Vamos falar sobre educação?

Publicado: 20 de janeiro de 2017 por Kzuza em educação
Tags:, ,

educacao_infantil2

Sempre fui um cara que, seguindo o senso comum, acreditava que a chave para o sucesso estava na educação. Uma nação bem educada era uma nação próspera. Com educação, todos estariam bem. Sem uma educação de qualidade, a nação estaria fadada ao fracasso, à criminalidade e toda a sorte de coisas ruins.

Eu era assim.

Tudo começou a mudar em uma palestra que assisti do Leandro Narloch. Ele colocou um ponto de vista no qual até então eu nunca havia pensado, nem sequer tido contato com algo parecido. Ele disse que não acreditava que educação trouxesse progresso, mas sim que o progresso trazia a educação. E exemplificou com um caso da época em que começou a trabalhar em uma revista aqui em São Paulo (acho que era a Superinteressante), e percebeu que suas chances de crescer profissionalmente eram pequenas porque ele não falava inglês. Então, resolveu ir atrás de aprender para poder se destacar. Ou seja, seguindo a lógica dele, as pessoas só buscam a educação por necessidade, não porque seja algo prazeroso.

Bem, mas um exemplo pessoal isolado e um ponto de vista único não seriam suficientes para me fazer mudar de ideia.


Recentemente, li o livro Podres de Mimados – As consequências do sentimentalismo tóxico, do psiquiatra britânico Theodore Dalrymple (pseudônimo utilizado pelo senhor Anthony Daniels). Nele, o autor destrincha um pouco mais esse assunto e dá uma série de exemplos que corroboram o ponto de vista do Leandro Narloch.

Ele começa explicando a postura de Gordon Brown, ex-primeiro-ministro britânico, que defendia o objetivo de ajudar todas as crianças da África a concluir pelo menos o ensino primário. Segundo o autor:

Na perspectiva dele (Gordon Brown), o baixo nível da educação na África inibe o crescimento econômico. A África é pobre porque as pessoas são ignorantes e iletradas. Acabe com a ignorância e ensine-as a ler, (…), e tudo ficará bem, ou pelo menos muito melhor.

Mas será mesmo? Haverá mesmo qualquer correlação na África entre os níveis de educação e as taxas de crescimento econômico? E, mesmo que exista essa correlação, será que podemos ter certeza de que foi a educação que causou o crescimento, e não o crescimento que causou a educação? Ou será que, na verdade, não houve relação causal nenhuma?

Então ele passa a alguns exemplos reais, vivenciados inclusive por ele. Cita o caso da Tanzânia, onde durante o governo de Julius Nyerere, um devoto da educação, o nível de alfabetização em seu país melhorou rapidamente, provavelmente chegando ao nível da Grã-Bretanha na época. Porém, essa melhoria não melhorou em nada o desenvolvimento econômico do país, que foi ficando cada vez mais pobre. Isso porque Nyerere destruiu a economia do país com políticas socialistas. Além disso, Dalrymple dá duas razões para que o alto nível de alfabetização não tenha melhorado a situação econômica do país: uma econômica, outra cultural, a saber:

O custo econômico de aumentar a alfabetização foi considerável e usou recursos escassos; isso teria sido uma coisa boa, do ponto de vista econômico, apenas se fosse um fato que um alto nível educacional automaticamente resultasse em desenvolvimento econômico. Do contrário, esse investimento em educação é economicamente nocivo, por ser um desperdício.

Um alto nível educacional foi economicamente nocivo também por razões culturais. Um dos legados do colonialismo, na Tanzânia como no resto da África, era que o estudo era visto pelas pessoas como o meio pelo qual se poderia entrar para o serviço público, o qual, mesmo que pagasse pouco a olhos europeus, oferecia os confortos e a segurança de um trabalho de escritório, quando a única alternativa era trabalhar a terra com o suor do próprio rosto e sem qualquer garantia de retorno. Era essa a principal e, muitas vezes, a única razão pela qual a educação era tão altamente valorizada.

Dessa forma, ele mostra que aumentar o número de pessoas com instrução pode ser um problema do ponto de vista econômico, pois significa que:

(…) um excedente econômico maior precisa ser extraído de uma base econômica menor, porque é preciso encontrar posições no governo para pessoas com instrução.

O autor também cita no livro problemas semelhantes fora da África. Segundo ele, as guerrilhas revolucionárias da América Latina foram resultado da expansão do ensino terciário (ou o que chamamos de ensino superior aqui no Brasil) para além da capacidade da economia de absorver seus produtos. Um exemplo é o grupo peruano Sendero Luminoso, iniciado no campus da Universidade de Ayacucho por um professor de filosofia. Outro caso interessante é descrito assim:

Na Grã-Bretanha, não por acidente, (…) a burocracia aumentou pari passu com a expansão da educação terciária, normalmente em assuntos sem valor profissional e muitas vezes de quase nenhum valor intelectual. Algo precisa ser feito com todos os formados para que eles não se transformem em profissionais frustrados. (…) o paradoxo, ou absurdo, de que o governo britânico pretenda mandar para a universidade 50% da população que está saindo da escola, ao mesmo tempo que 40% dessa mesma população mal consegue ler. Claro que alongar as carreiras educacionais e fazer as pessoas pagarem por elas é um modo de fazer com que jovens financiem seu próprio desemprego.

Observação desse cara aqui que vos escreve: qualquer semelhança com a expansão desenfreada do ensino superior no Brasil nos últimos governos é mera coincidência.

Dalrymple ainda dá os exemplos:

  • Guiné Equatorial, que apesar do alto nível de instrução da população na época da sua independência da Espanha, em 1968, e de um dos maiores níveis de riqueza per capita do continente, não esteve livre os abusos cometidos por Macías Nguema.
  • Congo, que ao se tornar independente da Bélgica em 1960, possuía apenas cerca de uma dúzia de pessoas com diploma universitário e que hoje, onde eles existem aos milhares, não se pode dizer que as coisas tenham melhorado.
  • Serra Leoa, apesar de um longo histórico de realização educacional, não fortalece a fé de ninguém no papel da educação como propulsora do desenvolvimento econômico.

No entanto, talvez o parágrafo mais importante de Dalrymple é:

Isso ignora o fato de que os regimes que demonstram entusiasmo para alfabetização também costumam demonstrar entusiasmo pela censura e por garantir que todos tenham as mesmas ideias, ou, ao menos, que as expressem. No mundo moderno, a alfabetização foi tanto o instrumento da ditadura quanto a liberdade.

É bem aqui que mora o problema, o qual eu volto a discutir em breve nesse texto.

