas um poder que seja igualado por outros poderes se anula automaticamente. A riqueza desenvolve-se por acréscimo de bens, ao passo que o poder, em essência, não aumenta pela ampliação de seus meios, e sim pela supressão dos meios de ação dos outros homens. Para instaurar um Estado policial não é preciso dar mais armas à Polícia: basta tirá-las dos cidadãos. O ditador não se torna ditador por se arrogar novos direitos, mas por suprimir os velhos direitos do povo.

Do artigo Dinheiro e Poder, publicado no Jornal da Tarde em 16 de Setembro de 1999 (bem nos meus 18 aninhos).


[…] o fato é este: uma linha de sucessão perfeitamente nítida vem das heresias medievais aos revolucionários de 1789, a Marx, a Sorel, a Gramsci e a todos os seus sucessores na missão auto-atribuída de “transformar o mundo”.

Ao longo dessa linha, a crença na própria impecância essencial, derivada da certeza de união íntima a Deus, ao sentido da História, aos ideais eternos de justiça e liberdade ou a qualquer outra autoridade legitimadora transcendente — pois esta varia conforme a moda cultural, sem mudar de função — é que lhes infunde, geração após geração, um sentimento perfeitamente sincero de honradez e santidade no instante mesmo em que mergulham no mais fundo da abominação e do crime.

Não se trata de vulgar hipocrisia, mas de uma efetiva ruptura da consciência, que, elevando a alturas inatingivelmente divinas as virtudes da sociedade futura que o indivíduo acredita representar desde já, o torna “ipso facto” incapaz de julgar suas próprias ações à luz da moralidade comum, ao mesmo tempo que o investe, a seus próprios olhos, da máxima autoridade moral para condenar os pecados do mundo. Eis como as mais baixas condutas podem coincidir com as mais altas alegações de nobreza e santidade.

Do artigo O Único Mal Absoluto, publicado em O Globo, em 9 de Fevereiro de 2002.


Malgrado o fato de que ao longo da nossa História o crescimento da corrupção acompanhasse a curva ascendente da participação popular na política, continuou-se a proclamar como um dogma inquestionável o refrão de que “o mau exemplo vem de cima” e a não ver mal algum na presença maciça de semi-analfabetos e mocorongos em postos de responsabilidade.

Ao contrário, tornou-se hábito e até obrigação moral admitir que pessoas de origem humilde, ao ascender aos primeiros escalões do poder, continuassem a cultivar, ao menos em público, uma auto-imagem de pobres e oprimidos, como se seus salários de deputados ou governadores não bastassem para custear sua educação e libertá-los de sua miséria cultural originária.

Eu, que, neto de lavadeira e filho de operária, julguei ter o dever de estudar para defender a honra da minha classe humilhada — e que ao assim proceder não fiz senão seguir os passos de um Machado, de um Cruz e Souza, de um Lima Barreto e de tantos outros que na minha ingenuidade supus exemplares –, passei a me sentir, no novo ambiente, um anormal. A moda agora era o sujeito vir da ignorância e, subindo, permanecer nela, cultivá-la e atirá-la ao rosto da sociedade, com o orgulho masoquista da vítima que exibe suas chagas para atormentar o culpado. Mas todo exibicionismo forçado tem limites. O orgulho da ignorância é tão hipócrita que, na mesma medida em que se exibe, procura ocultar-se.

Do artigo Frases e Vidas, publicado no Zero Hora, em 25 de Março de 2001. O negrito é por minha conta.


Se por lei é proibido distinguir, na fala e no tratamento, entre uma mulher e um homem vestido de mulher, ou entre a voz feminina e a sua imitação masculina, se a simples associação da cor preta com o temor da noite é alusão racista, se o simples fato de designar uma espécie animal pelo seu exemplar masculino é um ato de opressão machista, todas as demais distinções espontâneas, naturais, auto-evidentes, arraigadas no fundo do subconsciente humano pela natureza das coisas e por uma experiência arquimilenar, tornam-se automaticamente suspeitas e devem ser refreadas até prova suficiente de que não infringem nenhum código, não ofendem nenhum grupo de interesses, não magoam nenhuma suscetibilidade protegida pelo Estado.

Quantas mais condutas pessoais são regradas pela burocracia legisferante, mais complexa e dificultosa se torna a percepção humana, até que todas as intuições instantâneas se vejam paralisadas por uma escrupulosidade mórbida e estupidificante, e o temor das convenções arbitrárias suprima, junto com as reações espontâneas, todo sentimento moral genuíno.

Do artigo É proibido perceber, publicado no Diário do Comércio, em 19 de Setembro de 2011.


O primeiro passo para a institucionalização do gangsterismo estatal neste país foi a destruição da moral tradicional e sua substituição pelo aglomerado turvo de slogans e casuísmos politicamente corretos que, por vazios e amoldáveis às conveniências táticas do momento, só servem mesmo é para concentrar o poder nas mãos dos mais cínicos e despudorados.