O autor conclui que a educação não é condição suficiente para o desenvolvimento, mas talvez ela seja uma condição necessária. Ele dá os exemplos da Índia e da Irlanda, que investiram pesado em educação mas que, somente quando finalmente adotaram política econômicas que promoviam o crescimento, conseguiram tirar vantagem das pessoas altamente instruídas.

Em outras palavras, uma consideração das evidências sugere que uma população instruída não é nem necessária nem suficiente para o desenvolvimento econômico da África, ao menos nesse momento. O que é necessário é a oportunidade, acesso a mercados, e a educação, seja primária, secundária ou terciária, não substitui isso. É verdade que, num estágio posterior de desenvolvimento, uma população mais bem instruída e treinada se tornará necessária: mas não há razão para supor que uma sociedade em desenvolvimento não pode adaptar seu sistema educacional a suas necessidades. Nas circunstâncias africanas, uma população instruída deveria ser a consequência, não a causa do desenvolvimento.

Peço licença aqui para complementar o raciocínio do Sr. Dalrymple, estendendo suas colocações também ao nosso Brasil. Não acho isso nem um pouco insano, para falar a verdade. Acho que o autor só não colocou isso no texto porque não tem experiências aqui em nosso território.


Hoje também vi uma postagem super interessante sobre esse assunto, de autoria do jornalista Alexandre Garcia:

Por causa das matanças selvagens em prisões, ouço e leio todos os dias teorias de como combater as facções do tráfico de drogas. Construir prisões se contrapõe a esvaziar prisões; punir ainda mais traficantes se choca com aliviar a pena de pequenos traficantes; liberar a droga versus vigiar mais a fronteira; deixar que se matem nas prisões ou deixar que nos matem nas ruas – e por aí vai uma série de palpites que convergem para a suposta sensatez do politicamente correto que se resume numa frase bonita: “construir escolas para não precisar construir prisões”.

Muito lindo mas, esquecemos que as escolas já estavam construídas quando a droga se expandiu. E começou justamente nas escolas. Também a frase embute uma falácia: de que a escola é para dar educação. Não é. A escola é para ensinar. Educação, formação, é na família. Estão esquecendo que a responsabilidade pela formação é do pai e da mãe. E se as famílias estão desagregadas, então é preciso reconstruir a família, para não depender da construção de escolas ou de presídios. É preciso mostrar ao pai e a mãe que são os responsáveis pela educação dos filhos, pela formação da cidadania nas novas gerações. A escola ensina matemática, linguagem, ciências e até civismo. Mas o caráter da criança que está pronta a recusar a oferta de droga, vem de casa.

Parece fácil, mas não é. Agora mesmo leio nos jornais o estardalhaço que se faz porque a ANVISA liberou um remédio à base da Cannabis Sativa, no Brasil conhecida como maconha, palavra inventada pelos escravos que recebiam cânhamo para aplacar o cansaço, segundo deduzo. E nos títulos dos jornais, a palavra maconha aparece como remédio. Falam em “uso recreativo da droga”. É mentira. A maconha e as outras drogas piores destroem os neurônios e, pior ainda, destroem a vontade, transformando seres livres em escravos. Chama-me a atenção o marketing que tem a maconha na mídia. Por isso, é preciso uma luta constante dos pais, mostrando que a droga só tem lado ruim. A propaganda da droga fala em sensações. Ora, a melhor maneira de desfrutar qualquer momento da vida é estando consciente.

Aí vem outra questão que devem estar esquecendo deliberadamente, por medo. Só se fala em combater a ponta final da droga, o tráfico. É o final, quando não tem mais jeito. Pois tudo isso que se combate se alimenta, é financiado, pelo que não se combate publicamente: o consumo, na ponta inicial. O usuário é quem sustenta tudo isso. Ora, se a droga não vender, não tiver mercado, não haverá tráfico, porque não haverá consumo. E as consequências da droga nos consumidores são piores que as consequências entre os traficantes das diferentes facções, nas prisões. Nas prisões, pouco mais de uma centena foram decapitados. Nas famílias, nas escolas e nas ruas brasileiras, milhões já perderam a cabeça para a droga.

Li também outro dia alguém que dizia que a redução da impunidade, com punições mais severas, fazendo com que o crime não compensasse, levaria muito mais crianças e jovens às escolas do que qualquer outra medida. É polêmico, mas é algo para pensar.


Outro ponto importante nessa discussão, onde remeto ao parágrafo mais importante de Dalrymple, é que a maioria esmagadora das pessoas (sejam ela de direita ou de esquerda) concorda que o governo (seja ele qual for) está pouco preocupado com um povo “educado”. Para o governo, quanto mais ignorante a população, melhor. É mais fácil manipulá-la.

Isso é senso comum.

O que não me entra na cabeça é: se o governo não quer uma população “educada”, por que então as pessoas pedem para que esse mesmo governo invista em educação?


Minha conclusão: educação é a consequência, e não a causa, do progresso.

Não vejo indícios de que o aumento na qualidade do ensino, com mais escolas, professores bem remunerados, e seu fácil acesso pela população resultem em uma sociedade mais próspera. A melhoria na educação deve ser o nosso objetivo, e não o meio para se alcançar o desenvolvimento econômico.

Precisamos muito mais de combate à criminalidade, redução da impunidade, facilidades para criar e realizar negócios, redução drástica da burocracia e consequentemente do tamanho do Estado, simplificação do regime tributário e trabalhista, do que propriamente de um maior número de escolas e universidades. Isso será apenas a consequência.

E você, concorda?

É apenas uma questão de opinião?

Publicado: 13 de janeiro de 2017 por Kzuza em Política
Tags:, , ,

 

pesquisa_cientifica_3-jpg-554x318_q85_crop

Um casal de amigos veio jantar na minha casa. Perguntei a eles se gostariam de tomar um vinho, e eles aceitaram. Abri a garrafa, servi as taças, brindamos e cada um deu um gole. Minha amiga disse: Hum, esse vinho é bom! Eu disse na sequência: Olha, se é bom, eu não sei, mas eu gosto bastante!

Eu não entendo nada de vinho. Não sou capaz de diferenciar uma uva de outra (exceto Syrah, que não sei porque caralhas me deixa alterado já na segunda taça). Então, em meu universo particular, costumo categorizar os vinhos em apenas 2 grupos: os que eu gosto, e os que eu não gosto. Como meu paladar definitivamente não é o meu sentido mais aguçado, pode-se imaginar então que nem sempre o que eu gosto está associado com a boa qualidade do vinho.


A música de 2017, o hit do verão, que está fazendo balançar até as bundas peludas das mais feministas é o tal de “Meu pau te ama”. (Quem diria que até essa meninada de hoje, a geração “mimimi”, estaria tão empolgada e se divertindo com algo tão ridiculamente machista!). Parece-me que o vídeo original da música (e nem vou contar todas as versões das coreografias de famosos e outros não tão famosos assim) tem milhões de visualizações no Youtube. Pasmem, está cheio de gente que gosta! Mas isso também não quer dizer que a música seja de boa qualidade, e nem preciso ser especialista no assunto para dizer.


Um dos grandes sucessos do Netflix em 2016 foi a série “Stranger Things”. É uma espécie de terror adolescente, cheio de sustinhos, uma Winona Ryder magistral e 4 moleques e uma menininha que são os protagonistas da história (carismáticos que só eles!). A série é super bem produzida, cheia de computação gráfica, efeitos especiais, etc. e tal. Não há dúvida que é de excelente qualidade. Mas eu não gostei muito. E conheço vários amigos que também não gostaram, ou pelo menos não se empolgaram tanto quanto a crítica prometia.


Ludwig van Beethoven é talvez o maior compositor da história. Segundo a Wikipedia:

É considerado um dos pilares da música ocidental, pelo incontestável desenvolvimento, tanto da linguagem como do conteúdo musical demonstrado nas suas obras, permanecendo como um dos compositores mais respeitados e mais influentes de todos os tempos.

Agora me diga: quantas pessoas você conhece que de fato gostam de Beethoven?


Os 4 exemplos que dei na introdução desse texto ilustram um fato que muita gente desconsidera:

Nem sempre o que você gosta é de boa qualidade, e nem sempre o que é de boa qualidade você gosta.

Gosto pessoal muitas vezes não tem a ver com a qualidade. Ele depende muito de vários fatores, como sua criação, o local onde você cresceu, seu círculo de amizade, suas experiências sensoriais, entre outros.

Mas como então saber o que é e o que não é de boa qualidade?

Bem, hoje em dia há especialistas para tudo. Tem gente que dedica a vida toda a estudar determinado assunto. Enólogos, musicistas, críticos de arte… em todos esses grupos, há sempre expoentes que podem ser ouvidos e considerados. Veja, não estou dizendo que todo especialista é bom (e até isso tem grau de qualidade), mas estou certo de que cada ramo possui um especialista considerável.

É óbvio que a nossa opinião pessoal nem sempre irá ao encontro de tais especialistas. Um crítico de arte moderna pode considerar determinado quadro pintado por um grande pintor como uma obra-prima, e para mim aquilo pode não passar de um rabisco mal-feito.

Basicamente, quando se tratam de opiniões pessoais que se mantém dentro da esfera privada, o impacto social disso é muito pequeno (para não dizer nulo). Sim, dane-se a minha opinião sobre o vinho XPTO. Se eu não gostar dele, isso não vai fazer muita diferença. Dane-se se você não gosta de estrogonofe, mesmo que tenha sido feito com creme de leite fresco e filé mignon.

Mas há um problema nesse conceito. Quando isso passa para o aspecto das ideias, bem, aí sim o impacto pode ser desastroso.


Recentemente, tive uma conversa com um amigo meu sobre essa questão. Ele se dizia preocupado com um grupo do Facebook onde jovens adolescentes estão defendendo ideias conservadoras, de livre mercado e machistas de uma forma absurda.

Isso corrobora uma teoria minha:

O problema não são as ideias, mas os indivíduos imbecis.

Não, meu amigo não é um imbecil. Pelo contrário. Mas o que o espanta são justamente indivíduos imbecis, e talvez não justamente as ideias gerais do conservadorismo e do livre mercado. (Obs1: Aqui, excluo o machismo, que não há como defender de forma alguma racionalmente. Obs2: brincadeira minha, as ideias conservadoras e de livre mercado também não devem agradá-lo.).

Na verdade, aqui voltamos novamente aos exemplos lá do início do texto. Quando se tratam de ideias, o mesmo princípio se aplica: Não é porque eu gosto de A que A é necessariamente bom; e não é porque eu não gosto de B que B é necessariamente ruim. No entanto, aqui o impacto de não se conseguir identificar se A ou B são bons ou ruins pode ter consequências desastrosas. E essas consequências podem chegar a violência física contra os que não concordam com o seu gosto pessoal (ou à eleição de políticos que justamente defendem péssimas ideias para nos governar).

Mas por que há tantos imbecis?


Li um texto essa semana excelente sobre essa questão aplicada ao gerenciamento de projetos de desenvolvimento de software. Talvez a parte mais legal desse texto seja esse vídeo aqui ó:

Segundo Carl Jung:

Pessoas não possuem ideias; ideias possuem pessoas.

Aqui, cabe uma reflexão interessante sobre algo que tenho observado com uma frequência absurda nas redes sociais (e que com certeza reflete exatamente o mundo real em que vivemos): as pessoas se identificam com uma certa ideia e passam a se agarrar a elas como uma criança ao seu bicho de pelúcia predileto. Tente arrancar isso delas e terá como consequência muito choro, muita birra e muita malcriação. E mais que tudo: as pessoas têm tentado com frequência personalizar essas ideias em alguns “seres iluminados” que se tornam imaculados. Então, esses “seres iluminados” passam a ganhar um salvo indulto para dizer e fazer o que quiserem, e então serem glorificados por isso.

Tente discordar de algum absurdo que algum desses iluminados tenha dito e verá a fúria de seus seguidores. Discorde de um argumento de um deles e será tachado como adversário, como um ser repugnante, como um opositor, traidor das ideias.

Claro, estou generalizando aqui, e isso nem sempre é bom. É óbvio que nesse mar de gente estúpida há mentes iluminadas, abertas ao diálogo, ao confronto de pensamentos, à análise crítica das posições, e que não se deixam levar por falácias ad hominen.

Veja, estou sendo completamente imparcial aqui. Isso é válido para coxinhas e petralhas, para feministas e feminazzis, para abortistas e não abortistas. Enfim, não estou me atendo às ideias, mas sim aos imbecis existentes.


É claro para mim, no entanto, que nesse ponto há uma diferença muito grande entre as verdadeiras mentes pensantes dos dois lados da moeda (chame de direita e esquerda, se preferir). E nesse caso, vou me ater somente às verdadeiras mentes pensantes. Pessoas abertas ao diálogo, que entendem do assunto, que lêem bastante, dominam assuntos como filosofia, economia, política, etc. Não estou falando de mim, nem provavelmente de você que está lendo esse texto. Estou falando de gente realmente brilhante, e não de 99,99% das pessoas desses grupos de redes sociais que se propõem a debater esses assuntos.

A diferença nesse ponto reside na forma de apelo e defesa de suas ideias. Enquanto a direita se pauta no objetivismo, na razão e no empirismo, a esquerda baseia-se no subjetivismo, no sentimentalismo e no que Roger Scruton chama de “Falácia da Melhor das Hipóteses” (leia As Vantagens do Pessimismo: e o perigo da falsa esperança). Ou, melhor dizendo (já provocando), conforme assisti em um live feito pela Renata Barreto outro dia: uns tomam decisões baseados no que é bom, outros tomam decisões baseadas no que lhes faz bem.