Quando as noções simples de veracidade, honestidade e sinceridade são neutralizadas como meras construções ideológicas e em lugar delas se consagram fetiches verbais hipnóticos como “justiça social”, “inclusão”, “diversidade”, que mais se pode esperar senão a confusão geral das consciências e a ascensão irrefreável da vigarice?

Do artigo Aguardem o Pior, publicado no Jornal do Brasil, em 6 de Maio de 2006.


O brasileiro em geral, mesmo culto, não capta as exigências específicas do domínio moral, intelectual e religioso: decide as questões mais graves do destino humano pelo mesmo critério de atração e repulsa imediatos com que julga a qualidade da pinga ou avalia o perfil dos bumbuns na praia. Daí sua tendência incoercível de tomar a simpatia pessoal, a identidade de gostos ou a adequação às preferências da moda na classe artística como sinais infalíveis de alta qualificação moral.

Em A Fossa de Babel, publicado no Diário do Comércio, em 12 de Junho de 2006.


Quando Cristo disse: “Na verdade amais o que deveríeis odiar, e odiais o que deveríeis amar”, Ele ensinou da maneira mais explícita que os sentimentos não são guias confiáveis da conduta humana: antes de podermos usá-los como indicadores do certo e do errado, temos de lhes ensinar o que é certo e errado. Os sentimentos só valem quando subordinados à razão e ao espírito.

Razão não é só pensamento lógico: reduzi-la a isso é uma idolatria dos meios acima dos fins, que termina num fetichismo macabro. Razão é o senso da unidade do real, que se traduz na busca da coesão entre experiência e memória, percepções e pensamentos, atos e palavras etc. A capacidade lógica é uma expressão parcial e limitada desse senso. Também são expressões dele o senso estético e o senso ético: o primeiro anseia pela unidade das formas sensíveis, o segundo pela unidade entre saber e agir. Tudo isso é razão.

Em Jesus e a pomba de Stalin, em O Globo de 20 de Outubro de 2001.


Para desgraçar de vez este país, a esquerda triunfante não precisa nem instaurar aqui um regime cubano. Basta-lhe fazer o que já fez: reduzir milhões de jovens brasileiros a uma apatetada boçalidade, a um analfabetismo funcional no qual as palavras que lêem repercutem em seus cérebros como estimulações pavlovianas, despertando reações emocionais à sua simples audição, de modo direto e sem passar pela referência à realidade externa.

Há quatro décadas a tropa de choque acantonada nas escolas programa esses meninos para ler e raciocinar como cães que salivam ou rosnam ante meros signos, pela repercussão imediata dos sons na memória afetiva, sem a menor capacidade ou interesse de saber se correspondem a alguma coisa no mundo.

Um deles ouve, por exemplo, a palavra “virtude”. Pouco importa o contexto. Instantaneamente produz-se em sua rede neuronal a cadeia associativa: virtude-moral-catolicismo-conservadorismo-repressão-ditadura-racismo-genocídio. E o bicho já sai gritando: É a direita! Mata! Esfola! “Al paredón!”

De maneira oposta e complementar, se ouve a palavra “social”, começa a salivar de gozo, arrastado pelo atrativo mágico das imagens: social-socialismo-justiça-igualdade-liberdade-sexo-e-cocaína-de-graça-oba!

Em O Futuro da Boçalidade, publicado nO Globo de 2 de Dezembro de 2000.


Para os negros, as mulheres, os gays e os membros de “minorias” em geral, o establishment usa uma outra receita corruptora, simetricamente inversa. Lisonjeia-os até enlouquecê-los por completo. Infla seus egos até à divinização. Ensina-os a achar que são credores do universo, que o simples fato de dirigirem a palavra a um branco adulto é um ato de generosidade imperial. O fato de que negros e asiáticos, aqueles vindos nas tropas muçulmanas, estes nas hordas bárbaras, tenham atacado e escravizado milhões de europeus séculos antes de que o primeiro português desembarcasse na África é suprimido da História como se jamais tivesse acontecido. O branco – e, por ironia, especialmente o americano, dos povos ocidentais o que escravizou menos gente e por menos tempo – é definido como escravagista por natureza, o escravagista eterno, herdeiro de Caim, só digno de viver por uma especial concessão da ONU.

Em Educando para a boiolice, no Diário do Comércio de 23 de Abril de 2007.


A inveja é o mais dissimulado dos sentimentos humanos, não só por ser o mais desprezível mas porque se compõe, em essência, de um conflito insolúvel entre a aversão a si mesmo e o anseio de autovalorização, de tal modo que a alma, dividida, fala para fora com a voz do orgulho e para dentro com a do desprezo, não logrando jamais aquela unidade de intenção e de tom que evidencia a sinceridade.