Aliás, ainda sobre esse livro, no qual o autor explica por que uma dose considerável de pessimismo deve ser sempre levada em conta quando se há alguma decisão a ser analisada (ideia com a qual eu me identifiquei completamente), acredito que aí está o grande X da questão.

Quando as pessoas são dominadas pelas ideias, e elas se armam de um otimismo inescrupuloso, observamos exatamente toda essa sorte de imbecis vociferando besteiras por aí.

Se você não mantém sempre um pé atrás com as ideias nas quais você acredita, se não está sempre desconfiando das informações, investigando as fontes, analisando e pensando, você fatalmente está condenado a se tornar um desses imbecis.


Atualização: Achei que ficaram algumas coisas em aberto, então resolvi gravar esse vídeo para complementar.

Sobre feminicídio

Publicado: 9 de janeiro de 2017 por Kzuza em Comportamento, violência
Tags:, , ,

violencia-contra-mulher-eleicao

Relutei muito antes de escrever sobre assunto. Pesquisei bastante, conversei bastante, fiz algumas reflexões e, enfim, tomei coragem.

Como qualquer assunto polêmico, a abordagem racional sobre o mesmo desperta a fúria e a indignação da maioria das pessoas. Minha proposta aqui não é oferecer soluções para o problema da violência contra as mulheres, mas sim apresentar o meu ponto de vista sobre o quanto a visão extremamente sentimentalista da nossa sociedade e a ausência de foco e debate por parte das feministas radicais acaba prejudicando o combate aos assassinatos de mulheres.


Bem, primeiro vamos às definições. Talvez a definição mais simplista do termo feminicídio seja:

O assassinato de uma mulher por um homem, pelo simples fato dela ser mulher.

Encontrei uma mais completa, e definitivamente muito melhor, no relatório final da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito sobre a Violência Contra a Mulher, de 2013:

O feminicídio é a instância última de controle da mulher pelo homem: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando a mulher a um objeto, quando cometido por parceiro ou ex-parceiro; como subjugação da intimidade e da sexualidade da mulher, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade da mulher, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade da mulher, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.

Em 2015, o feminicídio foi incluído no código penal como circunstância qualificadora do crime de homicídio, passando também a ser enquadrado como crime hediondo.


Com exceção a psicopatas e outras pessoas com problemas mentais graves, ninguém seria capaz de considerar o assassinato de uma mulher como algo não digno da mais completa repulsa e indignação.

Eu particularmente também considero esse tipo de crime hediondo. Sou contra a pena de morte (por motivos que não vou explicar aqui, mas talvez em um post futuro), mas é um tipo de caso que para mim é digno de prisão perpétua.

Mas a discussão aqui não é sobre isso.

Hoje, o código penal brasileiro já possui seus qualificadores para o crime de homicídio. Não sou especialista em leis, mas sei que um dos agravantes é justamente quando o crime é cometido por motivo torpe:

É o moralmente reprovável, demonstrativo de depravação espiritual do sujeito. Torpe é o motivo abjeto, desprezível. É, pois, o motivo repugnante, moral e socialmente repudiado. No dizer de Hungria, revela alta depravação espiritual do agente, profunda imoralidade, que deve ser severamente punida.

Exemplos desses motivos são: crimes por motivação racial, questão religiosa, orientação sexual da vítima, matar por herança, etc. Ou seja, um assassinato cometido por qualquer motivo de preconceito se enquadraria nesse qualificador.

Aqui, obviamente, há uma diferença a respeito do feminicídio. Primeiro, seguindo as próprias definições que coloquei lá no início do meu texto, esse tipo de assassinato de mulheres não se enquadra meramente em uma questão de preconceito. Segundo, um assassinato qualificado como motivo torpe não torna o crime hediondo (até onde eu saiba, mas aceito aqui comentários de advogados para me esclarecer).

Aparentemente, o código penal ainda não fazia diferenciação de um crime de acordo com o sexo da vítima ou do criminoso, o que faz todo o sentido.


A questão que fica, então, é a seguinte: por que então esse tipo de crime tão abjeto, repugnante e nojento é hediondo apenas quando cometido contra mulheres?


É aqui, amiguinhos, que começa a treta.

Vou criar um nome fictício: machocídio. É um novo termo que criei para definir esse tipo de crime:

O machocídio é a instância última de controle do homem pela mulher: o controle da vida e da morte. Ele se expressa como afirmação irrestrita de posse, igualando o homem a um objeto, quando cometido por parceira ou ex-parceira; como subjugação da intimidade e da sexualidade do homem, por meio da violência sexual associada ao assassinato; como destruição da identidade do homem, pela mutilação ou desfiguração de seu corpo; como aviltamento da dignidade do homem, submetendo-a a tortura ou a tratamento cruel ou degradante.

Acreditem, isso acontece (veja aqui, aqui, aqui e aqui alguns exemplos). Talvez um dos mais marcantes recentemente tenha sido o do empresário da Yoki, cometido por Elize Matsunaga.


Novamente, coloco uma citação minha: Com exceção a psicopatas e outras pessoas com problemas mentais graves, ninguém seria capaz de considerar o assassinato desses homens como algo não digno da mais completa repulsa e indignação.


Se você consegue se indignar de maneira igual frente a crimes de igual crueldade e motivação, independente do sexo do autor e da vítima, você já está um passo à frente de muita gente por aí. Você inclusive já deve ter entendido onde quero chegar.

Mas se você ainda acha que há diferença quanto à pena aplicada ao criminoso ou à celeridade na condução do processo de julgamento apenas porque a vítima é uma mulher, você tem altas possibilidades de fazer uso de um dos argumentos abaixo:

1. Mas as mulheres são muito mais vítimas de violência doméstica do que os homens!

Bem, realmente não estudei sobre esse assunto. Não pesquisei números, mas vou assumir, com bases em experiências pessoais e no que nos é divulgado por meios de comunicação que SIM, homens são frequentemente mais violentos em casa com suas mulheres do que o contrário.

Mas há uma falha enorme nesse argumento. ENORME!

Se você for considerar a gravidade de um crime pelas características físicas mais comuns de seus criminosos, a situação fica complicada. Imagine só que no Brasil, de acordo com o relatório do Departamento Penitenciário Nacional de 2014, 67% dos presos são negros. Você acharia razoável considerar um assassinato cometido por um negro mais grave do que se o mesmo houvesse sido cometido por um branco?

Então por que um crime passional cometido por um homem é mais grave do que um cometido por uma mulher? Provavelmente, o argumento a seguir vai lhe servir.