[…]

O homem torna-se invejoso quando desiste intimamente dos bens que cobiçava, por acreditar, em segredo, que não os merece. O que lhe dói não é a falta dos bens, mas do mérito. Daí sua compulsão de depreciar esses bens, de destruí-los ou de substituí-los por simulacros miseráveis, fingindo julgá-los mais valiosos que os originais. É precisamente nas dissimulações que a inveja se revela da maneira mais clara.

As formas de dissimulação são muitas, mas a inveja essencial, primordial, tem por objeto os bens espirituais, porque são mais abstratos e impalpáveis, mais aptos a despertar no invejoso aquele sentimento de exclusão irremediável que faz dele, em vida, um condenado do inferno. Riqueza material e poder mundano nunca são tão distantes, tão incompreensíveis, quanto a amizade de Abel com Deus, que leva Caim ao desespero, ou o misterioso dom do gênio criador, que humilha as inteligências medíocres mesmo quando bem sucedidas social e economicamente. Por trás da inveja vulgar há sempre inveja espiritual.

Em A Dialética da Inveja, na Folha de São Paulo de 26 de Agosto de 2003.

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Hernando de Soto é um economista peruano e conselheiro de diversos chefes de estado. Em seu livro “O Mistério do Capital”, ele explica a importância da propriedade privada para o sucesso das nações. Ainda não encontrei o livro para comprar aqui no Brasil, mas li muito sobre ele pela internet.

O melhor artigo que li a respeito foi do Rodrigo Constantino, o qual você pode ler aqui.

Uma das citações importantes:

As dificuldades que o Terceiro Mundo encontra hoje para integrar seus setores ilegais à formalidade são similares ao que viveu o Ocidente no século XIX. É crucial para se construir esta ponte que as elites e os governos compreendam que as leis devem ser criadas de baixo para cima, ou seja, precisam atender às realidades do povo. Não adianta colocar em papel coisas que ninguém irá seguir. A grande maioria das pessoas prefere seguir na legalidade, mas estará sempre comparando as vantagens e desvantagens disso. Quando os custos de permanecer na legalidade ultrapassarem os benefícios, um novo contrato social será estabelecido naturalmente em diversas localidades, fugindo assim das regras estabelecidas.

Outra, que eu gostei bastante e que explica também como a humanidade evoluiu tanto no último século:

Outro exemplo que mostra o abismo existente entre o Terceiro Mundo e mundo civilizado está na propriedade intelectual. No Brasil, praticamente não existem pesquisas sérias que tragam significativos avanços tecnológicos. Isso ocorre pois não há uma regra clara e confiável para as patentes, para proteger os direitos de propriedade intelectual. O Brasil é mestre na direção contrária, de quebra de patentes, e ainda se orgulha disso. Já nos Estados Unidos, se respeita tal direito, e isso incentiva o ramo de pesquisas. Da mesma forma que o direito à propriedade física é crucial para a criação de capital num país, a preservação da propriedade intelectual é condição sine qua non para o avanço tecnológico. Imaginem se Bill Gates vivesse no Brasil: será que o mundo teria tido acesso ao progresso que a Microsoft possibilitou? Na mesma linha, diversas curas e avanços na medicina só foram possíveis pois os laboratórios tinham a garantia de patentes, possibilitando um bom retorno sobre seus investimentos em pesquisa. Tais avanços não foram obtidos através do altruísmo de alguns cientistas, mas sim pela busca do lucro, protegido pela lei.

E mais:

Os governos e elites precisam entender que são as regras do jogo que estão inadequadas, impossibilitando a integração de todos dentro do mesmo modelo. As leis não podem ser criadas sem levar em conta a realidade do povo e nação. Quando o governo estende direitos incríveis para os trabalhadores, não pode ignorar as leis naturais entre oferta e demanda de trabalho. Afinal, são exatamente todas as regalias garantidas aos trabalhadores que fizeram com que mais de 50% da mão-de-obra nacional fosse parar na informalidade.

Além de algo bem importante:

Se as leis escritas estão em conflito com as leis as quais os cidadãos vivem, descontentamento, corrupção, miséria e violência serão conseqüências inevitáveis. As leis oficiais precisam estar em acordo com a realidade dos fatos, pois papel e caneta não são capazes de alterar a natureza dos homens.

Para concluir, algo que muita gente tem asco só de pensar:

Enquanto o capital não chegar às massas, o sentimento de inveja, exploração e até luta de classes irá existir. A revolta contra a globalização cresce pois cada vez mais uma parcela maior da população se sente à margem deste processo. Podem comer no McDonald’s e usar Nike, mas estão fora do processo formal de propriedade.

E fechando:

Não foi o capitalismo que falhou no Terceiro Mundo, pois este nunca existiu de facto. A falha está na não adoção de um modelo correto que possibilite o acesso e acúmulo de capital da nação. O inimigo não é o capitalismo, mas sim o Estado inchado, que impossibilita o capitalismo de chegar às massas.