2. Mas os homens estão em posição física superior às mulheres!

Também ouvi bastante sobre isso. E aqui entra todo um conflito com o princípio da isonomia do direito.

É claro que, fisicamente, os homens em sua maioria são superiores às mulheres. São mais altos, mais fortes, falam mais alto, mais grosso, e possuem um poder de intimidação superior. Há suas exceções, claro (as lutadoras de MMA e judô e as jogadoras de basquete que o digam).

Mas, se formos pensar em um contexto geral de violência física e assassinatos, parece-me bastante comum que as vítimas estejam quase sempre em desvantagem física perante aos criminosos, não?

Se um ladrão magrelo e baixinho, trabalhado no crack, chega para assaltar um transeunte qualquer e dá um tiro no coitado, matando-o, isso não faz dele um criminoso melhor ou pior do que um outro alto e bombadão, fazendo a mesma merda.

3. Mas as mulheres não são levadas a sério quando denunciam abusos à polícia!

Há aqui alguns pontos a serem considerados.

O primeiro deles é que a nossa polícia é muito despreparada para qualquer tipo de situação. Pasmem! Eu sei que isso pode parecer novo para vocês, mas qualquer pessoa (e aqui incluo homens e mulheres) que vá uma delegacia registrar um boletim de ocorrência sobre ameaça, violência, furto ou roubo, raramente os casos são investigados ou acompanhados. Assim, precisamos obviamente cobrar uma efetividade maior da polícia em TODOS os casos, senão fica parecendo coisa de gente egoísta, querendo privilégios.

O segundo ponto é que, acreditem, mulheres possuem delegacias próprias para atendimento às mulheres! Homens sequer têm esse privilégio.

E o terceiro e mais importante: quando você defende e incentiva punições mais duras a um crime apenas por conta de quem o comete e não pela natureza do crime, você também incentiva um aumento no número de denúncias de prática do mesmo apenas observando quem o cometeu. O problema aqui está que, nessa situação, você também passa a ter um número maior de denúncias de crimes falsos. Ou seja, você passa a focar no possível criminoso, e não no possível crime.

Quando você passa a considerar qualquer coisa como feminicídio, você passa a considerar o feminicídio como qualquer coisa. Se tudo é feminicídio, nada é feminicídio.

(Você provavelmente vai entender essa minha última afirmação de acordo com as suas convicções próprias, e dificilmente a observará sob a luz da razão, eu sei. Eu considero a violência física, a intimidação e, principalmente, o assassinato de inocentes algo grave a ser combatido, independente de quem os cometa. Se para você isso é ser machista, misógino, fascista ou qualquer desses termos que você adora, o problema não é meu.)


Conclusão: é óbvio que crimes graves de homicídio devem ser severamente combatidos e exemplarmente punidos, sejam eles contra quem forem. No entanto, se você considera que há diferenciação nos crimes por qualquer aspecto que não a motivação e a crueldade dos mesmos, temos uma diferença grande de princípios morais.

Sim, homens coagem e matam mais suas esposas e namoradas por questões relativas aos seus relacionamentos (posse, ciúme, afirmação, objetificação, etc.) do que mulheres o fazem com seus maridos ou namorados. Porém, você não acha justo que ambos os casos sejam combatidos e punidos igualmente, mesmo assim?


Considerações finais:

1 – Acredito que a impunidade no Brasil é hoje um dos maiores problemas que temos.

2 – Considero a legislação penal brasileira extremamente branda.

3 – Não há homicídio justificado, a não ser em legítima defesa.

4 – Homens são mais violentos que as mulheres, no geral. Mas tentei centrar meu texto não na violência física, mas sim nos casos de homicídio.

5 – Menos de 10% dos homicídios no Brasil são solucionados. Ou seja, mais de 90% dos assassinos não são sequer identificados, quanto menos presos. Isso sim deveria deixar o povo de cabelo em pé!

O mundo mimadinho

Publicado: 20 de dezembro de 2016 por Kzuza em Comportamento, Política
Tags:,

Tenho reparado infelizmente que há um esforço generalizado globalmente, nas esferas política e social, para que as população em geral não seja ofendida ou fique chocada diante da realidade nua e crua do nosso mundo. Tenho reparado que tanto a mídia em geral quanto os governantes (e não estou falando só de Brasil) têm a cada dia se esforçado mais para não magoar ou ofender os pobres seres humanos que recebem suas mensagens. Em plena era da informação, onde somos bombardeados diariamente por inúmeras fontes de informação, há esse esforço enorme para que tudo nos chegue mastigadinho, bonitinho, maquiado e cheiroso, de maneira que fiquemos confortáveis e sem muita palpitação no peito.

Vejo esse esforço refletido em pais e mães modernos, principalmente naqueles que tiveram filhos após a década de 1990, que se empenham diariamente na luta de não frustrar os seus filhos. Esses pais que mentem para seus filhos, que escondem a realidade cruel do mundo lá fora. Colocam seus filhos em redomas de vidro, onde tudo o que desejam é possível e se torna real. Onde tudo é cheirosinho, bonitinho, fofinho e barato. Onde o esforço e o trabalho não são necessários para atender seus desejos: basta orar, ser um bom menino, pedir a Deus e ter pensamento positivo que tudo estará ali à disposição.

A fé tem superado a realidade. A crença em dias melhores, em pessoas melhores, em um mundo melhor, parece bastar. Não há trabalho requerido. Não há dinheiro que falte para atender nossos desejos, basta desejá-los. Basta alguém dizer que é possível. Basta dizer que podemos viver no oásis, em paz e abundância. É só dizer que tudo o que você faz é com as melhores intenções que automaticamente o resultado das suas ações será bom.

Isso porque pensar cansa. Analisar cansa. Castigar cansa. Punir cansa.

E assim criamos um mundo de bunda-moles (para não usar palavras mais pesadas aqui). Temos hoje uma geração de gente mimada que quando se depara com os problemas reais de um mundo real, com pessoas reais, desabam psicologicamente. Entram em depressão. Um mundo de pessoas que vivem se perguntando “Por quê????” depois que as coisas dão errado, mas que nunca se preocuparam em fazer a mesma pergunta quando estavam tomando suas decisões.

Então passamos a terceirizar a culpa. Culpamos as estrelas, o horóscopo, os que pensam diferente de nós, os ricos, os pobres, os pretos, os brancos. Mas nós não, nunca somos culpados. Nós gostamos de viver confortáveis, em casas de alvenaria, em frente a um computador com Netflix e Facebook, onde ninguém possa nos incomodar com a realidade cruel do mundo, onde ninguém possa dizer nada que vá contra o que pensamos.

E aí pensamos: o problema do mundo é que nem todas as pessoas pensam como eu. Nem todas as pessoas agem como eu. Se fosse assim, o mundo seria melhor. Isso para não citar os mais ignorantes, que preferem pensar: o problema do mundo é que nem todas as pessoas pensam como fulano-de-tal. Ou seja, além de preferirem uma heterogeneidade de ideias, ainda terceirizam a mente e subjugam a sua própria capacidade de pensar e agir.

Essa ideia de não querer se indispor com ninguém, de não querer causar desconforto, de não se opor a ideias completamente absurdas, apenas em nome de um bem estar alheio, está condenando a nossa sociedade. Eu não sei quando isso começou, mas creio que não é de agora. Deve vir em doses homeopáticas há bastante tempo, mas já contaminou o nosso mundo. Hoje passa quase imperceptível por nós em muitos casos, mas em outros é extremamente flagrante. E dessa forma as pessoas vão achando isso normal. Vão achando legal a iniciativa de censurar pensamentos que vão contra aos seus, pois é preferível ocultar e sufocar ideias indigestas do que simplesmente refutá-las com argumentos melhores. É preferível negar que existem pessoas más no mundo do que realmente combatê-las.

Agora você deve entender o porquê da mídia chamar de “suspeito” o homem que, em frente às câmeras fotográficas e de televisão, assassinou o diplomata russo em Ancara, na Turquia. Chamá-lo de assassino terrorista é dar nome a algo ruim, que não queremos encarar, então melhor suprimir isso.

Agora você entende porque chamam um assassino ou um ladrão com menos de 18 anos apenas de “menor”. Como se todos fossem iguais. Isso não causa desconforto.

Agora você entende porque tanto as autoridades quanto a mídia em geral evitam falar em “terrorismo”. Preferem dizer que um “caminhão atacou um mercado natalino em Berlim”, como se esses veículos fossem autônomos. Dizer que um homem mau fez isso pode fazer as pessoas crerem que existem homens maus no mundo, coisa que não existe lá naquela sociedade onde todos nós queremos viver.

E enquanto procuramos palavras mais amenas, enquanto procuramos encontrar eufemismos cada vez mais elaborados, enquanto o politicamente correto toma conta do nosso dia-a-dia, o mundo real continua lá fora, sendo cruel. Os homens maus continuam existindo. A economia continua sendo cruel, queira você ou não, goste você ou não. Os recursos continuam sendo finitos. E se ninguém fizer nada pelo que tanto desejamos, nada acontecerá.

Quando nos dermos conta de que não é um cartaz pela paz, ou a unha pintada de branco de uma atriz, ou uma hashtag nas redes sociais, que será capaz de fazer com que os homens maus parem, talvez seja tarde demais.

Quando nos dermos conta de que não basta nosso desejo puro, inocente e bem intencionado para que benefícios sejam concedidos pelo governo à população (e aqui você pode incluir toda a sorte de benefícios), talvez seja tarde demais.


Só para completar o texto, deixo um vídeo da Lucy Aharish comentando sobre a guerra na Síria. O vídeo está em inglês, mas é fácil de entender.

Ela completa com a frase de Albert Einstein: “O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os assistem sem fazer nada”.

Um ano de recomeços

Publicado: 16 de dezembro de 2016 por Kzuza em Geral
Tags:, ,

Bem, amigos da Rede Globo, estamos agora por conta do juiz. Aos 43 minutos do segundo tempo de 2016, o árbitro sinaliza mais 15 dias de acréscimo para o término da peleja. Um ano que por mim já poderia ter acabado, mas que ainda tem um suspiro final para todos que são fortes.

Prefiro encarar esse ano não como o ano de grandes perdas, mas sim um ano de grandes recomeços.

Um ano que começou atormentando já no seu segundo dia, com a partida da minha última avó ainda viva. Um sentimento de perda grande, superado pela certeza de que agora a alma dela está livre e não mais presa a um corpo deteriorado pelo Alzheimer. Um recomeço para nós como família, agora com mais responsabilidade de nos apoiarmos uns nos outros. E para mim, agora com várias avós substitutas que me adotaram.

Assim também foi um ano de perdas não só para nós, mas principalmente para grandes amigos. Os compadres Cosme e Chiquinha que viram nosso Kadu partir tão cedo, de forma tão repentina. Nossa família de Tatuí que viu a partida da Ivone, a mulher mais bem humorada e divertida que tive o prazer de conhecer. Meu amigo e co-autor desse blog Matheus e sua esposa Viviane que lutaram tanto nos últimos 4 anos e viram a Isadorinha virar mais uma estrela. E tantos outros próximos que também passaram por momentos semelhantes, mas que prefiro encarar como recomeços de suas vidas, agora de uma maneira diferente, com apoios diferentes, com necessidades diferentes.

Foi também o ano do meu recomeço profissional. Quando decidi abandonar minha carreira para partir em busca de um empreendimento próprio. As dificuldades ainda nem começaram direito, mas certamente o prazer disso não se paga. E aqui devo agradecer imensamente aos amigos que mais me incentivaram e me apoiaram nesse projeto: Karinão, Dani Gomes, Fran e meu primo-compadre-amigo-irmão Carlos, vocês fizeram muito a diferença pra mim. E claro, aos meus pais, que desde o início acreditaram e apoiaram.

Na esfera dos relacionamentos pessoais, também um ano de grandes recomeços. Recomeçar a vida após o término de um namoro nem tão longo, mas intenso, sincero e delicioso, ao lado da pessoa mais admirável que já conheci e já amei. Recomeçar após decepções pessoais repentinas, inexplicáveis. Recomeçar após descobrir que certas amizades não eram exatamente o que eu imaginava.

Ano em que ganhei uma nova sobrinha, Mariana, que significou mais um recomeço para a vida dos meus grandes amigos Fabi e Carlão.

Ano em que conheci um dos lugares mais lindos do mundo, Turks and Caicos, onde a água é de um azul incomparável e a areia é dourada.

Ano em que tive a oportunidade mais que gratificante de encontrar antigos amigos, de mais de 15 anos, da época da Fundação Bradesco, CPM, Bradesco, Politec, EDS… etc., e perceber que pouca coisa mudou. Poder perceber que cultivamos bons relacionamentos e um excelente respeito mútuo durante todo esse tempo foi mais que satisfatório: foi estimulante! E aqui vale identificar pessoalmente cada um com quem tive essa experiência fantástica: Kadu, Bruninho, Recchi, Ostan, Cleber, Alê, Tchuka, Enrico, Andrea, Edi e Japiassu. Os encontros valeram à pena!

Então, somente posso desejar a todos que o Natal de vocês seja repleto de felicidade e paz. Que Cristo esteja com vocês e suas famílias nesse momento de celebração à vida e, por que não, aos recomeços. E que o ano de 2017 seja o melhor ano da vida de todos nós, repleto de coisas boas.

Uma crença maléfica

Publicado: 9 de dezembro de 2016 por Kzuza em Política
Tags:,

o-estado

Temos observado recentemente uma crise política no Brasil sem precedentes. Mais do que política, a crise é institucional, colocando em xeque nossa República e a nossa tal democracia participativa.

Não há nesse país um único cidadão que confie 100% na classe política brasileira. Nesse ponto, todos estão de acordo, o que é cada vez mais raro em um país tão dividido nos últimos tempos entre coxinhas e mortadelas, azuis e vermelhos, direita e esquerda.

No entanto, apesar dessa ausência de confiança, o nosso povo, em sua maioria, apresenta um duplipensar (na novilíngua de George Orwell em 1984, ou, se preferir, pode chamar de dissonância cognitiva) que chega a ser assustador em muitos casos. Vejamos.

Você alguma vez já ouviu as seguintes frases:

  • “O governo não investe em educação porque não tem interesse em ter um povo inteligente, que pensa, que tem senso crítico.”
  • “Precisamos escolher melhor os nossos candidatos na hora de votar. Checar seus antecedentes, sua índole, sua honestidade.”
  • “O governo precisa investir mais em saúde.”
  • “A prefeitura precisa melhorar o transporte público.”

Aposto qualquer coisa que você escutou pelo menos uma das 4 citações acima nos últimos 6 meses.

Se você não entendeu a dissonância cognitiva desse discurso, eu explico.

Aqui, funcionamos como um fazendeiro que cria ovelhas para obter lã. E aí colocamos uma raposa para tomar conta de nosso rebanho. A cada dia, uma ovelha some do nosso rebanho. Não entendemos porque isso acontece. A raposa é alimentada, bem cuidada, tem nosso carinho, mas mesmo assim ela não cuida direito das ovelhas. Pensamos o que pode estar errado, e então decidimos trocar a raposa. No seu lugar, colocamos outra raposa. Dessa vez, uma raposa mais boazinha, gordinha, que nem come muito. Ela diz que trabalhará melhor se tiver mais ovelhas para cuidar. Passamos a tratá-la melhor, com mais carinho, e ainda lhe pagamos melhores salários. Nossas ovelhas continuam sumindo, mas a um ritmo menor. Mesmo assim, não estamos satisfeitos porque ainda temos prejuízo. Então, mais uma vez, vamos lá e trocamos a raposa cuidadora do rebanho. Porém, o problema continua. Dessa vez, mais ovelhas somem diariamente. Decidimos cobrar mais empenho da raposa. Impomos novas regras para punir mais severamente o sumiço das ovelhas. Pedimos um controle maior do rebanho. Então a raposa se reúne com as outras raposas que fazem parte do seu sindicato, o Sindicato das Raposas Pastoras. Elas decidem fazer vista grossa. E por aí vai.

Nosso maior problema aqui é negar a natureza predatória das raposas. Não importa o que façamos, é da natureza delas comerem ovelhas. Faz parte da cadeia alimentar delas. Mesmo que elas tenham que fingir ser boazinhas, mesmo que elas tenham que fazer isso na calada da noite, sem ninguém perceber, elas continuarão o fazendo. Quando necessário, inventarão desculpas, dirão que não são responsáveis pelo sumiço das ovelhas. Colocarão a culpa em outros animais, até no fazendeiro se puderem, mas tudo continuará como está.

E em vez de retirarmos as raposas de lá e assumirmos nós mesmos o controle do rebanho, cobramos cada vez mais empenho das raposas. Dizemos: eu não quero ter esse trabalho, não quero tomar conta do que é meu. Nem temos muito ideia do que fazer com as ovelhas. As raposas que se virem, pois eu as pago para isso.

É exatamente isso que acontece no Brasil, desde o fim da ditadura militar na década de 80. Estamos sempre em busca de uma raposa (ou, no nosso caso, inúmeras raposas) salvadora, honesta, bem intencionada, boazinha, que irá cuidar bem do nosso rebanho. Damos cada vez mais poder aos políticos para que eles resolvam nossos problemas. Pedimos cada vez mais soluções. Deu errado? Basta mudar as peças. FHC deu errado? Colocamos o Lula e o PT. Deu errado? Mudemos para outro partido. E assim vamos, na tentativa e erro. Como se uma raposa fosse diferente da outra e não gostasse de ovelhas. Esperamos uma raposa vegetariana. E colocamos nela não só esperanças, mas cada vez mais poder. Sim, porque as raposas são sedentas e sedutoras. Elas dizem que são diferentes. Dizem que resolverão nossos problemas. Que estão cheias de boas intenções. Que irão criar leis que ajudem os menos desfavorecidos. Que irão emitir decretos, PECs, que vão nos proteger dos poderosos e exploradores. Que tornarão o mundo mais justo. Que irão gerar empregos com uma canetada qualquer. Que reduzirão a inflação com uma canetada qualquer, como num passe de mágica. Porque essas raposas são seres iluminados, que dominam toda e qualquer esfera do conhecimento. Pois nós, indivíduos comuns, não somos capazes de resolver nada por nós mesmos. Precisamos, além de tudo, nos preocupar com os outros. Os menos favorecidos, que são pouco informados, e também não sabem como resolver suas coisas. Precisamos ajudar todo mundo, pelo simples fato de ajudar, mesmo que a pessoa não mereça ou não precise. Precisamos pensar no próximo, e são as raposas que farão isso, pois nós não somos capazes de saber quem ajudar. Damos nosso trabalho e nosso dinheiro para que as raposas então o distribuam.

A pergunta que eu sempre faço é: até quando?

Até quando vamos continuar nessa brincadeira? Até quando vamos fugir das nossas responsabilidades? Até quando vamos abrir a mão da nossa liberdade individual, o direito fundamental mais importante depois do nosso direito à vida? Até quando vamos continuar sendo seduzidos por propostas de solução de problemas que não passam de demagogia e palavras bem intencionadas?

Você deve então me perguntar: pô, então qual a solução?

Eu respondo que não sei a solução, mas tenho certeza absoluta que ela não passa pela mão do governo. Ninguém melhor para saber o que precisa e o que deseja do que o próprio indivíduo. Terceirizar isso para uma entidade externa qualquer é um devaneio insano demais para minha compreensão, muito mais para a classe política.

Então como mudar isso?

A minha alternativa, já que sou contra qualquer tipo de intervenção, guerrilha ou golpe que tire alguém do poder para colocar qualquer outro que seja, é usar as próprias armas democráticas que já temos, mesmo que ainda tenham falhas. Já que o nosso único poder é o voto, que seja através dele. Mas não da forma como o TSE propagandeia por aí. Eu sugiro: vote em um não-político. Vote em alguém que não tem qualquer vínculo com o Estado. Se possível, vote em um administrador privado (seja empresário, seja executivo, seja diretor de empresa). Vote em alguém com estudo especializado e com experiência administrativa privada. E, o principal, vote em alguém que não tem ambição nenhuma em resolver os problemas do país. Vote em alguém que se comprometa em reduzir o Estado ao mínimo possível e em aumentar as liberdades individuais. Vote em quem se proponha a reduzir o número de parlamentares, o salário dos políticos, a renúncia ao poder de decisão. Vote em quem se propõe a privatizar tudo o que for possível. Vote em quem dá valor ao que o dinheiro representa. Vote em quem tem muito conhecimento em economia. Vote em quem dá mais valor ao trabalho do que a relacionamentos pessoais. Vote em quem é objetivo, e não demagogo.

Isso já é um bom começo. Agora se você continuar votando em quem diz que vai resolver os problemas da saúde, da educação, da desigualdade, da pobreza, da fome, dos transportes e da previdência privada, somente dizendo que vai “aumentar os investimentos” ou que vai “criar novas oportunidades”, sinto muito, amigão. Você continuará condenando o país dos seus filhos e netos a ser essa merda para sempre.

Futebol e política não se discutem?

Publicado: 28 de novembro de 2016 por Kzuza em Comportamento, Política
Tags:, , ,

O Palmeiras sagrou-se campeão brasileiro de futebol ontem, feito que não havia conquistado desde 1994! Festa dos alviverdes, disparado o melhor time da competição, título merecidamente conquistado dentro de campo, com louvor.

Mas como futebol é diversão e a zueira não tem limites, não faltaram piadas de ambos os lados, palmeirenses e rivais. Uns se vangloriando pelo título, outros querendo menosprezá-lo (embora valha aqui o velho ditado: quem desdenha, quer comprar).

Um dos assuntos das piadas, abordado por mim de forma irônica, foi a tal conquista do nono título brasileiro, comemorado pela torcida palmeirense. Isso porque o Palmeiras conquistou, com esse título de ontem, o quinto título do torneio batizado de Campeonato Brasileiro, torneio iniciado em 1971 com esse nome. Os outros quatro títulos foram conquistados antes de 1971, em torneios nacionais (Taça Brasil e Torneio Roberto Gomes Pedrosa), equivalentes à competição nacional dos dias atuais. A CBF passou a reconhecer esses torneios precursores do Campeonato Brasileiro de forma a unificar os títulos em 2010. Daí os 9 títulos palmeirenses.

A piada que fiz foi porque, no pôster da revista Placar do título nacional de 1994, o título da foto apresenta o Palmeiras como Tetra Campeão Brasileiro naquela oportunidade. Obviamente, porque somente em 2010 a CBF viria a reconhecer os demais títulos.

Enfim, como futebol para mim é apenas diversão e gozação, o intuito era apenas provocar. E graças a Deus, a maioria dos meus amigos considerou assim (tirando um ou outro babaca, que sempre tem).

Agora, gostaria de abordar o assunto por outro aspecto, não relacionado à futebol, mas sim à forma como encaramos determinadas coisas.

Para mim, é óbvio que essas discussões sobre futebol nunca se baseiam na razão, apenas na emoção dos torcedores envolvidos, principalmente quando os assuntos são polêmicos e rendem boas cervejas, gozações e manchetes esportivas. Seja o tal rebaixamento do São Paulo no Paulista de 1990, seja os dois mundiais com uma Libertadores do Corinthians, seja os 9 títulos brasileiros do Palmeiras. Então não vou levar em consideração isso, porque como já disse, futebol é diversão, é brincadeira, é entretenimento, é paixão. (Se você não concorda com essa última frase, então já pode terminar sua leitura aqui)

O problema maior é carregar, para as demais esferas da sua vida social, os mesmos conceitos que você usa nas suas conversas futebolísticas. Explico, usando como base esse exemplo do Palmeiras.

Até 1994, na conquista do então tetracampeonato pelo clube, os palmeirenses estavam lá, felizes da vida, comemorando (naquele momento) o fato de estarem se tornando o clube com maior títulos na competição. O Palmeiras já era, naquela época, campeão da Taça Brasil em 1960 e 1967, e do Robertão em 1967 e 1969. Esses eram os fatos, a verdade nua e crua, que não dependem de interpretação nem de nenhuma emoção para serem compreendidos. A história não muda. Continua assim até hoje.

Enfim, em 2010, a principal entidade do futebol brasileiro, a CBF – Confederação Brasileira de Futebol, resolveu chancelar os 4 primeiros títulos também como sendo de “campeão brasileiro”, unificando tudo e transformando o Palmeiras como o primeiro Octacampeão Brasileiro. Em uma canetada, em uma decisão de burocratas engravatados, era como se ali a realidade houvesse se alterado e, pimba!, o maior campeão surgisse! Justo a CBF, entidade mais amaldiçoada por torcedores de todos os clubes (inclusive, e talvez principalmente, os palmeirenses!), antro de corrupção, de dirigentes mal-intencionados e safados. Mas, se ela disse, agora era verdade!

Palmeirense de verdade quer mais é que a CBF se exploda. E sabe também que não é uma chancela desses burocratas que vai conferir valor ao que foram os títulos da Taça Brasil e do Robertão. O cara sabe que o time dele já era grande naquela época, que ganhava de quem quer que fosse, e sempre foi um dos maiores clubes do país.

O problema é que, no mundo real, nossa sociedade está repleta de cidadãos que usam esse mesmo conceito em todas as demais esferas. Isso explica em partes porque o brasileiro adora tanto o Estado, mesmo odiando políticos. Muita gente ainda acredita que uma mera canetada, uma decisão tomada por mentes iluminadas (escolhidas por essa mesma gente ou não, como no caso da CBF), é capaz de alterar a realidade dos fatos. Acreditam que uma decisão tomada a fim de justificar algo em nome do bem comum ou de um reconhecimento válido (nos valores de quem julgou) pode tornar algo lícito, aceitável e moralmente correto. Decretos, leis, códigos… tudo o que for formalmente apresentado passa a conceder um valor irrevogável a um simples fato, como se fosse possível moldar a realidade com base apenas em palavras e definições.

Em 1984, George Orwell já retratava isso muito bem com o seu Ministério da Verdade, a entidade responsável por determinar o que era a verdade, modificando-a sempre que desejável, sempre que lhe fosse interessante.

No futebol, isso é apenas diversão, entretenimento. Não faz muita diferença. Alimenta rivalidades, piadas, paixões clubistas. Mas quando isso passa para a esfera social e política, é um problema e tanto.

Pena que muita gente ainda enxergue as coisas apenas como uma disputa futebolística…